4.2 Premiers tests du cryomodule en couplage critique
4.2.1 Principe des tests basse puissance
Luiz B. L. Orlandi1
1ORLANDI, Luiz B. L. Anotar e nomadizar. In: Lins, Daniel (Org.). Razão nômade.
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Aberturas aos procedimentos
O
rientada pela perspectiva kelemaniana do corpo como pulso, tomarei suas prin- cipais vertentes de discussão como ponto de partida para a análise dos proce- dimentos que constituem o presente trabalho.Para o autor, a idéia de uma “saúde” do corpo estaria ligada à capacidade de manter-se em estado pulsante, ou seja, ora contrair-se ora expandir-se, ora ir em dire- ção ao mundo, ora recuar para assimilar as experiências, manter-se num continuum de desmanchar e reconstruir. Essa possibilidade de formar corpos tem a ver com a ca- pacidade do sujeito de conectar-se, ser atravessado pelos mundos, afetar e ser afe- tado por eles.
Outra vertente presente nessa teoria e que nos ajuda a compreender, pensar e ar- ticular procedimentos na clínica é a idéia de que as experiências moldam os corpos. O corpo é efeito permanente do encontro em diversas realidades: da natureza, do social, das histórias etc. Assim, pensar em procedimentos na clínica tem sentido quando con- sideramos as experiências como acessos a modos de subjetivação, a partir de variações provocadas pelos procedimentos.
O conceito de forma também tem lugar central nesta discussão. A forma pensada não em sua superficialidade, mas em camadas como bordas dos acontecimentos que o corpo, em sua “concretude”, permite configurar e reconfigurar permanentemente.
Ao permitir o acesso ao corpo, por meio de procedimentos diversos, a clínica po- de incidir nesse lugar, já que se trata de um corpo aberto, conectivo, que responde às afetações, que se transforma e cria realidades. Corpo implicado no presente, atraves- sado, portanto, por modos de subjetivação em composição com as suas capacidades como vivo. 2
No entanto, o que importa aqui é pensar o corpo como vincular, emocional, em suas diferentes dimensões e camadas, que podem ser acessadas no trabalho corporal. Os exercícios propostos incidirão onde podemos tocar, acessar, ressoar.
2Favre em seus seminários freqüentemente se remete ao vivo e, portanto,
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A abordagem kelemaniana, mais do que um manual sobre os sentidos do corpo, permite ancorar uma reflexão sobre a clínica dos laboratórios ou sobre as oficinas de ex- perimentações, num lugar amplo, no interjogo entre múltiplos fluxos: pensamento, ima- gem, sensação, palavra, possibilidades e potencialidades. A abordagem do autor permite também ressonâncias importantes, pois o ambiente do qual fala Keleman é aberto aos mundos sociais, políticos, genéticos, subjetivos.
O corpo está no entrecruzamento de todas essas forças que atuam e constituem os sujeitos que acompanhamos na clínica a todo momento: pessoas com histórias, ex- periências, com capacidades inatas, desejos, a procura de elaborar singularidades em di- ferentes situações.
É a partir desse modo de aproximação que elege essa abordagem do corpo co- mo intervenção clínica que apresento minhas propostas, registros de observações e ressonâncias do trabalho realizado.
Os capítulos que constituem esta parte do trabalho estão norteados por alguns as- pectos fundamentais.
Primeiramente, é preciso entender a noção de serialidade adotada na apresenta- ção e categorização dos procedimentos desta clínica eminentemente corporal, não co- mo uma linearidade de “padrões” que o profissional deve seguir como um “manual”. Por isso, não é necessário que o leitor siga rigorosamente o percurso realizado para se apro- ximar da clínica aqui proposta e discutida. Trata-se, na verdade, de séries norteadoras que pretendem permitir ao leitor incorporar traços e tendências de uma clínica que se cons- trói por porosidades e aberturas, tal como ocorre na concepção de corpo aqui adotada, em consonância com a filosofia da diferença proposta por Guattari, Deleuze, Rolnik, Or- landi, entre outros.
A formulação das séries implicou a reunião de diferentes sentidos3. Para expres-
sar o dinamismo exigido pelos procedimentos – que possibilitam os encontros, entendi- dos sempre como produtores de diferença e dão ensejo a processos de singularização –, optei por nomear as séries recorrendo sempre a um verbo no infinitivo: aquecer, fotogra-
far, olhar, improvisar, entre outros. Pretendo com isso reiterar que o foco de minha abor-
dagem na clínica, e por conseguinte nesta discussão, está na ação efetivamente realizada pelo sujeito, imerso em uma proposta aberta ao devir, à diferença, à surpresa e à singularidade de cada instantâneo aqui captado.
Na tentativa de romper uma estrutura rígida de compreensão dos exercícios e di- nâmicas utilizadas apresento cenas de clínicas em diferentes contextos profissionais e
3Inspirados em L. Orlandi, a partir de aula ministrada no Programa de Pós-
graduação em Psicologia Clínica da PUC-SP, podemos mencionar sentidos diversos que emergem em cada composição, ou seja, a leitura de sentidos dos procedimentos está implicada em composições singulares e linhas de força que compõem cada instante das experimentações, portanto, são múltiplos também os sentidos de suas análises.
Aberturas aos procedimentos
em momentos diversos. Além disso, é preciso ressaltar que, por vezes, um mesmo pro- cedimento é abordado em séries diferentes, de acordo com a predominância do aspec- to que pretendo analisar.
Mas como iniciar os procedimentos? De onde partir? Existiria um lugar de origem e um ponto de chegada?
Minha experiência clínica me ensina que não. Os acontecimentos se misturam nas séries: cada experimentação se configura como processo único, tomado por campos de forças singulares e que podem, a partir da reflexão e de uma necessidade de organi- zação e análise, reunir-se em certos agrupamentos, com objetivo de enfatizar este ou aquele aspecto que pode predominar ou, no mínimo, permitir ao leitor certa compreen- são de processos vividos muitas vezes impossíveis de apreender pela consciência. Não é tudo que se pode dizer através das palavras. Em alguns procedimentos, pouco se fala. Assim, a utilização do registro fotográfico nesta tese pode favorecer maior visua- lização de instantâneos de uma clínica centrada no corpo. Ora ampliadas, ora reduzidas a algum detalhe, as fotografias particularizam certo tom ou aspecto presente na vivên- cia para sensibilizar um tipo de olhar mutante que explora o macro e o micro.
Por isso, foi dedicada atenção especial à escolha das fotografias e a detalhes das imagens que, ao compor com os escritos, constituem camadas de elaborações e provo- cações à sensibilidade.
É importante ressaltar aqui características do material fotográfico que compõe com os textos4:
• a capacidade de afetação, dos registros de instantâneos intensos vividos na clínica. • a possibilidade de documentar alguns procedimentos que podem auxiliar o leitor na compreensão ou captação dos mesmos.
• o trabalho a-paralelo5aos textos que percorrem a elaboração dos procedimentos ago-
ra através de imagens.
• o detalhamento de certos tons na fotografia para deixar acontecer um punctum6, como
diz Barthes, um ponto ou mancha na foto que salta do registro fotográfico e passa a exis- tir por sua força, para aquele que olha.
Espero que a leitura desta tese seja iniciada da forma que o leitor julgar mais con- veniente, que os procedimentos sejam escolhidos a partir de suas vontades e atrações. Entretanto, devo ressaltar que tal atitude pode levar o leitor a abrir mão de compreender o passo a passo, cada procedimento, de entender tudo como aconteceu e todos os aspec- tos que motivaram a escolha deste ou daquele exercício, desta ou daquela frase. Não se
4Uma discussão aprofundada sobre estas questões será realizada na série
Fotografar.
5Aqui o conceito de a-paralelo refere-se à descrição de encontro no livro
Diálogos, de Deleuze e Parnet (1998, p.15). Os autores escrevem sobre o
conceito de encontro entre dois, que não acontece nem em um nem outro, mas no entre ou fora. No caso da composição entre textos e fotografias, a idéia não é criar fotos legendadas, mas dois movimentos de apresentação e registro que aparecem como linguagens diferentes que procuram, de alguma forma, corporificar os processos assinalados neste trabalho.
6Considerações sobre o punctum serão realizados na série de procedimentos do
Fotografar. Aqui basta dizer que existem dois tipos de fotografia: aquelas que
nada dizem, não tocam a sensibilidade daquele que as vê e aquelas que, colocadas diante dos olhos, criam existência. Neste último caso, o olhar se fixa e pode viver o acontecimento que ali se opera.
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trata de aprender a fazer igual, pois o desafio é deixar-se afetar pelas cenas, pelos modos como cada exercício se efetuou nos corpos dos participantes na tentativa de captar, tal- vez até sentir no próprio corpo, possíveis ressonâncias das propostas e embarcar nos flu- xos metodológicos aqui apresentados.
Ao organizar as séries de procedimentos surgiu uma inquietação relacionada à or- denação a seguir: iniciar pela série Aquecer, que envolve preparações/acontecimentos inaugurais na proposta clínica centrada no corpo? Ou partir do Fotografar, uma vez que o recurso da imagem é muito presente em meu trabalho, inspira discussões conceituais, exercícios nos laboratórios e na apresentação das matérias vivas presentes nesta tese? Ou ainda pela série Improvisar, ação fundamental que atravessa toda a clínica e demar- ca fortemente o seu caráter político, porque trabalhamos com limites impostos e/ou construídos na busca da resistência ao habitual.
Frente a esses embates optei por redigir as séries pela ordem em que se formata- vam e pediam passagem, procurei acolher e compreender esta “vontade de materializar- se” em pensamento e palavra.
No entanto, apesar desta escolha que partia de meu corpo, podemos considerar que as séries de procedimentos funcionam como camadas (tal como Keleman entende os corpos), com interligações não hierarquizadas7. Um exercício colocado numa série po-
deria ser deslocado para outra de acordo com os efeitos produzidos ou a partir dos ob- jetivos do terapeuta, ou ainda pela necessidade de ênfases, pois como veremos um mesmo exercício evoca diferentes linhas metodológicas.
As camadas na perspectiva kelemaniana, relembrando algumas idéias expostas no capítulo anterior, afirmam que nos corpos nada funciona isoladamente (não podemos tratar de um corpo através de seus órgãos e/ou sistemas), que existem articulações possíveis e que os processos acontecem todos simultaneamente: excitações cerebrais, produções de gestos, pensamentos, imagens, sensações, linguagem, toda uma maquí-
nica8pulsante, própria do vivo. A proposta é, portanto, realizar a leitura dos procedimen-
tos procurando sempre vazar, deixar uma brecha para que outra série entre em composição.
Uma de minhas hipóteses é que, dependendo do campo de forças no qual o exer- cício é criado, pode-se observar a eminência ou predominância de um aspecto/tonalida- de da clínica como linha metodológica. Este ponto ficará mais claro na análise de procedimentos e em suas afetações nos diferentes contextos.
Assim, adotei o caminho que me pareceu mais próximo ao que vivencio ao
7Aqui esta hierarquização acontece, pois o pensamento que voa e se expande
para todos os lados exige também uma organização possível para tornar-se linguagem. Além disso, exige-se um rigor acadêmico comunicável e necessário para a elaboração do pensado e vivido.
8O termo maquínica foi criado por Felix Guattari e foi apontado em minha
dissertação de mestrado, publicada sob o Danças em Terapia Ocupacional, 1995. Não é objetivo discutir e aprofundar o conceito aqui, mas afirmá-lo como construção da existência.. “É vontade de perseverança no ser (conatus), vontade de efetuação da vida, vontade de afetar e ser afetado” (Ver. Comentário sobre o vídeo da pulsão, op. cit.).
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“iniciar” uma tarefa: parti do Aquecer. Depois discuto e apresento a série Fotografar, de- pois, Olhar, Tocar, Mover e pausar, Improvisar e, finalmente, Conversar e silenciar.
Em todas as séries abordo exercícios propostos por diferentes técnicas (impro- visação, contact improvisation inspirado em Steve Paxton, danceability, de Naiza de França, exercícios criados por mim, entre outros), que não se esgotam, mas sugerem oportunidades de aproximação com os corpos em sua complexidade e riqueza, privi- legiando ainda a capacidade de afetação.
O Aquecer está ligado à capacidade do corpo afetar e ser afetado. Nos procedimen- tos do Fotografar abordarei a utilização do recurso fotográfico na clínica e na formação profissional: a imagem como documento e rastreadora das sutilezas dos acontecimen- tos, como um zoom que merece destaque para ajudar a falar do indizível.
No Olhar abordarei temas que envolvem a diferenciação entre o ver e olhar; na sé- rieTocar percorrerei modos de aproximação que vão além da concretude do gesto pro- priamente dito.
Na série Mover epausar aponto vários sentidos dos deslocamentos e pausas, além de articulações com outros modos de experimentar os mundos, como o olhar, o mover, o
tocar, entre outros que ora compõem entre si, ora vagueiam por caminhos diversos.
A série Improvisar é mais densa e complexa e está numa camada intermediária, vazando por todos os lados (o que também acontece com as outras que nunca estão to- talmente encapsuladas), pois é fundante, norteadora para todos os procedimentos.
No Improvisar procuro reunir cenas e exercícios que enfatizam a improvisação como modo de instaurar um corpo pesquisador e inventor, foco central que funciona co- mo resistência aos processos de subjetivação presentes no contemporâneo e que podem nos afastar daquilo que Espinosa9considerou uma tarefa ética: aproximar-nos “do que
podemos”.
Tomando o corpo como modelo, “o que pode” é o seu poder de ser afetado, que é necessariamente preenchido pela relação desse ser com os outros. Estão, portanto, demarcadas nos exercícios e propostas em cada uma das séries, oportunidades de encontros consigo e com os outros.
Finalmente, na série Conversar e silenciar, discuto as gradações e sentidos das conversas e silêncios presentes na clínica, abordo ainda alguns aspectos sobre o escre-
ver e o fazer – lugares onde se materializam conteúdos expressivos das vivências corpo-
rais que inspiram conversas e silêncios ao longo dos processos.
9Aqui me inspiro em algumas questões formuladas por Espinosa sobre a ética,
tratadas em aula ministrada por Orlandi em disciplina do Núcleo de Estudos de Subjetividade do Programa de Pós-Graduação em Psicologia Clínica da PUC-SP: “Produção de Sentido, Produção de Si. Procedimentos expressivos”, segundo semestre de 2005.
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