As diferenças entre o português brasileiro e o português europeu estão presentes em vários níveis da língua, o que deu lugar a um “abstand” ou distância linguística na língua falada, mas também ocorreu uma cisão em certas áreas da norma-padrão entre Portugal e Brasil, dando lugar a uma língua bi-normativa. Alan Baxter (1992, p. 23-30) esboça algumas distinções, das quais apresentaremos aqui as mais centrais. No plano da fonética, a diferença entre o PE e ou PB são bastante salientes.
Vogais:
i. Em Portugal, as vogais são elevadas e reduzidas, em particular, as vogais anteriores médias. Como já foi mencionado, essas diferenças se devem em grande parte às mudanças ocorridas na formação do Português lusitano moderno ao longo do século XVIII, enquanto o Brasil manteve traços fonéticos do português clássico.
Brasil Portugal
Falar [fa’laR] [fα’lar]
Pedir [pe’d ʒiR] [p(ë)δir]
Cidade [si’dadʒi] [si’δaδ(ë)]
Morar [mo’raR] [mu’rar]
ii. No PB, uma vogal epentética é inserida entre uma sequência de consonantes onde a primeira consoante é oclusiva:
Brasil Portugal
Capturar [Kapitu’raR] [Kαptu’rar]
Consoantes:
i. No PB, a sílaba final /l/ é labializada [w], enquanto no PE é velarizada [ɫ]:
Brasil Portugal
Brasil [bra’ziw] [brαsiɫ]
ii. No PB, /t/ e /d/ são palatalizados [tʃ] e [dʒ] diante de uma vogal anterior alta:
Brasil Portugal
Tio [tʃiu] [‘tiu]
De (a preposição) [dʒi] [dë]
iii. No PE a sílaba final sibilante é palatalizada, enquanto no PB ocorre só em certas regiões como Rio de Janeiro, Belém do Pará, Florianópolis e sudeste do estado Amazonas:
Brasil Portugal
Atrás [a’tras] [α’traʃ]
iv. No PE, /b/ e /d/ e /g/ tornam-se espirantes quando não são precedidas por nasais, laterais ou uma pausa, enquanto no Brasil são stops.
Brasil Portugal
Cabo [‘kabu] [kaββu]
Cidade [si’dadʒi] [si’δaδ(ë)]
Logo [‘logu] [‘loɣu]
No nível morfossintático, o português falado no Brasil e o português falado em Portugal comportam diferenças consideráveis. A linguísta brasileira Maria Eugenia Duarte explica algumas consequências da adoção do modelo sintático do português europeu como modelo gramático escrito para o Brasil no final do século XIX. No final do século XIX, o português europeu era mais distante da língua do século XVI em Portugal do que era o português brasileiro, que ainda tinha preservado traços sintáticos do português clássico. O português brasileiro continuou a mudar durante o século XX com, por exemplo, o seu sistema pronominal, o que impactou a sintaxe, e essas mudanças até hoje não foram incorporadas às gramáticas, o que acentua a diferença entre a gramática escrita prescritiva e a língua falada pelos brasileiros. Contudo, diz Duarte que essa desconexão da gramática prescritiva da fala deu lugar a uma terceira gramática, combinação da língua de aquisição e da norma prescritiva. Essa norma intermediária se dá porque certos traços inovadores próprios do PB que são menos salientes e estigmatizados são aceitos na escrita e outros mais salientes e criticados por gramáticos mais conservadores, são evitados (DUARTE, 2012, p. 315).
Apresentaremos ilustrativamente algumas das diferenças entre o PB e o PE, porém, não entraremos no detalhe das formas que são mais aceitáveis ou não na gramática escrita no Brasil, pois, além da complexidade do tema demandar um estudo em particular, não há até hoje consenso sobre esse aspecto, já que a questão varia conforme um ponto de vista mais ou menos conservador. Os exemplos a seguir são de Baxter (1992, p. 25-26):
i. O verbo “ter” no PB possui um significado existêncial o que não é o caso no PE.
Tem dois livros na mesa. (Brasil) Há dois livros na mesa. (Portugal)
ii. No Brasil a proposição “em” (e suas variantes em combinação com artigos) expressa lugar e direção. Em Portugal, se usa “a” Vai na praia. (PB)
Vai à praia. (PE)
Isabel está na janela. (PB) Isabel está à janela. (PE)
iii. No PB, se usa a progressão com o gerúndio, e em Portugal, se usa no infinitivo. O uso do gerúndio é mais antigo e o uso do infinitivo é uma forma inovadora.
Estou falando. (PB) Estou a falar (PE)
iv. O PB e o PE posicionam os pronomes objetos de maneira diferente, sendo essa uma questão complexa. Sobre esse tema, CUNHA; CINTRA (1984)18 realizaram um trabalho
comparativo detalhado. As diferenças em geral constituiem-se no fato que o PE mostra-se enclítico e proclítico, na língua falada e escrita. Ao contrário, o PB mostra-se proclítico na fala (mas permite ênclise quando a sentença começa com um verbo), contudo, na escrita, segue a norma europeia,
18 CUNHA, C.; LINDLEY CINTRA, L.F. Nova Gramática do Português
Contemporáneo. Lisboa: Sá da Costa,1984. (edição brasileira Rio de Janeiro: Nova Fonteira, 1985).
dependendo do estilo. Exemplos de frases afirmativas e imperativas do PB e do PE:
Elena me viu (PB) Elena viu-me (PE) Me diga uma coisa! (PB) Diga-me uma coisa! (PE)
Quanto ao léxico, existem diferenças importantes entre o PB e o PE em palavras usadas no cotidiano. Eis aqui alguns exemplos:
Brasil Portugal Bonde Elétrico Trem Comboio Ônibus Autocarro Cordeiro Borrego Mingau Papas
Banheiro Casa de banho
Salva-vidas Banheiro
Torrada Tosta
Cachorro Cão
Açougue Talho
Com efeito, a ortografia foi objeto de numerosos desacordos entre Brasil e Portugal ao longo do século XX. Ao longo do período, houve intentos de unificá-la para as duas variedades, mas cada vez que uma proposta era feita, um ou outro país sentia que a ortografia proposta se aproximava mais da outra variedade. Essa situação perdurou até o último acordo, assinado em 1990 e que entrou em vigor em janeiro 2009. No Brasil, a grafia era regida, até então, pela lei 2623, de 21 de outubro de 1955, que restabeleceu a vigência do Formulário Ortográfico de 12 de agosto de 1943, e pela lei 5765, de 18 de dezembro de 1971. Portugal seguia outro acordo assinado em 1943.
Antes do acordo
Novo acordo
Brasil Portugal
Não usa hífen neste caso. Ex.: Hão de.
Hífen em formas monossilábicas do verbo haver com preposição de.
Ex.: Hão-de.
Não se usa mais o hífen nesses casos.
Diérese no u depois de g ou q seguido de i. Ex.: Lingüística.
Não usa diérese depois de g o q seguido de i. Ex.: Linguística.
O trema (diérese) não existe mais em português com exceção dos nomes próprios.
a e o em penúltima sílaba ou antepenúltima seguida de consoante nasal são articulados fechados e nasalizados. É marcado o acento circunflexo. Ex.:bônus, ânimo, acadêmico.
Essas vogais no mesmo contexto podem ser articuladas fechadas ou abertas, dependendo da palavra, podendo-se usar o acento circunflexo ou acento tônico.
Ex.: ânimo, bónus, académico. Vogal tônica da primeira
pessoa do plural dos verbos da primeira conjugação é fechada no presente e pretérito. Ex.: Falamos (presente) Falamos (pretérito) Demos (pres. Subjuntivo) Demos (pretérito)
Um acento é usado para as formas do pretérito. Ex.:
Falámos (pretérito) Démos (pretérito)
Não se usa mais acento em palavras homográficas.
Ditongos abertos (ei, oi) em palavras paroxítonas são acentuados.
Ex.: idéia
Não se acentuam em Portugal.
Não são mais acentudas. Hiato –oo usam acento
circumflexo. Ex.: vôo.
Não aplica em Portugal. Não é mais acentuado.
Consoantes etimológicas em posição final de sílaba desaparecem. Ex.: batismo, director, adotar.
Essas consoantes são presentes.
Ex.: baptismo, director, adoptar.
Onde são mudas nos dois países, desaparecem essas consoantes. Onde ainda há pronúncia, são mantidas, dando uma dupla ortografia para esses casos, sendo algumas
pronunciadas em Portugal, outras no Brasil.