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CHAPITRE II : MATERIEL ET METHODES

3.1 Resultats

3.1.2 Pratique de la RNA

Fonte: Peattie (1989, p. 219)

Para esses empreendimentos, o governo elaborou um discurso que afirmava a necessidade do Japão auxiliar os países vizinhos, dado que o país tinha a missão de disseminar a organização política do país aos países menos afortunados. Afirmava-se que os mais avançados deveriam governar os menos avançados (GUNNAR, 2004). Além dessa noção de “papel a cumprir”, foram rapidamente aceitas no país também as noções de prestígio e proeza que relacionava os impérios coloniais, governo constitucional, industrialização, burocracia nacional, exército e marinha modernos com o sucesso de uma nação soberana e desenvolvida (PEATTIE, 1988). Cabe destacar que uma outra forma utilizada pelo governo imperial para justificar suas ações expansionistas fora a noção de “assimilação” que fora

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criada pelo governo (PEATTI, 1988, p. 240). Uma das justificativas era o uso da noção de “família imperial” que ligava todos os japoneses à família imperial, pela sua origem única, como sendo todos filhos de Amaterasu77. Esse princípio poderia ser expandido para as populações que passariam a fazer parte do império japonês, mas obviamente a relação respeitosa entre membros da mesma família nunca veio a se concretizar.

Para tratar da relação econômica que foi estabelecida entre o Japão e suas duas principais colônias, Coréia e Taiwan, é preciso compreender que o país foi capaz de investir em uma ampla infraestrutura nas colônias que expandiu significativamente as suas produções agrícolas e industriais. As autoridades coloniais do período exaltavam com grande satisfação os seus feitos, chamando a atenção das nações ocidentais. No entanto, o imperialismo, mesmo japonês, não deixaria de ser autoritário e fortemente explorador, deixando marcas na sociedade local.

Os jornalistas japoneses nessas décadas (1900-1920), falavam com orgulho das conquistas atingidas como um novo poder colonial e os japoneses nas colônias construíram um estilo de vida e um ambiente estruturado sob o privilégio, dinheiro e a autoridade, não sendo diferente dos Europeus nas colônias tropicais. Por essa razão e por conta do sucesso de seus esforços, dada a eficiência japonesa, os comentários ocidentais sobre o colonialismo japonês este estágio era majoritariamente favorável. Visitantes britânicos e americanos em Taiwan e Coréia, falavam do ‘incrível progresso’ de Taiwan sob a administração japonesa e da ‘coragem, devoção e visão’ dos administradores japoneses na Coréia após séculos de ‘decadência racial e política’. Poucos observadores estrangeiros amenizaram esses elogios notando que o colonialismo japonês era severamente autoritário e bastante explorador, tanto que os taiwaneses tinham pouca afeição pelos governantes coloniais e as atitudes dos coreanos para com os governantes era de ultraje e desespero. Sem dúvida, essa visão benigna do exterior era em grande parte moldada pelo fato de que, pelo menos por fora, o colonialismo japonês e seu estágio eram bastante semelhantes ao das nações europeias (PEATTIE, 1988, p. 233).

De fato, o governo japonês realizou inúmeros investimentos nesses dois países, desenvolvimento de infraestruturas básicas em diversas frentes, como transporte, comunicação e educação, bem como de melhorias agrícolas. Segundo Peattie (1988), o

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Amaterasu, a Deusa do sol ou da luz é considerada na mitologia japonesa como sendo a primeira ancestral da dinastia imperial japonesa.

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governo japonês estendeu ao Japão as suas experiências de sucesso em busca de desenvolvimento econômico rumo à modernização do país. No entanto, em última instância, os investimentos eram feitos para satisfazer as necessidades estratégicas do Japão, que com um discurso de superioridade racial e missão de desenvolvimento asiático transformou as colônias em áreas com vantagens para sua exploração, criando desajustes internos nas colônias, com grande diferenciação com relação ao Japão. Ou seja, mesmo com a justificativa de que os passos iniciais do imperialismo japonês tinham mais um impulso estratégico, o país rapidamente tirou vantagens econômicas de suas colônias em uma relação de exploração e benefício próprio. Passemos então para a análise da exploração econômica de Taiwan e Coréia em termos agrícolas.

A primeira colônia importante do Japão foi Taiwan, que passou para o domínio japonês em 1895 Neste país, o governo colonial japonês estruturou uma indústria açucareira de sucesso entre 1900 e 1910. Como explica Peattie (1988, p. 254-255),

Como o governo Meiji, o Governo Geral de Taiwan determinou que o setor agrícola deveria sustentar os custos da modernização. Para permitir isso, o Governo Geral exerceu sua massiva autoridade para direcionar o desenvolvimento agrário, alocando os gastos necessários, usando taxações especiais sobre a renda para influenciar o comportamento dos produtores agrícolas, disseminando a moderna tecnologia agrícola e estabelecendo monopólios em certas industrias baseadas na agricultura de onde esperavam ter rendimentos substanciais. Mais importante, o governo colonial devotou as mais intensivas pesquisas e planejamento para desenvolver essas commodities que ofereciam as maiores expectativas de rápido retorno do investimento e que, ao mesmo tempo, fosse ao encontro das necessidades domésticas do Japão. (...) Depois do açúcar, o Governo Geral voltou-se para a expansão e modernização da produção do arroz em Taiwan, aplicando tecnologias e técnicas modernas e na década de 1920, este se tornou a segunda maior exportação para o Japão.

Assim, todo o investimento em infraestrutura e na modernização de Taiwan foram direcionados a atender às demandas de sua metrópole, o Japão. Peattie (1988, p. 256) avalia que a introdução de técnicas e tecnologias modernas em Taiwan foi benéfico, de uma forma geral, para os cultivos nacionais, sendo que as exportações de arroz para o Japão não chegaram a impactar negativamente na alimentação dos agricultores locais, até a década de 1930, quando os esforços de guerra alteraram essa situação. Segundo o mesmo autor, o registro de terras que foi feito em Taiwan pelo governo japonês entre 1898 e 1903 não mudou

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o tradicional sistema de propriedade da terra do país, sendo apenas uma forma de se ter uma fiscalização melhor dos cultivos e dos impostos a serem coletados. Entretanto, é preciso observar essas informações de forma crítica, pois o governo realizou políticas que direcionaram os cultivos de acordo com os interesses do Japão, influenciando diretamente na vida do agricultor. Passemos para o caso Coreano.

Explicando o caso da Coréia, Kimura (1995) utiliza dados que evidenciam como a Coréia, de fato, não foi um importante mercado consumidor para os produtos manufaturados japoneses, pois no início do século XX, o mercado nacional japonês já absorvia aproximadamente 80% do total da produção, sendo que as exportações para a Coréia representavam apenas de 1 à 3% do total da produção manufatureira do país, com destaque para os tecidos em algodão78. Ou seja, a Coréia não tinha o papel de absorvedor dos manufaturados japoneses.

Na realidade, o papel da Coréia estava relacionado à exportação de produtos primários e notadamente do arroz, a base da alimentação japonesa, que representava a maior parte dos envios ao Japão, em termos de valor (KIMURA, 1995). E o papel da Coréia como fornecedor de alimento fora fundamental, pois como já fora ressaltado, na virada do século, o Japão enfrentou graves problemas de insuficiência de produção do arroz nacional. Neste contexto o governo tinha três alternativas para lidar com esse problema. Segundo Kimura (1995, p. 558) estas opções seriam: “(a) aumentar a produtividade doméstica da agricultura, (b) importar arroz estrangeiro (gaimai) do sudeste asiático e (c) importar arroz da colônia”. O autor explica que a primeira opção seria a mais custosa, demandando investimentos significativos sem a garantia de um retorno, enquanto a segunda opção geraria uma grande saída de recursos do país e uma dependência da alimentação do país em outros países, o que aumentaria a vulnerabilidade japonesa. Assim, os investimentos na Coréia para a produção do arroz pareciam representar a alternativa mais vantajosa ao governo.

Assim, nas duas primeiras décadas do século XX, o governo japonês investiu e deu apoio institucional ao cultivo de arroz na Coréia, expandindo terras agricultáveis com grandes projetos de irrigação e introdução de novas técnicas para a expansão da produtividade do cultivo do arroz. E assim, a Coréia se tornou principal fornecedor de arroz para o Japão neste período (PEATTIE, 1988, p. 256).

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Segundo os dados analisados por Kimura (1995), antes da Segunda Guerra Mundial, os tecidos de algodão era o carro chefe das manufaturas japonesas e uma grande parte era exportada. No entanto, o principal destino das exportações eram a China e a Índia, bem como o sudeste asiático, não incluindo a Coréia.

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Diferentemente de Taiwan, os impactos das políticas do governo na expansão da produção de arroz no país contribuíram mais significativamente para piorar a vida do produtor rural. Em primeiro lugar, a maciça entrada de imigrantes japoneses em busca de terra, bem como o projeto de cadastramento das terras na Coréia (1906-1917) retirou inúmeros camponeses pobres da terra que acabaram perdendo os seus títulos. Ademais, os camponeses que continuaram cultivando a terra sofriam com as pesadas taxações e os arrendatários eram fortemente penalizados pelos proprietários das terras, cuja participação de japoneses aumentou durante o período. Por fim, além da maior exploração do camponês, todo o excedente de arroz produzido na Coréia era despachado para o Japão e a partir dos anos 1920, o camponês coreano fora obrigado a diminuir o seu consumo de arroz para que fosse possível despachar o montante necessário para o Japão (PEATTIE, 1988, p. 257). A situação pioraria no contexto da preparação para a Segunda Guerra Mundial.

Assim, em busca de terras agricultáveis e de fontes de matérias primas, o Japão reorganizou a produção agrária da Coréia e Taiwan, estruturando as economias no sentido que atendesse aos interesses da Metrópole, ignorando as tradições e os cultivos locais. Já na Segunda Guerra Mundial, a exploração das colônias já atingira o nível do imperialismo ocidental, funcionando como mercado consumidor de seus produtos manufaturados, bem como de fonte de rendimento para os investimentos japoneses no esforço de guerra.

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CONSIDERAÇÕES FINAIS

Na tentativa de compreender uma transição ao capitalismo que é específica, observou- se as transformações na agricultura e na sua relação com o mercado, bem como na propriedade da terra ao longo de três séculos no Japão. Cabe destacar que durante o período Tokugawa, o Estado esteve sempre presente, estruturando políticas de controle social e de organização da produção. Também na transição, não é uma classe burguesa ou camponeses revoltosos que participaram ativamente do processo. Realizando a instituição de um novo Regime Imperial, a partir de cima, o Estado se fez presente novamente, definindo os rumos do desenvolvimento econômico do país, rumo à industrialização, com seu financiamento feito com as pesadas taxações sobre o campo.

A estrutura social específica e que perpassa todo o período analisado é o sistema familiar japonês, chamado sistema ie. E como pode ser observado ao longo do trabalho, este sistema vai sendo colocado em confronto com o mercado e posteriormente como individualismo ocidental que ganha espaço nas noções de propriedade. Esse é um conflito essencial na compreensão da transição ao capitalismo no Japão, pois enquanto a noção de solidariedade e dependência que existia no início do período Tokugawa se desarticulou, muitos valores tradicionais do ie, como a responsabilidade com os membros da família, obediência e lealdade foram utilizados pelo governo para a legitimação do novo Estado e para justificar numerosas ações no sentido da modernização, industrialização e expansão imperial. Utilizando-se de um discurso da mesma origem de todos os japoneses, argumentava-se que “a família é um pequeno Estado e o Estado é uma grande família” (PYLE, 1989, p. 701). No Código Civil japonês, adotou-se o sistema ie e a figura paterna como sendo o articulador de todas as relações sociais internas e externas à família, mantendo-se a noção de dever para com os seus superiores.

Utilizando-se da educação para difundir essas ideias, como fica claro no Documento Oficial sobre a Educação no Japão, tem-se as instruções não apenas ao professor e ao estudante, mas a toda nação que deve se organizar como uma grande família, em uma lealdade filial ao governo. Dando um caráter nacionalista aos valores tradicionais, justificava- se que havia uma ética nacional que não poderia ser desvinculada do povo japonês e que a manutenção da moral e dos costumes era psicologicamente necessário à população, em meio à tantas transformações e ameaças internacionais (PYLE, 1989).

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A manutenção e reforço do papel da família e de seus valores tradicionais, em contraposição com a introdução de elementos ocidentais nas leis e nas tecnologias da Segunda Revolução Industrial, deixa claro o caráter conservador do governo Meiji que, apesar de trazer inúmeras mudanças com o objetivo de fortalecer e modernizar o país no capitalismo, manteve no poder alguns membros da classe samurai, que alinhados com os interesses dos grandes proprietários de terras, perpetuou os valores e as estruturas produtivas no campo.

No período analisado, ocorreu a consolidação de uma nova estrutura agrária que veio se conformando de forma mais acelerada a partir da segunda metade do Período Tokugawa. Dada a Pax Tokugawa e os pequenos lotes de cultivo, o camponês pode concentrar esforços no aumento da produtividade e também nas atividades paralelas ao plantio do arroz, desenvolvendo uma indústria rural e cultivos comerciais que ajudavam a garantir a sobrevivência, dada a pesada taxação e as eventuais dificuldades climáticas. Com a penetração dos mercados, todo esse processo é acelerado e as novas relações com os mercadores desarticulam as antigas noções de solidariedade que existia entre os ie, reforçando o papel da família internamente em busca da perpetuação do seu próprio ie.

Os resultados dessas transformações são institucionalizados na Era Meiji, cujo governo imperial se articula com os grandes proprietários de terras para garantir o financiamento da sua modernização. Todas as restrições que existiam relativas à aquisição, transferência e divisão das terras foram eliminadas e consagrou-se a relação proprietário- arrendatário como forma de exploração do camponês. Não mexendo na estrutura da terra e sem fazer uma reforma agrária, o governo não interferiu na gravosa exploração do arrendatário que seguiu pagando pelo uso da terra em espécie, mantendo as mesmas relações de subordinação e dependência do período Tokugawa, com o agravante de que não havia mais nenhuma razão para manter um arrendatário improdutivo na terra, substituindo-o por outra família quando fosse necessário. Ou seja, não havia mais a preocupação do dono da terra em garantir a sobrevivência do produtor direto e nenhuma “benevolência” do governo. O camponês estava livre das amarras do sistema shogunal e, independentemente de sua posição social ou de seu ie, era considerado igual perante a lei. Mas as condições de sobrevivência do pequeno camponês e do arrendatário foram deterioradas, com grandes ondas de expropriação e êxodo rural enquanto o Estado se articulava com os grandes proprietários para garantir a sua fonte de rendimento.

Dadas as transformações que ocorreram, as revoltas camponesas expressaram em cada momento, as contradições que existiam na sociedade. Ao longo do período analisado, a

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camada camponesa se uniu internamente para defender interesses comuns, mas também se posicionou de lados opostos quando os interesses dos pequenos camponeses eram opostos aos interesses dos camponeses e mercadores enriquecidos. Mas cabe destacar que as revoltas ocorridas no Japão são marcadas por uma ausência de questionamento da ordem, ou seja, o camponês, querendo se manter nesta condição e não aspirando uma posição acima, pediam para que as taxações fossem amenizadas ou para que o processo de expropriação fosse interrompido. Ao longo de séculos de luta, algumas concessões foram feitas, mas o pequeno camponês viu suas condições de vida deterioradas em contrapartida ao enriquecimento de alguns.

No período Meiji, o Estado se aliou aos proprietários de terra para garantir o financiamento de modernização. Enquanto o Estado fazia concessões à essa camada mais poderosa, os pequenos camponeses e arrendatários, que não se encaixavam nos planos de modernização do governo, tiveram suas possibilidades de sobrevivência no campo limitadas, com massiva exploração para o benefício da modernização. Outra expressão da questão da terra no contexto da modernização foi o imperialismo japonês, que estruturando a produção de arroz e açúcar na Coréia e em Taiwan, desarticulou a produção interna desses países em benefício próprio. Mesmo em contexto de escassez de capitais, o Japão inicia sua expansão colonial com o objetivo estratégico de se proteger das ameaças imperialistas ocidentais e garantir o seu crescimento rumo à uma economia industrializada e moderna.

Assim, explorando internamente os pequenos camponeses e arrendatários que saindo do campo vão ser duramente explorados nas grandes fábricas capitalistas como assalariados, o Japão tambémse lança na expansão colonial para reorganizar a produção agrícola de outros países visando o seu próprio benefício. E essa estrutura concentrada de terras e que manteve o mesmo caráter “semi-shogunal” só serial alterada com aredistribuição de terras após a Segunda Guerra Mundial.

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