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Conclusion du chapitre 1

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A pesca também é praticada por aqueles que não dependem dela para sobreviver. Os quatro homens da comunidade de Barbados que não consideram esta sua principal atividade econômica, relatam que a realizam de forma complementar, para gerar renda, obter itens para o consumo alimentar e também como uma forma de viver, pois esta atividade sempre esteve presente - em maior ou menor intensidade - em seus cotidianos e refletem um modo de vida.

Um senhor da comunidade que tem 86 anos relata que não pode ficar sem pescar. Todos os dias – salvo exceções - ele acorda cedo, organiza os petrechos de pesca e embarca na canoa a remo para realizar esta atividade. Outro homem já aposentado, de 75 anos, cuida atentamente das canoas e observa o movimento da maré ao longo de todo o dia.

Na segunda etapa do trabalho de campo, durante a época da pesca do camarão, diversas vezes foi possível observar homens e mulheres arrumando os estragos nas redes. Ao serem questionados sobre quem lhes ensinou tal atividade, os relatos foram diversos e trouxeram consigo lembranças associadas a momentos e pessoas, algumas das quais já morreram.

Desta forma é possível supor que além da inconteste importância da pesca como fonte de renda e de alimentos, ela também envolve aspectos emocionais, memórias e significados. De acordo com Murrieta (2001: 115)

a fauna nativa e as atividades humanas voltadas para ela incorporam múltiplos planos de significado e prática, em que memória, emoção e

subsistência mesclam-se numa única lógica de ação.

Estes significados também são refletidos nos relatos destas pessoas, ilustrando diversos sentimentos e lembranças, como quando os antigos falam do “tempo de primeiro”, quando o cerco fixo, tinha um local especifico para ser construído, o que gerava “fronteiras territoriais” sutilmente estabelecidas entre comunidades e famílias (MURRIETA, 2001); nos momentos em que se indica o indivíduo que captura mais peixes, ou o que pesca mais camarão, e associa-se a isto a experiência que este apresenta e todo o conhecimento obtido ao longo da vida, motivado não somente pelo acesso ao recurso, mas também pelo prestígio de ser considerado um pescador habilidoso na comunidade (MURRIETA, 2001); dos relatos sobre os sítios de pescaria, que além de serem lembrados pela fartura de peixes também guardam histórias particulares. Para Murrieta (2001) estes locais parecem compor um detalhado mapa que condensa funções utilitárias, bem como referências emocionais relacionadas ao passado da família e da comunidade, e eventos sociais. Segundo pesquisadores do Instituto Brasilis, a canoa caiçara também apresenta significados que vão além do transporte, pois ela carrega uma história (sentimental, aventureira, anedótica, etc.), que representa os costumes e as tradições caiçaras (PROJETO: com quantas memórias se faz uma canoa?, 2017). Diversas vezes foi possível escutar relatos dos moradores da comunidade que convergem com esta afirmação.

Sob este ponto de vista, a pesca ganha sentidos que vão muito além das questões econômicas e dissolve-se numa rede de significados, hábitos e práticas mais tênues, conectados a um jeito local de fazer e como fazer as coisas do mundo (MURRIETA, 2001). Para Murrieta (2001:15): a contextualização da prática evoca memórias de experiências e eventos sociais onde importantes informações ecológicas sobre a paisagem, tecnologia e comportamento animal são codificados. Segundo, o mesmo tipo de experiência servirá como elemento central na criação de novos significados ou na ratificação de antigos, seja na maneira de ver o outro social humano ou o outro social natureza (animal).

FIGURA 17 - OBSERVAÇÃO DA MARÉ. BARBADOS, PARANÁ, BRASIL.

FONTE: O autor (2017). 4.2.4 Tipos de embarcações

Na comunidade de Barbados foram identificados quatro tipos de embarcação, a canoa (a remo e motor), o bote, a bateira e a voadeira. Apenas um barco tem estrutura para a pesca no “mar de fora”, mas o proprietário não mora no local e a embarcação está inutilizável. A maior parte das embarcações são feitas de fibra de vidro, o que é resultado das proibições impostas pelo PARNA, que proíbem o extrativismo madeireiro.

Das 25 embarcações pertencentes às 14 famílias entrevistadas, 68% eram de fibra, 28% de madeira e 4% mista. Algumas famílias são proprietárias de mais de uma embarcação. Com exceção de uma voadeira que foi adquirida em Itajaí, todos os barcos foram construídos em comunidades vizinhas ou em Barbados, por moradores do próprio local. A princípio, a mudança da canoa de madeira para fibra gerou muito impacto, principalmente econômico - aos moradores do local, pois a canoa de fibra tem um custo mais elevado do que a de madeira. Porém,

atualmente, a população refere preferir as embarcações de fibra. A preferência por este material está relacionada com a sua maior facilidade de manutenção e durabilidade. São frequentes os relatos de que a madeira é corroída por um molusco denominado busano (Teredo sp.), e por este motivo deve ser pintada com uma tinta tóxica, o que gera gasto de tempo - para a manutenção - e dinheiro - com a compra do produto.

Mesmo diante destes benefícios cabe aqui ressaltar o grande impacto cultural que esta proibição causou, pois, a construção da canoa de madeira envolve conhecimentos específicos que estão sendo perdidos, sendo este um dano inestimável. Alguns moradores do local, todos com mais de 30 anos, relatam saber fazer canoas de madeira. Na comunidade da Colônia, foi possível identificar um jovem de 21 anos que sabe construir este tipo de embarcação. Em trabalho realizado na Barra da Ararapira (PR), comunidade que também se insere nos limites do Parque, a pesquisadora observou que, como em Barbados, alguns moradores da comunidade ainda mantêm estes conhecimentos (RAINHO, 2015). Desta forma, é possível dizer que este saber ainda está presente entre os caiçaras do litoral do Paraná, porém se não forem desenvolvidas ações que, em vez de punir incentivem esta prática, e enquanto a proibição da retirada da madeira para a construção da canoa for mantida pelos órgão ambientais, estes conhecimentos estão fadados ao desaparecimento.

Rainho (2015) ainda aponta para o fato de que além da questão cultural a produção local das canoas com a madeira da floresta, resultaria na diminuição da dependência do mercado e da cidade.

FIGURA 18 - CANOA A REMO DE FIBRA (EM CONTRUÇÃO) E DE MADEIRA. BARBADOS, PARANÁ, BRASIL.

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