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Précision sur les projets et les partenariats

Dans le document The DART-Europe E-theses Portal (Page 72-75)

O conceito de recurso contencioso de caráter simbólico-interpretativo expressa dimensões cognitivas, culturais e emocionais que se referem a como os atores em movimento constroem significados para a ação. Essas dimensões vêm sendo tratadas sob diferentes ângulos no campo de estudos sobre movimentos sociais contemporâneos. Desde a perspectiva que temos tentado elaborar, esse tipo de recurso entra na constituição de quadros interpretativos que, como vimos previamente, consiste numa redefinição do conceito de frames de Erving Goffmam. Nesse sentido, queremos argumentar que as práticas

articulatórias movimentalistas, em grande medida, consistem em práticas de enquadramento interpretativo, as quais, a partir de recursos contenciosos simbólico-interpretativos disponíveis no curso da ação, simplificam e condensam o “‘mundo lá fora’, salientando e codificando seletivamente objetos, situações, eventos, experiências e sequências de ações num ambiente presente e passado” (SNOW, BENFORD apud HUNT, BENFORD, SNOW, 2001, p. 228). Produz-se, assim, uma redução da “complexidade social a níveis manejados pelo indivíduo comum” (ALONSO, 2009, p. 78), e ao fazê-lo, fixam-se e desdobram-se recursos contenciosos mais consoantes com o contexto de ação em foco. Isto é, recursos simbólico- interpretativos contenciosos compõem o quadro interpretativo do movimento (como insumos), num processo de articulação desses recursos, com sua significação particular no contexto de ação, o que implica a emergência de novos recursos (produtos). Os atores em movimento, ao se apropriarem e desdobrarem recursos disponíveis, constróem e organizam os quadros ou esquemas interpretativos que trazem significações para suas ações em contextos específicos. Enquadrar torna-se sinônimo de articular, conferindo significação à ação.

Scribano propõe em seu arranjo analítico para abordagem de ações coletivas, o conceito de “recursos expressivos”, que se aproxima de nossa proposta de recursos contenciosos simbólico-interpretativos. Da mesma maneira que os recursos contensiosos, os “recursos expressivos” são utilizados e construídos como

produtos de sentido e são ao mesmo tempo sentido em produção. São recursos como resultados e também como insumos. Desde a perspectiva dos insumos, os recursos são selecionados e usados ressignificando sua posição original em uma trama de significados determinada; desde a perspectiva dos resultados, os recursos se veem depurados por um processo de produção significativa que torna a utilização ‘inovadora’ (SCRIBANO, 2003, p. 86).

As práticas articulatórias, ao produzirem enquadramentos interpretativos com base em recursos contenciosos disponíveis e emergentes, estão produzindo significações compartilhadas que incidem sobre algumas questões-chaves: a definição de uma situação vivida e que deve ser enfrentada (projetando algum significado de injustiça, de negligência de direito, de condução insatisfatória de ações por autoridades competentes etc.); a delimitação de agentes e instâncias que possam ser responsabilizados em alguma medida por ela (identificando-os, por exemplo, como oponentes, inimigos ou adversários); a definição de objetivos, demandas e reivindicações, em suma, de fins para a ação; a definição de formas e medidas adequadas para o enfrentamento/superação da situação, tomando em conta os meios disponíveis e emergentes, os limites e oportunidades que o contexto expõe. Os recursos

contenciosos, associados aos quadros interpretativos, produzem uma “mensagem” dirigida tanto ao interior do movimento, como a agentes externos, criando um espaço interno de compartilhamento de sentidos e condições para gerar audiências.

Esses recursos simbólico-interpretativos favorecem a projeção da conflitividade social com diferentes níveis de intensidade, na medida em que potencialmente fornecem uma interpretação diferente, alternativa e conflitiva para uma situação vivida, e possibilitam a individuação de agentes externos que serão de alguma maneira interpelados. Os quadros interpretativos enfatizam e “adornam a gravidade e a injustiça de uma condição social ou redefine como injusto ou imoral o que era visto anteriormente” como tolerável (TARROW, 2009, p. 143), isto é, deslocam uma significação da situação dando vazão a energias conflitivas.

Eles entram em jogo na prática articulatória moldando determinados marcos estratégicos de ação, que vão projetar espaços relacionais e conflitivos onde se revelam diferentes significações da ação coletiva. Esses espaços, que discutiremos na sequência, chamaremos de contextos de conflitividade.

Na medida em que todo sistema de significação é discursivo, as práticas articulatórias movimentalistas, suas vinculações seletivas com determinadas matrizes configurativas, os quadros e esquema interpretativos, as formas de apropriação e de desdobramento de determinados recursos simbólico-interpretativos na ação coletiva, se revelam em discursos dos atores em movimento, e ao mesmo tempo, estes mesmos discursos possibilitam a constituição e desenvolvimento da ação. A construção de quadros/esquemas interpretativos envolve um trabalho de “nomear” fundamental para todo o processo envolvido na ação coletiva, operando tanto dentro de significações estruturadas, instituídas e/ou disponíveis, como suscitando novos significados. É nesse sentido que a definição de uma situação vivida e de descontentamentos em relação a ela por parte dos atores em movimento, bem como a identificação de oponentes, de agentes aos quais devem ser dirigidas demandas, e ainda a própria delimitação de objetivos etc. se realizam através de um processo de nomeação e “objetificação” particular que se processa através dos discursos dos atores. O discurso é aqui entendido com uma fala ou um objeto textual através do qual os atores em movimento se comunicam e estruturam sua ação coletiva (numa dinâmica interativa interna) e, ao mesmo tempo, se dirigem a diferentes interlocutores e audiências possíveis no quadro de seus relacionamentos qualificados externos. A prática articulatória movimentalista, implicando processos de enquadramento interpretativo, expressa um discurso estruturado com capacidade

de ordenar enunciados, organizar aspirações difusas num sentido específico, possibilitando que os atores em movimento (e aqueles mobilizáveis, convocáveis) possam se reconhecer a partir de novas ou renovadas significações, por meio do compartilhamento de referências identitárias comuns. Nesse sentido, é através da prática articulatória movimentalista, de apropriação, produção e reprodução de recursos contenciosos, que se conforma, processualmente, a identidade coletiva de determinado movimento.

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