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Part II Stepping Up Climate Ambition and Action

Chapter 4 Strategic Direction I: Food Security and a

5.6 Priority Action Areas

A Sociedade de Cultura Musical foi a mais prestigiosa e duradoura sociedade musical do Recife. Fundada em 1925 e fechada somente após a morte de seu diretor, Valdemar de Oliveira5, foi a Sociedade responsável por contratar artistas de vulto como: Arthur Rubinstein, Claudio Arrau, Andrés Segovia, etc. Segundo seu diretor6, até 1925, o público recifense só podia imaginar pelos discos e informações dos mais afortunados o que eram os grandes artistas. Eram apenas pequenas amostras que “não satisfaziam por completo o apetite intelectual da plateia culta do Recife”. Afinal, segundo o autor, o gosto já tinha sido trabalhado por Manoel Augusto, que aqui ficou por solicitação dos círculos musicais da cidade.

O objetivo da “Cultura” era trazer ao Recife artistas que para cá não viriam por venda de ingressos avulsos, tinham de ter um contrato que garantisse a sua renda. Essa Sociedade prezava mais pela qualidade, ou melhor, o renome artístico de seus contratados do que outros critérios, o que na prática significava importar virtuoses e as estrelas máximas da música de concerto de então. Essa Sociedade “era a segunda que se organizava, no Brasil, talvez, até, a primeira, pois a que existia, em São Paulo, se intitulava Sociedade de Cultura Artística. Adstrita à música, a primeira nascia no Recife”7. Quando foi fundada, seu tesoureiro e presidente era Ernesto Odenheimer, o diretor artístico, Manoel Augusto e o secretário era Valdemar de Oliveira. Nessa época em que Odenheimer era o presidente, a “Cultura” era sociedade fechada e “ninguém lhe botava os pés nos concertos, sem pertencer ao seu quadro social”8

. Ela funcionava através de um pagamento de mensalidade que, segundo o próprio Valdemar de Oliveira (1985), era de cinco mil réis. Já que tinha por finalidade contratar os melhores artistas em turnê pelo mundo, seus preços tinham um valor elevado em comparação às outras sociedades musicais que o Recife dispunha9. A Sociedade de Cultura Musical tinha

4 Idem, p.61-62. 5

Uma seção biográfica sobre Valdemar de Oliveira e suas concepções sobre música, nos moldes que o autor fez sobre os outros personagens, será adicionada no capítulo anterior, antes da defesa dessa dissertação.

6 Matéria publicada na revista Contraponto a.1, n.2, Agosto de 1946. 7 OLIVEIRA, Valdemar. Mundo Submerso. Recife: 1985, p.156. 8

Idem, Idem, p.157.

9 Para se ter uma ideia de preços entre Sociedades: o ingresso para sócios da Sociedade de Cultura Musical

um perfil mais voltado para as elites, tanto do ponto de vista artístico, quanto do ponto de vista socioeconômico de seus associados. Se ela foi uma das responsáveis pela transformação do gosto do público recifense, certamente foi o gosto dessa classe dominante. A exceção são os alunos do Conservatório, que dispunham de ingressos grátis para os concertos10.

As palavras de Valdemar de Oliveira, deixam transparecer a importância que ele atribuiu a Sociedade de Cultura Musical para a modificação do gosto do público recifense para as novas obras do mundo musical internacional:

Em vindo as notabilidades musicais contratadas pela ‘Cultura’, o ambiente se foi modificando. Debussy começou a comparecer com mais frequência aos programas, que passaram a fechar-se com “Feux d’Artifice”, “Reflets dans l’eau”, “Minstrels”. Wolff, Strauss, Falla intercalaram-se, comodamente, com recitais de cantoras, uma Vera Janacópulos, uma Marion Mathaeus. Madeleine Grey revolucionou tudo com um montão de novidades folclóricas e Elizabeth Schwarzkopff elevou, ainda mais, o nível das audições, enquanto cantores negros da Norte-América, de Dorothy Maynor e Lawrence Winters, nos trouxeram os spirituels. Heifetz nos ofereceu, certa noite, a “Tzigane”, de Ravel e, noutra, a “Hora stacatto”, novidades sensacionais11.

Convém destacar que a posição geográfica e o nível tecnológico dos meios de transporte favoreceram a atuação dessa entidade. Num tempo em que a tecnologia dos transportes não era tão elevada quanto hoje, Recife funcionava como escala para artistas com destino a outras cidades como: São Paulo, Buenos Aires e Montevidéu, que eram polos da música de concerto na época. Assim, a Sociedade de Cultura Musical contratava tais artistas que tinham de permanecerem alguns dias em Recife antes de seguir seus caminhos. Quando a tecnologia permitiu não mais precisar de escalas, a vida musical de Recife sofreu o impacto.

O estímulo dessa instituição na formação e transformação de um campo musical recifense foi muito mais no sentido de trazer artistas de referência para entrar em contato com os músicos locais e a plateia de maior capital cultural e econômico, do que na formação educacional ou na contratação de músicos locais. Na visão de Valdemar de Oliveira:

preponderante foi, pois, o papel que a “Cultura” desempenhou na vida musical do Recife, pois, os melhores professores como os melhores Conservatórios pouco conseguem dos alunos se eles não entram em contato frequente com os “grandes” da música. Dessa missão, há quase 49 anos, ocupou-se a “Cultura”, a partir de uma época em que já começavam a cansar os fechos habituais dos programas: a Polonesa

Arte, a mensalidade era de 10$000 e dava direito a dois ingressos para os concertos anuais. O preço do ingresso avulso era de 5$000 (Diário da Manhã- 01/12/35). Para o leitor estabelecer relações de poder de compra, a cotação da saca de açúcar cristal era de 9$250 e o quilo custava $650 em Janeiro de 1934 (Diário de

Pernambuco – 03/01/34). O aluguel de uma casa em Parnamirim 300$000 mensais e o ingresso para o cinema

Moderno custava 4$000. (Diário de Pernambuco – 28/01/34). Uma arroba de café era cotada a 16$000, um quilo de arroz pilado 1$000; um grama de ouro: 15$000. O salário pago por uma família que morava na Av. Beira Mar de Boa Viagem a uma cozinheira era de 75$000 (Diário de Pernambuco – 20/09/35).

10 Diário da Manhã – 24/05/31. Essa prática mostra a cooperação entre o CPM e a “Cultura”, as suas finalidades

educativas e “documentando ao mesmo tempo o perfeito entendimento que reina entre as duas corporações no sentido de propugnarem pelo maior desenvolvimento do nosso ambiente artístico musical”

Triunfal de Chopin, a Campanella, de Liszt, o Sapateado de Sarasate, o Scherzo- Tarantela, de Wieniaswky12

Pode-se incluir nesse papel de estímulo à vida musical de Recife, a revista “Cultura Musical” que circulou entre Agosto de 1930 à Agosto de 1931, com um total de 12 números13. A sua direção viria a ser a mesma da Revista Contraponto que circularia nos anos 1940 e início dos anos 5014. O intuito da revista era de estimular o “ambiente cultural recifense”. Sua duração efêmera aponta para as dificuldades de impressão e sua baixa repercussão na cidade, porém aponta para a continuidade de seus membros no envolvimento com a circulação de informações musicais.

Sobre a Sociedade de Cultura Musical, para o músico Ernani Braga15, de ponto de vista diferente,

a “Cultura” ilumina os horizontes musicais de Recife com figurações brilhantíssimas, porém esporádicas; a “Amigos da Arte”16 mantém a iluminação

menos fulgurante, talvez, porém permanente. A “Cultura” prefere os artistas de fama universal, porque para isso foi fundada; a “Amigos da Arte” prefere os artistas nacionais, porque é parte essencial do seu programa

Assim, essas sociedades teriam objetivos diferentes, porém não antagônicos, pelo menos na aparência. As duas visavam o melhoramento do ambiente musical de Recife, mas por vias distintas e, de certa forma, complementares. Se uma trazia os artistas consagrados, mas com grande intervalo de tempo entre os concertos; nesse meio tempo a outra contratava os músicos locais, e desta forma preenchiam o calendário de concertos anual.

Ela, a Sociedade de Cultura Musical, foi a responsável por dar os passos iniciais na disseminação do gosto da música moderna europeia, tanto através dos concertos, quanto através das palestras e festivais explicativos que eram promovidos nos Clubes Internacional e Alemão17. Palestras a cargo de Valdemar de Oliveira e Manoel Augusto majoritariamente. Os temas iam desde “interpretação musical” e “visão estética do ritmo”, a “o triunfo do Jazz”18

Pode-se dizer que Sociedade de Cultura Musical fazia parte de um conjunto de estratégias de distinção social da classe dominante recifense dos anos 20. Era uma sociedade mais “exclusiva” em seu início, tinha uma mensalidade de valor elevado. Não tinha interesse

12 Idem, p. 159 13

Apesar da referência à existência dessa revista, não foram encontrados seus fac-símiles em nenhuma base de dados pesquisada.

14 Segundo matéria da Revista Contraponto a.1, n.2 de Agosto de 1946. 15

Diário de Pernambuco – 05/09/36.

16

Falaremos dessa instituição em seguida

17 Como o festival Bach, por exemplo, e a apresentação de um dos primeiros instrumentos puramente

eletrônicos, de “música do éter”, o Theremin, tocado pelo prof. Max Wolfson. Diário de Pernambuco- 18/12/1930 e 29/09/1931.

18 Palestras proferidas, respectivamente, por: Manoel Augusto, Odilon Nestor e Valdemar de Oliveira. Diário de Pernambuco -22/04/1930 e 19/05/1930.

na fundação de uma instituição de ensino musical preocupada em formar músicos locais para ampliar a chegada da música de concerto para outras classes sociais e não criou uma orquestra própria com músicos locais. Afinal, foi criada para que seus fundadores não pagassem uma fortuna viajando à Europa para escutarem os artistas. Os músicos brasileiros que a Sociedade de Cultura Musical contratava eram aqueles com elevado nível de consagração: Vera Janacópulos, Bidu Sayão, Leonidas Autuori, etc. Em outras palavras, não era uma instituição com preocupações amplas em relação à sociedade recifense como um todo, nem com os músicos locais. Sua preocupação residia em realizar concertos para uma clientela já cultivada, cúmplice social e culturalmente de seus fundadores e concertistas.

A Sociedade de Cultura Musical pode até ter sido pioneira em apresentar os modernos para o público recifense, mas não foi audaz o suficiente para colocar peças dodecafônicas e serialistas nos seus programas19, ao menos não durante o período pesquisado, então eram modernos até certo ponto: aqueles que davam um ar de sofisticação e elegância a quem os escutasse, não o tipo de moderno que aturdisse as práticas de escuta do público burguês. Afinal, se tal sociedade buscava satisfazer o gosto dos sócios, mas que queriam demonstrar estarem atentos às últimas novidades, não poderiam colocar músicas arrojadas a ponto que desestabilizassem tal gosto estabelecido. A “Cultura” trazia a “boa música” para a “boa sociedade”, e os melhores artistas para os “melhores ouvintes”. Tornava a “arte de qualidade” coisa para poucos, poucos que pudessem pagar.