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Privacy Service Behavior

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Um dos fundamentos da metodologia da autorreflexão, sempre reforçado antes de iniciar as rodas é o respeito ao momento de fala de cada uma. Desta maneira, na dinâmica da autorreflexão devemos escutar atentamente a fala das companheiras sem interromper, aconselhar ou proferir julgamentos. Ventania fez uma fala sobre o assunto:

Um dos principais aprendizados foi ouvir. É, que às vezes até rolava uma interferência "vamo deixar a companheira falar, né", que a gente tem essa mania de atropelar as outras e esse exercício de você, né, ficar quietinha e prestar atenção de fato. Não é só escutar, é fazer uma escuta ativa mesmo, uma escuta atenciosa, né, do que a outra tá falando. É muito importante porque perpassa um sentimento de solidariedade com aquilo que a outra fala, com um sentimento de empatia, de respeito, de certa forma, de admiração, né.

Ventania diz que temos costume de “atropelar as outras” nas falas e que o exercício de “fazer uma escuta ativa” desperta solidariedade, empatia, respeito e admiração pela outra. Iracema fala que o aprender a ouvir muda a nossa relação com todas as mulheres e traz a importância de outro fundamento da autorreflexão, o pacto de sigilo:

É um espaço que a gente aprende a ouvir também, né. E a valorizar muito o que a outra pessoa tá falando assim. Isso é muito massa assim, também. E eu acho que muda a nossa relação com todas as mulheres, assim, independente de tarem no grupo ou não. Acho que a gente começa a se relacionar de forma diferente com as dores umas das outras [...] Tinha essa coisa do pacto, não era nem só um sigilo assim, na real, mas era um pacto de, que era um pouco de sigilo, né, assim. Era de sigilo, que eu acho que não sei, mudava a minha relação com aquele espaço também, com o que eu tava ouvindo. Tipo, não sei, dava uma profundidade maior, não sei, àquilo. Eu não consigo explicar muito isso que eu tô pensando, mas é mais ou menos por aí. E, porque eu acho que é isso, assim, aquela ideia de que aquilo que a gente tá ouvindo fica ali, é dali, você... Não sei, tá naquele espaço com outra seriedade. E atenção também. É, de respeito pelas histórias umas das outras. Nos grupos de reflexão, estabelecemos também um pacto de sigilo, ou seja: o que é dito “fica ali, é dali”. Trata-se do que os movimentos denominam de construção de espaços seguros, em que nós mulheres/afeminadas possamos “desabafar”, compartilhar experiências íntimas e delicadas, com a confiança de que depois dali teremos nossas histórias preservadas e respeitadas. Iracema diz que a relação que tinha com o espaço de autorreflexão era de profundidade, seriedade, atenção, respeito e valorização das falas das companheiras. Essa

escuta ativa, atenciosa nos faz entrar numa espécie de viagem pelas histórias das outras, como afirma Perigosa, do grupo 3:

Pela própria história do feminismo mesmo, eu sempre gostei muito de grupos de autorreflexão, porque eu sempre achei que vendo na outra, essa experiência de tá com a outra, outras mulheres, a gente vai numa viagem da realidade, as proximidades, diferenças que a gente mergulha, né, na nossa própria experiência mesmo. E enfim, vai se desdobrando as experiências.

Tanto Perigosa quanto Perigótica, também do grupo 3, haviam participado de outras experiências de autorreflexão feminista. Perigosa, porém, traz contrapontos em relação à questão da escuta no processo formativo do FA!. A companheira diz que vivenciou situações de desrespeito às falas nesse espaço:

Se uma pessoa tá discordando, se alguém tá gritando, ou grita sempre, ou toma a fala da outra, então a outra teve uma ideia e você vai e diz outra igualzinha e a sua é que ficou. Pra mim cortou, eu nem quero falar, eu nem quero me esforçar, porque pra mim não dá, entendeu? Coisas do tipo. Mas são coisas também que acontecem em todos os grupos, só que são coisas que acontecem porque, aí entra vários fatores, porque são coisas que precisam ser ditas, são coisas que precisam ser problematizadas, são coisas que não têm que permanecer.

As situações de desrespeito foram caracterizadas como discordar e gritar no momento em que a outra fala, tomar e se apropriar da fala da outra. Perigosa diz que esse tipo de situação faz com que ela não queira falar, porque para ela “não dá”, e acredita que essas “coisas precisam ser problematizadas”, não podendo continuar a acontecer. Na entrevista com Carmen, já no final, improvisei uma pergunta sobre a diferença entre a prática da metodologia de autorreflexão com a participação ou não de uma educadora/facilitadora. Ela então falou sobre a necessidade de maturidade do grupo para realizá-lo, chamando atenção para os “elementos ético-político-pedagógicos” da metodologia:

O grupo pra fazer isso sozinho, ele precisa estar muito concernido a alguns elementos da metodologia que são elementos assim, vamos dizer, ético-político- pedagógicos. Que o lugar da educadora confere firmeza pra esses elementos, não existindo esse lugar, é preciso que o grupo todo tenha maturidade nesse sentido. Por exemplo, uma coisa simplérrima de "o que foi dito aqui não é dito lá fora", se o grupo não tiver maturidade, ele se quebra na emenda na primeira coisa mais grave que, de julgamentos, ou de ser usado politicamente.

De fato, este foi um desafio que enfrentamos no processo de autonomização do grupo, uma vez que não tínhamos mais a figura de poder e de experiência da educadora para mediar nossos conflitos. Entretanto, outra face da mesma moeda, a fala foi o exercício de aprender a se colocar, como afirma Clara Zektin:

Acho que deu essa ideia de mais protagonista da minha vida, e contribuir mais com o grupo, digamos, com o grupo politicamente falando. [...] Quando a gente vai prum protesto, é só os homens que falam. Aí uma vez eu tava num ato, e eu sou tímida pra falar, e tinha uma mulher que falava em outros espaços, ela não falou nada lá. Eu disse "fulana, vai lá, fazer o reforço", e ela é de outra força política. "Não, mas ele já disse quase tudo". "Mas ele não disse tudo, vá lá colaborar, que somos mulheres aqui a maioria e sempre a gente tá sendo liderada. Vá lá pra pelo menos fazer o convite. Pega aquele microfone e fale". E ela foi, tipo, ela agradeceu. Clara diz que a experiência da autorreflexão lhe deu a “ideia de mais protagonista” de sua vida e dos grupos políticos. A companheira narra uma experiência que viveu num ato, em que encorajou outra mulher a falar, pois em geral nos protestos “só os homens que falam”. Apesar de não ter sido ela quem falou (afirma que é “tímida para falar”), a atitude de Clara demonstra o reconhecimento da importância de haver falas das mulheres/afeminadas nos espaços políticos e em todos os espaços.

Os depoimentos das interlocutoras ressaltam que a metodologia de autorreflexão se baseia no par fala/escuta de experiências das participantes, baseado em alguns acordos ou pactos, como o de respeito e sigilo. A prática, no entanto, consiste num exercício complexo que envolve várias questões, como a dificuldade para falar que muitas mulheres/afeminadas têm por conta de uma socialização machista, a cultura política de competição pela fala, entre outras relações de poder. As pedagogias feministas procuram estimular a fala, a quebra do silêncio e a autoestima das educandas, atentando para as relações de poder existentes para poder intervir sobre as mesmas (LOURO, 1997; SILVA, 2010). Sobre a quebra do silêncio, Audre Lorde (1977) traz a necessidade de visibilidade, sem a qual “não podemos viver verdadeiramente”, a necessidade de transformação do silêncio em linguagem e ação.

Para Carol Hanish (1969), devemos escutar o que as mulheres consideradas “apolíticas” têm a dizer:

não para que possamos fazer um trabalho melhor organizando-as, mas porque juntas somos um movimento de massa. Eu acho que nós que trabalhamos tempo integral no movimento temos a tendência de nos tornarmos muito limitadas. O que está acontecendo agora é que quando mulheres de fora do movimento discordam de nós, nós presumimos que é porque elas são apolíticas, não porque pode ter algo de errado com o nosso pensamento (HANISH, 1969, p. 3).

A autora nos traz a necessidade de estarmos sempre abertas, através de uma escuta respeitosa, às falas de todas as mulheres, até para podermos rever as convicções do movimento. Afinal, as pedagogias feministas também pretendem provocar feminismo, questionando suas teorias e práticas (KOROL, 2007).

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