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Principales contributions

Dans le document The DART-Europe E-theses Portal (Page 169-181)

As cuidadoras, todas do sexo feminino, tinham entre 22 e 57 anos. Sobre o estado civil, 50% delas eram solteiras, outras 37,5% eram casadas e 12,5% divorciadas. No que se refere ao grau de escolaridade, grande parte das cuidadoras não terminaram o Primeiro Grau (62,5%), e um grupo menor não concluiu o Segundo Grau (12,5%). Algumas completaram o 2º Grau (12,5%) e uma concluiu o Ensino Superior (12,5%). Em relação à etnia, a maioria delas tinha etnia branca (62,5%), sendo que 25% era negra e 12,5% parda. Com relação ao tempo de trabalho das cuidadoras na instituição, 62,5% delas trabalhavam lá entre nove meses a dois anos e 37,5% trabalhavam lá entre três a seis anos.

Todas as cuidadoras haviam sido convidadas a trabalhar na Casa de Acolhimento pela ex-gestora da instituição ou por outras pessoas ligadas a ela, na Secretaria de Assistência Social. As cuidadoras se revezavam em turnos diários e cuidavam, além das crianças, de todas as tarefas domésticas exigidas. A rotina de trabalho na instituição era organizada com horários fixos para a realização de tarefas diárias, fossem das cuidadoras ou das crianças. No período investigado, nenhuma das cuidadoras era concursada, não tinham formação específica ou experiência prévia de trabalho em outras instituições infantis. Elas tinham como experiências prévia (e, de alguma forma, isso fora considerado como pré-requisito à função pela gestora) o fato de serem mães, avós, tias ou mesmo, domésticas e babás em trabalhos anteriores.

Em diversos casos, as histórias de vida das cuidadoras abarcavam situações como o sustento de suas casas, junto ou não com seus cônjuges e filhos. Havia históricos de maus tratos na vida intrafamiliar (violência psicológica e violência doméstica); e, histórias envolvendo homicídios, prisões, orfandade e abandono no âmbito familiar. Uma das cuidadoras, inclusive, já havia sido acolhida na sua infância e adotada por mais de uma família.

Todas demonstraram gostar do trabalho na instituição. No entanto, cerca de 87,5% delas mencionaram não ser tarefa fácil a dinâmica das relações entre as colegas, citando vários fatores que dificultavam essas relações rotineiras, tais como: problemas na divisão de tarefas; problemas com quem não cumpria as tarefas atribuídas; a sobrecarga de atividades atribuídas; relações envoltas por disputas; fofocas; problemas na comunicação; e, discordâncias em relação às maneiras de lidar com as demandas advindas das crianças, fosse por rigidez no trato, falta de paciência travestida em xingamentos, alteração da voz, no jeito de pegar ou de falar com as crianças. Inclusive, em decorrências destes conflitos, ocorriam as mudanças de turno das cuidadoras. Estas mudanças

decorriam não só de conflitos na relação dos funcionários ou destes com as crianças, como também quando se tratava de colocar algum funcionário considerado mais rígido, na inserção de limites, em algum turno em que as cuidadoras estavam tendo mais dificuldades na lida com as crianças e os adolescentes. Assim, essa transitoriedade que emerge de mudanças de turnos entre as cuidadoras era, de certa forma, algo que ocorria com muita frequência.

No que se refere às relações com as crianças e aos adolescentes, as cuidadoras relataram que a maior dificuldade encontrada devia-se ao fato de que os acolhidos, muitas vezes, comportavam-se de maneira agressiva na relação com elas, ou com os objetos e com as outras crianças. Afirmam que, algumas vezes, ocorriam situações de as crianças e os adolescentes se expressarem de maneira mais hostil mediante regras ou pedidos feitos por elas; e, a depender da situação acabavam por agredi-las verbal e/ou fisicamente.

Sabe o que que eu percebi muito com as crianças? Aqui eles destroem muito os brinquedos! Parece que eles, a gana que eles têm, eles ataca nos brinquedos. As bonecas eles quebra a cabeça, arranca o pescoço. (...) Eles espedaçam os brinquedos! (Cravina, 37 anos)

Tudo o que um pega, o outro quer. Aí a Joana (08 anos) tá na bicicleta dela. O irmão mais velho, que sabe que não pode andar porque estraga, vai, toma a bicicleta e quer andar. Aí se vem uma cuidadora e intervém, pede pra não fazer isso... se você não for com jeito pedir pra não fazer, é o suficiente que - se ele tiver de mau humor - sai quebrando a casa inteira. Não sei se você já observou, as portas dos quartos foi trocada há pouco tempo (...) tá tudo arrebentado (...) Às vezes, acontece mesmo da cuidadora se machucar (...) morder na gente, acontece muito com cuidadora. (Cravina, 37 anos)

Algumas cuidadoras disseram que a rigidez no trato com as crianças podia deixá-las mais tensas na relação com o adulto e conceberam como atitude problemática o fato de se atribuir serviços de casa para as crianças, para além do que deveriam, em vez de oferecer atividades lúdicas, praticamente escassas na instituição. Apenas uma das cuidadoras considerou que a relação das funcionárias com as crianças era, em absoluto, uma relação positiva e sem problemas.

Com relação aos bebês, todas as cuidadoras trabalhavam diretamente com eles, nenhuma sendo específica para o atendimento e as demandas mais pontuais dessa faixa etária. As cuidadoras relataram não ter dificuldades no cuidado aos bebês acolhidos, exceto para atribuir significado ao choro dos bebês. Apenas uma das cuidadoras referiu-se ao cuidado com o bebê como algo difícil por demandar muita responsabilidade, particularmente quando envolvia problemas de saúde:

Essa função é muito gostosa... estar com o bebê assim, porque o bebê igual a nenezinha... A nenezinha chegou esses dias, você vai dar banho, você conversa com ela porque ela entende.

Você conversa com ela. Ali ela vai entender você, ela vai sentir que tá segura, ela não tá... como é que fala... abandonada, tem que alguém junto com ela (Angélica, 57 anos)

Você tem a dificuldade de saber o que ele tá sentindo... muitas vezes, vamos supor quando o bebê chegou hoje.. você não sabe como que foi... como que era lá fora...você não sabe porque ele tá chorando... a dificuldade pelo fato dele não falar... e então, nem sempre você vai adivinhar o que ele tá sentindo... você nem sempre você vai adivinhar tipo assim.. você tem uma noção de vamos supor, quando ele suja a fralda, quando ele tá com fome... Mas, da noção dele, vamos supor, ele tá sentindo uma dor... você não tem essa noção. Você tem que ir aprendendo pelo jeito dele... pelo que passando um tempo você vai saber tipo... vamos supor que tá sentindo uma dor... pelo jeitinho que ele tá (Narcisa, 22 anos).

A despeito de como eram compreendidos pelas cuidadoras os vínculos dentro da casa de acolhimento, havia uma cultura institucional que valorizava e prezava pela não vinculação das cuidadoras nas interações com as crianças. Como discutido no trabalho de Moura (2012) ao analisar outra instituição de acolhimento, a regra era não se apegar, nem deixar que as crianças se apegassem a elas, às vezes até sendo passível de advertência às conduções que infringissem essas regras. Foi possível perceber, no entanto, que, apesar de as cuidadoras terem seus discursos marcados pelas regras, estas desacreditavam da possibilidade de ter uma relação com as crianças sem que houvesse uma construção de relação afetiva.

Na prática cotidiana, as crianças pareciam demandar especificidades, das quais as cuidadoras eram sensíveis, tais como: preferências particulares de cada criança nas interações cotidianas, como as que envolviam a alimentação, a brincadeira, entre outros. Assim, foi possível perceber, neste contexto, momentos de interações permeadas por trocas afetivas de cuidadoras e crianças; e, em especial, de crianças e outras crianças, além de observar conflitos.

Há relatos de cuidadoras tensas com os choros dos bebês e ainda tensas com técnicos que pegavam os bebês, sobretudo porque não conseguiam cuidar das crianças e da casa ao mesmo tempo. Por outro lado, havia relatos de que os bebês eram pouco tocados, a não ser quando o toque viesse em decorrência de atividades rotineiras com eles (alimentação, banho). Havia incômodo com as demandas afetivas expressas por choros frequentes, já que normalmente não se tinha tempo de atender ou não era recomendado atender quando choravam.

A gerência mesmo diz que a gente não tinha que ficar mimando muito pra... Tem os tipos da regra, cê entendeu? (...) Aí eu fiquei pensando, falei "Meu Deus, será que eu vou ter que cumpri tudo isso?" "Não pode deixar ele beijar ocês, a gente não pode beijar eles", falei: "Ahaaa (indignada), isso não vai acontecer comigo, não!" "Eu gosto deles!" (Meio brava) Eu já falei de cara mesmo! "Vixe, eu acho difícil, porque cê vai trabalhar com aquela criança... como é que cê num vai pegar amor por ele? Aaah, mais pega mesmo! Tudo aqui tem regra, entendeu? Tudo tem regra! Só que nós...tem hora que desobedece as regra, não tem jeito!

Tadinho, eles têm amor em nóis uai, não tem como! (...) A Paola mesmo, ela não mama! Ela fica assim batendo a mão, não mama, agora ela acostumou mamar com a Margarida. Mas ela não mamava com a Margarida, com a Narcisa piorou (...) A Vini também não come com a Narcisa, só comigo! (Palma, 40 anos)

Olha, orientaram a gente foi muito bem, que assim, não pode deixar eles se apegar, a gente se apegar muito neles, mas (...) no dia-a-dia, não tem como (...) Eu acho que a gente não devia se apegar. Só que, com o tempo, a gente vai se apegando (...) a gente vai pegando até amor (...) Do mesmo jeito que eles chegaram aqui, de repente, eles podem ir embora e a gente nem sabe pra onde que foi... talvez nem vê mais. Mas não tem como. Tem criança que chega aqui, a gente bate o olho e já gosta (...) Com o tempo a gente percebe que elas também se apega na gente, porque a gente tá ali cuidando, de um jeito ou outro, a gente dá amor, dá carinho

(Margarida, 42 anos)

Não é todo dia que tem um psicólogo aqui.. e então, vamos supor, que tem um dia que ele não tá legal.. ela tá chorando por algum motivo. Você não é psicólogo e ela tá ali...tentando de qualquer jeito ajudar pra não fica triste, você acaba tentando ajudar (...) O bebê, principalmente quando ele chega, você conhece a história de vida dele...você acompanha o desenvolvimento... você acompanha os primeiros passinhos...você acompanha tudo! Querendo ou não, você cria aquele vínculo, você acaba tendo um sentimento por ele (Narcisa,22 anos) A gente pega afetividade (...) Eu não sei se deve ocorrer, mas nós somos assim seres humanos e temos emoção, sentimento. E, por incrível que pareça, a emoção do coração às vezes ela manda mais do que a da razão. (...) Aqui eu procuro ponderar um pouco. Mas eu pego afetividade, gosto das crianças (...) Como que você vê um bebezinho e não pega amor por ele? (...) Mas eu tento colocar na minha cabeça que eu quero bem pra eles, que eles têm que ter uma família fora (Cravina, 37 anos)

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