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Constructing Private Messages

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4. User Agent Behavior

4.1 Constructing Private Messages

A questão da compreensão política das vivências cotidianas é central na metodologia da autorreflexão. Neste tópico, trago algumas falas das interlocutoras Carminha, Elisabeth, Carmen e Iracema que abordam o tema diretamente, porém ele está subjacente a vários outros depoimentos. Carminha diz que a experiência de autorreflexão fez com que ela interligasse o que estava acontecendo em sua vida com “algo muito maior”:

Você se sente, tipo, isso que tá acontecendo com você, meio que interligar a algo muito maior que isso, tá ligado? Contextualizar mesmo, trazer pra um cenário, botar um pano de fundo assim. [...] E muitas coisas também que eu não percebia, tinha coisas que, não sei, eu na minha bolha magnífica, e aí chegava e ia ver "não, mas isso aí é coisa que eu não sei, não tá passando na minha vida porque minha vida é assim, assim, assim". E aí você para pra olhar também, analisar suas relações, sabe. Tipo, peraí velho, muita coisa realmente tá acontecendo desse jeito e eu não tô conseguindo enxergar.

A companheira utiliza expressões como contextualizar, trazer pra um cenário, botar um pano de fundo para representar tal exercício e aprendizado. Carminha fala que o processo formativo foi importante para reconhecer que se encontra em alguns lugares de privilégio, ou uma “bolha magnífica”, que dificulta a percepção de certas coisas que acontecem na vida de pessoas menos privilegiadas. De alguma maneira, essa experiência possibilitou um despertar para o fato de que tem “muita coisa acontecendo” que ela não estaria “conseguindo enxergar”, o que é já uma forma de poder enxergar. Outro aspecto importante trazido na fala de Carminha é o parar para olhar e “analisar suas relações”. Por sua vez, Elisabeth fala sobre o aprendizado de reconhecer várias questões:

A gente discutia tipo classe, a gente discutia raça, a gente discutia qualquer... Sexualidade, qualquer coisa assim. Então não foi só um meio que ele mudou, sabe, foi, é como se fosse, foi enraizando, sabe, uma coisa puxava a outra, a outra puxava a outra. E eu aprendi a reconhecer muitas outras coisas, é um processo longo, né, porque até hoje, tipo, a gente aprende cada coisa num dia.

Elisabeth fala sobre o aprendizado acerca dos temas de raça, classe e sexualidade, centrais nas nossas discussões na formação. Ela diz que esses aprendizados foram “se enraizando”, uma coisa foi puxando a outra, e que esse “é um processo longo”, contínuo, diário.

Quando eu coloquei o questionamento sobre os aprendizados e transformações na vida das ex-participantes do FA! para Carmen, ela me disse de forma bem-humorada que as companheiras iriam me responder melhor sobre o assunto. Porém, eu desejava saber do seu olhar enquanto educadora. Algumas coisas que ela me disse estão no seguinte trecho:

Vejo também assim, na vida de cada uma, pelo que elas conversam comigo, né, questionamentos, reflexões, mudanças de atitude, coisas que dizem respeito a você ser feminista e se enfrentar com isso na cotidianidade dos desafios da vida, né, tanto profissionais quanto pessoais, ou amorosos, sexuais.

A educadora demonstra ter uma relação de proximidade com as ex-integrantes do FA!, tendo conversas pessoais sobre a vida: “questionamentos, reflexões, mudanças de atitude”. Carmen diz que essas questões têm a ver com “ser feminista e se enfrentar com isso na cotidianidade”, nos desafios profissionais, pessoais, amorosos, sexuais, entre outros. A companheira Iracema trouxe o aprendizado sobre “politizar dores” que têm a ver com as opressões de gênero:

É uma coisa de assumir, tipo, dores, e tipo, e entendê-las, pra mim né, pelo menos, entendê-las a partir de uma perspectiva estrutural. De: eu tenho essa dor, você também tem, eita, todo mundo tá com essa dor. O que é que é isso? O que é que tá acontecendo? Pra mim era um pouco um laboratório de investigação mesmo, assim, sabe? Do que era a situação das mulheres, assim, no mundo, sabe? E isso foi muito importante, eu acho também, pra não falar, mudar assim uma coisa de "as mulheres" para "nós mulheres", sabe? É, e de entender como, assumir mesmo, assim, algumas coisas que a gente, algumas feridas que a gente tem. E perceber, e não que tudo seja estrutura, é claro que a gente também tem questões muito subjetivas e muito individuais, mas perceber como eu tinha muitas feridas que tavam associadas ao fato de ser mulher. E eu sou uma mulher muito privilegiada, eu sou uma mulher branca, fui pra universidade, de classe média. Então assim, as minhas dores eu acho que, sei lá, eu nunca sofri violência doméstica, sei lá, eu nunca, tem uma série de outros problemas que outras mulheres passam, e que não afetaram a minha vida, pelo menos de forma direta. E tipo, fui criada por uma família muito progressista, assim, então não tive muito essa coisa assim de controle sexual e tal. Então eu acho que talvez eu tivesse dificuldade, eu não compreendesse assim como, quais eram as minhas dores que eram de ser mulher, assim, sabe. Isso me fortaleceu muito, isso me fortaleceu muito. [...] Eu comecei a politizar essa dor, sabe, e a perceber como ela na verdade, era algo que eu não queria lutar individualmente pra superar essas dores, sabe, que essa é uma luta coletiva.

Iracema fala de um processo simultâneo de autoconhecimento de suas dores e de conhecimento da situação das mulheres em geral, pois tais dores estão relacionadas “ao fato de ser mulher”. A transformação de uma identidade genérica “as mulheres”, para uma em que estamos incluídas “nós mulheres” se dá devido à transformação do sentido de algo externo para algo do qual se compartilha, o que destaca uma postura política de nos colocarmos enquanto sujeitas. Iracema diz que, por conta de seus privilégios (branca, classe média, universitária, família progressista), tinha dificuldades de compreender essas dores, já que não passava por várias opressões que muitas mulheres passam. Porém, o entendimento de que suas dores têm a ver com questões estruturais faz com que ela queira lutar coletivamente para superá-las. Iracema aprofunda o tema e fala que todo esse processo também tem lhe levado a aprender a se cuidar:

Eu acho que eu aprendi a me cuidar também, sabe. Que tipo, eu não sei, assim, e pra mim é por isso que é uma metodologia que faz muito sentido, sabe. Porque a gente olha pras coisas que a gente viveu e, a partir de um viés político, e aí quando a gente compreende determinadas coisas a partir de uma perspectiva política, a gente aprende a não cair no mesmo buraco, sabe. Então, tipo, eu acho que foi um processo que me deu muito mais autonomia emocional mesmo, sabe, que na verdade é uma luta contínua. [...] Quando eu fico pensando, nisso mesmo, no impacto, sabe, na forma como todo esse processo, não só do FA!, mas de estar no movimento feminista, mudou muito assim, me mudou muito. Me transformou completamente, assim. E eu me vejo, assim, recaindo, claro, em várias armadilhas, só que eu sei que elas são armadilhas, assim. Então é tipo, porra, eu tô caindo aqui de novo, véi! Tô caindo, mas eu sei o que é isso, e eu, tipo, não vou... Vou sentir a dor, vou sofrer e tal, mas também não vou ficar demais nesse lugar.

Todos esses depoimentos trazem muito fortemente a ideia de que o pessoal é político (HANISH, 1969), central para os movimentos feministas a partir da década de 60. Essa ideia que quebra com a dicotomia entre o público e o privado traz a noção de uma cotidianidade histórica (ÁVILA, 2001). As ideias trazidas da autorreflexão como “laboratório” e como momento de pausa para analisar relações, práticas etc., se relaciona com a concepção de educação como par experiência/sentido, na qual é necessário parar, se deixar envolver e prestar atenção aos detalhes (LARROSA, 2002).

As falas apontam tanto para a constatação do compartilhamento de dores em comum, como para o reconhecimento de privilégios e desigualdades. As interlocutoras falam do aprendizado de nos percebermos dentro de contextos maiores, de que nossos desafios, nossas dores, nossos cotidianos têm a ver com estruturas que muitas vezes não nos damos conta, pensando ser algo somente individual. Nesse sentido, são trazidos nas falas os aspectos de classe, raça, sexualidade como temas fundamentais para nos compreendermos na sociedade.

Compreensão de que nossas vidas interiores e exteriores são permeadas por interdições estruturais, pois as pedagogias feministas enfocam a relação entre as dimensões micro e macrossociais (SILVA, 2010; GOUVEIA, PORTELLA, 1999).

Outro aspecto importante que surgiu nas falas é a dimensão de cura da autorreflexão. bell hooks (2017) fala dos grupos de reflexão como espaços onde as mulheres “soltavam” hostilidades e raivas reprimidas, revelavam “suas feridas mais íntimas” e, desta forma, teriam encontrado forças para desfiar o patriarcado (HOOKS, 2017, p. 30). Assim sendo, a autora encara esses momentos como rituais de cura.

Tal dimensão terapêutica da autorreflexão, no entanto, é alvo de críticas que consideram a metodologia como “terapias pessoais”, como trouxe a companheira Clara Zektin trouxe numa fala sua:

Tinha diversas mulheres de grupos políticos diferentes e eu procurei, né, saber o que eu era autorreflexão, que eu não sabia. E eu vi que algumas mulheres que já tinham vivência política não se sentia com tanta autonomia, que eu acho que até hoje perdura essa ideia de que autorreflexão é vitimismo, é ficar no blá blá blá, você fica muito introspectiva. [...] Então assim, é como se eu conhecesse muita gente que não gosta da autorreflexão, e eu começasse a abraçar essa ideia, e que eu acredito, que eu acho que nós mulheres somos muito colocadas pra pensar nas dores dos outros e esquecer a nossa. E de repente nós temos um pane, aí parece que é porque a gente é fraca, não suportou, porque fulana suportou, as dores são maiores. [...] Aí quando fala "ah não, eu participo no grupo que a gente fala não sei o que lá de autorreflexão"... "ai, não, mulher! toma cuidado, visse! que esse negócio fica muito interno, a pessoa fica sem saber, não sei o quê". Eu disse "ixe, pra mim não é isso não". Que coloca a autorreflexão como se fosse psicologizante.

Para hooks (2013), o movimento feminista é capaz de criar palavras, teorias e estratégias de cura para nossas dores. Carol Hanish (1969) também fala sobre o tema, trazendo respostas às críticas que eram feitas, e ainda são, de que os grupos de reflexão seriam “terapias”. A autora diz que nesses espaços é possível compreender que “precisamos mudar as condições objetivas, e não nos ajustar a elas” (HANISH, 1969, p. 1). Os grupos poderiam ser então uma “terapia política”, já que as questões pessoais neles compartilhadas têm a ver com questões políticas.

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