Contrariamente à opinião generalizada de que quem polui e causa sérios danos no ambiente são as indústrias transformadoras, a indústria do turismo em geral e o sector do alojamento em particular, analisados no seu conjunto e atendendo ao peso que assumem como actividade económica mundial, não podem continuar a ser encarados como um conjunto de serviços inócuos por oposição às indústrias pesadas.
Esta perspectiva minimalista decorre da percepção de que o sector dos serviços não polui, tendo tradicionalmente sido ignorado na formulação de políticas ambientais devido ao seu reduzido nível de emissões no ponto de geração, bem como pelo facto de tornar “difícil a avaliação do seu impacto por não existirem unidades de produção bem definidas que permitam verificar a sua evo lução e comparação com outras unidades” (Rosenblum et al., 2000: 4669).
O turismo é dependente de recursos primários – clima, paisagem, vida selvagem, património cultural entre outros. Para que os turistas possam aproveitá- los, os recursos secundários, tais como o alojamento, transporte, serviços e outras infraestruturas têm que sustentar a experiência dos turistas, o que implicará a reestruturação do ambiente construído do destino turístico (Cater & Goodall, 1997).
Antes de avançar para qualquer abordagem aos efeitos da actividade turística sobre o ambiente, é essencial compreender bem a que dimensão ambiental se poderão referir esses mesmos efeitos, já que será errado limitá- la única e exclusivamente aos recursos naturais. Swarbrooke (1999) defende a este respeito que o desenvolvimento de formas mais sustentáveis de turismo implica pensar em ecossistemas mais do que em “ambiente” propriamente dito e reconhecer o Homem como um elemento válido e integrante do mesmo. A Figura 5.1 ilustra a abrangência do conceito.
Capítulo V – A influência do tipo de alojamento no ambiente dos destinos turísticos
Figura 5.1
Âmbito do conceito de Ambiente
Fonte: adaptado de Swarbrooke (1999: 50)
Os impactos ambientais da actividade turística em geral têm sido amplamente discutidos na literatura científica, mas poucos se referem exaustivamente e em concreto ao alojamento. Para além disso, a investigação que tem sido feita tem recaído essencialmente nos efeitos da actividade turística na flora e na fauna, por exemplo, e muito pouco nos impactos ao nível do solo, qualidade do ar ou da água.
Segundo Mathieson & Wall (1982), existem vários problemas metodológicos associados à pesquisa de informação relativa aos impactos gerados pela actividade turística, o que pode explicar a falta de informação referida e que são os seguintes:
? Dificuldade em distinguir os impactos que são gerados pelo turismo e os que são provocados por outras actividades;
? Falta de informação relativa às condições existentes antes do advento da actividade turística e, por isso, falta de dados concretos face aos quais seja possível medir as mudanças provocadas pela actividade;
Ambiente Natural ? Montanhas ? Bosques ? Mar ? Rios e lagos ? Grutas ? Praias Ambiente agrícola ? Paisagem agrícola ? Florestas trabalhadas pelo Homem
Ambiente
Ambiente construído ? Construções e estruturas individuais ? Aldeias e cidades ? Infra-estruturas de transportes ? Barragens Vida Selvagem ? Mamíferos e répteis ? Flora ? Pássaros ? Insectos ? Peixes e outras espécies marinhas Recursos naturais ? Água ? Clima ? ArCapítulo V – A influência do tipo de alojamento no ambiente dos destinos turísticos
? Escassez de informação quanto a números, tipos e níveis de tolerância das diferentes espécies de fauna e flora;
? Demasiado enfoque dos investigadores no estudo dos impactos em recursos primários muito específicos, tais como praias e montanhas, ecologicamente sensíveis.
Para Hall & Page (2002: 153), muitos dos efeitos provocados pelo desenvolvimento das infraestruturas turísticas só são visíveis muito tempo depois de implementados, “dada a natureza da sua actividade, como é o caso das marinas e resorts”. Os autores consideram que o impacto provocado pelas actividades praticadas pelos visitantes ao ar livre estão suficientemente retratados na literatura científica, o mesmo não acontecendo com a pesquisa relativa aos impactos físicos do turismo no ambiente - por exemplo, das unidades hoteleiras, que se encontra ainda numa fase inicial e pouco sistematizada.
A OMT (1998b), por exemplo, ao identificar os impactos da actividade turística no ambiente já se refere a alguns provocados pelos hotéis e empreendimentos turísticos, embora de forma ainda superficial, como se segue:
? Poluição dos cursos de água (rios, lagos, albufeiras, águas costeiras), resultante das descargas de efluentes sem tratamento e da má gestão dos sis temas de resíduos sólidos dos hotéis e de outros empreendimentos turísticos;
? Poluição atmosférica e sonora provocada pelos meios de transporte dos visitantes, com especial destaque para o automó vel e transporte aéreo;
? Congestionamento de tráfego e pedestre gerado pelos turistas em áreas mais populares, que são muitas vezes as mais sensíveis;
? Paisagens pouco atractivas (poluição visual) resultante de vários factores - edificações inestéticas de hotéis e outros empreendimentos turísticos; falta de planeamento e correcto ordenamento do territorio na implementação das infra- estruturas turísticas; enquadramento paisagístico deficiente; utilização abusiva de meios publicitários desenquadrados; obstrução de paisagens de grande valor em prol do desenvolvimento da actividade turística;
Capítulo V – A influência do tipo de alojamento no ambiente dos destinos turísticos
? Degradação das paisagens provocada pelo lixo deixado pelos visitantes, por
grafittis e vandalismo;
? Perturbações ecológicas em áreas sensíveis como é o caso das zonas costeiras em que o desenvolvimento de empreendimentos turísticos provoca a erosão e todos os problemas daí decorrentes;
? Problemas de ordenamento do território provocados pela falta de planeamento, localização e tipo de construções desadequados.
Apesar destes impactos negativos, a OMT reconhece alguns contributos positivos do turismo para o ambiente, pelo facto de:
? Ajudar a justificar o investimento na conservação de importantes áreas naturais e selvagens e sítios históricos e arqueológicos, por constituírem atracções para os turistas;
? Ajudar a promover uma melhor qualidade ambiental e de infra-estruturas em determinadas áreas, porque os turistas gostam de visitar locais atractivos, limpos e não poluídos;
? Contribuir para uma maior sensibilização dos residentes relativamente à importância da conservação de determinados valores patrimoniais pela constatação do interesse dos turistas pela preservação do ambiente.
A verdade é que, em termos gerais, a relação da actividade turística com os recursos naturais tem-se manifestado mais negativa do que positiva. Este facto deve-se, em primeira análise, à falta de orientação de investimentos turísticos com objectivos ambientais e, fundamentalmente, à desadequação “das iniciativas turísticas à capacidade de carga ambiental, ou seja, às limitações e oportunidades criadas por contextos ambientais específicos” (Partidário, 1998: 80).
A autora citada justifica este facto, em parte, pelas diferentes escalas temporais associadas ao desenvolvimento turístico e à gestão ambiental, já que alguns efeitos reais só se manifestam após algum tempo de utilização da área, não sendo percebidos na fase de construção ou de utilização imediata de um projecto turístico.
Capítulo V – A influência do tipo de alojamento no ambiente dos destinos turísticos
A avaliação dos impactos ambientais das actividades turísticas, para além desta dimensão temporal, deve conter igualmente uma dimensão espacial, dado que há um carácter dispersivo inerente ao desenvolvimento da actividade turística, que não pode ser vista isoladamente. Esta terá que contemplar todo o processo de transformação global provocado pela utilização turística, nomeadamente as sinergias que se estabelecem com outros usos do território. Isto para que se possa abranger a “verdadeira dimensão dos efeitos ambientais globais, que se traduzem nomeadamente em efeitos cumulativos sobre os sistemas naturais, sociais e sobre o próprio processo de desenvolvimento” (DGT, 1994: 5).
Cater & Goodall (1997) reforçam a ideia de que normalmente são ignoradas as interrelações e interdependências que ocorrem no ambiente local, verificando-se uma tendência para estudar as componentes ambientais do destino isoladamente.
De acordo com Partidário (1998: 80), a actividade turística é responsável por um intenso consumo de energia, matérias primas, bens e serviços, degradação de recursos ambientais de elevado valor e sensibilidade, actuando o ambiente “como produtor de bens turísticos, mas também como receptor de pressões que desafiam a sua capacidade potencial de oferecer oportunidades turísticas”.
Para além destes aspectos, do ponto de vista sócio-económico, o desenvolvimento induzido pela expansão turística provoca o aumento do fluxo de tráfego, fluxos adicionais e sazonais de população, desenvolvimento ilegal de estabelecimentos turísticos, economias paralelas e alteração do padrão de desenvolvimento de actividades tradicionais locais (Partidário, 1998).
Numa tentativa de avaliar concretamente os impactos dos hotéis sobre o ambiente e sua envolvente, procura-se de seguida sumariar alguns dos mais importantes impactos ambientais negativos, gerados pelas empresas do sector do alojamento, com base em Middleton & Hawkins (1998), como se segue:
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? Consumo excessivo de energias não renováveis tais como petróleo, carvão e gás natural;
? Consumo excessivo de água, nomeadamente para lavandarias, operações de limpeza, piscinas, jardins, campos de golfe e outros;
? Utilização de transportes, quer pelas próprias necessidades de mobilidade, quer pelo transporte implícito de visitantes nas suas deslocações de e para as unidades de alojamento;
? Poluição dos cursos de água pelas descargas de efluentes no meio, sem tratamento, provenientes das lavandarias, cozinhas, casas de banho, piscinas, entre outros;
? Utlização de CFC´s e de outras substâncias perigosas; ? Uso intensivo de pesticidas e herbicidas nas zonas verdes; ? Produção de resíduos sólidos para aterro e deposições ilegais;
? Excesso de ruído provocado por alguns empreendimentos turísticos, actividades de entretenimento associadas, bem como pelos próprios visitantes e respectivos meios de transporte;
? Degradação do património natural e cultural pelo excesso de visitantes em áreas sensíve is;
? Desenvolvimento de infra-estruturas, construções diversas e alteração de paisagens naturais para a implementação de empreendimentos turísticos;
? Redução da qualidade paisagística provocada pela progressiva urbanização que se vai instalando, em efeito de cadeia pela actividade turística gerada pelas unidades de hoteleiras.
Assim sendo, é inegável que a indústria hoteleira, no conjunto da sua actividade, tem uma quota parte de responsabilidade nos grandes problemas ambientais actuais, que são normalmente atribuídos a outos sectores económicos, como sejam: a depleção de recursos naturais, aquecimento global e consequente depleção da camada de ozono, as chuvas ácidas, redução da biodiversidade, entre outros.
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Swarbrooke (1999: 299) defende que o “sector do alojamento interage com o conceito da sustentabilidade em quatro áreas distintas”, a saber:
? Localização e construção de novas unidades;
? Práticas de gestão operacional com efeitos sobre o ambiente como a racionalização energética e a reciclagem;
? Práticas de gestão de recursos humanos em termos de igualdade de oportunidades, salários, sazonalidade, empregos temporários (com recurso a trabalho de residentes locais ou imigrantes) - importante dado que o sector hoteleiro é responsável pela maior parcela de emp rego na indústria turística; ? Alimentação proporcionada aos turistas em todos os serviços de catering
fornecidos pelos estabelecimentos hoteleiros, atendendo à sua qualidade e ao facto de ser autêntica e tradicional, fornecida localmente ou antes padronizada com recurso aos distribuidores internacionais.
A importância do desempenho relativo a cada uma destas áreas depende em grande parte da categoria dos estabelecimentos hoteleiros, tal como defendido por Middleton & Hawkins (cf. 5.2). As práticas sustentáveis que timidamente têm vindo a ser tomadas por algumas cadeias internacionais ainda se centram muito nas questões ambientais básicas, na acepção tradicional do termo – gestão da água, energia, resíduos. Mas ainda muito pouco em questões não menos importantes que integram igualmente os princípios da sustentabilidade, como sejam as relacionadas com a gestão de recursos humanos e impactos ao nível da comunidade local, bem como as atitudes preventivas que já se podem tomar ao nível da concepção de novas unidades.
Exceptuando os hospitais, as unidades de alojamento podem ter o mesmo impacto ambiental negativo de qualquer outro edifício de serviços urbano ou mesmo residencial, já que consomem energia, água e outros recursos 365 dias por ano. Serviços como lavandarias, restaurantes, piscinas, sistemas de calor e arrefecimento de uso de energia intensivo, jardins e outras facilidades associadas ao seu funcionamento consomem enormes quantidades de recursos (Twinshare, 2002).
Capítulo V – A influência do tipo de alojamento no ambiente dos destinos turísticos
Numa altura de forte crescimento do sector do alojamento turístico é mais importante que nunca encorajar o recurso a técnicas de construção sustentáveis, design inovador e adopção de práticas de gestão ambientalmente responsáveis.
Os princípios de desenvolvimento subjacentes à filosofia do alojamento de reduzido impacto ambiental baseiam-se na minimização do uso de recursos e maximização da compatibilidade com o ambiente natural e cultural, traçados pela Agenda 21 para a indústria de viagens e turismo.
Reconhecendo as mudanças que o desenvolvimento da construção implica, o Royal
Australian Institute of Arquitects (1993, cit. por Twinshare, 2002) propôs uma política para
encorajar modelos de construção mais apropriados aos princípios da sustentabilidade. A proposta contempla cinco objectivos inter-relacionados:
? Manter e proteger a biodiversidade;
? Minimizar o consumo de recursos, principalmente os não-renováveis; ? Minimizar a poluição do solo, ar e água;
? Maximizar a saúde, segurança e conforto dos ocupantes dos edifícios; ? Promover a consciencialização da importância destes objectivos.
Estes objectivos são aplicáveis ao desenvolvimento do alojamento turístico e servem como guia a todos quantos estão envolvidos neste processo de desenvolvimento responsável.
5.5. Conclusão
Com este capítulo demonstrou-se que faz todo o sentido que as empresas do sector do alojamento assumam um papel activo no cumprimento dos objectivos preconizados para o desenvolvimento sustentável da actividade turística, dada a magnitude dos seus impactos no meio em que se inserem e o poder que detêm para influenciar essa prática.
Efectivamente, da análise efectuada, constatou-se que diferentes categorias de alojamento podem gerar diferentes impactos no destino, principalmente porque vão determinar os
Capítulo V – A influência do tipo de alojamento no ambiente dos destinos turísticos
segmentos de mercado que o procuram e, assim, influenciar o padrão de utilização do destino pelos turistas. Estes vão gerar diferentes níveis de impactos sociais e económicos e as características do alojamento que respondem às suas necessidades influenciam directamente os impactos amb ientais locais.
De salientar a dificuldade existente em implementar medidas integradas de desenvolvimento sustentável devido à organização do alojamento e decisões de marketing serem tomadas individualmente por um grande número de empresas de pequena e média dimensão, sem uma visão estratégica colectiva e integrada acerca do modelo de desenvolvimento turístico mais adequado.
No que diz respeito à dimensão das empresas, verificam-se grandes diferenças ao nível da sua actuação. Nas grandes unidades ou estâncias turísticas, normalmente pertencendo a cadeias internacionais, que oferecem várias componentes do produto, verifica-se um maior compromisso e investimento numa política de gestão mais sustentável, dada a importância da qualidade ambiental para o sucesso do empreendimento. Já no que se refere à generalidade das pequenas e médias empresas, as preocupações com uma actuação mais responsável são praticamente nula s, sendo o seu principal objectivo o baixo custo sob a pressão dos operadores turísticos. Por último, nas muito pequenas e micro-empresas é comum a ligação entre o alojamento e o ambiente local ser mais estreita, havendo um interesse especial na preservação dos recursos ambientais que servem de base ao produto.
Assim, a prioridade de intervenção assenta nas empresas de pequena e média dimensão que são aquelas que existem em maior número e onde há precisamente maiores impactos negativos. No seu conjunto, o peso destes impactos no ambiente tem que ser considerado com a mesma seriedade daqueles provocados por outros sectores de actividade que, estando mais concentrados e originalmente ligados a forte poluição, acabam por estar mais expostos. Estes nem sempre representam piores efeitos do que os verificados pelo elevado número de unidades de alojamento no seu todo, os quais muitas vezes são visíveis só a longo prazo. Para além deste facto, reforçou-se a ideia de que os impactos do sector do alojamento no ambiente se devem analisar na perspectiva das interrelações e interdependências que nele ocorrem e não isoladamente.
Capítulo V – A influência do tipo de alojamento no ambiente dos destinos turísticos
Consumos excessivos de energias não renováveis, de água, de fertilizantes para zonas verdes, produção de resíduos, utilização intensiva de transportes poluentes, poluição de cursos de água, excesso de ruído, redução da qualidade paisagística constituem apenas alguns exemplos dos muitos efeitos negativos de que o sector do alojamento pode ser responsável.
Assim, no conjunto da sua actividade, o sector tem uma quota parte de responsabilidade nos grandes problemas ambientais actuais, que são normalmente atribuídos a outos sectores económicos. Com a elevada taxa de crescimento das empresas de alojamento turístico é mais importante que nunca encorajar a adopção de práticas de gestão ambientalmente responsáveis.
No capítulo seguinte, procura-se precisamente analisar as principais áreas de intervenção em que é mais pertinente a acção das unidades hoteleiras para minimizar os impactos mais negativos de que são responsáveis.
Capítulo VI – Domínios de acção ambiental das empresas do sector hoteleiro