• Aucun résultat trouvé

4.2 Primitives du langage AirNet

4.2.1 Primitives d’un Edge

Podemos observar nos trechos transcritos que houve a utilização de diferentes modos de falar sobre o calor, que podem ser relacionadas às diferentes zonas do seu perfil conceitual.

É muito comum a utilização pelo instrutor, nos dois trechos transcritos da aula, de termos consolidados pela ciência para se referir aos processos de troca de calor: “perder” e “ganhar” calor. Contudo, outras formas similares de se referir ao

calor, mas não tão familiares à ciência, também são encontradas, tais como: “adicionar”, “mandar”, “pegar” calor ou, em sentido contrário, “eliminar”, “ceder”, “rejeitar” e “tirar” calor. Esses modos de falar referem-se, mesmo que inconscientemente, a um conceito de calor como algo material, uma espécie de fluido contido nos corpos, o que corresponderia à zona do perfil conceitual de calor substancialista.

Outras formas de se referir ao calor também podem ser observadas, tais como “vai estar quente” e "mandar essa temperatura toda”. A noção de quentura, nesse contexto, está associada tanto à sensação térmica como à ideia de quente como temperatura elevada. Já ao se mencionar “mandar” a temperatura para o compressor ou para o ambiente externo, o instrutor parece tratá-la com o sendo o próprio calor. Observamos novamente outras formas importantes, para essa comunidade, de se referir ao calor: como sinônimo de temperatura alta ou como a própria temperatura.

Além das ideias relacionadas ao uso do calor como substância, sensação térmica ou temperatura, o instrutor faz uso de expressões que fazem referência ao tratamento do conceito de calor pela ciência, tais como “fluxo de calor”, “troca de calor” e “equilíbrio térmico”. Esses modos de falar relacionam-se ao tratamento do conceito de calor como sendo proporcional à diferença de temperatura entre dois corpos. Essa é uma categoria ontológica diferente de considerá-lo uma substância, uma vez que o calor é tratado com uma forma de energia em trânsito comparável com a energia do compressor, presente no processo.

Na parte destacada em negrito, é possível perceber que o instrutor, além da linguagem científica, também utiliza as linguagens do seu contexto profissional e cotidiano. No mesmo enunciado em que explica sobre a troca de calor e o equilíbrio térmico, utiliza ideias cotidianas – “toda hora que eu abro a geladeira mando mais ar quente lá para dentro” – e técnicas – “o evaporador vai sempre absorvendo, absorvendo e o compressor sempre tentando eliminar, eliminar esse calor”. Essas formas de falar sobre o calor, que o tratam como algo material, dialogam com o conceito científico de calor, na medida em que, ao longo da construção histórica do conceito de calor, os cientistas o trataram com fluido. Mesmo após o declínio da teoria do calórico, em prol da perspectiva do calor como energia em trânsito entre os corpos, o tratamento do calor como um fluído não é completamente abandonada.

Durante o estudo e a proposta de explicação para o funcionamento das máquinas térmicas, o próprio Sadi Carnot chegou a fazer a analogia do calor como sendo um fluido que passaria de um corpo mais quente para outro mais frio. Nessa perspectiva, o calor seria como a água que escoaria entre dois recipientes conectados que se encontrassem em níveis diferentes, em termos de altura da sua coluna, até que os níveis nos dois recipientes fossem iguais. Nesse sentido, percebemos que o tratamento que a ciência dava ao calor como sendo uma substância é importante para explicar o funcionamento das máquinas térmicas.

O manual dos técnicos em refrigeração, ao abordar sobre os componentes da unidade selada, afirma que

A finalidade do evaporador é absorver calor proveniente de três fontes: o calor de penetração através da isolação, o calor da infiltração devido à abertura de portas, o calor dos produtos guardados. [...]

Uma das unidades básicas do sistema de refrigeração é o condensador, que tem como finalidade liberar o calor absorvido no evaporador e o calor acrescentado na compressão. Essa liberação de calor provém da mudança de estado físico de vapor para líquido. A capacidade de transferência de calor no condensador depende da superfície, da diferença de temperatura existente entre o refrigerante que se condensa e o meio ambiente externo, da quantidade de refrigerante e da condição de transmissão de calor. (SERVIÇO NACIONAL DE APRENDIZAGEM INDUSTRIAL, 2001).

É possível perceber, nesse trecho, que há uma forma de apresentação da função dos componentes de forma a dialogar com o conceito científico de calor, em que, para haver funcionamento da máquina, é necessário que haja diferença de temperatura entre a condensação do fluido refrigerante e o meio externo, para que assim ocorra uma transferência de calor do ambiente interno para o externo. Observamos assim um modo de falar pertencente ao discurso científico. “A capacidade de transferência de calor no condensador depende da superfície, da diferença de temperatura existente entre o refrigerante que se condensa e o meio ambiente externo, da quantidade de refrigerante e da condição de transmissão de calor”. Mas, atrelado a esse discurso, calor é tratado como uma substância, o que pode ser identificado na utilização de termos como: “absorver calor”, “penetrar” ou “infiltrar” calor.

No trecho, é possível observar ainda que, diferentemente de aula, em que predomina um gênero narrativo, ocorre algo típico do discurso científico. A frase começa com um grupo nominal – A capacidade de transferência de calor no

condensador – e o verbo a seguir, no lugar de denotar uma ação ou um estado,

denota uma relação com os próximos grupos nominais. Essa estrutura – grupo Nominal + verbo de relação + grupo nominal – é típica do discurso científico, no qual os processos são congelados em grupos nominais e os verbos estabelecem relações entre os processos. Para Mortimer (1998),

Enquanto na linguagem comum predominam narrativas que relatam sequências lineares de eventos, a linguagem científica congela os processos, transformando-os em grupos nominais que são então ligados por verbos que exprimem relações entre esses processos. A linguagem científica é, portanto, predominantemente estrutural enquanto que a linguagem cotidiana é linear, apresentando uma ordem sequencial que é estabelecida e mantida. Na linguagem científica, o agente normalmente está ausente, o que faz com que ela seja aparentemente descontextualizada, ocultando a perspectiva de um narrador. Na linguagem cotidiana, o narrador está sempre presente. (MORTIMER, 1998, p. 102).

Enquanto no discurso da aula o instrutor personifica o condensador, o compressor e o fluido refrigerante, atribuindo a esses artefatos uma ação no processo de refrigeração, na apostila o texto foca nas condições necessárias para que esses artefatos participem do processo de transferência de calor.