Este exercício é parecido com a oficina anterior, porém, num segundo momento, é feita uma proposta diferente.
Pedi às crianças que lembrassem coisas que aconteceram em suas vidas e que consideravam muito importantes. Depois, que pensassem em três lembranças que consideravam as mais significativas. A seguir, sugeri que escolhessem apenas uma lembrança, mas que não fosse a relatar os fatos, sua reação a eles, o que impressionou ou não”, e que envolve uma necessidade ou vontade de colocá-lo discursivamente em cena para seu interlocutor. A partir disso, o narrador constrói sua estrutura narrativa, conferindo “um valor narrativo” aos fatos selecionados para narrar, especialmente pela necessidade de mostrar um ponto de vista seu.
mesma que já havia sido narrada em outras rodas. Nessas situações, ouvi muitos murmúrios das crianças, que indicavam a dificuldade delas em ter de escolher apenas uma lembrança das que lhes vinham à cabeça, e de terem de manter segredo por alguns instantes. Por isso, muitas vezes, eu sussurrava baixinho às crianças pedindo que não contassem e para demonstrar que a história teria o momento certo para ser revelado.
Orientei, novamente, as crianças a pensarem na lembrança selecionada (quem estava lá, quando aconteceu, o que elas e as pessoas que estavam junto estavam fazendo e como se sentiam), como forma de resgatar detalhes da memória para serem narrados. Depois, propus que se organizassem em grupos de três e quatro integrantes para compartilharem entre si as lembranças, e orientei-lhes que escolhessem apenas uma história (lembrança) no pequeno grupo para ser compartilhada com o grande grupo. Procurei deixar que as crianças formassem seus grupos, e isso se deu com bastante tranquilidade. Porém, algumas vezes, percebi que o critério que prevalecia na definição dos grupos era a afinidade entre elas ou o gênero.
Figuras 06, 07, 08 e 09 – Pequenas rodas de histórias
Fonte: Elaboração da pesquisadora (2015)
Após a formação dos grupos, orientei as crianças a pensarem e definirem como compartilhariam a(s) história(s) com o grande grupo, e
que isso poderia ser por meio de uma narração oral ou por gestos e encenações. Comentei que o mais importante era a história que seria contada e que não precisariam revelar a autoria. No entanto, todas as narrações tiveram as identidades das crianças reveladas por elas. Minha percepção é que, para elas, revelar a identidade da história, naquele momento, não era problema.
Dei um tempo para as crianças se organizarem. Enquanto isso, passei de grupo em grupo para saber que história(s) elas contariam para o grande grupo e de que forma o fariam. Nessas situações eu observei muitos risos entre as crianças, cochichos para garantir segredo da história e ensaios com os gestos que fariam para contar. Das histórias53 narradas, nesta oficina, apresento as que foram selecionadas pelas crianças, nos pequenos grupos, e que foram dramatizadas por elas. 1) Dias felizes
As lembranças do grupo foram: festa de aniversário de um ano (Vitor), o batizado (Arthur) e o velório do tio (Vinicios Gabriel). Eles escolheram as histórias que consideraram como sendo de dias felizes e disseram que não queriam as de dias tristes. Então decidiram pelas histórias do Vitor e do Arthur, porque eram duas datas felizes e alegres. Para a apresentação o grupo decidiu fazer uma encenação.
O batizado do Arthur
Descrição da cena: um menino carregava outro na sala imaginando ser o bebê, enquanto isso outro menino encenava ser o padre e pronunciava as palavras: “– Eu batizo esta criança em nome de Deus” (muitos risos dos que assistiam). Os outros integrantes ficaram em silêncio.
O aniversário do Vitor
Descrição da cena: alguém iniciou narrando o título da história: “– O aniversário do Vitor”. Em cima de uma cadeira colocaram uma mochila que simbolizava o bolo, cantaram parabéns e começaram a comer o bolo. Depois indicaram oralmente que acabou.
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Todas as apresentações deste dia foram filmadas pela pesquisadora, e as descrições de algumas cenas, adiante, são baseadas nesses registros.
2) Festa de aniversário
O segundo grupo era composto só por meninas. Elas decidiram contar a história com mímica, tipo um teatrinho – alguém disse, sobre a festa da Roberta. As meninas do grupo comentaram que ela insistiu muito para que sua história fosse escolhida e elas concordaram.
O aniversário da Roberta
Descrição da cena: As meninas anunciaram o título da história: “– O aniversário da Roberta”. Colocaram uma mochila em cima de uma cadeira representando um bolo, depois se posicionaram ao redor da cadeira e, com mímica, apenas cantaram parabéns, depois, interpretaram uma cena em que o bolo era espalhado pela sala toda. (muitos risos de todos).
As meninas comentaram, ao final, que a interpretação juntava lembranças das três colegas sobre suas festas de aniversário. Então, perguntei se isso havia acontecido de verdade – de a aniversariante jogar bolo em todas as pessoas durante a festa –, e elas falaram que não, mas que inventaram esta parte para a história ficar engraçada. No entanto, Julia comentou que lhe contaram que no seu aniversário de três anos, ela saiu espalhando bolo pela casa inteira, e que a partir disso teve esta ideia no momento da encenação.
O fato de as crianças inventarem uma parte da história já é evidência da capacidade criativa e imaginativa54 que a narração de histórias potencializa a elas. E remete ao que Dewey (2010) chamou de a força imaginativa da palavra, que torna a experiência como possibilidade.
3) Triste, alegre e feliz ao mesmo tempo
O terceiro grupo também foi composto só por meninas: Jéssica, Josiane, Camilly Vandressa e Ana Julia. Elas decidiram contar a história de Jéssica e a de Ana Julia em forma de narração oral. Disseram ter escolhido a história da Jéssica porque era engraçada, no entanto, não fizeram comentário sobre a da Ana Julia, mas depois, ao conhecer a história, identifiquei que não se tratava de algo engraçado. Com relação à Josiane e à Camilly Vandresa, o grupo comentou que elas não quiseram contar suas histórias para o grande grupo.
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Narração oral: A cirurgia da minha mãe
Ana Julia: – A minha história é sobre a cirurgia da minha mãe. Foi em outubro, que eu não lembro o dia. Foi de manhã, meu pai levou minha mãe pro hospital e eu não tava. E tava dormindo. Daí, a minha mãe foi pro hospital e de tarde ela ligou pra minha casa e eu não tava porque eu tava na escola e daí eu comecei a ficar com saudade, com saudade, mas ela não podia mais ligar. Daí, então, meu pai fez um trato. Ele pegou o celular da minha irmã, que era de toque na tela, e ele não conseguia mexer. A gente foi ensinar o meu pai a mexer no celular toque na tela e ele não conseguia, não conseguia. Daí, o meu pai pegou o meu celular que ele era feito esses. Daí, o meu pai ligou pra minha mãe e eu falei com ela. Daí eu comecei a sentir mais saudade ainda, porque eu só ouvia a voz dela e não conseguia vê ela. Até que um dia eu cheguei em casa e a minha mãe estava lá e eu corri pra dar um abraço nela e, daí, eu não desgrudava dela, e foi isso.
Quando a minha irmã aprendeu a ir ao banheiro
Jéssica: – A minha história é quando a minha irmã aprendeu a ir ao banheiro (risos dos colegas). A minha irmã, uma vez, eu tocava de ir trocar as fraldas dela, só que daí uma vez eu ensinei ela ir ao banheiro. Daí ela aprendeu! Daí a minha mãe, uma vez deu uma surra nela por causa que ela abriu a torneira e derramou água por tudo, pelo banheiro inteiro.
Ao final das narrações, o grupo comentou que escolheu a história da Ana Julia porque era uma história triste, alegre e feliz ao mesmo tempo, e a história da Jéssica porque era importante para ela, porque a sua irmã aprendeu algo que ela havia ensinado.
Pelas histórias que as crianças decidiram compartilhar, é possível dizer, ao tomar os apontamentos de Larrosa (2002), que a experiência não é qualquer coisa vivida ou sentida pelo sujeito. É possível pensar, então, sobre o sentido que as crianças deram às suas próprias experiências e às do outro, especialmente quando elas precisaram escolher apenas uma história no grupo para dramatizar.
A experiência de criação de histórias com as crianças, num contexto em que elas tinham que escolher a experiência que considerassem a mais significativa, leva-me, ainda, a retomar o que disse Dewey (2010, p. 110): a experiência, num sentido vital, define-se pelas situações e acontecimentos que ocorrem no percurso da vida, os
quais espontaneamente, muitas vezes, são mencionados como “experiências reais”, ou, quando se quer enfatizar um fato ou uma situação vivida, dizendo: “isso é que foi uma experiência”, singular. Para Dewey, trata-se daquilo que foi vivenciado e que teve muita importância para o sujeito ou, até mesmo, muita insignificância. Exemplo disso, disse Dewey, podem ser uma briga, o saborear de uma refeição ou mesmo o vivenciar da fúria de uma tempestade.
A singularidade da experiência se imprime, também, quando o sujeito se refere a algum acontecimento da vida como aquela vivência, instituindo assim à experiência uma particularidade, mesmo que no seu fluxo. Isto é, de que a experiência pode ser afetiva, prática ou intelectual, uma vez que não se separam estas qualidades. Isso de maneira integrada constitui uma “experiência inteira” – suas partes se integraram – o que garante à experiência a sua qualidade estética (DEWEY, 2010, p. 112-138).
Nesta perspectiva, considero que as narrativas narradas e dramatizadas pelas crianças, durante esta oficina, certamente, são representações do sentido que elas deram às suas experiências.