7.2 North-Atlantic dynamics and European temperature extremes in the IPSL model:
7.2.5 Discussion
Devo iniciar este capítulo com uma advertência acerca da necessidade de se promoverem estudos sistemáticos sobre a atividade das instituições artísticas e sobre as exposições de arte moderna, que marcaram não só o período em consideração, mas todo o século XX. O SNI, por exemplo, não foi ainda alvo de
uma análise desenvolvida sobre o seu papel na arte portuguesa. Quanto às fontes primárias, quer escritas, quer iconográficas, os investigadores consultam invariavelmente os mesmos documentos, não existindo uma sistematização dos materiais que poderão ser úteis ao tratamento destes temas. A dispersão da documentação e o desconhecimento da localização de determinadas fontes dificultam uma reflexão aprofundada.
Neste capítulo restringirei a minha análise à atividade das instituições ligadas à promoção das artes plásticas e ao possível impacto provocado pelas iniciativas da FCG nesta área. Procurarei sobretudo verificar se a Fundação correspondeu às expectativas dos artistas e críticos e se veio de facto responder às necessidades apuradas do panorama artístico português, conforme tinha projetado aquando da Exposição de Artes Plásticas. Tratar-se-á, por fim, de identificar as principais linhas de uma ação de apoio aos jovens artistas nos anos imediatamente seguintes àquela Exposição, até 1961.
Fig. 40: II Exposição Geral de Artes Plásticas. SNBA, 1948 © Estúdio MárioNovais, FCG-BA
FCG: A grande esperança do meio artístico português
A entrada em cena da FCG, nos finais dos anos 50, despertou o meio artístico português para uma espécie de dilema que até então tentara evitar. As grandes questões prendiam-se sobretudo com a situação vivida em Lisboa, já que o Porto representava um caso muito particular, como veremos. No início da década, António Ferro fora afastado do SNI, que perdeu então a sua direção carismática; o movimento surrealista teve a sua última manifestação expositiva em 1952; a Galeria de Março, aberta nesse ano, deixou de ter viabilidade passados dois anos, devido à falta de compradores de arte moderna; em 1956, realizou-se a décima e última edição das Exposições Gerais de Artes Plásticas225, ligadas ao movimento neo-realista, depois de terem criado um espaço de oposição às iniciativas do regime. Refira-se ainda a morte de Diogo de Macedo, que ocorreria em 1959, e a consequente nomeação do pintor Eduardo Malta, para a direção do Museu Nacional de Arte Contemporânea, que foi acompanhada do protesto de artistas e outras personalidades226. Seria então por muitos anos bloqueada a atualização do museu e a sua ligação às novas dinâmicas artísticas.
Depois da «política do espírito» de António Ferro; de mais uma experiência falhada de promover a arte moderna portuguesa e torná-la comercializável, e de uma manifestação alternativa, realizada em várias edições, às iniciativas do regime, que via seguir, então, para dinamizar e promover a produção artística portuguesa?
A FCG parecia neste período ser a mais importante resposta para as inquietações instaladas. D’Assumpção, em entrevista a Fernando Pernes, colocava peso considerável sobre os «ombros» da Fundação: «a actividade desta instituição, constitui já um evidente depoimento do seu sentido das graves
225 Sobre estas exposições V. Um tempo e um lugar: dos anos quarenta aos anos sessenta: dez exposições gerais de artes plásticas.Vila Franca de Xira: Museu do Neo-Realismo, 2005.
226 A nomeação de Eduardo Malta (retratista de sucesso, figura próxima de Salazar) desencadeou a primeira reação pública relativamente à situação de um museu português: o descontentamento manifestou-se através dum abaixo-assinado datado de 1 de Julho de 1959 pedindo a substituição de Malta, contando com mais de 200 assinaturas, sobretudo ligadas ao meio intelectual e artístico português. V. DURO, Ana Rita Rodrigues - Eduardo Malta, Director do Museu Nacional de Arte Contemporânea. Lisboa: Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, 2013. Tese de Mestrado.
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responsabilidades que acarreta, e o mais claro motivo de esperança dos artistas portugueses»227.
Mas a política da Fundação para as artes plásticas estava, como vimos, pendente sobre um planeamento concreto, suscitando, da parte o meio artístico, propostas diversas.
A Exposição de Artes Plásticas, a primeira manifestação pública da Fundação no campo das artes, provocou um sentimento de otimismo na maioria dos artistas e críticos portugueses. Mas esse sentimento ligava-se à Exposição da FCG, não por a considerarem um acontecimento totalmente novo no panorama artístico português, mas por entenderem que ela vinha dar continuidade e, finalmente, consagrar eventos anteriores relacionados com a promoção de novas tendências artísticas. Esses eventos, para além de se vincularem claramente à modernidade, marcaram também a posição estética e política dos artistas que os tinham organizado.
Mas antes de qualquer outra ação, era a de António Ferro que a FCG vinha em primeiro lugar evocar. José-Augusto França destacou na altura:
[…] o critério de orientar a selecção [de obras para a Exposição de Artes Plásticas] segundo um gosto actual, e, portanto, contra o gosto do nosso prolífico academismo novecentista. Dado o valor dos prémios em jogo, dados os meios de propaganda de que a Exposição dispôs junto do grande público, dada a seriedade e a posição oficial da maior parte dos membros dos júris essa atitude ganhou um peso extraordinário que, tombando sobre tal academismo, lhe vibrou um golpe terrível – simultaneamente económico e oficioso, renovando a vinte anos de distancia, aquela oficial e esquecida, que a acção de António Ferro lhe vibrara. A exposição assumiu, por este lado, um papel pedagógico.228
227 PERNES, Fernando - A renovação da arte portuguesa - segundo o pintor D'Assumpção. Diário de Lisboa (18 dez. 1958), p. 21.
228 FRANÇA, José-Augusto - A Exposição Gulbenkian vista por artistas e críticos. Um golpe terrível no academismo novecentista. Diário Popular, 1957, p. 1.
Diogo de Macedo, nas páginas da Ocidente, faria a mesma evocação, apontando também para uma certa genealogia da Exposição da FCG:
Esta significativa exposição, realizada com possibilidades materiais nunca havidas entre nós, numa largueza de dispêndio de gostos no arranjo das salas para a ordem dos quadros, e no volumoso e quase luxuoso catálogo, teve precedências em passadas e revolucionárias exibições de “Independentes”, raiz modesta de aspecto, mas heróica de coragem, que nas suas revelações de então - só agora premiadas condignamente - justificam a orientação e o êxito deste saboroso fruto, cujas pevides engasgaram uma pseudo tradição de rotineiros. Também António Ferro, logo que pudera, tentou dar continuidade persistente ao sonho e à actividade dos artistas livres e convictos no ideal legal de seu próprio tempo, premiando-os segundo as posses que tinha, no estímulo duma campanha oportuna, que fracassaria com a mudança dos ventos, tantas vezes inimigos das sementes. Esta nova Exposição de Artes Plásticas foi a reabilitação de quanto explodira havia quarenta anos e solidificado vinte anos depois, que por parecer esquecido ou enfraquecido, não era atendido, como se fosse possível negar uma realidade no tempo ou extinguir-se um ideal colectivo de razão superior a uma imperfeita educação.229
Na síntese traçada, quer por França, quer por Macedo, parece existir um vazio nos anos 50 no que diz respeito à promoção da arte moderna. Ou seja, depois do movimento futurista do final dos anos 10 e das exposições de Amadeo de Souza-Cardoso no Porto e em Lisboa, em 1916; depois dos Salões de Outono (SNBA, 1925 e 1926) e dos movimentos dos Independentes em Lisboa, nos anos 30230, e no Porto, nos anos 40, e depois ainda da intervenção de António Ferro no SPN/ SNI (1933-1950), até à Exposição da FCG, nada de relevante acontecera, exceto, como Adriano de Gusmão salientou, o Salão dos Artistas de Hoje (1956),
229 MACEDO, Diogo de - Exposição de arte. Ocidente. Nº 237 (jan. 1958), pp. 41-42.
230 Em 1930 e 1931 tiveram lugar na SNBA o I e II Salões dos Independentes, que foram seguidos, em 1936, da Exposição de Artistas Modernos Independentes.
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que estaria também na linhagem da Exposiçãode Artes Plásticas231. Esta crítica velada dirigia-se particularmente às instituições que, neste período, teriam a responsabilidade de divulgar e apoiar a arte moderna portuguesa e as novas gerações de artistas, isto é, o Secretariado Nacional de Informação e a Sociedade Nacional de Belas-Artes.
A associação do SPN/ SNI ao regime político e a ligação da SNBA a uma prática artística académica têm determinado a análise da atividade destas duas instituições e, a partir de 1945, a postura dos artistas e críticos perante elas. Daí a valorização de exposições «independentes», isto é, da iniciativa de artistas ou de outras personalidades ligadas às artes que se destacavam, assim, das ações institucionais. É, portanto, pelo menos curioso que a ação da FCG, uma instituição de cariz convencional, fosse posta em continuidade com os eventos alternativos protagonizados pelos artistas modernos. Para além desta associação enunciar uma crítica aos organismos referidos, denuncia também a expectativa, algo ingénua, dos artistas se tornarem igualmente protagonistas da atividade de uma instituição que os poderia resgatar de uma certa marginalidade. A institucionalização, mais do que uma ameaça, era uma aspiração, e uma fundação sem cariz político e manifestando, para a maioria dos críticos, uma certa tendência modernista, evidenciada na Exposição de 1957, seria o meio ideal para esse fim.
A Galeria de Março
O poder financeiro da FCG foi também um fator (talvez o principal) que alimentou o desejo do meio artístico intervir na recém-criada instituição. Era, aliás, essa autonomia de recursos que dava garantias da viabilidade e continuidade da atividade da Fundação, depois de outros projetos terem cessado
231 «Ora, a partir do ano de 1958, tivemos entre nós, ainda o eco do acontecimento que fora a exposição organizada pela Fundação Gulbenkian, depois repetida no Porto. A agitação nos meios artísticos perdurava após o seu encerramento, em Lisboa. […] Interessa aqui sublinhar a parte mais actual dessa exposição, conquanto na continuidade de certas exposições anteriores, como a dos "Artistas de Hoje". […] Essa exposição, consagradora e estimuladora, registou, pois, a presença de uma arte a processar-se na extrema actualidade». GUSMÃO, Adriano de - O ano artístico. Diário de Notícias (25 dez. 1958), p. 19.
precocemente por falta de liquidez. A Galeria de Março foi uma dessas iniciativas que, constituindo um espaço alternativo de divulgação artística, encerrou passados apenas dois anos de atividade por não existirem compradores que a mantivessem aberta232.
Dentro do contexto lisboeta, esta galeria foi a primeira a iniciar um trabalho de prospeção e valorização da produção artística do início dos anos 50, enquadrando-se perfeitamente na década na qual nasceu, mas à qual não sobreviveu.
Aberta entre 1952 e 1954, primeiro na Avenida António Augusto de Aguiar, e depois na Rua D. Pedro V, a partir de outubro de 1953, esta galeria organizou em média duas exposições por mês, ou seja, um total de 32 eventos. Com o apoio do publicitário Manuel das Neves, José-Augusto França, inialmente com Fernando Lemos, geriu a galeria, segundo o próprio, de forma «eclética e livre», com uma programação «firme, mas aberta»233. Da sua atividade destacou- se a divulgação do Abstracionismo, não só nacional como também internacional, através de exposições individuais (de Edgard Pillet, em fevereiro de 1953, Jorge Oliveira e Fernando Lanhas, em maio e junho do mesmo ano, respetivamente) e coletivas, como o I Salão de Arte Abstracta, realizado em abril de 1954.
Em dezembro de 1953, a Galeria de Março organizou a exposição Prémio
Jovem Pintura234, que distinguiu Eduardo Luiz. No respetivo catálogo, José- Augusto França fez um balanço da atividade da Galeria e justificou a organização deste evento:
232 Sobre a história da criação da galeria V. FRANÇA, José-Augusto - Folhetim artístico. Da Galeria de Março (R.I.P.) até hoje. Diário de Lisboa. Suplemento literário (3 jul. 1969), pp. 5 e 7; idem - Memórias para o ano 2000. Lisboa: Livros Horizonte, 2001, pp. 113-115.
233
Idem, Folhetim artístico. Da Galeria de Março (R.I.P.) até hoje. Diário de Lisboa, 1969, p. 5. 234
Prémio patrocinado pelo Diário Popular e oferecido com a colaboração da Casa Ferreira. A este prémio concorreram 62 artistas, dos quais foram selecionados 24. O júri foi composto por Almada Negreiros, Carlos Botelho, Diogo de Macedo, Mário Tavares Chicó e pelo próprio José- Augusto França, juntando, assim, alguns nomes que constituiriam os júris da Exposição de Artes Plásticas. O valor do prémio, de 5.000 escudos, era, no entanto, bem distinto dos valores aplicados na mostra da Gulbenkian, com os Grandes Prémios a atingirem os 40.000 escudos. Os artistas selecionados foram: Albertina Mântua, António Charrua, Artur Bual, Carlos Calvet, Eduardo Luiz, Fernando Azevedo, Fernando Lemos, Francisco Relógio, João Hogan, Joaquim Rodrigo, Jorge de Oliveira, José Júlio, Lemattre de Carvalho, Lilian Smith, Manuel Cargaleiro, Manuel Pacheco Barbosa, Lourdes Freitas, Maria Teresa Fernandes de Sousa, Mário de Oliveira, Nikias Skapinakis, Nuno de Siqueira, Rui Filipe, Verónica Soares e Marcelino Vespeira.
155 A “Galeria de Março” tem pretendido ser, ao longo destes quase dois anos de sua existência, um ponto de encontro dos desvairados caminhos da arte de hoje, aquela que traduz uma maneira de olhar e uma maneira de ser actual. […] outra coisa mais pretenderá a “Galeria de Março” - que é ser uma espécie de agente catalizador do que pintura moderna em Portugal nos puder dar. Precipitá-la, activá- la, obrigá-la a mover-se sem receios nem peias, pelos caminhos que apeteçam à sinceridade de cada artista. O “Prémio da Jovem Pintura” é isso mesmo - um impulso, assim, com uma magra recompensa monetária à ponta. A recompensa é o menos; o que interessa é pôr os jovens pintores portugueses juntos numa sala, sem distracção nem sombra de mais velhos, para que, numa igualdade de experiência feita num semelhante tempo (tempo de sua idade e tempo da actualidade) melhor possam conhecer as suas forças e os seus enganos. […] O “Prémio da Jovem Pintura” destina-se a saudar uma revelação ou a verificar o trabalho de jovens pintores anteriormente revelados - qualquer que seja a sua tendência estética dentro das correntes de arte moderna.235
Conscientes dos problemas que afetavam o meio artístico português, os responsáveis da Galeria de Março escolheram, todavia, intervir num campo mais difícil, onde existia um público restrito e poucos ou nenhuns compradores.
Criada na sequência da última exposição surrealista, que José-Augusto França considerou estabelecer a passagem entre a década de 40 e a de 50236, a Galeria de Março surgiu, assim, como um preâmbulo do que se desenvolveria na arte portuguesa nos anos 50 – apontou não só para novas tendências e para uma abertura à arte internacional, como também para uma nova postura dos artistas
235
FRANÇA, José-Augusto – [Introdução]. Prémio da Jovem Pintura. Lisboa: Galeria de Março, 1953.
236
Exposição de Fernando Azevedo, Fernando Lemos e Marcelino Vespeira, realizada numa loja de decoração do Chiado, Casa Jalco, em janeiro de 1952. V. Os anos 40 na arte portuguesa. Vol. 1. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1982; FRANÇA, José-Augusto - Sobre os anos 50 portugueses. Colóquio. Artes. Nº 96 (mar. 1993), pp. 13-22.
portugueses, que deixaram, sobretudo os mais novos, de se agrupar em torno de uma proposta estética específica.
Os Artistas de Hoje
Tal como referimos em relação a Jorge Vieira e aos futuros membros do grupo KWY, os jovens artistas afastavam-se de posicionamentos políticos e ideológicos, privilegiando antes de mais uma estratégia de promoção e exibição sistemática do seu trabalho. Os artistas modernos declaravam, em exposições coletivas realizadas no final dos anos 50, a sua independência de qualquer filiação política, assumindo, acima de tudo, uma autonomia criativa.
Dentro desta dinâmica de afirmação autoral, as exposições desempenhavam, de facto, um papel fundamental. Mas os eventos expositivos eram também importantes por questões de sobrevivência, pois, para além de divulgarem os artistas e as novas tendências, elas acabavam por colmatar a inexistência de um mercado de arte, uma vez que, tal como aconteceu na
Exposição de Artes Plásticas, as obras expostas poderiam ser, regra geral,
adquiridas.
Na segunda metade dos anos 50, considerou-se, com alguma unanimidade, como exposição-modelo o já mencionado Primeiro (e único) Salão
dos Artistas de Hoje, realizado na SNBA, em fevereiro de 1956. Este Salão foi
levado a cabo por uma Comissão Organizadora que integrava Fernando Azevedo, Joaquim Rodrigo, José Júlio, Júlio Resende, Nuno San-Payo e René Bertholo.
Em 2001, nas suas memórias, José-Augusto França registou o mesmo panorama artístico traçado no início deste capítulo, concluindo que «a vida artística nacional encontrava-se em estado de carência, sobretudo em face de uma nova promoção de artistas que em meados da década se manifestava, ou, pelo menos, espreitava a cena, como se vira no salão de arte abstracta de 54»237. Foi, de acordo com o crítico e historiador, desta carência que nasceu a ideia de se criar, em Lisboa, o Salão dos Artistas de Hoje, agregando, como a composição
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da sua Comissão Organizadora explicitava, artistas de diferentes gerações, associados pela sua «consciência do momento».
Os artistas tomaram então a iniciativa de criarem o seu próprio espaço de promoção, constituindo uma alternativa aos salões regulares da SNBA ou às iniciativas do SNI. E foram eles próprios a dominarem todo o processo de organização do Salão, a começar pela seleção de obras, que foram escolhidas pelos próprios artistas concorrentes, mediante votação. Concorreram a esta exposição 400 artistas, dos quais foram selecionados 42238, o que correspondeu a 137 obras expostas.
Este Primeiro Salão, que fora projetado como um evento periódico, prestava homenagem a Amadeo de Souza-Cardoso (1887-1918), procurando transferir simbolicamente para o presente o espírito independente e vanguardista daquele pintor, cujo percurso artístico e obra começavam então a ser descobertos239. O experimentalismo criativo de Souza-Cardoso era o principal elemento que se projetava na exposição, que promovia os artistas modernos não de forma esteticamente unitária, mas assumindo a multiplicidade de tendências que marcavam a modernidade:
Esta exposição nasceu da necessidade de mostrar a existência simultânea de várias expressões de modernidade, na vanguarda que, pode dizer-se, se manifestou depois de 45, ou se afirmou nestes
238
Louro de Almeida, Celestino Alves, Lopes Alves, Eduardo Anahory, António Areal, João Artur, Fernando Azevedo, Gustavo Bastos, René Bertholo, Dario Boaventura, Carlos Calvet, Costa Camelo, Manuel Cargaleiro, Guilherme Casquilho, Lourdes Castro, António Charrua, Virgílio Domingues, Cipriano Dourado, Gonçalo Duarte, José Escada, Adelino Sousa Felgueiras, Fernando Fernandes, Jorge Gamito, Paulo Guilherme, António Heleno, João Hogan, Alice Jorge, José Júlio, Fernando Lanhas, Querubim Lapa, Domingos Lopes, João Abel Manta, Albertina Mântua, Jorge Marcel, Menez, Rolando Sá Nogueira, Manuela Costa Pinto, Júlio Pomar, Mário Prazeres, António Quadros, Maria Adelaide Taborda Ramos, Júlio Resende, Rogério Ribeiro, Joaquim Rodrigo, Sebastião Rodrigues, Nuno San-Payo, Nikias Skapinakis, Manuel Pereira da Silva, Hansi Stäel, Vespeira, João Vieira, Jorge Vieira. V. Primeiro salão dos artistas de hoje. Lisboa: SNBA, 1956. 239 Em 1956, obra de Amadeo de Souza-Cardoso voltou a ser exposta em Portugal depois do Salão de Outono de 1925, na Galeria Alvarez, no Porto. Em 1958, realizou-se uma importante exposição em Paris, na Casa de Portugal. No ano seguinte, o SNI organizou a primeira retrospetiva do pintor e, no mesmo ano, a representação portuguesa na Bienal de São Paulo integrou uma sala especial dedicada a Souza-Cardoso. V. Amadeo de Souza Cardoso. Porto: Galeria Dominguez Alvarez, 1956; amadeo de souza cardoso. Paris: Casa de Portugal, 1958; amadeo de souza-cardoso. Lisboa: SNI, 1959; Sala especial: Amadeo de Sousa Cardoso (1887- 19718). 5ª Bienal de S. Paulo: catálogo geral. São Paulo: Museu de Arte Moderna, 1959.
últimos dez anos. E essas várias maneiras de ser moderno, de ser “artista de hoje”, justapõem-se e nunca se sobrepõem ou excluem mùtuamente: é esta, talvez, a lição que se pode tirar da visita a cerca de centena e meia de trabalhos, ora expostos, que irão constituir a prova imediata de uma actualidade viva, de um propósito de modernidade que ficarão a definir o espírito da exposição. Ao mesmo tempo, será esta, também, e segundo nos parece, a primeira oportunidade de uma visão de conjunto, de uma manifestação de força e de unidade através das várias tendências que marcaram encontro neste campo comum, que é o propósito, ou necessidade, de