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et prix comparatifs à la production

Lefebvre reflete também sobre os conceitos de cidade e urbano, enfatizando que o espaço e o tempo possuem relações que representam simultaneidade, sendo o urbano sincronicidade, agregação, portanto, uma forma social que se estabelece; a cidade, um objeto espacial que integra um lugar à um quadro social – o urbano. Com essa perspectiva teórico-metodológica, Carlos (2008, p. 84) assevera que

a cidade tem sido analisada como concentração de população, instrumentos de produção, necessidades, atividades, serviços, infraestrutura, reserva de mão de obra e (sobretudo) mercadorias. Nesse sentido, ao mesmo tempo que representa uma determinada forma do processo de produção e reprodução de um sistema específico, a cidade é também uma forma de apropriação do espaço urbano produzido. Como materialização do trabalho social, instrumento na criação de mais valia, é condição e meio para que se instituam relações sociais diversas.

A cidade difunde novas formas de organização e distinções, expressas pelo movimento de sua paisagem. Produzida por relações societárias de consumo, mercado e indústria, a cidade impulsiona continuamente interações espaciais, integrando, detidamente, o urbano e o regional. Assim, o ritmo de vida urbano influencia a dinâmica

regional, assim como esta é condição importante para que a cidade seja (re)produzida de modo a adensar a sua função de espaço de inovações, velocidades, difusões.

Tendo em vista o fato de a dinâmica urbana e a regional serem integradas por ritmos e ordenações e também por atividades produtivas, comerciais e de serviços, destacamos que a apreensão da produção urbanorregional do espaço requer uma análise morfológica da paisagem urbana, visando a compreensão pormenorizada de processos de estruturação da cidade, como a pluralidade e/ou a especificidade de formas e funções geográficas historicamente implementadas na estrutura urbana.

A paisagem urbana é entendida como estrutura da cidade que conecta sociedade e natureza, resultando das mudanças históricas que os homens provocam no meio, por intermédio do uso do solo e da oferta de bens e serviços. Em vista disso, os aspectos da paisagem são formados com o desenvolvimento histórico das cidades, segundo destaca Carlos (2009, p. 35):

A paisagem urbana aparece como um instantâneo, registro de um momento determinado, datado no calendário. Enquanto manifestação formal tende a revelar uma dimensão necessária da produção espacial: aquela do aparente, do imediatamente perceptível, representação, dimensão do real que cabe intuir.

O processo de urbanização gera uma paisagem caracterizada por formas que viabilizam funções de diversificação produtiva, comercial e de serviços, intensificando, assim, o papel histórico da cidade de centro urbano e regional no que se refere à concentração e centralização de atividades econômicas e culturais. De acordo com Cullen (1983), paisagem urbana é a arte de tornar compreensível e organizado, visualmente, o emaranhado de edifícios, ruas e espaços que consiste no ambiente urbano.

A forma-conteúdo da paisagem urbana concatena o espaço e o tempo, assim como relaciona as atividades humanas com o modo de produção vigente, fazendo da paisagem um espaço produzido que testemunha as ações humanas do passado e condiciona as ações do presente. As palavras de Soja (1993, p. 192) são condizentes com esse pensamento: “[...] a paisagem descrita deve ser vista como uma paisagem persistentemente capitalista, com sua Geografia histórica singular, sua própria estruturação espaço-temporal particularizada”. Outrossim, a análise acerca da paisagem

não deve ser limitada à sua forma, pois, para além do visível há elementos do conteúdo da paisagem que devem ser compreendidos, visando-se uma análise que dê conta da totalidade da forma-conteúdo da paisagem urbana. É isso que nos esclarece Carlos (2008, p. 43) ao dizer que

como forma de manifestação do urbano, a paisagem (urbana) tende a revelar uma dimensão necessária da produção espacial, o que implica ir além da aparência; nesse contexto, a análise já introduziria os elementos da discussão do urbano considerado como processo.

A forma-conteúdo da paisagem urbana coloca em baila ações humanas e relações sociais históricas, que manifestam conhecimentos, significações, valores e contradições condizentes à dinâmica de acumulação capitalista. Assim, Carlos (2008, p. 44) assevera ser tarefa importante a de desvendar a essência da paisagem, isto é, o modo pelo qual está sendo produzida, esclarecendo-se intencionalidades e necessidades de agentes e/ou segmentos sociais:

A análise da paisagem urbana faz-nos atentar para o fato de que não estamos descrevendo ou montando um quadro, e sim elaborando uma construção cujo objetivo é entender o modo pelo qual ela se produz, sua substância e conteúdo a partir de relações reais.

Para apreender a essência da paisagem urbana é imprescindível que se considere a sua história, ou seja, o processo de sua formação e modificação, tendo-se em vista o fato de que “a paisagem de hoje guarda momentos diversos do processo de produção espacial, os quais fornecem elementos para uma discussão de sua evolução da produção espacial, e do modo pelo qual foi produzida” (CARLOS, 2009, p. 36). Todavia, além de passado, a paisagem é também presente, pois, a produção pretérita é ativa na (re)produção da atualidade, posto que coadunamos com Carlos (2008, p. 46) quando destaca o fato de que “a paisagem não é só produto da história; ela reproduz a história, a concepção que o homem tem e teve de morar, do habitar, do trabalhar, do comer e do beber, enfim do viver”.

Ao evidenciar o passado e o presente, a paisagem urbana também indica aspectos do futuro, no que tange a relação entre sociedade e natureza, às instâncias da

produção e do consumo, às desigualdades socioeconômicas e políticas e à valorização do espaço. Com esse sentido, Carlos (2008, p. 52) afirma que

a paisagem geográfica revela assim os antagonismos e as contradições inerentes ao processo de produção do espaço num determinado momento histórico. E a inter-relação entre os fatores físicos e os sociais será a expressão material da unidade contraditória de relações entre a sociedade e a natureza, seja esta natural ou já transformada.

O fato de a paisagem ser testemunho e condição da produção do espaço pelos homens torna pertinente o entendimento desta enquanto conceito e dimensão analítica do espaço, que é importante para a compreensão da escala urbana concatenada à regional, considerando-se como fundamentos a (re)produção do capitalismo e a hierarquia e os fluxos espaciais, dados relevantes para a dinâmica urbanorregional no que concerne aos movimentos econômico e político.

Para se alcançar essa compreensão, caminho interessante é o da morfologia urbana, por relacionar a forma e o conteúdo do espaço, dando conta, portanto, da totalidade da sua transformação social. Capel (2002, p. 20) define a morfologia urbana como:

Un campo que supone, por un lado conocer la configuración física del espacio, con sus construcciones y vacíos, con sus infraestructuras y usos del suelo, con sus elementos identificadores y su carga simbólica. Se trata de elementos que están profundamente imbricados e interrelacionados, aunque con diferentes grados de estabilidad. Y conduce a una reflexión sobre las fuerzas sociales económicas, culturales y políticas que influyen en su configuración y transformación.

A morfologia urbana é o estudo da forma espacial para se compreender a dinâmica das transformações espaciais que ocorreram ou que estão em movimento no espaço urbano, não se limitando, portanto, à forma em si mesma, mas dando conta também da estrutura urbana, a partir da análise da paisagem enquanto dimensão espaço- temporal.

Por meio da observação e análise da forma urbana pode-se compreender a acumulação ou a dinâmica de usos, representações e símbolos marcados na paisagem da cidade, evidenciando-se um processo histórico cumulativo, mas também ativo em

formas e em funções, conferindo aspectos tradicionais e modernos à estrutura do espaço, revelados em sua paisagem (WHITACKER, 2007).

A paisagem urbana, especificamente, expressa racionalidades, contrarracionalidades e emoções, trazendo à tona representações sociais que consistem em diferentes manifestações da ação humana, seja por meio da infraestrutura implantada ou das atividades produtivas, comerciais e/ou de serviços implementadas. Considerando isso, Whitacker (2007, p. 145) fala de uma “estética moral da paisagem”, referindo-se ao processo histórico de produção de formas-conteúdos do espaço urbano, bem como a decodificação dessa estrutura enquanto condição humana:

O espaço urbano é resultante de uma articulação dialética de formas e funções, portanto é dotado de historicidade. Consequentemente, não se constitui apenas como produto das relações sociais, mas também como condicionador dessas relações, enquanto produz sua própria negação, através da dispersão.

A dispersão que marca o espaço urbano remete às relações entre cidade e região, por meio de fluxos de pessoas, mercadorias, capitais e ordens, configurando, desse modo, hierarquias urbanorregionais caracterizadas por complementaridades entre cidades, sendo que para algumas a complementaridade significa mais subordinação do que troca, devido ao fato de os seus mercados serem pouco complexos – em termos de funcionalidade. Assim, as cidades cujos mercados são qualificados por produções, comercializações e/ou serviços diversificados e especializados, funcionam como centros de difusão de modernidades, atraindo, por isso, fluxos sociais e econômicos e, desse modo, se apresentam enquanto centros urbanos e regionais, tendo-se em vista as suas características de concentração e, por vezes, de centralização de fixos e de fluxos.

Destarte, por meio do processo de urbanização, morfologias urbanas são produzidas em decorrência de dinâmicas socioespaciais, com o fortalecimento de atividades econômicas sendo impresso na paisagem da cidade. As palavras de Anjos (2009, p.170) remetem a isso:

Os processos socioespaciais, como a dispersão, a difusão, a centralização e a concentração, materializam-se em morfologias urbanas que, para identifica-las, é preciso reconhecer, particularmente, seus conteúdos. [...] Ao mesmo tempo vêm sendo percebidas no tecido

urbano das áreas consolidadas mudanças substanciais de conteúdo/forma.

A configuração na morfologia urbana do fortalecimento de atividades econômicas conecta-se a relações de complementaridade e de competição entre espaços, isto é, à rede de relações entre cidades, com o destaque de determinadas concentrações de fluxos e de serviços, favorecendo-se, assim, alguns espaços e condicionando estratégias da localização de atividades econômicas. Para Corrêa (2011, p. 45), “o espaço produzido refletirá essas estratégias e práticas espaciais”, fato que leva Carlos (2008, p. 45) a sublinhar que “[...] é no nível das formas que se dá a mistificação, a coisificação, na medida em que as relações sociais tendem a aparecer como relações entre coisas”.

Conforme Sposito (2005a, p. 66), a forma da paisagem é superior ao seu aspecto visual, envolvendo relações entre agentes sociais e transformações do espaço desenvolvidas por estes. Assim, a citada autora frisa que a morfologia urbana deve ser analisada considerando-se a sua gênese e o seu desenvolvimento, ou seja, a forma- conteúdo da cidade:

[...] o conceito de morfologia urbana não se referiria a uma dada forma urbana (extensão e volume), tal como ela se apresenta configurada espacialmente, mas ao processo de sua gênese e desenvolvimento, segundo os quais podemos explicar essa morfologia e não apenas descrevê-la ou representá-la gráfica ou cartograficamente.

A morfologia urbana diz respeito a questão das escalas – intra e interurbana, possibilitando a compreensão das transformações desencadeadas nas cidades e nas relações entre estas. Nesse sentido, a forma é apreendida como a consolidação de funções (re)produzidas historicamente, sendo fundamental a análise espaço-temporal para a pesquisa sobre a morfologia urbana e as suas especificidades ou dinâmicas regionais.

Sendo assim, o estudo da morfologia urbana proporciona a compreensão da situação do espaço urbano sublinhando-se as suas funções na rede de interações entre cidades. Em outras palavras, possibilita o entendimento das estruturas absoluta e relacional da cidade: da dinâmica urbanorregional.

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