Partie 2 Contributions
3.1. Positionnement bibliographique
3.1.2. Première solution : Secure OLSR [82]
As opções e as definições em torno da organização do texto definem e expressam, ao mesmo tempo e em grande medida, a configuração do próprio objeto58. A escrita constitui, na verdade, um dos principais momentos do trabalho de interpretação59.
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Como explicita Arlete Farge, a tensão entre o desejo de recolher o arquivo “inteiro” e a necessidade de submetê-lo às exigências da “operação historiográfica” para dar-lhe inteligibilidade parece intrínseca ao trabalho com a História: "La tension s'organise – souvent conflictuellement – entre la passion de la recueillir tout entière, de la donner à lire toute, de jouer avec son côté spetaculaire et son contenu illimité, et la raison, qui exige qu'elle soit finement questionnée pour prendre sens." (p.22)
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“...esse exercício sistemático de comparação e confrontação é a um tempo uma ‘arte racional’ e uma ‘arte de fineza’, afastada de toda regra mecânica” (Jean Boutier e Dominique Julia, 1998, p.37).
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Cf. Michel de Certeau, 1982.
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“Daí a atenção dada ao trabalho de escrita que participa da inteligência do material: a história permanece fundamentalmente um relato (...) e a forma desse relato é consubstancial à compreensão do objeto.” (Jean Boutier e Dominique Julia, 1998, p.49, grifo dos autores).
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Creio não ser desnecessário lembrar que a escrita da história constitui uma narrativa. A aparente coerência que a caracteriza não é resultante de uma suposta verdade histórica intrínseca ao objeto estudado ou aos documentos trabalhados: além de ser produto de um trabalho rigoroso de pesquisa, é também fruto da elaboração de um discurso verossímel: “En effet, si l'histoirien est bien un narrateur, il est aussi celui qui explique et convainc, donne longuement ses raisons parce qu'il sait qu'on peut lui en opposer d'autres. Ainsi la première illusion à combattre est-elle celle du récit définitif de la vérité. L’histoire, en effet, est une manière de faire que ne fonde pas un discours de vérité contrôlable en tous ses points; elle énonce un récit qui réunit la formulation d'une exigence savante, et une argumentation où s'introduisent des critères de véridicité et de plausibilité." (Arlete Farge, 1989, p.115). Para uma discussão sobre esse tipo de questão, ver, entre outros, Hans-Robert Jauss (1987), Hayden White (1992 e 1994), José Américo Pessanha (1992), Luís da Costa Lima (1988), Paul Veyne (1982), Peter
Experimentei, no processo de escrita do texto, diferentes caminhos, alguns dos quais revelaram-se pouco adequados à compreensão do objeto60. Em mais esse processo de idas e vindas, cheguei à organização atual do texto que reflete, entre outras questões, pressupostos teóricos comuns a alguns estudos sobre leitura e história da leitura e uma das conclusões resultantes do próprio trabalho de pesquisa: os efeitos de leitura esperados pelo autor e/ou editor não coincidem com os usos e as apropriações realizados pelos leitores empíricos em suas práticas concretas de leitura61.
Gay (1990). Para uma síntese da discussão, ver o capítulo introdutório de minha dissertação de mestrado ou artigo publicado sobre o tema (Galvão, 1994, 1996 e 1998).
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A escrita torna-se, na “operação historiográfica”, fonte de reflexão do pesquisador acerca de seu próprio objeto de pesquisa: "A l'historien non seulement d'en faire le récit, mais l'instituer en moteur de sa réflexion, source de son propre récit." (Arlete Farge, 1989, p.59). Em uma das tentativas que realizei, por exemplo, ao analisar o conteúdo dos textos dos folhetos a partir de algumas categorias, acabei por estabelecer uma relação quase direta entre ele e uma caracterização do leitor/ouvinte que buscava compreender. O texto, resultado desse tipo de análise, comum nos estudos sobre literatura de cordel, pouco contribuía para uma maior aproximação e compreensão do objeto da pesquisa. Em geral, os autores afirmam que os folhetos registram “as impressões do povo” a respeito de acontecimentos que ocorrem na sociedade, expressando “...a maneira de ver e analisar os fatos sociais, políticos e religiosos da gente rude do interior nordestino, fotografada nas páginas dos folhetos, denunciando costumes, atitudes, preferências e julgamentos.” (Renato C. Campos, 1977, p.10). Esse tipo de premissa e o procedimento de pesquisa que dela decorre têm sido freqüentemente criticado por historiadores da leitura e, embora tivesse conhecimento dessas críticas, caí nas malhas da mesma armadilha: “A crença, embora não declarada, na invariabilidade e na universalidade do fenômeno da leitura trouxe, pelo menos, outra conseqüência no âmbito dos estudos de história do livro e da leitura. Há uma tendência, em alguns trabalhos, de se associar diretamente o corpus de textos lidos por um grupo social específico com as mentalidades ou as visões de mundo daquele grupo, em uma determinada época. Essa tendência, que alguns autores denominam de sociologia histórica da cultura, busca estabelecer correlações diretas entre classes sociais e produções culturais. Esses estudos, em muitos casos, consideram um corpus específico de textos tradicionalmente considerados como “populares”, como os livros da bibliothèque bleue ou os almanaques (ver os estudos clássicos de Mandrou, 1985 e Bollème, 1969 e 1971), como expressão, ou mesmo reflexo, de uma suposta mentalidade popular. Esse tipo de estudo parece pressupor que há uma associação direta entre o texto e a recepção do leitor, ou, em outras palavras, que a leitura não é uma atividade produtora de significados. Não consideram, portanto, o que estudos mais recentes afirmam: há mediações de vários níveis entre texto e leitor. No caso da bibliothèque bleue, por exemplo, os textos não eram, necessariamente, em sua origem, destinados a um público “popular”: a análise da fórmula editorial dos livretos possibilita mais pistas para a identificação de seu público leitor do que o próprio conteúdo dos textos (ver, por exemplo, Chartier, 1990a). Não se pode inferir sobre as representações, crenças e valores de um determinado grupo somente a partir do que ele lê, declara ler ou possui em sua biblioteca particular e seleciona como bem inventariado. A distribuição de um produto cultural não revela tudo; pelo contrário, sua apropriação, sua utilização e seu consumo são tão importantes para a realização de uma história da leitura quanto sua circulação, em vários casos, aliás, muito mais fluida do que se pensa. As relações entre objetos de leitura e grupos sociais são muito mais complexas. A história da leitura tem procurado focalizar, hoje, principalmente, as formas de ler: como os mesmos textos, os mesmos livros eram lidos de maneiras diferentes por grupos sociais diferenciados.” (Antônio Augusto Batista e Ana Maria Galvão, 1999, p.19).
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“Móveis e instáveis, dependentes das configurações sociais que o produzem, que o reproduzem e a que se destinam, os textos, por fim, se diversificam tendo em vista as práticas e os leitores que efetivamente deles se apropriam. Por mais que os produtores do texto e do impresso multipliquem seus protocolos de leitura e procurem orientar os mínimos movimentos do leitor, sua atualização, seus
ANA MARIA DE OLIVEIRA GALVÃO
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O trabalho está dividido em duas grandes partes. Na primeira, composta de dois capítulos, busco indícios de quem era o leitor/ouvinte visado pelos autores/editores de folhetos, no período estudado, a partir, principalmente, da análise dos próprios cordéis: texto e objeto material. Ainda nessa parte, comparo o texto de um dos folhetos analisados com notícias veiculadas em um jornal da época sobre o mesmo assunto nele tratado. Na segunda parte da tese, composta de cinco capítulos, busco me aproximar do leitor empírico, buscando caracterizá-lo (inclusive em relação aos níveis de sua inserção no mundo letrado) e reconstruindo as formas de acesso que tinha aos folhetos, as situações de leitura/audição desses impressos e os papéis atribuídos a sua leitura e/ou audição. As entrevistas, as memórias e os romances foram as principais fontes utilizadas nessa parte do trabalho.
Depois de realizar essas reflexões sobre a escolha do tema deste trabalho, sobre a metodologia utilizada e dessa breve incursão em alguns dos aspectos que considero mais significativos na trajetória da literatura de folhetos no Brasil, passo aos dois núcleos centrais do trabalho – a primeira e a segunda partes - que buscam, em conjunto, levantar hipóteses acerca de quem era o leitor/ouvinte de folhetos no período de apogeu desse tipo de literatura, ou seja, entre as décadas de 30 e 40, e como se davam as práticas de leitura/audição desse tipo de impresso, em Pernambuco.
usos e os significados que serão de fato produzidos encontrarão sempre nos contextos de leitura um regime de condições que poderá ou não favorecer a realização das leituras visadas. Por um lado, do mesmo modo que autores e produtores do livro, os leitores estão também - quanto maior for o grau de institucionalização das situações em que lêem - submetidos às múltiplas determinações que organizam as esferas sociais em que utilizam os textos. Por outro lado, eles são socialmente formados, compartilham um conjunto de competências e um horizonte de expectativas em relação aos textos e a sua leitura que não é, necessariamente o previsto pelos produtores dos textos. Podem desenvolver, portanto, formas de apropriação que pouco têm a ver com aquelas visadas em sua produção e constituir, desse modo, um novo texto, com novos objetivos, novos usos, novos significados.” (Antônio Augusto Batista e Ana Maria Galvão, 1999, p.25).
PRIMEIRA PARTE
Q
UEM ERAM OSL
EITORES/O
UVINTES DEF
OLHETOS:
ANA MARIA DE OLIVEIRA GALVÃO
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