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Dans le document Bulletin économique (Page 33-38)

Conforme discutido, o currículo oculto integra as representações sociais dos agentes escolares, especialmente as dos/as professores/as, tendo em vista sua função eminentemente educativa. Isso significa que os/as educadores expressam seu juízo de valor à respeito das questões de gênero aos alunos por meio de suas representações sociais sobre o tema.

O conteúdo das representações sociais é definido por nossas disposições sociais, pois “Quando contemplamos esses indivíduos e objetos, nossa predisposição genética herdada, as imagens e hábitos que nós já aprendemos, as suas recordações que nós preservamos e nossas categorias culturais, tudo isso se junta para fazê-las [as representações sociais] tais como as vemos” (MOSCOVICI, 2015, p. 33).

Quando se trata das representações sociais de mundo das classes dirigentes, hegemônicas, Chauí as definiu como ideologias. 27 Em se tratando das representações sociais

27Concebemos então, ideologia consoante síntese da autora marxista Chauí (2008) citada no início deste capítulo.

Ranieri ( 2002-2003 ) esclarece que a dimensão da propagação do pensamento de autores marxistas ou não sobre as críticas de Marx à Filosofia e à religião transformou-as “numa suposta teoria marxiana da ideologia, apesar de o próprio Marx nunca haver elaborado sistematicamente uma teoria da ideologia, [...]” (p. 20) Sendo assim, não havendo uma definição marxiana do termo, o que temos são conceitos de ideologia de autores formulados a partir das críticas de Marx sobre as ideias da Filosofia, da Religião, da Economia, entre outras vertentes do conhecimento.

das classes trabalhadoras formam-se consciências que não correspondem ao real, conforme delineia Brzezinski et al.:

A realidade nem sempre é representada em nossas ideias tal qual é em si mesma. As nossas ideias são historicamente determinadas, construídas em cada sociedade e nascem de nossas experiências sociais diretas. Entretanto, a nossa experiência social direta no processo de produção aparece como uma explicação da aparência, como se fosse a própria essência as relações sociais. (BRZEZINSKI et al., 2006, p. 135) A argumentação da autora baseia-se nas elaborações de Marx sobre o processo de inversão da realidade, decorrente de condições de vida determinadas impostas aos indivíduos, as quais eles não escolhem:

[...] a classe torna-se, por sua vez, independente em relação aos indivíduos, de maneira que estes têm suas condições de vida estabelecidas antecipadamente, recebem de sua classe, já delineada, sua posição na vida e ao mesmo tempo seu desenvolvimento pessoal; são subordinados a sua classe. É o mesmo fenômeno da subordinação dos indivíduos isolados à divisão do trabalho. (MARX; ENGELS, 2001, p. 61-62) A posição de classe, então, têm implicações no desenvolvimento pessoal, entre elas, a produção dessas representações sociais distintas em relação ao objeto referenciado: “[...] se, em suas representações sociais, eles põem a realidade de cabeça para baixo, esse fenômeno é ainda uma consequência de seu modo de atividade material limitado e das relações sociais insignificantes que dele resultam” (MARX; ENGELS, 2001, p. 109).

À semelhança do que ocorre com divisão de classes, a divisão do trabalho limita a vida material. Logo, também limita as representações sociais que os trabalhadores produzem. Nesse sentido, Brzezinski et al (2006) explica que o sujeito não se vê como é e sim como ele produz, acrescenta que ele passa a naturalizar a função que exerce como “vocação, talento, estudo, aptidões etc” (p. 135).

Em geral, existem representações sociais ancoradas no inatismo associadas às ideias de dom ou facilidade para algo, que se constituem ideologias de gênero que circulam no meio social. Por exemplo, entendemos a crença sobre as mulheres conseguirem fazer várias coisas ao mesmo tempo e os homens uma de cada vez é uma ideologia que serve à legitimação da sobrecarga de funções que nossa sociedade patriarcal dirige a elas. Quando esse mito se confirma, isso ocorre porque pessoas acreditaram nele incentivando as meninas desde cedo a assumirem várias tarefas enquanto poupavam os meninos. Dessa forma, os fatos demonstram que a desigualdade de aptidões e inabilidades verificadas entre homens e mulheres são produzidas pela aceitação das ideologias de gênero que conduzem a família e a escola a

oferecerem experiências distintas entre crianças/adolescentes segundo o gênero de cada uma. Isto significa a divisão sexual da educação, que orienta um desenvolvimento distinto de homens e mulheres.

Neste ponto, insere-se o objeto da presente pesquisa, as representações sociais de professores/as sobre gênero. Em levantamento bibliográfico de trabalhos sobre o tema, que apresentaremos mais adiante, verificamos a constatação por várias pesquisas de que as representações sociais dos/as professores/as sobre a mulher geralmente associam-se à maternidade, aos cuidados, à formação de uma família tradicional pelo casamento. Concluem que os papéis, em geral, atribuídos às mulheres estão ligados à valores da cultura patriarcal, na qual o lugar da mulher são os ambientes privados: a casa, os filhos e o marido e o do homem o ambiente público: o trabalho, à política e os lugares de lazer.

Dentro do escopo de nossa pesquisa, a educação escolar, um dos aspectos mais importantes das representações sociais, é a sua propriedade convencionalizadora. Isso quer dizer que as representações sociais, uma vez assimiladas, determinam nossas estruturas de pensamento, de maneira que todas as representações sociais que geramos passam por uma espécie de forma. Tais estruturas são formadas ao longo de nossa vida, pela interiorização de representações sociais antigas, carregadas de preconceitos, de conceitos pré-concebidos por gerações anteriores a nossa, em contexto histórico-social diverso do atual. São padrões de pensamentos tão espontâneos que nos parecem inatos. Por essa razão, Moscovici (2015) afirma: “Nós vemos apenas o que as convenções subjacentes nos permitem ver e nós permanecemos inconscientes dessas convenções” (p. 35). Ou seja, as representações sociais que geramos são sempre distorcidas por nossa maneira de ver o mundo.

Por outro lado, afirma que é possível nos tornarmos conscientes do que chamamos de formas, por meio do reconhecimento de que nossas representações sociais são para nós um tipo de realidade que não representa o real. E é possível nos livramos delas, se procurarmos “[...] isolar quais representações sociais são inerentes nas pessoas e [nos] objetos que nós encontramos e descobrir o que representam exatamente” (MOSCOVICI, 2015, p. 36, grifo nosso).

Nesse sentido, ocorre uma ampla aceitação entre as mulheres do culto à beleza, o qual incita-as a gastarem sua energia vital: fazendo dietas, vigiando o peso e escondendo a idade atrás de maquiagem. Muitas dirão que fazem tudo isso com prazer porque faz bem sentir-se bonitas. No entanto, se lhes perguntarmos por que não acham sua aparência natural melhor do que aquela que fabricada sobre ela, provavelmente não obteremos uma resposta racional. Isso

porque sua representação social de beleza foi construída a partir da interação com estruturas de representações sociais dominantes na sociedade regida pelos interesses do lucro. Nesta teia, destacam-se as representações sociais ideológicas que convencionalizaram o modo de pensar e as práticas, ou melhor, que constituem a cultura de um povo. São arraigadas pela tradição, ensinadas de geração em geração organizam a base do pensamento dos indivíduos, de maneira que a formação de novas representações sociais é influenciada por elas. Assim, o sujeito só é capaz de produzir representações sociais coerentes com as já existentes, caso não coloque em xeque sua validade: “Quanto menos nós pensamos nelas [nas representações sociais], quanto menos conscientes somos delas, maior se torna sua influência” (MOSCOVICI, 2015, p. 43).

Concluindo o exemplo das representações sociais sobre o padrão de beleza da mulher, seu não questionamento pelo segmento social atingido, as mulheres, expõe sua condição de sujeitos passivos. A ignorância em relação às origens da obsessão pela imagem torna as mulheres instrumentos de reprodução deste tipo de ideologia, que as induz ao consumo de cosméticos, roupas da moda e “de marca”, serviços de salões de beleza e clínicas de estética.

É, pois, sobre essa estreita relação entre representações sociais e ideológicas sobre a mulher e o capitalismo que Safiotti (2013) se refere ao assegurar que o capital se serve da “mística feminina” para se reproduzir, representado nesse caso pelos empresários ligados à produção, à venda e aos serviços para o citado segmento social.

Em suma, compreender os processos pelos quais uma representação ideológica se perpetua, é condição para formular meios de desmitificá-las para o coletivo e para si mesmo, o que requer indivíduos com disposição para pensar criticamente, inclusive sobre suas próprias convicções. A disposição para pensar não é algo inato, aprende-se na família, na comunidade, na escola, por intermédio dos meios de comunicação, entre outras instâncias. No entanto, é especificidade da educação formal ensinar a refletir.

Quando se fala em representações sociais sobre a mulher, é tarefa, por exemplo, desvelar a garotos e garotas que as convenções sobre as mulheres terem mais habilidades manuais que os homens encobrem a divisão do trabalho (social e sexual), a qual sustenta o modo de produção vigente. Demonstrar a eles/as como a divisão do trabalho, conforme elaborada por Saffioti (1987; 2013), sustenta as crenças que atribuem qualidades e limitações aos negros, às mulheres e à classe trabalhadora, visando forjar supostas vocações, habilidades para as atividades mais depreciadas com o intuito de assegurar os melhores lugares sociais aos homens brancos abastados.

construções histórico-sociais, com o objetivo de colocar a mulher numa posição de inferioridade, deve ser um dos objetivos da formação do ser humano.

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