É, pois, partindo deste conceito de tradução estabelecido pela fenomenologia hermenêutica 47 que abordaremos a recepção de Heidegger em língua portuguesa, visando não apenas mostrar as deslocações de sentido e as distorções que acompanham a recepção de Heidegger em língua portuguesa, mas ainda avaliá-los e interpretá-los, de acordo com o quadro de referência teórico e metodológico que esse conceito determina.
Uma investigação deste género confronta-se desde logo com a abundância e a disparidade de fontes a analisar e o risco de dispersão, pelo que se impôs a definição de um critério de selecção do tipo de textos a incluir na análise. As traduções, em sentido estrito, foram analisadas no seu conjunto e integradas no contexto geral da história da tradução filosófica portuguesa: renunciámos a uma análise crítica das “traduções” em sentido estrito e a produzir quaisquer juízos de valor sobre a qualidade dos textos produzidos, decidindo se se situam ao nível trivial da amálgama informe, de transposições gramaticais irreflectidas, de híbridos gramaticais que não pertencem a nenhuma língua, ou se, pelo contrário, traduzem uma estratégia coerente de recriação do texto em língua portuguesa, atenta aos problemas de transposição do vocabulário filosófico e
47 Cf. Von Herrmann, (Im Spiegel der Welt: Sprache, Übersetzung, Auseinandersetzung, 111): “[…]
Phänomenologie ist nach dem Methodenparagraph von Sein und Zeit: das was sich zeigt, so wie es sich von ihm selbst her zeigt, von ihm selbst her sehen lassen (SuZ, 34). Nicht nur versteht sich die Phänomenologie Heideggers als hermeneutische, als auslegende Phänomenologie, sondern auch umgekehrt bestimmt Heidegger die Auslegung als phänomenologische, hörend-sehenlassende Auslegung.
às fontes filológicas dos textos heideggerianos. Esta análise, do maior interesse, e complementar do agora investigado, não poderia ser aqui levada a cabo e esse trabalho dos tradutores interessou-nos apenas enquanto indício da difusão do pensamento de Heidegger e da sua introdução no seio do pensamento português.
Na tradução que nós próprios fizemos da terminologia heideggeriana optámos por seguir o léxico estabelecido pelo projecto Heidegger em Português que acompanhou as traduções já publicadas e, relativamente a Ser e Tempo, adoptámos o procedimento habitual de seguir a tradução estabelecida por Gaos.
Fomos ainda obrigados a determinar o período a investigar, tendo como preocupações os limites impostos pela exequibilidade da investigação, e também a necessidade de nele incluir um número suficientemente significativo de fontes. Delimitámos o período entre 1938 e 1989: este período aparece-nos naturalmente limitado pela publicação do primeiro texto de Delfim Santos sobre Heidegger (“Heidegger e Hölderlin ou a essência da poesia‖, Revista de Portugal, Lisboa, nº4, 193848): no entanto, a maior parte dos trabalhos analisados são posteriores à data de 1952, ano seguinte à tradução espanhola de Gaos de Sein und Zeit, importante marco no domínio da tradução e da difusão do pensamento de Heidegger, até aí conhecido através de traduções francesas fragmentárias e parciais.49
Embora a partir dos anos 30 já houvesse em Portugal algum conhecimento de Heidegger através de traduções francesas, só a partir dos anos 50 e 60 encontramos um número significativo de fontes que permitem fixar uma tentativa de superar uma leitura centrada na problemática existencial, e os primeiros esforços para traduzir linguisticamente em português uma compreensão mais globalizante do filósofo alemão.
Depois do caso isolado que foi a tradução de Vom Wesen der Wahrheit em 46, só nos anos sessenta se iniciou a tradução regular das obras de Heidegger 50, com a tradução de Ernildo Stein de Einführung in die Metaphysik em 1966 e a tradução de Über den Humanismus. Brief an Jean Beaufret, onde a linguagem
aparece pela primeira vez como a questão fundamental, por Carneiro Leão no Brasil em 1967 e por A. Stein em Portugal em 1973.
Neste período é ainda publicado um número significativo de obras sobre Heidegger, assim como múltiplos artigos em revistas de língua portuguesa, por autores como Ernildo Stein, Zeljko Loparic, Eduardo Abranches de Soveral, Manuel Antunes e outros.51
Neste segmento temporal encontramos também a publicação de obras de pensadores que, em língua portuguesa, procuram encetar um diálogo com Heidegger, tendo esse diálogo um papel estruturante na sua produção filosófica.
Em Portugal, Delfim Santos, que tinha uma formação filosófica extensa e actualizada, tornada possível pela sua condição de bolseiro na década de 30 na Áustria e na Alemanha, conhecia as obras de Husserl e Heidegger, que divulgou através de numerosos artigos e comunicações, entre os anos de 1938 e 1966, explorando as implicações duma leitura existencial de Heidegger em diversos campos da cultura, como a educação, o direito e a psicoterapia.
O Grupo de São Paulo, centrado nas figuras de Eudoro de Sousa e Vicente Ferreira da Silva, produziu uma reflexão sobre as relações entre história, poesia e mito, que muito devem à leitura de Heidegger, como podemos constatar pela leitura de Ideias Para um Novo Conceito de Homem (1951) de Vicente Ferreira da Silva e Mitologias I (1981) e Mitologias II (1982) de Eudoro de Sousa.
José Enes, a partir de 1969, tem reflectido sobre o problema do ser e da linguagem, fortemente influenciado pela leitura daquilo a que é costume chamar-se o “segundo Heidegger”, inspirando-se nessa leitura para fazer uma reapropriação do pensamento de São Tomás de Aquino e da tradição escolástica.
Pensamos assim ter seleccionado um período suficientemente significativo, pela abundância e relevância dos textos que assinalam a recepção de Heidegger: traduções, artigos de revistas, dissertações académicas e obras originais. Dentre esse conjunto díspar de fontes, procedemos a uma selecção
dos autores e dos textos, a partir do pressuposto de que uma interpretação tem êxito apenas quando ela presta atenção e escuta o texto que traduz e o que nele é dito, de tal modo que num tal escutar põe a caminho uma discussão interpretativa.52
Pudemos, assim, seleccionar, como autores mais significativos Delfim Santos, Vergílio Ferreira, Eudoro de Sousa, Vicente Ferreira da Silva, Gerd Bornheim e Ernildo Stein, assim como José Enes e Emmanuel Carneiro Leão.
Um segundo problema metodológico foi a necessidade de optar entre um critério histórico-descritivo, que apresentasse a evolução da interpretação de Heidegger de uma geração de pensadores para outra, dando conta da sua progressiva incorporação na língua e cultura lusófonas e um ponto de vista sistemático, capaz de classificar e sistematizar os contributos dos vários autores de acordo com a sua direcção interpretativa.
Optámos por tentar conciliar os dois critérios, procurando num primeiro momento articular uma perspectiva histórica, que integra a tradução de Heidegger na história da tradução portuguesa de filosofia, e num segundo momento articular e agrupar os autores de acordo com a perspectiva (Blickrichtung) a partir da qual abordam o pensador alemão.
Na organização dos seus textos usámos como critério as diferentes vias de acesso ao pensamento heideggeriano, independentemente dos autores se situarem de um ou do outro lado Atlântico, questão de somenos importância, porquanto autores portugueses e brasileiros dialogam entre si e influenciam-se reciprocamente, no âmbito da língua comum.
Assim pudemos ordenar os textos e os autores de acordo com as 4 direcções interpretativas:
Sentido e existência; Ontologia e finitude; Mito e logos;
Hermenêutica e desvelamento do ser.
A compreensão da tradução como Ereignis orientou a selecção do caso especial de Vicente Ferreira da Silva como objecto de estudo. Escolhemos a análise do caso deste pensador brasileiro, pois ele desenvolveu um pensamento original em torno da relação entre mito, poesia e filosofia, a partir dum intenso diálogo com o pensamento de Heidegger.