O debate da escola integral em tempo integral passa pela discussão em torno da democratização da educação no país, pois, “[...] no Brasil, a classe dominante sempre teve escola de tempo integral” (GIOLO, 2012, p. 94). Os colégios, jesuíticos ou não, na Colônia; os liceus e os internatos no Império; e, os colégios dirigidos por ordens religiosas ou por empresários laicos na República eram direcionados aos poucos membros das camadas dirigentes da nação que recebiam a formação intelectual e complementar na própria escola ou em outros espaços culturais, esportivos ou científicos.
A maior necessidade de escolarização vai emergir com o desenvolvimento da industrialização no país, a partir de meados da década de 1920, quando uma demanda das camadas populares atuou por direito à educação, e, de maneira crescente, essa luta chegou à Constituição de 1988 trazendo o acesso à escola como um direito de todos(as), movimentos estes que colocaram na pauta a questão do direito à proteção e à dignidade da infância popular a partir da década de 1970. Conforme Arroyo (2012, p. 34), “[...] o direito a tempos dignos de um justo viver passou a ser visto como um dos direitos mais básicos”. E do Estado passam a ser cobrados espaços públicos para atender aos anseios da população.
Ao analisar a trajetória do ordenamento jurídico referente à Educação Integral na educação básica, Menezes (2009) nos mostra que a Constituição Federal de 1988 traz em seu artigo 205 a educação como direito de todos(as) e dever do Estado e da família que visa o pleno desenvolvimento da pessoa, preparando-a para o exercício da cidadania e para o trabalho. A LDB (Lei nº 9394/96) reitera esse princípio em seu artigo 2º no qual trata, como sendo finalidade da educação, o pleno desenvolvimento do educando, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho. Já o Plano Nacional de Educação (Lei nº 10172/2001) retoma e valoriza a Educação Integral enquanto possibilidade de formação integral do homem (MENEZES, 2009).
Segundo Coelho (2009), a primeira metade do século XX no Brasil foi marcada pela coexistência de várias tendências pensando a educação. Entre elas, a dos católicos que defendiam uma Educação Integral que tivesse por base atividades intelectuais, físicas, artísticas e ético-religiosas e uma disciplina rigorosa; os integralistas, que focalizavam a espiritualidade, o nacionalismo cívico e a disciplina; os anarquistas e liberais que entendiam uma formação completa que tivesse por base “[...] atividades intelectuais, artísticas, profissionais, físicas e de saúde, além daquelas de cunho ético-filosófico (formação de hábitos e atitudes, cultivo de aspirações) [...]” (COELHO, 2009, p. 89) além de ser uma educação baseada em aspectos político-desenvolvimentistas.
No que tange à Educação Integral, o Manifesto dos Pioneiros da Educação de 1932 já defendia uma Educação Integral como direito do cidadão e dever do Estado em ofertá-la.
A Escola Parque foi um dos primeiros projetos pensados para atender aos(às) estudantes em jornada integral. Pensado por Anísio Teixeira e iniciado com o Centro Educacional Carneiro Ribeiro (CECR), previa a criação de centros populares de educação no Estado da Bahia, para crianças e jovens de até 18 anos. O Centro era composto de quatro Escolas-Classe e de uma Escola-Parque e tinha como proposta alternar atividades intelectuais com atividades práticas, como artes aplicadas, industriais e plásticas, além de jogos, recreação, ginástica, teatro, música e dança, distribuídas ao longo de todo o dia (GADOTTI, 2009).
Já os Centros Integrados de Educação Pública (CIEPs), idealizados por Darcy Ribeiro, retomando as propostas de Anísio Teixeira, foram criados no Rio de Janeiro entre as décadas de 1980 e 1990. Eram complexos escolares onde podiam ser encontrados gabinete médico e odontológico, bibliotecas, quadras de esporte, refeitório etc. A proposta pedagógica defendia a não reprovação, a avaliação não era centrada em provas anuais e os(as) estudantes eram avaliados por objetivos (GADOTTI, 2009).
Analisando os tempos e espaços do CECR e dos CIEPS, Coelho (2009, p. 92) conclui que
[...] enquanto Anísio Teixeira pensou em um espaço escolar bipartido – escolas-classe e escolas-parque – para agregar as atividades que compunham sua concepção de formação completa, Darcy Ribeiro, nos Cieps, procurou congregá-las no mesmo espaço, situação que promove maior integração entre as atividades educativas desenvolvidas pela escola, bem como possibilita entendê-las – todas – como componentes curriculares inerentes a essa formação do aluno nesse espaço escola.
Os Centros Integrados de Atendimento à Criança (CIACs), desenvolvidos no governo de Fernando Collor (1990-1992), e, posteriormente, os Centros de Atenção Integral à Criança (CAICs), desenvolvidos no governo de Itamar Franco (1992-1994), tinham seu foco no assistencialismo, pois não eram apenas escolas, mas centros de atenção integral à criança, englobando, num mesmo espaço, educação escolar, saúde, cultura, esporte, creche, educação para o trabalho, proteção especial à criança e desenvolvimento comunitário (GADOTTI, 2009).
Segundo Moll (2012), a partir dos anos 2000 surgiu um novo impulso em relação à integração dos processos formativos da educação básica, bem como a necessidade de se ampliar o tempo em que o(a) estudante passa na escola. A escolarização obrigatória dos 04 aos 17 anos (Emenda Constitucional Nº 59/2009), o aumento dos recursos repassados pelo Fundeb às escolas que ampliassem a carga horária diária e o Programa Mais Educação39 propiciaram a emergência de uma agenda que colocou em pauta a Educação Integral em tempo integral.
Além disso, o Plano Nacional de Educação (Lei nº 8.035/2010), que deve orientar os sistemas de educação entre os anos de 2011 e 2020, visando “[...] a universalização, ampliação do acesso, qualificação e atendimento de todos os níveis e modalidades educacionais [...]”, traz como proposta em sua meta nº 6 “Oferecer educação em tempo integral em 50% das escolas públicas de educação básica” (BRASIL, Lei 8.035/2010).
Segundo Coelho (2009, p. 93), a ampliação do tempo escolar é pressuposto de uma Educação Integral, pois permite efetivar “[...] uma educação que englobe formação e
39 Instituído pela Portaria Normativa Interministerial nº 17/ 2007, fomenta a educação integral por meio do apoio a atividades socioeducacionais, articulando diversos Ministérios (Ministério da Educação, Ministério do Desenvolvimento Social, Ministério da Cultura, Ministério do Esporte, Ciência e Tecnologia e Meio Ambiente) (GADOTTI, 2009).
informação e que compreenda outras atividades [...] para a construção da cidadania partícipe e responsável”.
Em Pernambuco, o Programa de Educação Integral (PEI) foi instituído através da Lei Complementar nº 125/2008, na gestão do governador Eduardo Campos (2008-2013), como resposta aos baixos indicadores estaduais em relação ao aproveitamento escolar de Pernambuco no âmbito nacional, pois, no Ensino Médio, o Estado apresentava o 8º pior desempenho do Ideb/2006 no Brasil. No mais, a rede estadual apresentava altos percentuais de distorção entre idade e série, elevados índices de evasão e repetência e uma alta taxa de analfabetismo (MORAIS, 2014).
Além disso, ressalta Santiago (2014), o governo pernambucano passou por um elevado crescimento econômico durante a gestão de Eduardo Campos, resultado em grande parte de investimentos financeiros do governo federal no estado. Sendo assim, a criação do PEI também está atrelada a ideia de requalificar o Ensino Médio com o objetivo de integrá-lo ao novo ciclo de desenvolvimento econômico do Estado de Pernambuco.
Neste contexto, Eduardo Campos iniciou em 2008 transformações no Programa de Desenvolvimento dos Centros de Ensino Experimental (PROCENTRO)40, e o tornou uma Política Pública da sua gestão com o nome de Programa de Educação Integral.