• Aucun résultat trouvé

2.6.5 Le principe de fonctionnement

Embora se saiba de todos os fatores que interferem diretamente nas questões de formação e perpetuação dos gostos alimentares, talvez atualmente um dos maiores determinantes para a sua constituição seja a questão econômica, pois os fatores econômicos estão estreitamente relacionados com a formação dos gostos. Sobre isso, Silva (2009) argumenta que “o consumo de alimentos tem também uma conexão material: as pessoas só podem comer aquilo que elas podem comprar ou que está disponível em uma sociedade particular”. (SILVA, 2009, p.43)

Assim, para melhor compreender essa problemática, Contreras (2011) afirma que “é inconcebível fazer uma análise da cozinha sem vinculá-la, necessariamente, com a divisão de poder e autoridade dentro da esfera econômica e, consequentemente, com o sistema de estratificação social e com a divisão sexual do trabalho” (p.75) tendo em vista que esses aspectos são condicionantes para a formação das práticas alimentares cotidianas. Além disso, o autor ainda reforça seu pensamento ao enfatizar que “as pessoas fazem escolhas individuais aparentemente de acordo com suas próprias preferências; entretanto, ao mesmo tempo, essas preferências são altamente previsíveis quando se conhece sua origem social (seu capital econômico e seu capital simbólico)” (CONTRERAS, 2011, p.79).

As pessoas tendem a manter uma alimentação alicerçada na cultura a qual estão inseridas, cultura essa que por sua vez é influenciada por fatores que a circundam e principalmente por questões de localidade. É notório que ao passo em que as pessoas passaram a se fixar em um determinado local, deixando para trás a vida nômade, os povos passam a se alimentar do que se encontra disponível na sua redondeza. Posteriormente, esse

costume é preservado por questões que vão desde a comodidade de se alimentar de algo que está mais próximo, como também, por questões financeiras, reforçando o fato de que é mais barato comer um alimento que não precisa deslocar-se por longas distâncias.

Em contrapartida ao que foi afirmado anteriormente, é preciso analisar que embora haja uma forte comodidade em comer o que está próximo, esse problema na atualidade acaba sendo dirimido com a globalização. É comum falar-se que as distâncias “diminuíram”, mas na verdade elas continuam as mesmas, sendo apenas camufladas por meio do capital econômico que expande seus horizontes tornando mais cômodo os problemas antes tidos como indissolúveis.

Nessa síntese, pode-se inferir que ao passo em que a população mundial torna-se cada vez mais globalizada, aumenta a conexão e troca de produtos entre as populações. Fato que influencia a miscigenação das culturas, cozinhas e costumes, tornando a população mundial cada vez mais híbrida e possibilitando a aquisição de alimentos de todo o mundo de maneira fácil e rápida, tendo como fator determinante nessa questão “o capital”. Assim, o hibridismo de práticas alimentares está diretamente vinculado às relações de poder, onde se sobressaem às culturas das sociedades detentoras de identidades tidas como hegemônicas, que são fortemente interligadas as questões econômicas. (SILVA, 2009).

Tendo em vista que as práticas alimentares configuram-se como uma forma de diferenciação pode-se afirmar que elas estão estreitamente vinculadas às relações de poder, conforme discorre Silva (2009) ao relatar que

A identidade e a diferença estão, pois, em estreita conexão com as relações de poder. O poder de definir a identidade e de marcar a diferença não pode ser separado das relações mais amplas de poder. A identidade e a diferença são, nunca, inocentes. Podemos dizer que onde existe diferenciação – ou seja, identidade e diferença – aí está presente o poder. A diferenciação é o processo central pelo qual a identidade e a diferença são produzidas. (SILVA, 2009, p.81)

Hoje, mais do que nunca, as identidades hegemônicas são disseminadas por meio da globalização que abrange pessoas de todo o mundo, influenciando-as a consumir determinados produtos que são originários de uma cultura específica, tendo o acesso e a circulação viabilizados pelo forte poder das transações econômicos e pelo comércio em geral. No entanto, o consumo generalizado de produtos específicos de identidades hegemônicas proporciona a falsa sensação de uma homogeneização cultural, como afirma Hall (2015)

no interior do discurso do consumismo global, as diferenças e as distinções culturais, que até então definiam identidade, ficam reduzidas a uma espécie de língua franca internacional ou de moeda global, em termos das quais

todas as tradições específicas e todas as diferentes identidades podem ser traduzidas. Esse fenômeno é conhecido como “homogeneização cultural”. (HALL, 2015, p.43, grifos do autor)

Diante disso, pode-se analisar que embora haja uma forte disseminação de produtos e miscigenação de culturas que atingem populações de todo o mundo, a falsa sensação de homogeneização cultural se dá, ao passo que essas diversas culturas estão interligadas, mas cada uma possui sua especificidade, que culmina na representação de cada povo conforme os seus fatos sociais. Ou seja, o fácil contato entre as culturas faz com que uma influencie a outra, sobressaindo-se as culturas hegemônicas, como por exemplo, a dos Estados Unidos, no entanto, embora essas culturas sejam influenciadas uma pela outra, cada uma é detentora de suas próprias características. Nesse contexto, sobre a homogeneização da alimentação Barbosa destaca que

não são hábitos alimentares fruto de tradições alimentares consagradas e diferenciadas, mas justamente a perda de identidade das diferentes culinárias, em face do avanço e das imposições da globalização e alguns dos seus subprodutos, como o fast food e a macdonaldização. (BARBOSA, 2007, p.89, grifos da autora)

No entanto, é válido perceber, que isso não representa uma homogeneização cultural total, tendo em vista que cada povo continua possuindo costumes que estão fincados em sua tradição cultural, que embora muitas vezes sejam enfraquecidos, não se constituem como algo facilmente transformado. Conforme afirma Bauman (2012) ao relatar sobre o multiculturalismo abordando que

se o multiculturalismo, ao mesmo tempo que eleva a diversificação cultural o status de valor supremo, atribui à variação cultural uma validade potencialmente universal, o multiculturalismo viceja na peculiaridade e no caráter intraduzível das formas culturais. Para o primeiro, a diversidade cultural é universalmente enriquecedora; para o segundo, os valores universais empobrecem a identidade. (BAUMAN, 2012, p.65)

Além disso, é valido atentar para os problemas acarretados pelo “encurtamento das distâncias” viabilizado pelo poder do capital. Ao que concerne à alimentação, uma das principais consequências visualizadas é o caso da crescente elevação dos índices de doenças crônicas não transmissíveis, proporcionados por grandes taxas de conservantes utilizados em alimentos que vendem uma identidade cultural de outra nação, como é o caso dos fast-foods. Não obstante, também se pode citar os alimentos enlatados e os hortifrútis que atravessam o mundo com elevadas taxas de conservantes e agrotóxicos.

Outro problema que se deve atentar quando debate-se sobre essas questões é sobre a grande influência da mídia para o consumo dos alimentos ultra processados, tendo em vista

que a televisão configura-se como um dos principais meios de informações ao que concerne a alimentação, assim como relata Bento et al. (2015)

em relação à busca de informações sobre alimentação, a televisão é o veículo mais procurado para tais informações, sendo a grande disseminadora de propagandas com mensagens persuasivas, atraentes e marcantes sobre alimentos, a maioria deles produtos energéticos de alta densidade nutricional, enfim produtos ricos em gorduras, açúcares e sódio e pobres em fibras alimentares que podem causar enfermidades, mal à saúde e que acabam por compor a dieta dos indivíduos. (BENTO et al., 2015, p.2392) Face à passagem, conclui-se que a mídia impulsiona um consumo cada vez maior dos alimentos industrializados, fato que acarreta no alto índice de obesidade, que na maioria dos casos é acompanhado de altas taxas de desnutrição, tendo em vista que embora haja um consumo excessivo de alimentos, que culminem na obesidade de principalmente crianças e adolescentes, há também um alto consumo de alimentos com baixas taxas de nutrientes, atrelando assim, a desnutrição à obesidade. Dessa forma,

o consumo de alimentos na cultura não deve ser compreendido apenas como ato folclórico ou saudosista, mas, sim, como uma realidade que envolve o meio ambiente em uma teia de relações com os produtos químicos, a contaminação, a supervalorização de alimentos e cardápios com componentes nutricionais inadequados. (BRASIL, 2015, p.446)

Diante disso, verifica-se que o consumo de alimentos dentro de uma sociedade está atrelado a uma série de fatores como é o caso da influencia de outras culturas por meio da mídia, que acabam proporcionando novos problemas alimentares na contemporaneidade. Esses problemas por sua vez agora são decorrentes da alta quantidade de conservantes utilizados para manter as características ideias dos alimentos advindos de longas distâncias, assim como o acréscimo de elementos que favorecem sua palatabilidade, no caso dos produtos industrializados.