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Position et variabilit´ e du jet, effet de la r´ esolution du mod` ele de l’IPSL . 116

7.2 North-Atlantic dynamics and European temperature extremes in the IPSL model:

9.1.2 Position et variabilit´ e du jet, effet de la r´ esolution du mod` ele de l’IPSL . 116

Não foi, contudo, a entrada em cena da FCG que veio desencadear o processo de renovação da SNBA. A sua «modernização» derivou em primeiro lugar das alterações estatutárias e diretivas que vinham ocorrendo desde 1952, ano em que a Sociedade foi encerrada por decisão governamental, na sequência da expulsão de Eduardo Malta306. Cristina Azevedo Tavares, no seu estudo sobre a SNBA, analisa as transformações pelas quais esta instituição foi passando, tendo esta sido claramente pressionada pelo que ia acontecendo nas suas salas de exposição, desde o decadentismo dos seus salões tradicionais, passando pela postura estética e política das Exposições Gerais de Artes Plásticas, pela abertura

305Em 1961, Mário de Oliveira, respondendo a um inquérito, apreciava deste modo o panorama artístico português: «acho que o ambiente actual das artes plásticas em Portugal é o de maior importancia de todos os tempos. Ambiente que António Ferro indiscutivelmente levantou, com uma compreensão justíssima dos fenómenos da arte moderna, começou a despertar mais vivamente depois dessa grande exposição de artes plásticas que a fundação Gulbenkian organizou, e a que lhe sucederam exposições anuais importantes, como o “Salão dos Novíssimos”, organizado pelo S.N.I., o “Salão dos Independentes”, e ainda as magníficas exposições de arte moderna que a actual direcção da S.N.B.A. tem organizado com tanto acerto e que revelaram artistas de grandes qualidades». TEIXEIRA, Quirino - Um inquérito sobre o movimento actual das artes plásticas: Mário de Oliveira - Acho que o ambiente actual das artes plásticas em Portugal é o de maior importância de todos os tempos […]. Diário de Notícias (8 jun. 1961), p. 17.

306 As consequências da expulsão de Eduardo Malta, que derivou da recusa deste em pedir desculpas pela acusação que dirigiu a um outro sócio da SNBA, e que se provou falsa, tiveram um cariz político, colocando frente a frente duas fações no interior da Sociedade, uma ultra- conservadora, defensora do regime, ligada a Eduardo Malta, e outra oposicionista. O Estado, através do Ministério da Educação Nacional, que tutelava a SNBA, pretendia controlar a composição dos corpos gerentes e dos júris da Sociedade, a fim de prevenir qualquer influência comunista. Esta situação levou a alterações nos estatutos e a eleições para novos corpos gerentes. Cf. TAVARES, Cristina Azevedo. A Sociedade Nacional de Belas Artes: um século de história e de arte, 2006, pp. 160-164.

aos jovens artistas com o Salão dos Artistas de Hoje e, finalmente, pela discussão gerada pela Exposição de Artes Plásticas.

Em 1956, começaram a ser discutidos novos estatutos, tendo sido tema de debate a extinção da atribuição de medalhas pela SNBA. Não se tomou qualquer decisão a este respeito, mas, no Salão dos Artistas de Hoje, ensaiou-se um novo modelo - a atribuição do prémio por votação dos próprios expositores. Esta iniciativa testemunhou não só uma abertura da direção da Sociedade, como também a ligação dos organizadores daquele Salão à própria reflexão interna que ia tendo lugar entre os sócios da SNBA. Em 1958 novas personalidades integraram os corpos diretivos da Sociedade, como Francisco Conceição Silva (1922-1982), Frederico George (1915-1994), José Júlio (1916-1963) e Luís Dourdil (1914-1989). Em 1960 Frederico George assumiu a presidência da direção da SNBA, acompanhando a aprovação de novos estatutos, que, entre outras medidas, deu ao conselho técnico a responsabilidade de seleção de artistas para as exposições. O primeiro conselho foi composto por Abel Manta (1888-1982), António Silva Lino (1911-1984), Júlio Pomar (1926), Jorge Vieira (1922-1998), Raul C. Ramalho, Carlos Botelho (1899-1982), Celestino Alves (1913-1974), Fernando Azevedo (1923-2002), Vasco Conceição (1914-1992) e Fernando Guimarães307.

Foi, contudo, ainda durante a direção presidida pelo pintor naturalista Armando de Lucena (1886-1975) que o I Salão de Arte Moderna abriu ao público, em outubro de 1958. A sua organização esteve a cargo dos associados mais novos da SNBA, sendo o Júri de Admissão constituído por Luís Dourdil (presidente, substituindo o presidente da direção e representando a direção da SNBA e os expositores); Francisco Conceição Silva e José Júlio, pela direção da Sociedade, e José-Augusto França e Fernando Azevedo, pelos expositores.

O catálogo deste primeiro Salão evidenciava a mudança de rumo que a SNBA começara a traçar, ao anunciar a pretensão de se criar um espaço de

307 PENA, Gonçalo – Instituições, galerias e mercado: Sociedade Nacional de Belas-Artes. Anos 60, anos de ruptura…, 1994.

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acolhimento aos artistas que dela tinham andado afastados e ao proceder a uma clara distinção em relação aos salões tradicionais:

Com a realização deste Salão de Arte Moderna, que, pode dizer-se, é o primeiro a ser organizado pela Sociedade Nacional de Belas-Artes […] pretende-se, não só que à Casa dos Artistas acorram aqueles que, de há muito – ou desde sempre – faltam sistemàticamente à chamada por sentirem que as suas obras estão fora dos moldes dos salões tradicionais de Inverno e da Primavera, mas também, colocar a S.N.B.A. num caminho de realizações que, não esquecendo o passado, percorram o presente, mas um presente virado ao futuro. Quer no espírito quer na organização este salão difere dos salões tradicionais: não são atribuídas medalhas e todos os trabalhos ficam sujeitos às decisões do júri de admissão. Procurou-se fazer a selecção de qualidade que respeitasse o espírito de uma exposição de arte moderna, aceitando, porém, algumas obras que, embora não integradas nele, se afastavam, contudo, de um espírito académico. […] De lamentar algumas ausências, umas justificadas por neste momento se encontrarem no estrangeiro alguns artistas modernos, outras derivadas, em partem da época – a única que pôde dispor a Direcção da S.N.B.A. – apenas a duas semanas do fim das férias. Oxalá as Direcções futuras mantenham este Salão e criem novos motivos de interesse que justifiquem a sua continuidade.308

Foram sobretudo os acontecimentos imediatamente anteriores ao I Salão

de Arte Moderna que permitiram a sua realização. José Júlio (1916-1963)309, um dos organizadores deste certame, numa entrevista ao Diário de Lisboa,

308 1º Salão de Arte Moderna. Lisboa: SNBA, 1958.

309 Formou-se em Matemática e Ciência Geofísica na Faculdade de Ciências de Lisboa. Foi professor de liceu das disciplinas de Matemática e de Desenho, dedicando-se também, à música. A prática artística surgiu mais tarde, em 1949, realizando a sua primeira exposição individual em 1951. José Júlio empenhou-se na divulgação e na educação artísticas, organizando conferências e exposições didáticas em associações de estudantes. Interveio também ativamente no meio artístico português através da sua participação em várias instituições representativas dos artistas: esteve na criação da Cooperativa dos Gravadores Portugueses e integrou os corpos diretivos da Sociedade Nacional de Belas-Artes. V. José Júlio. Lisboa: Dimensão 6, 2002.

respondendo à pergunta sobre se este evento seria «o primeiro passo para a modificação do ambiente habitual» das exposições da SNBA, afirmou que:

A exposição a que se refere [o I Salão de Arte Moderna] não trouxe novidades, de certo modo, á Casa dos Artistas. Algumas exposições nela realizadas nestes últimos três anos já traziam um cunho de modernidade que começava por se reflectir na arrumação das salas. Refiro-me ao I Salão dos Artistas de Hoje, em Fevereiro de 1956, e á Exposição Gulbenkian, em Dezembro de 1957. E aproveito para, respeitosamente, rectificar afirmações vindas a lume no «Diário de Lisboa» no decurso de dois dos depoimentos colhidos a propósito do Salão de Arte Moderna, e segundo as quais este «é uma consequência» ou «está na continuidade da Exposição Gulbenkian». Parece-nos mais justo entroncar o I Salão de Arte Moderna no I Salão dos Artistas de Hoje de que, pode dizer-se, herdou o espírito… e alguns dos nomes responsáveis. Assim, a exposição agora realizada, da iniciativa da Sociedade, quase constitui uma oficialização dos Artistas de Hoje. O que não foi novo, de exposição para exposição, nas três a que faço referência: a troça, o insulto com que foram acolhidas.310

O «espírito» deste I Salão associava-se, portanto, aos Artistas de Hoje, segundo José Júlio, indo ao encontro da principal virtude do Salão de 1956, segundo os próprios artistas e críticos portugueses: uma afirmação inequívoca da arte moderna. E verificando a lista dos expositores, podemos afirmar que a mostra acabou, regra geral, por ser coerente com os seus objetivos, não se tendo admitido nenhum artista conotado como Naturalismo de matriz oitocentista311.

310 A intolerância dos críticos liberais - segundo José Júlio. Diário de Lisboa (11 dez. 1958), p. 13. 311 Neste I Salão de Arte Moderna expuseram-se 78 obras, repartidas pelas áreas de pintura, escultura (escassamente representada), desenho e gravura, que corresponderam a 40 expositores: Albertina Mântua, Alice Jorge, António Areal, António Cardoso, Artur Bual, D'Assumpção, Bartolomeu Cid, Cabé, Carlos Calvet, Daciano da Costa, Eduardo Viana, F. Duarte, Fernando Azevedo, Fernando Fernandes, Francisco Relógio, Hansi Stäel, João Abel Manta, João Hogan, Joaquim Rodrigo, José Bronze, José Cândido, José Escada, José Joaquim Rodrigues, José Júlio, Júlio Pomar, Júlio Resende, Luís Jardim, Manuel Baptista, Manuel De=Francesco, Manuel

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Assim o entrevistado contrariava a opinião de Diogo de Macedo, publicada também no Diário de Lisboa. O diretor do MNAC afirmara neste jornal que o I Salão da SNBA derivara da Exposição de Artes Plásticas da FCG:

Esta exposição surge como uma consequência da louvável atitude da Fundação Gulbenkian, apresentando uma nítida homogeneidade. […] As duas faces da pintura actual - figurativos e abstractos - têm autêntica representação nas Belas-Artes […] No entanto os não figurativos são em maior numero, o que se pode atribuir quer a uma posição de juri, quer á evidente fascinação dos jovens pela expressão abstracta ou abstractizante. E a presença dos novos é sem duvida uma faceta dominante nas Belas-Artes […].312

José Júlio respondeu também, na mesma entrevista, à «acusação» de Diogo de Macedo, quando lhe foi perguntado se «estava no espírito dos organizadores do Salão limitar práticamente a representação aos artistas não- figurativos?»:

De modo algum. Conforme já foi dito, e redito, o Salão resultou assim por ausência de vários artistas cujos trabalhos fariam descer a percentagem de não-figurativos. […] admito a existência de vários tipos de modernidade que não podem excluir-se mutuamente. Considero desprovido de sentido, em termos exclusivamente plásticos, e só estes me interessam como pintor, este duelo entre abstractos e figurativos. Para mim apenas se põe o problema do artista fazer ou não a arte do seu tempo.313

Apesar dos esforços de José Júlio em defender a multiplicidade de manifestações da arte moderna que foram apresentadas no Salão da SNBA, era, mais uma vez, o antagonismo figuração/ abstração que se colocava na base da análise desta exposição.

Gamboa, Mário de Oliveira, Martins Correia, Menez, Nikias Skapinakis, Rolando Sá Nogueira, Rui Filipe, Susan Plant, Teresa Sousa, Vespeira, Waldemar da Costa.

312 MACEDO, Diogo de – Depoimento. Os críticos e o 1º Salão de Arte Moderna na Sociedade Nacional de Belas Artes: Depoimento de Diogo de Macedo. Diário de Lisboa (8 nov. 1958), p. 19. 313

No primeiro número da revista da FCG, Colóquio, José-Augusto França escreveu também sobre o I Salão de Arte Moderna, do qual destacou «o rigor com que a selecção de obras foi feita […] procurando definir um espírito moderno onde cabem, evidentemente, “figurativos” e “não-figurativos”, mas tendendo a exigir destes uma consciência dos problemas actuais da pintura, haveria naturalmente de reduzir o número dos participantes».

França não deixou, porém, de considerar este um «Salão acertado e com algumas obras notáveis e muito significativas, numa média de qualidade apreciável». Por outro lado, viu também na SNBA um prenúncio de um desenvolvimento positivo do meio artístico português: «a arte que uma “terceira geração” de artistas modernos portugueses está a criar, começa a ter papel na vida cultural do nosso país, atraindo como atrai camadas mais novas de público – e a pouco e pouco o público e os artistas hão-de ficar aptos a fazer modificar europeiamente o perfil da arte contemporânea em Portugal»314.

Fernando Pernes registou, porém, na sua análise do I Salão de Arte

Moderna, o impacto limitado deste evento, quer em termos de projeção pública,

quer também em termos das obras mostradas, partindo, depois, para uma apreciação mais negativa da produção artística portuguesa com base numa contextualização internacional:

Se qualquer forma os visitantes habituais da velha instituição tiveram agora a ocasião de fixar os novos conceitos para uma nova estética, que aliás, pela repetição até ao cansaço, pelo seu novo academismo ao qual poucos expositores se conseguiram furtar, lhe surge como evolução natural do mesmo superficialismo de expressão, habitual nos salões da Rua Barata Salgueiro. Sob uma máscara de actual, mantêm-se os mesmos problemas para uma verdadeira actualidade da pintura em Portugal […] A uma ausência de valores humanos corresponde uma ausência de valores plásticos. O I Salão de Arte Moderna terá assim o grande mérito de surgir como depoimento da

314 FRANÇA, José-Augusto - I Salão de Arte Moderna: Exposição na S.N.B.A. Colóquio: Revista de artes e letras. Nº 1 (jan. 1959), p. 38.

197 nossa incapacidade em vivermos e exprimirmos os grandes problemas da hora europeia que, em França como na Itália, se tomam como causa e consequência de autênticas correntes estéticas, das quais, afinal, pouco mais assimilámos para além da estéril imitação servil.315

Mário Dionísio também expressou as suas reservas em relação a este Salão, questionando-se se ele representaria a renovação efetiva da SNBA:

Este Salão significa o desejo de aderir a uma audácia ou a necessidade de abrir, enfim, oficialmente, as portas a uma corrente que já não é audaciosa em parte alguma? Como revelação do “novo”, a exposição pareceu-me um equívoco. Ela teve, contudo, o interesse de nos mostrar a situação da pintura em Portugal, no que toca ás camadas mais recentemente chegadas ao domínio da arte. Infelizmente, não se pode dizer que o testemunho tenha sido brilhante ou tranquilizador. Onde se esperaria encontrar inquietação, inconformismo criador, aproveitamento da lição de ousadia “autêntica” dos grandes mestres de todos os tempos, não se terá encontrado muito mais do que certa destreza manual, submissão aos padrões em voga, um vazio que gela.316

Na perspetiva de Fernando Pernes e de Mário Dionísio, a jovem arte portuguesa encontrava-se num vazio de propostas renovadoras. Seria talvez à intolerância destes críticos que José Júlio se referia na sua entrevista.

Apesar das obras expostas não cumprirem as expectativas, uma concessão era feita à SNBA pela sua tentativa de atualização. Artur Portela Filho reconhecia isso mesmo no artigo que publicou no Diário de Lisboa a propósito deste Salão

315 PERNES, [Fernando] - Os críticos e o 1º Salão de Arte Moderna na Sociedade Nacional de Belas Artes. Diário de Lisboa, 1958, pp. 17 e 19.

316 DIONÍSIO, Mário - Os críticos e o 1º Salão de Arte Moderna. Diário de Lisboa (15 nov. 1958), p. 19.

O atraso da ideia e da sua realização é a causa das características essenciais do certame – o ser imcompleto e acusar uma maturidade cansada e sábia. Mas este gesto para quebrar um uso desgostante e espantoso, para arejar uma Sociedade estática e fria, para sacudir e desmanchar aquela sua expressão de hieratismo, desculpa quase tudo […]. A Sociedade Nacional de Belas-Artes penetra com firmeza na actualidade. Este I Salão de Arte Moderna é significativo e marca uma viragem. A S.N.B.A. dá um salto de cinquenta anos quebrando todos os «records».317

A apreciação de Adriano Gusmão do Salão da SNBA seguiu a mesma linha que Portela Filho, concluindo que, apesar de modesto, «devemos ver este salão com simpatia por ser o primeiro a organizar-se na própria S.N.B.A., de um modo arejado que pode e deve ter continuidade futura»318.

As diferentes orientações da crítica de arte portuguesa

As perspetivas diversas sobre este I Salão de Arte Moderna resultaram também do panorama heterogéneo da crítica portuguesa, onde encontramos personalidades ora do campo literário, ora ligadas a um movimento estético específico, ora provenientes da área jornalística e que se dedicavam à cobertura de eventos culturais. Na análise dos eventos artísticos intervinham ainda historiadores de arte, alguns deles com formação no exterior, sobretudo em Paris. A orientação teorico-estética e o contacto com a produção artística internacional, sobretudo parisiense, terão influenciado os comentários negativos de Mário Dionísio e de Fernando Pernes.

Dionísio e Pernes consideravam que a arte abstrata tinha chegado a um esvaziamento propositivo e que surgia no final dos anos 50 como um novo academismo. Havia, então, que determinar outro caminho para a produção

317 P. F. [Portela Filho] - Vida artística. A actualidade de um salão inactual. Diário de Lisboa (18 out. 1958), p. 4.

318 GUSMÃO, Adriano de - Os críticos e o 1º Salão de Arte Moderna na Sociedade Nacional de Belas Artes: Depoimento de Adriano de Gusmão. Diário de Lisboa (8 Nov. 1958), p. 19.

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artística, recuperando e reformulando a figuração e fazendo-a corresponder às condições de existência do individuo na sociedade, como também propunha Nikias Skapinakis, que apresentou neste Salão a conferência A inactualidade da

arte moderna319. As críticas dirigidas ao I Salão de Arte Moderna e à produção do grupo KWY, de que copiavam servilmente modelos estrangeiros, questionando- se se as suas obras poderiam ser consideradas portuguesas, enquadravam-se nesta problematização sociológica da criação artística e do papel social do artista. Esta perspetiva não dispensava a questão dos públicos de arte, que Pernes várias vezes abordou, e que era essencial para a validação social da produção artística.

A Sociologia da Arte de Pierre Francastel320 influenciou José-Augusto França e Fernando Pernes, que foram alunos do historiador francês na Escola de Altos Estudos da Sorbonne, determinando uma linha de abordagem da arte portuguesa não só desse período como também de toda a primeira metade do século - «só a arte do século XX, isto é, tipicamente “moderna”, interessa à

presente obra, tal como essa arte é defenível nas suas estruturas culturais e tal como essas estruturas puderam ser adoptadas e adaptadas em Portugal», escreveu José-Augusto França, em 1974, no prefácio da sua A arte em Portugal

no século XX (1911-1961)321.

Mas este historiador tinha visão diversa de Fernando Pernes relativamente ao I Salão de Arte Moderna, valorizando sobretudo o aspeto formal das obras apresentadas e o modo como elas se sintonizavam com uma abordagem moderna dos problemas pictóricos, que para França assentavam sobretudo na questão do espaço - «espaço ambíguo» - que colocava a expressão abstrata no centro dos principais desenvolvimentos artísticos. Na sua

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Inactualidade da arte moderna. [Lisboa]: Seara Nova, 1958 (V. cap. 3, p. 117).

320 A abordagem sociológica da arte de Pierre Francastel (1900-1970) distancia-se da perspetiva marxista ao considerar a produção artística como reflexo mas também elemento atuante da sociedade. Francastel considerava a pintura, arquitetura e escultura como meios específicos de conhecimento. Francastel foi o primeiro docente da cadeira de Sociologia de Arte da École pratique des hautes études, em 1948. Nesse ano publicou Art et Sociologie e, em 1952, Peinture et Société. O seu livro seminal, Art et Technique aux 19e et 20e siècles, surgiu em 1956. V. Francastel, Pierre. Dictionary of Art Historians. Acessível online: http://www.dictionaryofarthistorians.org/francastelp.htm

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