3.1 Contrˆole avec des impulsions laser IR
3.1.1 Pr´esentation du mod`ele
O comer constitui um importante marcador temporal para os moradores da comunidade de Barbados, sendo geralmente realizadas quatro refeições ao dia. O café da manhã normalmente é realizado entre às 07:00 e 08:30, o almoço (servido entre 11:30 e 12:30), e o lanche da tarde (das 15:00 até às 16:30) são momentos de descanso e descontração, e fornecem energia para que seja dada continuidade à rotina de trabalho, o jantar é servido entre às 19:00 e 21:00. Para os pescadores, em decorrência das condições de pesca há dias em que estes saem para o mar no período noturno, de madrugada, ou permanecem por horas fora de casa, alterando desta forma o horário das refeições.
Durante o trabalho de campo, de uma forma geral, não foram observadas flutuações do horário das refeições nos dias de final de semana. As diferenças são mais evidentes em relação às épocas do ano. Nos meses de “tempo frio” havia uma tendência de o café da manhã ser realizado mais tarde (08:30 e 09:00) e o jantar mais cedo (18:30 e 19:30). Este padrão é diferente do que foi observado nos meses de “tempo quente”, principalmente durante o horário de verão, quando o café da manhã era consumido mais cedo (07:00 e 08:00) e o jantar entre 20:30 e 21:00.
De acordo com Begossi (2006), a dieta da população caiçara é baseada em peixe, arroz, feijão, farinha de mandioca e, sempre que possível, macarrão. Este perfil também foi observado entre os moradores de Barbados, porém é possível identificar uma diferença em relação a frequência com que estes itens são consumidos. O arroz e a “mistura” ou “salgado” - nome atribuído a fonte de proteína animal da dieta, normalmente representado pelo peixe – estiveram presentes nas refeições do almoço e jantar praticamente todos os dias. A farinha de mandioca42, o feijão e o suco em pó também compõem a dieta frequentemente. O consumo de saladas, vegetais e macarrão foram citados, mas com uma menor constância.
42 A farinha de mandioca normalmente é utilizada para o preparo do pirão, que é a mistura da farinha com água fria ou caldo quente. O pirão de água fria é denominado pelos moradores de Barbados como pirão de jacu.
Para o café da manhã e da tarde, normalmente se consome café preto, ou com leite, acompanhado pela mistura43, composta por pão, bolos e bolinhos fritos, como: “mata fome”, bolinho de trigo, bolinho de cará, bolinho de banana, bolinho de chuva, rosquinha de trigo e torta de banana. A farinha de mandioca, a farinha de milho, a banana frita, a polenta com ovo, preparações utilizando-se o camarão e ostra, também foram alimentos citados como opções de mistura para estas refeições. Durante as observações realizadas em campo, foi possível observar que as crianças, adolescentes e até os adultos, consumiam doces, salgadinhos e frutas (quando estão disponíveis nos quintais), frequentemente, no intervalo das refeições.
FIGURA 20 - “MISTURAS” PARA O CAFÉ. BARBADOS, PARANÁ, BRASIL.
FONTE: O autor (2016, 2017).
Os relatos em relação às modificações da dieta que ocorreram como reflexo das proibições impostas pelo PARNA são constantes, principalmente relacionados com a proibição das roças. Antigamente, parte significativa das refeições eram compostas por produtos cultivados em Barbados, espaço que passou a ser ocupado pelos industrializados. As refeições do almoço e do café da tarde normalmente eram realizadas no rancho, construído perto das roças, o que já não acontece mais. Qualitativamente as refeições não apresentaram muitas variações
43 É a palavra que os moradores da comunidade utilizam para se referir ao alimento que será o acompanhamento do café ou também se relaciona com a fonte de proteína animal da dieta no almoço e jantar.
entre os dias da semana e dias de final de semana. As principais variações foram observadas nas diferentes épocas do ano, o que é reflexo da variação de disponibilidade dos recursos naturais. Mais detalhes sobre estas diferenças serão descritas no capítulo 4.
O consumo de bebidas alcóolicas não é uma prática comum entre os moradores da comunidade, este fato pode estar associado com as proibições impostas pelas igrejas evangélicas. O consumo de álcool parece ser um tabu entre as mulheres, há relatos de que este tipo de bebida não foi feito para o sexo feminino, e que é “uma grande vergonha” ter mulheres que bebem na família.
Para cozinhar, normalmente é utilizado o fogão a gás, disponível em todas as residências. O fogão a lenha também é utilizado para esta finalidade, principalmente para defumar e assar alimentos - como peixes e ostras - e, para aquecer a água utilizada para o banho em dias nublados, quando com a placa solar não é possível realizar esta função. Normalmente, este tipo de fogão é construído em um cômodo fora da casa, que recebe o nome de “casa de fogo”; neste espaço, as famílias costumam se reunir, principalmente em dias frios para se aquecer e “proseiam” durante horas contando os “causos” do dia a dia. O modo preferido para o preparo de carnes e peixes é a fritura, principalmente dos pescados com escama. O cozido ocupa a segunda posição, e é mais utilizado no preparo dos peixes sem escama - como por exemplo o bagre (Cathorops spixii (Agassiz) -, seguido pelo assado. As comunidades de Icapara (SP), Pedrinhas (SP) e São Paulo Bagre (SP), apresentam este mesmo perfil (HANAZAKI; BEGOSSI, 2006).
Após o preparo os alimentos normalmente são consumidos em até 24 horas, em decorrência da falta de energia elétrica, que impossibilita o uso de geladeiras/freezers para a estocagem destes itens. Algumas famílias da comunidade utilizam o gerador para ligar estes eletrodomésticos, outras mantêm caixas de isopor com gelo para estocar os pescados e as carnes, mas ambas as práticas são realizadas por poucos, pois manter o gerador ligado e adquirir gelo têm um custo monetário.
O preparo das refeições normalmente é uma função feminina; esporadicamente o homem realiza esta atividade, com exceção de um morador que vive sozinho e é o responsável pela realização das tarefas domésticas. Ao retornar do mar os homens entregam o pescado para as mulheres limparem. O preparo das carnes de caça também é função feminina. A maior parte das mulheres de Barbados têm o hábito de servir a comida ao marido, filhos (no caso das meninas, apenas quando crianças) e genros, sendo estes os primeiros a receber os alimentos, mas esta não é uma regra. Algumas mulheres têm este costume e relataram ser um
gesto de cuidado e carinho, e que se sentem bem ao servi-los. Na ausência da dona da casa, é a filha mais velha que assume esta função. Em Barbados, as meninas aprendem desde cedo as atividades domésticas, auxiliando as mães no preparo das refeições, lavagem da louça e roupa, limpeza das residências e do terreiro, sendo educadas para serem donas de casa.
Determinadas receitas merecem destaque pela frequência que são elaboradas, como o peixe seco com banana (preparação típica do local), os bolinhos de trigo, polenta com ostra, a torta de banana, o “mata fome” (bolo de fubá denominado localmente desta forma) e o bagre cozido. Outras receitas também foram citadas como sendo típicas, porém são preparadas esporadicamente, como o camarão no chuchu, camarão no mamão verde, a fubeca (bolinho frito preparado com fubá e água gelada), bolinho de cará, etc.
De forma geral, as mulheres de Barbados gostam de cozinhar e expressam muita vontade de aprender receitas diferentes. A título de exemplo, é possível relatar o grande interesse destas por um curso de bolos, com duração de um dia, que seria ofertado na comunidade do Sebuí (ver mapa no capítulo 1). A fala de uma jovem ilustra esta situação:
“ Ah, eu quero ir no curso, lá a gente vai pra aprende a faze um monte de coisa boa pra comer, e dai guarda o conhecimento, já na festa não se aprende nada. Festa têm todo ano, já conheço a cara de todo mundo que vai tá lá, o curso não, é uma oportunidade única” (Camila, 14 anos).
Além da vontade de preparar os bolos em casa, uma das adolescentes cogitou a hipótese de comercializar estes produtos. O curso foi realizado por uma professora do Instituto Federal do Paraná (IFPR), apoiada pelo MOPEAR. Mesmo diante do grande interesse por fazer o curso, apenas três adolescentes lograram participar, devido à dificuldade de deslocamento. Ao retornar para casa as participantes foram muito questionadas pelas mulheres que permaneceram na comunidade.
O espaço doméstico é o local privilegiado para a realização das refeições. Normalmente, os membros da família se reúnem ao redor da mesa da cozinha para comerem juntos. Há ocasiões em que estes se dividem entre a mesa e o sofá - para assistir televisão - o que é mais comum no período da noite. Além de dividir o alimento, este é um momento que as famílias também compartilham histórias, neste sentido é
possível dizer que a refeição assume um caráter de ‘socialização intradomiciliar’ (LEITE, 2017).
O consumo de alimentos fora da residência não parece ser uma prática comum entre os moradores de Barbados. Ela foi observada apenas em algumas ocasiões: quando as crianças se alimentavam na escola; durante pescarias longas (ocasião em que muitos pescadores levavam alimentos); em Guaraqueçaba, quando os moradores da comunidade viajam para este local e adquiriam alimentos em restaurantes e lanchonetes; em festividades como casamento e aniversários.
Os moradores do local têm o hábito de realizar visitas frequentes, especialmente quanto existe uma relação de parentesco próxima. Durante estas visitas não é comum a oferta de alimentos, em alguns domicílios observou-se somente a oferta de café. Este tipo de convite é mais direcionado para visitantes que vêm de outras comunidades. A partilha de refeições entre as famílias ocorre em datas festivas, ou em determinadas casas onde os filhos residem perto dos pais.
5.2 A ARTICULAÇÃO DA COMUNIDADE COM OS MERCADOS