Como será visto no capítulo a seguir, muitos autores da esfera empresarial defendem que o relatório de sustentabilidade é um gênero do discurso que procura dialogar com diversos públicos a respeito de temas variados, nomeados pelos empresários e pelas instituições a que eles se associam35 como dimensões36 da responsabilidade social, que
são: estratégia e transparência; público interno; meio ambiente; fornecedores e consumidores; comunidade; governo e sociedade.
Desse conjunto de aspectos de responsabilidade social tematizados pelo relatório de sustentabilidade, este trabalho se propõe a analisar dialogicamente um desses aspectos, o discurso sobre meio ambiente. Essa escolha se justifica por três motivos distintos: o primeiro deles, é que meio ambiente e sustentabilidade se tornaram, nas últimas
34 “As relações sociais evoluem (em função das infraestruturas), depois a comunicação e as interações verbais evoluem no quadro das relações sociais, as formas dos atos de fala [ênfase
adicionada], evoluem em consequência da interação verbal, e o processo de evolução reflete-
se, enfim, na mudança das formas da língua”. (ROJO, 2005, p.198, grifos nossos).
35 A exemplo do Instituto Ethos e da Global Reporting Initiative, como será tratado no capítulo a seguir.
36 Para não gerar conflitos com a noção de dimensão social e dimensão verbal/semiótica dos enunciados e dos gêneros do discursos, essas dimensões da responsabilidade social serão tratadas neste trabalho como aspectos da responsabilidade social.
décadas, e como será visto nos próximos capítulos, um problema social cuja compreensão pode ser feita por meio do estudo da linguagem. Outra questão é que as empresas pesquisadas desenvolvem estratégias discursivas específicas em relação ao tema: dos 10 relatórios de sustentabilidade que fazem parte dos dados desta pesquisa, sete, já no título da publicação, fazem referência à sustentabilidade. Outro fator, que facilita a mobilização de termos e conceitos da área é o fato de a pesquisadora ser mestre em meio ambiente e sustentabilidade da Amazônia. Também como será observado no Capítulo 5, os termos meio ambiente e sustentabilidade estão presentes em várias seções dessas publicações e não apenas nas seções destinadas ao assunto. Dessa forma, o foco da análise deste trabalho é o discurso das empresas do Polo Industrial de Manaus (PIM) a respeito do meio ambiente e da sustentabilidade, enunciado nos seus respectivos relatórios de sustentabilidade.
Para o desenvolvimento da análise dialógica do discurso sobre meio ambiente e sustentabilidade nos relatórios de sustentabilidade das empresas do Polo Industrial de Manaus, foi realizado um levantamento sobre as empresas que publicaram o documento com o ano base 2011. Inicialmente, partiu-se do princípio de que a Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa) possuía registros de empresas que publicavam relatórios de sustentabilidade. Entretanto, a assessoria de comunicação desse órgão informou37 que, como não há compromisso
legal entre a Suframa e as empresas do PIM para a publicação do documento, não há registros dessa natureza no órgão. A assessoria recomendou que se entrasse em contato com a Federação das Indústrias
do Estado do Amazonas (FIEAM), já que o trabalho de responsabilidade social faz parte da rotina dessa instituição. Como recomendado, o contato foi feito com a FIEAM, mas, apesar dessa federação possuir ações voltadas para esse fim, a instituição não mantém registros de quais empresas publicam o relatório de sustentabilidade.
Assim sendo, a solução encontrada para identificar com que relatórios de sustentabilidade se iria trabalhar nesta pesquisa foi voltar ao ponto de origem e partir da relação de empresas do PIM, divulgada pela Suframa. Apesar de a Suframa, em sua página oficial38, e vários
autores, a exemplo de Brianezi (2013), indicarem que existem cerca de 600 indústrias no PIM, na página da instituição havia, na época de geração de dados, um resumo com nome e área de atuação de apenas 172 indústrias que recebiam os incentivos fiscais da Zona Franca de Manaus (ZFM). O levantamento dos relatórios de sustentabilidade, portanto, foi realizado com base nas informações fornecidas pela Suframa.
Entretanto, após a identificação dos relatórios de sustentabilidade a serem estudados, a Suframa (2013) publicou o documento Perfil das empresas com projetos aprovados pela Suframa39, em que constam todas as empresas que recebem os incentivos fiscais da Zona Franca de Manaus. A partir dessa lista, foram realizadas novas buscas de relatórios de sustentabilidade publicados na internet.
A partir da identificação de relatórios de sustentabilidade diversos, foi possível perceber que não há regularidade com relação ao
38 Disponível em: <www.suframa.gov.br>.
39 Apesar disso, a referida autarquia ainda mantém, em formato HTML, na sua página, o arquivo consultado inicialmente para a definição dos balanços sociais aqui identificados
inicialmente. Para checar o arquivo, consultar:
período de publicação do relatório. A periodicidade de publicação do relatório de sustentabilidade é complexa: normalmente, esses documentos são publicados ao final de cada ano, e seu exercício se refere ao ano anterior. O relatório de sustentabilidade referente ao exercício de 2010, por exemplo, foi publicado no final de 2011. Entretanto, no primeiro semestre de 2012, algumas empresas, a exemplo da Whirlpool, ainda não tinham publicado o documento de 2010, enquanto outras, como a Coca-Cola/Recofarma, já tinham publicado o documento relativo a 2011. Não se pode atribuir esse fato apenas a um problema operacional. É claro que reunir dados e redigir um relatório de sustentabilidade, revisá-lo40, editá-lo e editorá-lo, devido à diversidade e
complexidade dos assuntos tratados, é um processo demorado: é comum um documento dessa natureza levar cerca de um ano para ficar pronto. Por sua vez, a Global Reporting Initiative (GRI) silencia com relação à periodicidade de publicação do relatório de sustentabilidade.
Devido a essas particularidades, optou-se por trabalhar com os relatórios de sustentabilidade do ano de 2011. Como pode ser visto no quadro 1, também não há uma regularidade com relação ao nome do documento. Por isso, para cada uma das 600 indústrias listadas pela Suframa no documento “Catálogo de Empresas e Produtos”, foi realizada uma busca, por meio da ferramenta Google41, dos nomes mais
40 A revisão é uma das instâncias mais demoradas na produção de qualquer texto na esfera empresarial: as fontes consultadas, ou seja, os responsáveis por cada área, precisam ver como o texto foi redigido. Se não concordarem, indicam quais são as correções necessárias. A área de comunicação opera as revisões, atentando para o estilo e a forma composicional do texto final. Quando as revisões sugeridas não estão de acordo com esses aspectos, é necessário que se estabeleça um processo de negociação para, finalmente, se chegar à versão do documento que será revisada pelo executivo de maior cargo na empresa. Nesse momento, pode ocorrer novamente um processo de negociação, que pode ser ainda mais demorado. Como o balanço social trata da maioria das operações da empresa, seu processo de produção, em função da revisão, acaba sendo muito longo.
frequentes utilizados nesse tipo de documento: balanço social; relatório de sustentabilidade; relatório de atividades; relatório de contribuição social; e relatório anual.
Quadro 1- Relatórios de sustentabilidade analisados
Empresa Setor Nome do documento Páginas
3M Químico
Relatório anual de
sustentabilidade 2011: inovar mais e crescer com o Brasil
97
Ambev Bebidas
alcoólicas Ambev: relatório anual 2011 146
Gerdau Metalúrgico Gerdau: Relatório Anual 2011 –
Evolução Sustentável 68 Grupo Simões Bebidas não alcoólicas e seus concentrados Relatório de atividades 2011: a integração da diversidade amazônica. 39
Honda Duas Rodas
Quanto mais perto você estiver, mais longe vamos chegar: Honda South America – relatório de contribuição social - 2011
70
Philips Eletroeletrônico Relatório Anual 2011-2012:
desempenho social e ambiental 99 Coca- Cola/Recofarma Bebidas não alcoólicas e seus concentrados Relatório de sustentabilidade 2010/2011 83
Semp Toshiba Eletroeletrônicos
Um país chamado Semp Toshiba: relatório anual de sustentabilidade 2011
82
Whirlpool Eletroeletrônico
Inovação sustentável: relatório de sustentabilidade 2011 – Whirlpool Latin America
45
White Martins Químico
White Martins Praxair Inc: relatório de sustentabilidade 2010-2011
62 Fonte: elaborado pela autora.
A partir desse levantamento, chegou-se a dez empresas que publicaram esse tipo de documento no ano de 2011, conforme o quadro 1. Para se chegar aos dez relatórios de sustentabilidade, além do ano de
publicação, foram considerados os documentos publicados em português. As publicações de empresas como Samsung, Siemens, Hitashi e Kodak foram desconsideradas por estarem em inglês. Essa decisão foi tomada porque a análise poderia ficar comprometida em função de não ser a língua materna da pesquisadora. Além disso, tais documentos não se referem apenas às operações do Brasil, abrangendo outras unidades no mundo.
A busca pelos relatórios de sustentabilidade que constituiriam os dados da pesquisa revelou um importante aspecto: apenas uma empresa de grande porte regional, instalada em Manaus, o Grupo Simões, publica o relatório de sustentabilidade. Outras empresas regionais de grande porte, a exemplo de Glacial (sorvetes regionais), Gelocrim (gelo), Rubi da Amazônia (velas) e Esplanada (colchões)42
não publicam o documento.
Assim, a busca a partir do documento da Suframa (2013) levou à conclusão de que os relatórios de sustentabilidade são publicados, normalmente, por empresas que possuem produtos finais de consumo, como é o caso das empresas cujos documentos são analisados neste trabalho. Há que se considerar que essas são as indústrias de grande porte instaladas no Polo Industrial de Manaus. Indústrias de componentes diversos, cabos, placas de circuito, fitas impressoras, tubulações, bobinas, baterias e artefatos de borracha, por exemplo, são de menor porte e não publicam relatórios de sustentabilidade.
No Capítulo a seguir são apresentados os resultados da análise do discurso sobre meio ambiente e sustentabilidade dos relatórios de
42 Essas empresas não fazem parte do mercado de ações. E, como será visto no Capítulo 5, esse é um importante dado para entender o acionista como interlocutor presumido do relatório de sustentabilidade.
sustentabilidade dessas empresas do PIM. É nesse momento que será avaliado como o discurso sobre meio ambiente e sustentabilidade é formulado pelas empresas do Polo Industrial de Manaus (PIM), identificando as vozes presentes nesse discurso e analisando o posicionamento axiológico dessas empresas com relação ao tema.
4 A DIMENSÃO SOCIAL DO RELATÓRIO DE SUSTENTABILIDADE
Para compreender os discursos sobre meio ambiente e sustentabilidade presentes nos relatórios de sustentabilidade das empresas selecionadas do Polo Industrial de Manaus é necessário abordar o processo histórico que levou essas empresas a se apropriarem desse discurso. Mesmo considerando que a gênese do movimento ambientalista aconteceu no início do século XIX43, o histórico desse
movimento, aqui abordado, terá como ponto de partida a década de 1960; isso porque é nesse momento que as organizações passam a ser questionadas com relação às suas práticas de poluição, conforme será visto a seguir.
Irving e Oliveira (2012) lembram que a noção de sustentabilidade se originou, seja direta ou indiretamente, a partir da constatação, por parte de sujeitos diversos, da insustentabilidade dos modos de consumo e de produção das sociedades pós-industriais, ou seja, esse é um discurso que nasce para questionar as ações empresariais. As autoras destacam que essas sociedades tendem a acumular riquezas e gerar lucro partindo do princípio que os recursos naturais são ilimitados.
Após o enfoque histórico do movimento ambientalista, particularmente com relação ao surgimento e ao uso do termo desenvolvimento sustentável, será abordado como a organização interage com seus públicos por meio da comunicação organizacional e como o relatório de sustentabilidade está inserido nesse processo como um
gênero do discurso. Isso permitirá uma melhor compreensão sobre as condições em que o relatório de sustentabilidade é produzido e a quem ele se dirige, para que se possa analisar o discurso sobre meio ambiente e sustentabilidade das empresas do Polo Industrial de Manaus.
4.1 Desenvolvimento sustentável: histórico recente e práticas