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‐3-­‐1-­‐ Principaux médicaments utilisés : 38

O s o b je to s vã o c o nto rna ndo a so mb ra , a lfo rria ndo o s p e rte nc e s. A me mó ria é o há b ito de tro c a r le nç ó is, ma s há ma nc ha s q ue p e rma ne c e m

c o rro e ndo o te c ido .

C a rp ine ja r

Ta l c o mo uma me nsa g e m numa g a rra fa a b a nd o na d a a o s mo vime nto s imp re visto s d a s o nd a s, la nç a d a a o ma r p o r um ná ufra g o se m no me , na e sp e ra nç a d e um e nc o ntro c o m uma o utra vid a q ue so ub e sse d a sua ...

Ta l c o mo a s me nsa g e ns e m p e nsa me nto q ue o s ho me ns la nç a m p a ra a s e stre la s d e sd e c ria nç a s, vo a nd o na s sua s na ve s ima g iná ria s, q ue c o nd uze m a o utro s mund o s. Ne m ma is ne m me no s re a is q ue e ste , a p e na s o utro s...

Ta l é a o b ra d e Elid a Te ssle r, p a uta d a p o r e sse mo vime nta r c o nsta nte d e c a minho s p o ssíve is, q ue re g e m no ssa ing ê nua c o nd iç ã o

d e ná ufra g o s num va sto mund o , c uja s le is d e sc o nhe c e mo s, ma s q ue te ima mo s e m lhe s p e rc o rre r o s se g re d o s e a s d o b ra s, g uia d o s p e lo se ntir e p e lo d e se jo d e c o nhe c ime nto q ue , d e sd e se mp re , se c re ta me nte no s ha b ita .

Ta lve z se ja e sse , se u íntimo p ro p ó sito : o usa r a b rir uma p o rta q ue p o nha o s mo vime nto s c o tid ia no s e m c o munic a ç ã o . E, c o m isso , tra ze r a s id é ia s q ue fic a ra m g ua rd a d a s na me mó ria e no te mp o p a ra o mund o d a c ria ç ã o a rtístic a . Vê -se q ue , a o c o mp a rtilha r o se u fa ze r c o m o s o utro s, a a rtista e nunc ia sua ma ne ira d e se a c o mo d a r no mund o q ue a c irc und a .

Te ssle r é a tra íd a p e la a c umula ç ã o d e p e q ue na s me mó ria s. Re a liza um tra b a lho simp le s e , a o me smo te mp o a luc ina nte . Se u re g istro d a s c o isa s p e rd id a s a p o nta d e lic a d a s tra ma s d e sig nific a d o s sing e lo s. Essa s c o isa s, o b je to s c o muns q ue p a ssa m d e sp e rc e b id o s a o s o lho s q ue o lha m se m ve r, tra ze m à to na uma só lid a re fle xã o so b re a p a ssa g e m d o te mp o e a p e rsistê nc ia d a me mó ria .

Tra ta -se d e uma o b ra q ue se d á no inte rstíc io e ntre e sp a ç o e te mp o . Num ‘ e ntre ’ ínfimo , o nd e um ruíd o q ua se imp e rc e p tíve l re fle te so b re c o isa s q ue sã o a o me smo te mp o , iné rc ia p re g na nte e mo to r da

me mó ria . Ra stro do q ue se fo i. Pre se nç a a p a lp a da na fre sta do ima te ria l70, c o mo b e m p o ntua d o p o r Ang é lic a d e Mo ra e s.

Na e xp e riê nc ia d iá ria sa b e -se q ue o o xig ê nio a sse g ura a vid a , ma s e ste me smo , c o nd uto r d e vid a , c o rró i, d e te rio ra , e nfe rruja a o lo ng o

d o s se g und o s, minuto s, ho ra s... o s o b je to s, o s c o rp o s, q ue p e rsiste m a vive r. Este vive r q ue nã o he sita fre nte à mo rte , q ue , a o c o ntrá rio , a re c usa , p o is a re c usa d a mo rte , a te nta ç ã o d o e te rno , tudo [...] c o nduz

o ho me m a p re p a ra r um e sp a ç o de p e rma nê nc ia o nde p o ssa re ssusc ita r a ve rda de , me smo se e la p e re c e71.

C o mo o ma rc o c o mp a ssa d o d o s p o nte iro s d o re ló g io q ue , a c a d a b a d a la r, c e le b ra o insta nte q ue se e sc o a . Ne sse p e q ue no e sp a ç o d e te mp o e m b ra nc o se d á o fa ze r d e Te ssle r. Ela c e le b ra a c o rro sã o d a s c o isa s, c a ta lisa nd o o te mp o p a ssa d o q ue já é futuro , ve stíg io d o p re se nte q ue se mp re e sva i. Ela d iz: a no ç ã o de te mp o , b e m c o mo a

de e sp e ra , e stá inc luída e m minha p rá tic a . Me u tra b a lho de a te liê c o nsiste e m re c up e ra r a lg uma c o isa p e rdida . Uma p e rda e sse nc ia l, p rimo rdia l. Uma p e rda q ue te m a c o r e sp e c ífic a da fe rrug e m. O g e sto p rimo rdia l é o de de p o sita r uma c o isa so b re a o utra e a c re dita r no inte rstíc io de e sp a ç o e te mp o72.

Ne sta d up la fa nta smá tic a , e sp a ç o -te mp o , um nã o sub stitui o o utro , ma s, a lte rna m-se , e m e te rna tra nsfo rma ç ã o , e ra m e p a ssa m a

se r, tra ta -se , p o is, da idé ia da p e rma nê nc ia fug a z73 , e p o rq ue nã o

p e nsa r q ue e ste e ra p a ssa ta mb é m p o r e ste é ? Este e ra p a ssa d o p a ssa ta mb é m p o r e ste é p re se nte ? Pe rc e b e -se e ntã o , q ue e m q ua lq ue r

mo me nto e sta mo s no c e ntro de uma linha infinita , e m q ua lq ue r lug a r

71 BLANCHOT, 2001, p. 73. 72 TESSLER, 2003, p. 26.

do c e ntro infinito e sta mo s no c e ntro do e sp a ç o , já q ue o e sp a ç o e o te mp o sã o infinito s74, e junto a e le s c o a b ita a me mó ria .

C a d a um d e nó s, d e um mo d o o u d e o utro , d e ma ne ira b e m p a rtic ula r, se nte , p e rc e b e q ue o te mp o e stic a , d iminui, d e te rio ra a fo rma , a c o r, a c o nsistê nc ia d a s c o isa s... q ue e le nã o na sc e d a e sp e ra , na sc e d o fim. Esse te mp o q ue c o rre d ura nte a no ite q ua nd o se d o rme , q ue é p a ssa d o , p re se nte , futuro , q ue e m q ua lq ue r mo me nto e stá no se u c e ntro , um c e nto q ue c o rre , e d e sliza , se m q ue na d a se p o ssa fa ze r p a ra p a rá -lo .

Q ue é o te mp o ? Se nã o me p e rg unta m, e u se i. Se me

p e rg unta m, e u ig no ro75. To d o s se re mo s c a p a ze s d e d ize r c o mo Sa nto

Ag o stinho . Ma s sa b e -se q ue o te mp o é a lg o d e miste rio so , e q ue c o m e le c a rre g a -se a me mó ria . Ante s me smo q ue a s c o isa s d e sa p a re ç a m p o r c o mp le to na le mb ra nç a , Te ssle r re c o lhe -a s e a c o lhe p a ra d e p o is se d e sp e d ir d e la s c o m a fe to , p o is, uma ve z já c irc unsc rito s e m sua me mó ria , nã o sã o c o mo o p ó q ue se e sva i a o ve nto , ma s c o mo a q ue le c o m q ue se fa z o b a rro p a ra c ria r o no vo ho me m, q ue na sc e e mo rre a c a d a d ia .

Evo c o a p a ssa g e m Bíb lic a : “ Do is de c a da e sp é c ie virã o a ti, p a ra

o s c o nse rva re s e m vida ”. Essa fo i a ta re fa de No é76 . Re c o rd o ta l

p a ssa g e m a q ui, uma ve z q ue tra z a me tá fo ra d a me mó ria a tra vé s d o s te mp o s, e ste to p o s é ‘ fa la ’ c o nsta nte na s o b ra s d a a rtista , q ue a p a re c e

74 BORGES, 2002, p. 28.

75 SANTO AGOSTINHO. Apud BORGES, 2002, p. 62. 76 Citado em BLOM, 2003, p. 201.

na c o ntra mã o d o s o b je to s e sq ue c id o s. Ao vivific a r, huma niza r a q uilo q ue o ho me m d e sc a rto u, re stitui-lhe s, re sg a ta -lhe s muita s ho ra s vivid a s, p e rd id a s, d e se ja d o s, re a liza d a s o u frustra d o s.

Ne sta s mo vime nta ç õ e s, c o isa s p e q ue na s, q ua se imp e rc e p tíve is, a nc o ra m a s d ig re ssõ e s na o b ra d e Te ssle r. Esse c e ntro q ue mo vime nta vid a s, c o mo um tra b a lho d e e sc a va ç ã o p e rma ne nte , c o nse g ue to c a r e m a lg o a lé m d a e xistê nc ia huma na ; um tra b a lho d e a mo r, um se g uir c o nsta nte , um ritua l.

Te ssle r, te m na lite ra tura a ma té ria -p rima p a ra a s na rra tiva s d e se us tra b a lho s, a liá s to d a sua o b ra é suste nta d a p o r a lg uma s p a la vra s, a p re se nta d a s e m o b je to s e insta la ç õ e s. Pa la vra s, e m c a da p a la vra ,

to da s a s p a la vra s77.

As p a la vra s d e so rie nta m, e é a ssim na s o b ra s d a a rtista , q ue tra ze m c o nsig o se mp re a a p ro p ria ç ã o d e um te xto , q ue o ra p o d e se r e sc o lhid o p o r e la , o u c o nfia d o à e sc o lha a o utro s: filha s, a mig o s o u c o nhe c id o s. No s se us tra b a lho s há fra g me nto s d e o b ra s d e vá rio s a uto re s, d e ntre e le s: And ré Bre to n, G uima rã e s Ro sa , Da rc y Rib e iro , T.S. Elio t, Ad é lia Pra d o , Le wis C a rro ll, Ja me s Jo yc e , q ue c o m fre q üê nc ia e sc re ve ra m/ e sc re ve m, e stive ra m/ e stã o e nvo lvid o s p o e tic a me nte c o m o s mo vime nto s c o tid ia no s, c o m a p o e ira d iá ria , a tra vé s d a e xp e riê nc ia , d a me mó ria , d a histó ria e d a a rte .

C o mo se vê , e m sua s o b ra s há o e nvo lvime nto d ire to d o ‘ o utro ’ q ue , e m to d o lug a r, é re p e tiç ã o do me smo78. Pe nso q ue ta lve z se ja uma

fo rma d e Te ssle r, fund ir o a uto b io g rá fic o a o c o tid ia no a lhe io e a ssim fa ze r uma re d e d e a p ro xima ç õ e s d e vid a s: uma re d e d e so lid a rie d a d e , d e e stima , d e histó ria s íntima s, d e le mb ra nç a s, q ue tra z c o nsig o re fle xõ e s, q ue q ue stio na m o a to d e ve r, q ue o b rig a m a mo vime nto s d e p e nsa me nto so b re a re la ç ã o d o q ue é visto .

Ao utiliza r ta l e stra té g ia d o e nvo lvime nto d ire to d o ‘ o utro ’ e m sua s o b ra s, Te ssle r, ta mb é m se a p ro p ria d e o b je to s d e uso c o tid ia no d e p e sso a s d e se u c írc ulo d e a miza d e , e a c a b a p o r e nvo lve r-se c o m o a rq uivo p e sso a l d e c a d a d o a d o r. Ta is o b je to s p a ssa m a se r um p o uc o se us, d e c a d a um, d e to d o s. A a p ro p ria ç ã o nã o é na d a ma is q ue uma no va p ro d uç ã o d e sig nific a d o s, e m me io a o p ro c e sso sub je tivo q ue c o nstró i a inte r-re la ç ã o o b je to -suje ito . Uma ve z q ue , já a b stra íd o d e sua funç ã o , o o b je to é q ua lific a d o p e lo suje ito q ue o c o nse rva , c e ssa , e ntã o , d e se r um c á lic e , uma g a rra fa , uma me ia , um sa p a to , uma me sa , p a ra se to rna r a lg o q ue e sta b e le c e no va s inte ra ç õ e s no mund o .

É inte re ssa nte a ssina la r q ue a re p e tiç ã o é p re se nte na o b ra d a a rtista . Em muita s d e la s, a a te nç ã o é c ha ma d a p e la a c umula ç ã o , a o a p ro xima r-se , se vê a sing ula rid a d e d e c a d a p e ç a , c o mo p a ra re fo rç a r q ue c a d a uma , e m p a rtic ula r, tive sse uma histó ria a se re ve la r... histó ria s d o s p a sso s, d o s c a minho s p e rc o rrid o s, d e se ja d o s o u nã o , vivid o s o u nã o , o u simp le sme nte so nha d o s, ima g ina d o s a c irc ula r. Ne ste se ntid o

há q ue se p e nsa r a re p e tiç ã o c o m o p ro no mina l, e nc o ntra r o sI me smo da re p e tiç ã o , a sing ula rida de no q ue se re p e te . Po is nã o há re p e tiç ã o se m um re p e tido r, ne m re p e tido se m a lma re p e tido ra79.

A re p e tiç ã o , c o mo a vid a , nã o é sub stituíve l p o rq ue nã o se d á se mp re d a me sma fo rma , e la é um se mp re re -re p e tir, um se mp re re to ma r, um e te rno vo lta r e m b usc a d e a lg o q ue já te nha o c o rrid o . Só a

re p e tiç ã o p o ssui a se g ura nç a se re na do p re se nte : c o m a re p e tiç ã o , a e xistê nc ia a nte rio r p a ssa a e xistir a g o ra , ma s, e xa ta me nte p o r isso , c o nté m um e le me nto e sse nc ia l de dife re nç a q ue to rna a e xp e riê nc ia , a o me smo te mp o , de te rmina da e únic a80. É a ssim q ue o tra b a lho d e

Te ssle r va i se te c e nd o , e m b usc a d e a lg uma fo rma d e c o munic a ç ã o , d e te rmina d a e únic a , d o s ind ivíd uo s c o m o simp le s e o fá c il d e tud o q ue o s e nvo lve . Ab rind o uma fre sta , p a ra um, um só q ue se ja , re sp iro íntimo , d ia nte d o s a fa ze re s to rtuo so s q ue o s d ia s no s re se rva m. Um e nc o ntro c o m a me mó ria .

79 FOUCAULT; DELEUZE, 1995, p. 97. 80 PERNIOLA, 2000, p. 30.

REC O RDO - O Lá no fundo e stá a mo rte , ma s nã o te nha me do . Se g ure o re ló g io c o m uma mã o , p e g ue c o m do is de do s o p ino da c o rda , p uxe -a sua ve me nte . Ag o ra se a b re o utro p ra zo , a s á rvo re s so lta m sua s fo lha s, o s b a rc o s c o rre m re g a ta , o te mp o c o mo um le q ue va i se e nc he ndo de si me smo e de le b ro ta m o a r, a s b risa s da te rra , a so mb ra de uma mulhe r, o p e rfume do p ã o .(...) E lá no fundo e stá a mo rte se nã o c o rre mo s, e c he g a mo s a nte s e c o mp re e nde mo s q ue já nã o te m imp o rtâ nc ia . Júlio C o rtá za r

Re c o rd o -o (ve rb o p ro nunc ia d o p o r Jo rg e Luis Bo rg e s a o fa la r d e

Fune s, O Me mo rio so ), a tre vo -me , e ntã o , ne ste insta nte , a usá -lo p a ra

fa la r d e um p a i. Re c o rd o -o , o s tra ç o s, a s linha s d o se u ro sto fo rte e se mp re c o ra d o . Re c o rd o -o , p o ssuía a lg o d e muito sing ula r no o lha r. Ro sto se ve ro , q ue nã o e sc o nd ia o a mo r d e se r, e q ue nã o vo lta re i a ve r, a to c a r. Re c o rd o nitid a me nte sua vo z, d e p o uc a s p a la vra s, g e stic ula va a o fa la r.

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