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As pesquisas em educação, de forma geral, lidam com processos humanos e sociais que são dinâmicos e abrangentes. Uma metodologia que tem como finalidade trazer à luz dados objetivos, mensuráveis, regularidades e tendências observáveis, embora possa contribuir com as discussões realizadas numa perspectiva qualitativa, tem sido identificada como ineficiente para analisar tais processos48.

Assim, para melhor compreender essas realidades complexas, tem-se como alternativa a perspectiva qualitativa de pesquisa que, segundo Borba (2004, p. 6), “está baseada na idéia que há sempre um aspecto subjetivo no conhecimento produzido. Não há, nesta visão, neutralidade no conhecimento que se constrói”. Uma pesquisa nesta perspectiva, como descreve D‟Ambrósio (2006, p. 19), “lida e dá atenção às pessoas e às suas idéias, procura fazer sentido de discursos e narrativas que estariam silenciosas.” Ou seja, tem como objetivo a compreensão dos significados atribuídos pelos sujeitos às suas ações num dado contexto.

Alves-Mazzotti e Gewandsnajder (1998, p. 131), considerando a multiplicidade de caracterizações da pesquisa qualitativa, assumem a definição de Patton, que, segundo os autores, afirma:

[...] a principal característica da pesquisa

48

Tal metodologia é chamada de pesquisa quantitativa, estatística ou positivista. Essencialmente, lida com grande número de indivíduos, recorrendo aos métodos estatísticos para a análise dos dados coletados de maneiras diversas. (D‟Ambrósio, 2004).

qualitativa é o fato de que esta segue a tradição compreensiva ou interpretativa. Isto significa que essas pesquisas partem do pressuposto de que as pessoas agem em função de suas crenças, sentimentos e valores e que seu comportamento tem sempre um sentido, um significado que não se dá a conhecer de modo imediato, precisando ser desvelado. Desta forma, as estratégias adotadas na pesquisa visam apreender estes significados.

Nesta abordagem, portanto, pretende-se interpretar em vez de mensurar e procura-se compreender as situações tal como elas são vivenciadas pelos sujeitos ou grupos de sujeitos a partir do que pensam e como agem (seus valores, representações, crenças, opiniões, atitudes, hábitos).

Embora as duas perspectivas de pesquisa (qualitativa e quantitativa) tenham naturezas diferenciadas e aparentemente incompatíveis, há autores como Lincoln e Guba (1985), Denzin e Lincoln (1994), Fiorentini (2004) e Vattimo (2004) que sugerem a combinação das duas sempre que seja útil e adequado para compreender, explicar ou aprofundar a realidade em estudo, originando a complementaridade entre métodos.

Desta forma, a escolha por uma metodologia de pesquisa não impossibilita a utilização de outros procedimentos, uma vez que “[…] uma mesma investigação pode contemplar procedimentos de vários paradigmas sem que, com isso, ela perca qualidade ou torne-se eclética”, escreve Fiorentini (2004, p.71). E o autor acrescenta: “Os diferentes aportes teóricos-metodológicos podem proporcionar não apenas perspectivas complementares, mas, sobretudo, entendimentos que ajudam a (re)significar a compreensão do fenômeno.” (FIORENTINI, 2004, p. 71). Nesse sentido, Vattimo (2004, p.3) assim se posiciona: “não existe uma única maneira de descrever os fatos objetivamente e, para aproximar-se deles, pode-se fazer uso de muitos pontos de vista”.

Portanto, em uma investigação educacional, são diversas as possibilidades e as opções metodológicas a serem utilizadas. De modo que “não há metodologias „boas‟ ou „más‟ em si, e sim metodologias adequadas ou inadequadas para tratar um determinado problema”, assegura Alves-Mazzotti (1998, p.160). Assim, a escolha da metodologia deve ser feita em função da natureza do problema a estudar Como a questão central da pesquisa aqui apresentada é: “ Propor e analisar práticas educativas para a formação matemática de estudantes

do PROEJA em uma perspectiva de Educação Matemática Crítica” considerou-se pertinente adotar uma metodologia de investigação qualitativa pois se entende que seria adequada para perceber as questões inerentes à problemática desta investigação.

Denzin e Lincoln (1994) assim entendem a pesquisa qualitativa: Pesquisa qualitativa prevê pluralidade de método quanto ao foco, envolvendo uma abordagem interpretativa e naturalística do assunto pesquisado. Isso significa que os pesquisadores qualitativos estudam as coisas em seu ambiente natural, tentando dar sentido aos fenômenos, ou interpretá-los, em termos dos significados que as pessoas dão a eles. A pesquisa qualitativa envolve o uso e a coleção de uma variedade de materiais empíricos – estudo de caso, experiência pessoal, introspectiva, história de vida, entrevista e textos gerados a partir de observações, textos históricos, de interações visuais. (DENZIN; LINCOLN, 1994, p. 2).

A investigação qualitativa tem na sua essência, segundo Bogdan e Biklen (1994), cinco características que se mostraram presentes nesta investigação: (1) a fonte direta dos dados é o ambiente natural - no nosso caso o ambiente onde ocorreram as interações de ensino- aprendizagem (sala de aula, laboratórios), constituindo o investigador o instrumento principal no recolhimento desses dados; (2) os dados obtidos são essencialmente de caráter descritivo – os dados desta pesquisa foram se constituindo a partir do envolvimento dos estudantes durante a investigação e do material produzido por eles; (3) os investigadores que utilizam metodologias qualitativas interessam-se mais pelo processo em si do que propriamente pelos resultados ou produtos; (4) os investigadores qualitativos tendem a analisar os seus dados de forma indutiva; e (5) o investigador interessa-se, acima de tudo, por tentar compreender o significado que os participantes atribuem às suas experiências.

Para Alves-Mazzoti (1998, p. 166), a observação em estudos qualitativos caracteriza-se como “não-estruturada, na qual os comportamentos a serem observados não são predeterminados, eles são observados e relatados da forma como ocorrem, visando descrever e compreender o que está ocorrendo numa dada situação”.

citados por Alves-Mazzoti, uma vez que as informações obtidas decorreram das observações realizadas durante a pesquisa de campo, que posteriormente foram descritas e analisadas à luz do referencial adotado. Com relação aos procedimentos metodológicos utilizados durante a atividade investigativa, estes foram sendo construídos à medida que a pesquisa foi se desenvolvendo.

De acordo com Araújo (2002), quando o foco de uma pesquisa e seus procedimentos metodológicos vão sendo construídos durante o desenvolvimento da pesquisa, ela pode ser caracterizada como uma pesquisa de design emergente. Alves-Mazzotti (1998) resume os argumentos usados por Lincoln & Guba (1985) para justificar a caracterização de uma pesquisa com foco e design emergentes. Para ela:

O foco e o design do estudo não podem ser definidos a priori, pois a realidade é múltipla, socialmente construída em uma dada situação e, portanto, não se pode apreender seu significado se, de modo arbitrário e precoce, a aprisionarmos em dimensões e categorias. O foco e o design devem, então emergir, por um processo de indução, do conhecimento, do contexto e das múltiplas realidades construídas pelos participantes em suas influências recíprocas. (ALVES-MAZZOTI,1998, p.147).

Assim, identifico a pesquisa aqui desenvolvida como tendo características de foco e design emergentes. O que não significa estar, esta investigação, desprovida de um planejamento. Uma vez especificados os objetivos e as questões norteadoras (item 1.6), certamente um planejamento inicial precisou ser realizado e outros ao longo do processo.

Ao se formular um problema de pesquisa, delineia-se também um peculiar caminho para procurar e encontrar respostas para o problema proposto. No caso desta investigação, o caminho foi sendo delineado com alguns pressupostos, mas também incertezas, que no decorrer da caminhada foram sendo compartilhados por atalhos inicialmente impensados.

Segundo Fiorentini & Lorenzato (2009), há várias formas de se interrogar a realidade e coletar informações, sendo que algumas modalidades de pesquisa são caracterizadas segundo o processo de coleta de dados. Uma delas é a pesquisa naturalista ou de campo frequentemente utilizada pelos antropólogos e sociólogos, assim

denominada para significar que os dados do estudo são coletados no campo, ou seja, diretamente no local em que o problema ou o fenômeno acontece. Pode-se recorrer a amostragens, entrevistas, observação participante, pesquisa-ação, aplicação de questionário e teste.

As informações buscadas com o trabalho de campo, no entanto, não fornecem gratuitamente as explicações e compreensões que procuramos, não são simples dados fornecidos pela natureza ou pelas práticas sociais. De acordo com Fiorentini e Lorenzato (2009, p. 101), “nós é que o produzimos mediante um processo interativo de diálogo e questionamento da realidade. Nosso olhar, no trabalho de campo, portanto, é orientado pelas nossas questões e pelo que queremos investigar.”

Assim, levando-se em consideração as definições anteriores, entendo que esta pesquisa apresenta características de uma pesquisa qualitativa, de foco e design emergentes cujo procedimento metodológico projetado para a constituição de material de estudo enquadra-se na modalidade naturalista ou de campo.

A seguir apresento o contexto e os participantes da pesquisa. Os procedimentos metodológicos utilizados para a obtenção dos dados durante a investigação assim como os pontos de análise serão explicitados no item 4.3.

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