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Après que la première dent est sortie :

Dans le document Tendres soins. De 6 à 12 mois (Page 108-111)

No ano de 1998, o jornalista Cláudio Tognolli denunciou a chamada “Máfia do Dendê”, disfarçada de liberal e intelectual, mas que nos bastidores controlava a produção de música brasileira em um estilo que também chamou de carlismo123 musical. A dupla Caetano/Gil é freqüentemente apontada no meio musical como cabeça desse esquema e como influenciadora, patrocinadora de amigos, orientadora de tendências e adeptos do nepotismo, o que sugere a analogia com a Máfia italiana. Segundo Sanches:

(...) a gana de uma nova geração que começara havia pouco a se instalar – e que ficaria para sempre conhecida como geração tropicalista – era justamente de sepultar a ordem vigente. Os tropicalistas, Caetano à frente, chegavam não para reatar a linha evolutiva da música popular – como ele mesmo gostou de propagar à época e, depois, para sempre - mas para encaminhá-la a outra e diversa direção, mesmo que derrubando o que aparecesse pelo caminho. (...) instigavam apenas (se puder ser cruel), a dança da solidão, o eterno (até então, pelo menos) conflito geracional que sempre levou (até então, pelo menos) a arte para frente e para cima.

Por ser um assunto tão novo e polêmico, não existe muita bibliografia sobre a repercussão da entrevista, porém, na Internet é possível encontrar muitas entrevistas e críticas sobre o assunto. Academicamente, temos as monografias “No Rastro do Dendê” de Gustavo B. Martins e, “Decadência Bonita do Samba”, editado em livro,

por Pedro Alexandre Sanches. É a partir deste material que esse trabalho pretende investigar a suposta existência e conseqüências do esquema pelo qual os agentes vitoriosos do tropicalismo controlam o campo musical e utilizam-se da violência simbólica para manter sua hegemonia.

Segundo Tognolli, a Máfia do Dendê têm exercido, desde a década de setenta, controle sobre cadernos culturais brasileiros, ditando pautas e opiniões. “Quem fala muito mal deles em grande órgão de imprensa não dura”, disse Tognolli na ocasião, citando o caso de Luís Antônio Giron, musicólogo, que teria sido demitido de um jornal de São Paulo porque não entrou no esquema da “máfia”. “O pagamento da Máfia do Dendê não é em dinheiro, é com uma aura de glamour e convívio.” Jornalistas com cargos executivos freqüentam as festas, as coberturas e entram na roda da “máfia”, que funcionaria como um lobby, um grupo de pressão.

Jogando com os conceitos de Bourdieu, a Máfia do Dendê mantém seu status administrando e cedendo capital simbólico “aura de glamour e convívio” e exercendo a violência simbólica para cooptar, influenciar e intimidar membros da imprensa. Para o Jornalista Eduardo Carvalho:

Ninguém ousa desafiá-los: não tem espaço, se for músico; e perde o emprego, se for jornalista. É um esquema canalha e corrupto, mas nunca discutido. Um método grotesco de promoção da mediocridade, que afoga a criatividade e cala a resistência. Isso é, em bom português, ditadura. Imposta exatamente pelos metidos a bacanas que, há poucas décadas, brincavam de oposição. E, hoje, lucram com isso, colecionando elogios de celebridades, de Sontag a Almodóvar, e dinheiro fácil, incorporando estilos e reciclando fórmulas [...] A doutrinação,

que começa na escola - com Caetano elevado a poeta erudito - e passa pela imprensa - como se fossem eles expoentes do bom gosto. 124.

Para Bourdieu, o campo jornalístico, nascido no século XIX, tem uma lógica específica que constrange e controla os jornalistas. Os invariáveis do campo são, por um lado, o pólo intelectual, associável ao jornalismo de qualidade; e, por outro lado, o pólo comercial, associável às vendas, tiragens e audiências. Os dois pólos legitimam- se de forma diferente. O primeiro legitima-se pelo reconhecimento dos valores internos do campo e o segundo pelo reconhecimento do lucro e do sucesso comercial. Segundo Bourdieu, enquanto a lógica do comercial tenta impor-se através de idéias feitas, comuns e banais, familiares e reconhecidas por todos, a lógica do pólo intelectual tenta impor-se desmontando as idéias feitas e demonstrando a sua superficialidade.

Desta forma, ser apadrinhado dos baianos é, muitas vezes por si só, garantia de sucesso. Ganhar a benção de Caetano Veloso e Gilberto Gil, imortalizada pela expressão “é lindo”, demonstrava uma qualidade simbólica, acima de qualquer qualificação musical e artística. Por outro lado, quem não possui essa benção ou se rebela contra ela sofre as sanções do campo e da violência simbólica. Em entrevista ao portal Terra, o roqueiro baiano Marcelo Nova comenta a existência e as conseqüências da Máfia do Dendê:

Ela existe, evidentemente. É que a palavra "máfia do dendê" é uma maneira de tornar a coisa mais "engraçadinha", quando ela não tem nada de engraçadinha. É a força do poder econômico, de todos esses blocos emergentes da Bahia nesses últimos 10 anos, que se uniram, fortaleceram e

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tentaram implantar um regime ditatorial musical. É o poder econômico, não tem nada a ver com qualidade. É o poder da grana. Por exemplo, para mim é muito mais fácil tocar em Xanxerê, em Santa Catarina, uma cidadezinha pequenininha, do que tocar em Salvador que é a terra em que nasci. [...] Não quero ser aceito por coisa nenhuma, por esse lance de clube dos baianos, não me interessa isso. É um domínio da coisa obtusa regional. A idéia é "vamos dar as mãos para que não surja nada que nos impeça de continuar sendo os donos da bola".125

Anteriormente, Caetano Veloso já havia discutido algo a respeito de seu papel de liderança e poder na Música Popular Brasileira. Sobre o assunto declarou em 1972 em entrevista a Ricardo Verspucci e Wilson Moherdavi:

Eu creio que não descubro em mim nenhuma vocação para o poder, entende? Não gosto de responder como líder de nada. [...] Me angustia o fato de parecer que eu tenho poder, me dá angústia mesmo, muito grande. Me dá medo, como se fosse um destino, entende? [...] porque eu não

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