• Aucun résultat trouvé

PORTEE ET LIMITES D’UNE ENTREPRISE THEORIQUE

L’INTERNATIONALISME DU MOUVEMENT SYNDICAL ?

3.1 PORTEE ET LIMITES D’UNE ENTREPRISE THEORIQUE

“Amigos e conhecidos que vão desejar que o doente recupere, os familiares

entristecidos, os médicos curiosos, as enfermeiras carregadas de trabalho, são como turistas que viajam num país estrangeiro: reportam impressões, mitigam contingências… mas todo o assunto do morrer é qualquer coisa que os vivos, não entendem em absoluto” (Barbosa, 2003: 43).

Como refere Nogueira (2010) o grande objectivo por que passa a medicina paliativa ao cuidar de pessoas que se encontrem em risco avançado de vir a falecer é aliviar a dor e o sofrimento causados pela doença, deixando a pessoa morrer dignamente. De acordo com Barbosa (2003) o confronto do indivíduo com uma doença terminal revela significativas mudanças tanto para ele como para a sua família. O doente terá de romper totalmente com o antes e enfrentar a sua doença, a par com a deterioração progressiva, tanto física como emocional, a que está sujeito. A família também se encontra confrontada com importantes alterações que se fazem acompanhar de um certo cansaço que pode levar a um esgotamento angustiado, devido ao medo de perder aquela pessoa doente, medo também (ainda que muitas das vezes, inconsciente) de poder vir a sofrer do mesmo mal no futuro. Além disto, as famílias modernas são confrontadas com a multiplicidade de exigências, na esfera doméstica e na esfera profissional, deparando-se com a sua incapacidade, a vários níveis, de poder cuidar do seu familiar doente. A passagem do morrer para a massificação dos hospitais faz com que a morte passe despercebida e se torne silenciosa e solitária17. O paradigma de curar (tão vigente no domínio médico actual) tem vindo a concorrer com o paradigma de cuidar em que se passa de ver a doença da pessoa, para se ver a pessoa doente. A morte passou a fazer parte do trabalho dos profissionais de saúde a partir do séc. XX, quando esta passou a ocorrer em hospitais, solitária, e não mais em casa, junto de familiares e amigos. Ensinar alguém a lidar com a morte é algo difícil para estes profissionais, pois envolve aspectos e valores pessoais de cada um, para além dos aspectos sociais e culturais compartilhados que influenciam o significado social da morte. Temas como a morte e morrer, devem – ou deveriam – deixar de ser apenas temas

17 O doente precisa, acima de tudo, da restituição da sua identidade enquanto pessoa. Central é respeitar

31

“soltos” no meio de certas disciplinas em formação, mas sim fazer eles mesmo parte integral de uma mesma disciplina académica, voltada toda ela para a assistência. Desde o inicio da sua formação que os profissionais de saúde são “moldados” a encarar a morte como algo intrusivo e inimigo, que deve ser seguramente afastado. Quando a morte vence, o profissional de saúde sente-se derrotado, qual luta entre forças desiguais (Nogueira, 2010).

Cada vez mais se fala do papel da participação activa dos profissionais de saúde na assistência à morte. “Tradicionalmente treinados para enfrentar e resistir à morte, sob a

alegação de que a missão biomédica é a de salvar vidas, a resistência moral em torno de qualquer debate formal sobre a eutanásia ou mesmo o direito de morrer é ainda muito grande” (Diniz e Costa, s/d: 122). Quando existe um esgotamento das alternativas curativas e quando a morte é “especificamente” inevitável, cada vez mais surgem possibilidades de se decidir sobre a própria morte (escolhas referentes ao quando, como e onde morrer). No entanto, haverá ocasiões em que doentes e profissionais de saúde (perspectiva leiga e perspectiva científica) verão as questões ligadas ao tratamento de maneira diversa. São diferentes perspectivas ligadas ao conhecimento técnico e à autoridade ética que os doentes e estes profissionais detêm para com o corpo e a saúde. Pode haver situações em que o doente insista num tratamento que para os médicos será ilusório, enquanto o contrário também pode acontecer, situações em que o doente não considere mais o tratamento para lhe prolongar vida e os médicos apostem exactamente nisso. “Reconhecer que haverá situações em que a

recomendação biomédica de manutenção do tratamento não corresponde às expectativas dos doentes é um novo desafio, em especial para os médicos, acostumados à soberania da autoridade terapêutica” (Diniz e Costa, s/d: 123). Os médicos e outros profissionais de saúde

têm de entender que há terapêuticas que mais não fazem que provocar um extremo sofrimento físico para a pessoa em questão, e que por isso, pode haver a possibilidade, por parte do doente, de poder recusar o tratamento, se assim o desejar18. “Alguns profissionais biomédicos

entendem a recusa de tratamento como um acto de desobediência à autoridade técnica ou uma ameaça à ideologia do vitalismo, mas essa é uma mudança de mentalidade que, gradativamente, vem sendo alterada no quotidiano dos hospitais e centros de saúde. A recusa de tratamento deve ser, simplesmente, entendida como a expressão de uma vontade individual de enfrentamento da morte sem o recurso da medicalização” (Diniz e Costa, s/d: 129).

“Um tratamento é considerado fútil ou extraordinário quando a única justificação para

mantê-lo é a “medicalização” da morte, isto é, o prolongamento da vida do doente por meios artificiais de sustentação da vida ou por medicamentos, a despeito da irreversibilidade do quadro clínico e da iminência da morte” (Diniz e Costa, s/d: 130). Em alguns casos, a

medicalização da morte é tão agressiva que passa a ser denominada como distanásia19 (como

18 Esta recusa deve ser entendida como a “não-medicalização” da morte, principalmente quando os

recursos tecnológicos e científicos não mais oferecem do que um avanço na experiência terapêutica para os próprios médicos.

19 A distanásia representa a crescente medicalização da saúde pelo exagero do uso de tecnologias

médicas, ou seja, refere-se a procedimentos médicos que impedem a morte de um doente, a qual é irreversível. Muitas vezes, é considerada como um prolongamento desnecessário da sobrevivência do doente, sem qualquer preocupação pelo seu bem-estar individual.

32

referem alguns autores in Diniz e Costa, s/d). O facto de muitos profissionais de saúde ignorarem essa dignidade humana de morrer em paz consigo mesmo e marcados pelos modelos biomédicos de prolongar a vida a qualquer custo, é o que motiva estes profissionais a manter um doente terminal vivo sob alçada de pesadas drogas terapêuticas. Os médicos caiem no erro de apenas contemplarem os aspectos puramente técnicos do acontecimento, conduzindo a uma desumanização e a um esquecimento de valores éticos e morais inerentes ao ser humano20. “À

medida que a doença vai evoluindo os períodos de agudização aumentam quer em intensidade, quer em duração. O doente começa a apresentar cada vez menos períodos de melhoria e de estabilização, sendo evidente o agravamento de toda a situação patológica. As crises tornam- se cada vez mais difíceis de suportar pela própria pessoa e mais difíceis de serem controladas pela ciência médica” (Pacheco, 2002: 53).