(...) Q ua nta s c o isa s.
Lima s, umb ra is, a tla s, ta ç a s, c ra vo s, Se rve m-no s, c o mo tá c ito s e sc ra vo s, C e g a s e e stra nha me nte sig ilo sa s! Dura rã o p a ra a lé m de no sso e sq ue c ime nto ; Nunc a sa b e rã o q ue p a rtimo s e m um mo me nto .
Jo rg e Luis Bo rg e s
Um c o rre d o r, um e sp a ç o e stre ito e c o mp rid o , fe c ha d o p o r trê s la d o s, só uma p o rta p a ra e ntra r, e um lustre p a ra ilumina r. É ne ssa sa la q ue e stã o d isp o sto s o s o b je to s d a insta la ç ã o d e Elid a Te ssle r, Do a do r, 1999, e xib id a na II Bie na l d o Me rc o sul e m Po rto Ale g re .
O b je to s q ue a p a rtir d a a p ro p ria ç ã o e d a c o la b o ra ç ã o d e a mig o s, fa milia re s, c o nhe c id o s, ma p e a ra m um mo me nto d e d o r d a a rtista , q ua nd o a o re me xe r o g ua rd a -ro up a d e sua mã e fa le c id a , d e p a ro u-se c o m muita s, muita s c o isa s q ue e la g ua rd a ra . Esta va ro d e a d a p o r um a c úmulo d e c o isa s, muita s c o isa s viva s e mo rta s, e mo rta s q ue ha via m vivid o . Ac a ric ia va -a s c o m o lho s c a ute lo so s. Vive u c a d a d e se jo se u a li, se ntia c o mo se o p e nsa me nto e ntra sse na s c o isa s.
A d o r fe z c o m q ue Te ssle r, c o mp a rtilha sse , na q ue le mo me nto , a d e lic a d e za d e uma me mó ria fa milia r a o e nvo lve r o ‘ o utro ’ e m se u p ro c e sso d e tra b a lho . So lic ito u a o s a mig o s a d o a ç ã o d e um o b je to c ujo no me d e via inc luir a p a la vra do r. Ilumina d o s a tra vé s d a le mb ra nç a , o s o b je to s o fe re c id o s p o r c a d a d o a d o r, fo ra m c he g a nd o a té à a rtista , q ue a ssim mo stro u sua c o le ç ã o , a p a rtir d e sua vid a e ma ra nha d a no ra stro d e o utra s vid a s. Histó ria s q ue se fize ra m, histó ria s q ue se fa ze m a p a rtir d o s fra g me nto s d e to d o s o s se ntid o s, se ntime nto s p a rtic ula re s d e c a d a um, p e sso a -o b je to .
Ne ste se ntid o , c a d a d o a d o r p a ssa a se r um c o le c io na d o r, q ue c o le c io na a o d e sfa ze r-se d e c o isa s, uma ve z q ue re c e b e o se ntime nto d e q ue m o s re c e b e u. Te ssle r nã o só d e le s se a p ro p rio u c o mo o s c o mp a rtilho u, o utra fo rma d e c o le c io na r, e ste nd e nd o -a a uma p o ssíve l c o munhã o c o m o mund o p a ra se to rna r p a rte d e le . C a da c o le ç ã o é
um te a tro da me mó ria , uma dra ma tiza ç ã o e uma mise -e n-sc è ne de p a ssa do s p e sso a is e c o le tivo s, de uma infâ nc ia re le mb ra da e da le mb ra nç a a p ó s a mo rte . Ela g a ra nte a p re se nç a de ssa s le mb ra nç a s p o r me io do s o b je to s q ue e vo c a m97 .
C a d a o b je to p re g a d o na s p a re d e s d o c o rre d o r, nã o é se nã o o
ve stíg io de ixa do p e la de sa p a riç ã o de to do o re sto98, d o d e suso c o mum
d a s c o isa s, q ue se nã o se rve m p a ra ma is na d a , a p e na s fa ze m uma p o nte d e le mb ra nç a s d e uma d o r, d e um luto .
97 BLOM, 2003, p. 219. 98BAUDRILLARD, 1997, p.34.
O o b je to , ne ste c a so , e vid ê nc ia a d o r d a fa lta q ue c a usa a q uilo q ue e ste ve a li, ma s a g o ra nã o e stá ma is. Re fo rç a d a na a usê nc ia d a mã e , p re se nte e m c a d a d e ta lhe , re fo rç a d a na p a la vra q ue no me ia o s d e ta lhe s d a s p e ç a s c o m o sufixo do r.
Re c o nstruir, a me mó ria , c o mo uma re d e d e d o a ç õ e s, a p a rtir de
se us fra g me nto s, e se g uindo sua linha q ue b ra da , sua s linha s de fra tura , a fo rma ma is se c re ta do O utro99. O o utro , o mund o , o o b je to , d e o nd e o
se r se re tiro u...
C a d a o b je to q ue é inc o rp o ra d o a no ssa vid a , se ja p e lo c a rá te r d e p o ssuir o u d e e ntra r no unive rso d e no ssa s re fe rê nc ia s p a rtic ula re s, p e rd e se u va lo r utilitá rio e a d q uire o utro , a g o ra “ o b je to p uro ” 100,
p riva d o d e sua funç ã o o u uso , to rna -se o utro , c o nfig ura -se c o mo a p re se nç a a tiva d o se r, d e uma vid a d e le mb ra nç a s. Bo rg e s a c re d ita va q ue a s c o isa s c o nc re ta s p e rma ne c ia m p a ra a lé m d o no sso e sq ue c ime nto , ne ste se ntid o inve nta rio u-a s e c a ta lo g o u-a s c o mo ma ne ira e fe tiva d e ma nte r viva a me mó ria d o mund o .
99 BAUDRILLARD, 1997, p. 34. 100 BAUDRILLARD, 2000, p. 94.
No e nta nto a ima g e m de la p e rma ne c e lig a da à do b a nc o , p a ra mim, nã o o b a nc o da no ite , ma s o b a nc o do a no ite c e r, de mo do q ue , fa la r do b a nc o , ta l c o mo e u via o a no ite c e r, é fa la r de la , p a ra mim. Isso nã o p ro va na da , ma s nã o q ue ro p ro va r na da101.
C o rredo r
Assim d o ado r, c o m: p re g ado r, a sp irado r, c o ado r, se c ado r,
e sp a nado r, ra lado r, a p a g ado r, b a tedo r, re g ado r, ve ntilado r,
liq uid ific ado r, b a stido r, a mo lado r, p re nd edo r, e b ulido r, me d ido r,
c o mp utado r, b a b ado r, a b rido r, e sc o rredo r, d e sp e rtado r, mo edo r,
e sp re medo r, tra nsfo rmado r, a p a g ado r, b a rb e ado r, a q ue c edo r,
a p o ntado r, ma rc ado r, p a ssado r... a c o nd ic io na d o s num c o rredo r
c o mp a rtilhado r.
A o b ra d e Elid a Te ssle r d isp õ e a s c o isa s uma a o la d o d a o utra , d e fo rma q ue a s b o rd a s q ue a s limita m se tra nsfo rme m e m p a ssa g e ns p a ra o utra s e ntid a d e s, ta mb é m e nc e rra d a s e m si me sma s: a me mó ria , o a uto b io g rá fic o , o te mp o , o e sp a ç o , a mo rte , a vid a .
Va lo riza o huma no , o a p re ç o q ue so b e ja d a s c o isa s p e rd id a s, me smo a s mínima s g a nha m d a a rtista um tra ta me nto a mig o , a sso p ra nd o no vo s sig nific a d o s, c o nfe rind o -lhe s, p o r fo rç a d a p ro ximid a d e , q ua lid a d e d e um c o njunto d e fra g me nto s, q ue é d a d o a vid a .
Tra ç a nd o uma trilha a fe tiva d o e sp a ç o , se ntime nto s se fund e m na re p e tiç ã o , na e sc rita , na p re se nç a , na a usê nc ia e no e nvo lvime nto d ire to d o o utro , c o mo “ va so s c o munic a nte s” , inte re ssa -lhe o c a minho
c o nstruído p e ç a p o r p e ç a , nã o a c he g a da102.
Se u fa ze r, g ra vita e m to rno d o unive rso c o tid ia no , se g ue p o r c a minho s mo ve d iç o s, re sg a ta , re g istra , c o to rna to d o s o s se us e sp a ç o s va zio s. Va zio s, q ue p e rmite m fa la r d o suje ito d a me mó ria : o ho me m. C o m sutile za e se nsib ilid a d e , c o nse g ue re c o lhe r d o mund o tud o q ue e stá à ma rg e m, na da me no s do q ue o s de se jo s, o s te mo re s, a s
c a ra s, a s intimida ç õ e s, a s a p ro xima ç õ e s, a s te rnura s, o s p ro te sto s, a s de sc ulp a s...103 c ha ma -no s a a te nç ã o p a ra um lug a r p a ra o nd e
c o nve rg e a vid a . Nã o a minha , a d e la , a tua vid a , ma s a vid a c o mo fo rç a sup re ma q ue ha b ita o c o ra ç ã o d o s ho me ns.
102 MANGUEL, 2005, p. 59. 103 BARTHES, 1978, p. 32.
Me a juda ra m, ma is do q ue vo c ê p o ssa a c re dita r, vivo s e mo rto s tive ra m sua ma ne ira de c o nvida r-me a a nda r a o se u la do , me mo stra ra m c a minho s q ue e u so zinho nã o te ria nunc a p e rc o rrido . Me de ixa ra m vive r p e rto de le s, me de ra m de p re se nte c o isa s, a te nte q ue é p o r isto q ue e ste livro é c o mo uma c a sa na q ua l vive mo s to do s junto s e na q ua l c a da um a do ta mó ve is e ja ne la s e la ta s de sa rdinha s e g a rra fa s e g uita rra s e sa p inho s e so b re tudo uma te ndê nc ia g e ra l a nã o se se nta r na s p o ltro na s, a nã o c o me r na me sa , a le r no b a nhe iro e a to ma r b a nho na b ib lio te c a , sup o ndo q ue ho uve sse uma .