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III - ANNEXE AUX COMPTES SOCIAUX

NOTE 2. PRINCIPES ET METHODES COMPTABLES

Após a conversão de WTA para H+, Bostrom parece ter se distanciado das questões transhumanistas, ao menos que envolvam este termo explicitamente. Em sua obra o Transhumanismo também se converteu: se tornou Human enhancement (Aprimoramento Humano). Em sua maior obra, Superintelligence: Paths, Dangers, Strategies (2014) não há nenhuma ocorrência da palavra ‘Transhumanism’, embora o

livro aborde questões discutidas dentro do Transhumanismo. É possível que isto ocorra também com outros autores dentro do círculo britânico, cujo o amago é a Universidade de Oxford. John Harris, atualmente pesquisador na Universidade de Manchester, comenta algo que pode nos ajudar a esclarecer esta mudança conceitual:

O uso dos termos “transhumanista” ou “transhumanismo” está muito em voga, mas esses termos parecem implicar uma agenda. O casamento de tais termos pode parecer uma maneira de caracterizar (e muitas vezes abraçar) um movimento ou uma quase religião que promove, incentiva e, de fato, tem como objetivo a criação de uma nova espécie de “Transhumanos”. Essa ideia tem, eu acredito, nenhum mérito especial além das maneiras pelas quais as mudanças que (talvez) levem à criação de uma nova espécie são justificadas e, de fato, são obrigadas pelo bem que farão por nós e por nossos sucessores. Dizer que você é transhumanista é como dizer que você é um “cristão renascido” ou um “muçulmano fundamentalista”. É tanto um programa quanto uma identidade. Não tenho programa ou agenda transhumanista. Penso que existem poderosas razões morais para garantir a segurança das pessoas e para melhorar nossas capacidades, nossa saúde e, portanto, nossas vidas. Se a consequência disso é que nos tornamos transhumanos, não há nada de errado com isso, mas tornar-se transhumano não é a agenda; melhorar a vida, a saúde, a esperança de vida e assim por

diante é, no entanto, não apenas parte de uma agenda moral defensável, mas uma dimensão obrigatória de qualquer programa moral98. (HARRIS, 2007:38-39, tradução nossa)

Julian Savulecu, assim como Bostrom, professor de filosofia na Universidade de Oxford, publicou em coautoria com Ruud ter Meulen e Guy Kahane, o livro por eles editado, Enhancing Human Capacities (2011). Nesta obra de 557 páginas o termo ‘Transhumanism’ aparece uma única vez, e no mais recente The Ethics of Human Enhancement: Understanding the Debate (2016), também editado por Savulescu e outros

autores, Steve Clarke, C. A. J. Coady, Alberto Giubilini, e Sagar Sanyal, o termo ‘Transhumanism’, nas 292 páginas do livro, não aparece em momento algum.

Assim, podemos especular, e é só o que podemos fazer no momento uma vez que isso não foi esclarecido em nenhuma obra que consultamos, podemos assumir o caminho proposto por Harris, isto é, o centro britânico de discussões acerca do avanço tecnológico tem mostrado certa recusa do termo ‘Transhumanismo’ em virtude do caráter ideológico, messiânico e tecnoapoteótico que o Transhumanismo pode passar. Noutras palavras, seria uma tentativa de se livrar do gnosticismo tecnológico, característico, como defendemos, do ideal transhumanista, dando um ar “pasteurizado”, não contaminado e de ciência pura aos anseios tecnophílicos. Como vimos, o Transhumanismo tem como objeto de estudo as tecnologias que podem aprimorar o ser humano, fisicamente, psicologicamente, moralmente, cognitivamente, assim como estender seu tempo de vida. Sendo este o caso,

98 The use of the terms “transhumanist” or “transhumanism” is much in vogue, but these terms seem to

imply an agenda. Espousal of such terms can seem to be a way of characterizing (and often embracing) a movement or quasi-religion which promotes, encourages, and indeed has as its objective the creation of a new species of “transhumans.” This idea has, I believe, no special merit aside from the ways in which the changes that (might) lead to the creation of a new species are justified and indeed mandated by the good that they will do for us and our successors. To say you are a transhumanist is like saying you are a “born- again Christian” or a “fundamentalist Muslim.” It is both a program and an identity. I have no transhumanist program or agenda. I do think there are powerful moral reasons for ensuring the safety of the people and for enhancing our capacities, our health, and thence our lives. If the consequence of this is that we become transhumans, there is nothing wrong with that, but becoming transhumans is not the agenda; improving life, health, life expectancy, and so on is, however, not only part of a defensible moral agenda, it is a mandatory dimension of any moral program.

não difere em nada da nova nomenclatura Human Enhancement e, por conseguinte, implicaria, talvez, nas mesmas ideias por eles recusadas. Contudo, as razões podem ser as mais diversas. Talvez retomemos esta querela em trabalhos futuros.

Em 2009, em virtude da difusão dos assuntos concernentes ao aprimoramento humano, foi publicado um documento em nome do Parlamento Europeu, chamado Human enhancement. O documento e a pesquisa para sua confecção foram realizados

pelo Institute for Technology Assessment and Systems Analysis (ITAS), Research Centre Karlsruhe, e o Rathenau Institute, como membros do European Technology Assessment

Group (ETAG). Segundo o documento:

O estudo procura preencher a lacuna entre as visões sobre o aprimoramento humano (HE) e os desenvolvimentos tecnocientíficos relevantes. Descreve possíveis estratégias de como lidar com o HE em um contexto europeu, identificando uma abordagem pró-aprimoramento, restritiva e uma abordagem caso a caso, todas fundamentadas, como opções viáveis para a União Europeia. Os autores propõem a criação de um órgão europeu (comissão temporária ou grupo de trabalho) para o desenvolvimento de um quadro normativo que oriente a formulação das políticas da UE no que concerne ao aprimoramento humano99. (EUROPEAN PARLIAMENT, 2009:03, tradução nossa)

99 The study attempts to bridge the gap between visions on human enhancement (HE) and the relevant

technoscientific developments. It outlines possible strategies of how to deal with HE in a European context, identifying a reasoned pro-enhancement approach, a reasoned restrictive approach and a case-by-case approach as viable options for the EU. The authors propose setting up a European body (temporary committee or working group) for the development of a normative framework that guides the formulation of EU policies on HE.

O documento, inobstante não tenha sido confeccionado por nenhum autor muito consagrado no campo social transhumanista, ajuda na concessão, em tom tonitruante, de legitimidade para a discussão.