Local vs. Global Volume Illumination
5.5 Pre-Computed Gradients
Com o passar do tempo, sem a presença dos fazendeiros, essa comunidade centenária foi construindo suas práticas espaciais a partir da criação de suas roças, do extrativismo, da pescaria e da mariscagem. Boa parte da produção era utilizada para a subsistência, bem como comercializada com a população ao redor e em feiras, como a de Paripe, a do Japão, no bairro da Liberdade e na de Água de Meninos, no bairro do Comércio em Salvador.
Na memória está presente a utilização do Rio dos Macacos, do Rio do Barroso e de inúmeras fontes, da qual tem destaque a fonte de Luzia e da Saúde (fotografias 5, 6, 7 e 8). A fonte da saúde é uma lembrança muito forte na comunidade, assim como as roças. Segundo Dona Júlia, na fonte da saúde tinha roça de mandioca, de aipim. Tinha casa de farinha, os moradores criavam ovelhas, cabras, gados. Essa fonte é alimentada pelo rio da Saúde, um dos principais rios para quem vivia ao sul, nas terras da antiga fazenda Macacos. Dona Maria nos conta que a água era muito boa e que “panhava” água para beber. Lá ela e suas vizinhas lavavam
roupas. Outros rios aparecem na memória, o rio Cafonge que junto com o Barroso abrigava grande quantidade de peixes e era muito utilizado para a pescaria.
Fotografias 5, 6, 7 e 8 — Fontes do Quilombo Rio dos Macacos
Comentário: As fotografias mostram algumas fontes de água do território de Rio dos Macacos. Todas essas fontes estão na parte sul do território quilombola.
Acervo próprio
Seu Antonio Branco, apesar de atualmente ocupar as terras da antiga fazenda Meireles, por conta do processo de expulsão realizado pela Marinha, vivenciou boa parte da sua vida nas terras da fazenda Macacos. Seu Antonio Branco conta que onde está localizada atualmente a Vila Naval moravam pessoas que tinham roças no entorno das casas. Ele próprio é exemplo disso. Com a construção da Vila Naval uma parte das pessoas foi expulsa e outra parte se estabeleceu nos arredores. Além de Antonio Branco, Seu Vermelho também passou por esse processo de migração forçada após a chegada da Marinha e como seu vizinho, Antonio Branco, deixou as terras da antiga fazenda Macacos e foi para as terras da antiga fazenda Meireles, ao norte do atual território. Ambos moram até os dias atuais na comunidade.
Outra história importante é a de Dona Maria de Souza Oliveira, uma das moradoras mais antigas da comunidade. Atualmente Dona Marina mora nas proximidades da Vila Naval junto com quatro de seus filhos, Orlando, Osvaldo, Olinda e Luiz. Dona Maria que já é bisavó é filha de João Segundo de Souza e Camila Batista. Sua família é também uma das mais antigas dentro
do território. As duas famílias mais antigas do território atualmente se localização uma ao norte, a família de seu Severiano e outra a Sul, a família de Dona Maria.
Fotografias 9, 10, 11 e 12 — Família de Dona Maria
Comentário: Dona Maria lavando roupa na frente da sua casa na primeira foto à esquerda, ao lado Dona Olinda e o filho de Zezinho na frente do dendezeiro e segurando dendê nas mãos. Abaixo na foto à esquerda tem da esquerda para a direita Paula, eu (Costeiros), Osvaldo (filho de Dona Maria), Edite (GeografAR), Orlando (filho de Dona Maria), Adam (Geógrafo), Maria São Pedro, atrás Dona Júlia (viúva de Lázaro) e dona Olga. À direita Dona Maria com Raquel Rolnik durante a visita dessa a comunidade ainda na condição de relatora da ONU, em 2014.
Com seus 91 anos de idade, Dona Maria é uma fonte inestimável da vida da comunidade, já que nasceu e foi criada aqui. Ela nasceu em uma casa que ficava entre o rio do Barroso e o rio da Prata, local em que atualmente não há habitações e foi coberto por floresta umbrófila.
Dona Maria afirma que seu pai trabalhou como escravizado na fazenda Macacos, sob o controle de Coriolano. A mesma afirma que com a morte de seu pai, Coriolano passou a tomar conta de sua família. Dona Maria relembra que em tempos anteriores sua família trabalhava nas roças de café, mandioca, faziam farinha. Sua mãe e posteriormente ela lavavam roupas de ganho. Maria nunca saiu da comunidade, tendo morado em diversas localidades.
Dona Maria se emociona bastante ao falar de sua infância e adolescência, na qual saia para mariscar e pescar na Baía de Aratu (principalmente ali onde hoje é a Base Naval de Aratu),
na Ilha de São João dos Martins, em Mapele, na barragem dos Oitis, nos rios dos Macacos e do Barroso, onde pegava grandes peixes de água doce. Relembra com muita emoção os sambas, os carurus, os batizados e a alegria que circundava a vida dos moradores.
Existe um reservatório de água ao norte do território conhecido como “Tanque de Salu”, o qual fornecia água para a Usina Aratu. Segundo contam Edcarlos, Rosimeire, D. Olinda e Seu Edgar, Salu era uma “nega da costa” que morava no tronco de árvore e que, ao ficar irritada fazia o Tanque secar, deixando a Usina Aratu sem acesso à água: “Quando alguém espancava um de nós, ou outro trabalhador ela ficava chateada. Fazia um ritual e a Usina ficava sem uma gota d' água.”. Os/as pescadores/as tinham a autorização de Salu para pescar e ali o faziam.
Caminhar nas terras dessa comunidade faz emergir uma sensação de que a vida foi sendo tecida a partir das relações cotidianas, costuradas nos caminhos, nos cursos d’água, a partir dos espaços de lazer e de trabalho, das festas, das rodas de samba. É esse mapa mental que Dona Maria e Dona Albertina me transmitem. Essa cartografia do território ancestral é gestada com bastante nostalgia. Dona Maria me emociona com sua simplicidade e sua resistência no dia do caruru de Cosme e Damião – tradicional festa realizada por ela e sua filha, dona Olinda – ao me contar que ela já fez de tudo para permanecer aqui e que dessa terra ela não saí.
Sua filha dona Olinda fala ainda da grande presença de terreiros de candomblé no “nosso território quilombola-pesqueiro”. Relembra com muita vitalidade das festas e das feituras de santo realizadas, das oferendas colocadas sobre as gameleiras, que representam o próprio Orixá Irôko, e sobre o qual se realiza o culto ao Nkisi Tempo. Conta também que os locais onde estão presentes as gameleiras e os cursos hídricos, com destaque as fontes de Luzia e da Saúde são extremamente importantes para a manutenção das tradições realizadas pela sua vó, sua mãe e por ela.
Imersa dessa territorialidade, elaboro uma cartografia que pudesse representar um pouco dessa memória. Por solicitação, excluí a delimitação das fazendas, pois me foi dito que a comunidade sempre foi uma, sempre estabeleceu relações em comum. Essa cartografia social tenta representar as territorialidades construídas e vividas coletivamente desde quando a memória nos permitiu captar. Apresento aqui dois mapas, dos quais um em escala maior, com menos detalhes, mas que abarca uma área maior, na qual incluo a Baía de Aratu, as comunidades, as lagoas e barragens. Esse segue abaixo.