CONCLUSION : DES INTENTIONS A LEUR MISE EN ŒUVRE
ANNEXE 6 : LA DEUXIEME REVISION ET ACTUALISATION DU RSV
3.2.3 Précisions relatives aux bureaux et aux commerces de détail
Agamben afirma que toda obra é, em essência, fragmento. O processo criativo excede qualquer obra e é exatamente isso que define a sua potência. Uma obra não pode ser concluída, apenas abandonada. O que é concluído torna-se somente cinzas e sepulcro de uma obra. A não- obra, aquilo que não passa ao ato, à escrita, é, certamente, o mais relevante. É sobre esse excedente que toda investigação filosófica deve se concentrar; ele, significativamente, confunde-se com a vida de cada autor, com a sua inoperosidade.
O filósofo italiano, em diversas oportunidades, afirma que o livro por ele nunca escrito é o mais importante. Se, neste trabalho, analisamos de modo não cronológico o conjunto da obra agambeniana, redigido em um período de quase seis décadas, foi, precisamente, com o objetivo de visualizar tal excedente. Não para tentar dele extrair conclusões, mas para ser por ele afetado. A filosofia, para manter-se como tal, deve permanecer como puro meio. As relações com ela estabelecidas merecem tomar a forma de um corpo a corpo entre o vivente e a potência do pensamento; e quando realmente há pensamento, não se pode dele sair ileso. Retirar conclusões de um pensamento designa um procedimento de instrumentalização, incompatível com a proposta agambeniana.
A inaptidão para verdadeiramente afetar-se por um pensamento, na qualidade de profundo desamparo e desespero pela própria impotência, corresponde não apenas à impossibilidade de qualquer criação, mas, provavelmente, à mais perigosa despotencialização dos homens. A perda da capacidade de vulnerabilizar suas certezas representa a ruína de toda filosofia; e os modos de vida que daí se seguem indicam a completa suscetibilidade a qualquer governo, ordem, mito ou mistério.
O pensamento de Agamben alerta sobre a necessidade de pensar de um novo modo a relação entre potência e ato, entre o possível e o real. Diante dessa dicotomia, a resistência aparece como a capacidade de des-criar o real. Ela não se situa em qualquer obra, mas na des- obra, na força de impedir a passagem ao ato. E, por isso mesmo, é fraca, é passiva, é paixão (no sentido etimológico de padecimento, passividade). Contra toda privatização da palavra e da verdade, a filosofia aparece, precisamente, como a “philia”, a paixão, o amor pela verdade, o qual apenas pode sobreviver diante da consciência da impossibilidade de reduzi-la ao dogma.
A Agamben interessa conceber um não-lugar em que a potência não desapareça, mas se mantenha e “dance” no ato, ou seja, estabeleça uma relação de pura gestualidade (medialidade).
Em termos políticos, trata-se de pensar um poder constituinte que nunca se dissolva em poder constituído. Sua alternativa aponta para uma política das formas de vida, de uma vida que jamais seja separável da sua forma, que nunca seja vida nua (aquela sob cuja exclusão inclusiva se fundamenta o poder soberano). Quando o poder assume a vida como objeto (como acontece de modo paradigmático na biopolítica moderna), apenas formas de vida podem apresentar-se como resistência, como já havia sugerido o filósofo Gilles Deleuze.
Diferente da tradição de esquerda que lamentavelmente atém-se a abstrações jurídicas (como os direitos humanos) e econômicas (como a força de trabalho e a produção), Agamben lança como tarefa à política que vem conceber uma forma de vida que se funde não na ação e na propriedade, mas no uso. Ao autor, importa pensar uma vida absolutamente contrária aos modos de vida determinados pela economia, orientados à produção e ao consumo e ingenuamente crentes em benefícios da produtividade e do trabalho. Ao deslumbrarem-se com as possibilidades do que podem ser, os homens estão a deixar de perceber (ou de se afetar com) o que não lhes é lícito não ser. Um dos grandes méritos da genealogia agambeniana é explicar por que a ampliação inaudita da esfera daquilo que os homens não podem não ser vem a aparecer como a característica decisiva da modernidade.
Vimos que o trono vazio é o símbolo paradigmático do poder soberano, que escancara sua ilegitimidade. O vácuo no cerne da soberania carrega, todavia, uma possibilidade positiva. Ele corresponde à inoperosidade fundamental da humanidade; é a partir dela que pode ser pensada uma via de fuga ao governo. Pensar o homem como ser constitutivamente inoperoso, ser de pura potência, desprovido de toda essência, destino, vocação histórica ou espiritual, é exatamente o que permite a existência da ética e da política, as quais se situam como dimensões da pura possibilidade. Agamben insiste na importância de reconhecer que aquilo que o homem é e tem de ser é o simples fato da própria existência como possibilidade ou potência.
Se considerarmos que as ciências política e econômica ainda falam com um vocabulário herdado da teologia, e que as categorias da linguagem condicionam as categorias do pensamento, torna-se patente a necessidade de repensar tais ciências desde os seus fundamentos. A economia política vem a constituir-se como a racionalização social da
oikonomia providencial. Se no paradigma da providência, Deus governa e administra o mundo,
desde as coisas grandes até as pequenas, com um gesto oculto da mão (como aparece nos relatos de Agostinho e Tomás de Aquino), na economia moderna, isso permanece na forma da “mão invisível”, metáfora de origem teológica utilizada por Adam Smith. A naturalização de instituições sociais aparece, em ambos os casos, na mesma medida: a sacralização da oikonomia divina e da economia moderna exige, desde o princípio, a matabilidade das vidas humanas.
A via de fuga agambeniana aponta, então, para a necessidade da elaboração, no tempo de agora, de formas-de-vida plenamente profanas, insalváveis, ingovernáveis, não subordinadas a qualquer direito e soberania, conscientes de sua potência e de sua impotência e, finalmente, capazes do uso inoperoso dos corpos, da língua e do intelecto. Se a promessa de salvação encontra sua representação paradigmática na perfuração das mãos do Messias, uma vida absolutamente profana e insalvável é aquela capaz de seguir a, cada vez mais, perfurar (exceder) as “mãos invisíveis” que continuam a nos governar. É apenas esta a exigência do tempo que nos resta: escapar das mãos que agarram, ēx manus capere, emancipar-se.
"Vem por aqui" — dizem-me alguns com os olhos doces Estendendo-me os braços, e seguros De que seria bom que eu os ouvisse Quando me dizem: "vem por aqui!" Eu olho-os com olhos lassos, (Há, nos olhos meus, ironias e cansaços) E cruzo os braços, E nunca vou por ali... Se ao que busco saber nenhum de vós responde Por que me repetis: "vem por aqui!"? Prefiro escorregar nos becos lamacentos, Redemoinhar aos ventos, Como farrapos, arrastar os pés sangrentos, A ir por aí... Se vim ao mundo, foi Só para desflorar florestas virgens, E desenhar meus próprios pés na areia inexplorada! O mais que faço não vale nada... Ide! Tendes estradas, Tendes jardins, tendes canteiros, Tendes pátria, tendes tetos, E tendes regras, e tratados, e filósofos, e sábios... Eu tenho a minha Loucura! Levanto-a, como um facho, a arder na noite escura, E sinto espuma, e sangue, e cânticos nos lábios... Ah, que ninguém me dê piedosas intenções, Ninguém me peça definições! Ninguém me diga: "vem por aqui"! A minha vida é um vendaval que se soltou, É uma onda que se alevantou, É um átomo a mais que se animou... Não sei por onde vou, Não sei para onde vou Sei que não vou por aí!