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A entrevista em profundidade, também conhecida como entrevista não estruturada tem como objetivo ressaltar os aspectos mais importantes de um determinado problema, a saber, suas descrições mais significativas. Acontece por meio de uma conversação guiada a fim de se obter informações detalhadamente descritas para uma análise qualitativa, ou seja, procura saber que, como e por que acontece determinado fenômeno em contraposição à determinação de ocorrência do mesmo (RICHARDSON, 1999). Como a entrevista em profundidade permite a coleta de informações produzindo, assim, um material rico em detalhes a serem trabalhados pelos pesquisadores é recomendável que o número de entrevistados não ultrapasse vinte pessoas, conforme sugere Richardson (1999).

Os objetivos da entrevista em profundidade destacados por Richardson (1999) são seis: 1) para obtenção de informações do (a) entrevistado (a); 2) para o conhecimento da opinião do (a) entrevistado (a); 3) para modificação de comportamentos e de opiniões; 4) para o auxílio nas decisões que precisam ser tomadas conjuntamente; 5) para avaliar as capacidades do (a) entrevistado (a) visando uma seleção e 6) como aconselhamento em casos de ajuste da personalidade. Com isso, definem-se três tipos de entrevistas:

• as de pesquisa; identificadas nos objetivos um, dois e três; • as de seleção; identificada no objetivo cinco;

• as de aconselhamento; identificada no objetivo seis.

No caso desta pesquisa com as pessoas estomizadas, o trabalho de campo realizado nesta segunda fase teve como objetivo coletar informações relevantes para determinar se existe ou não um comportamento diferenciado entre mulheres e homens estomizados com relação ao mundo do trabalho. Assim, busca-se entender o motivo que leva à aposentadoria generalizada entre as pessoas estomizadas entrevistadas, se é o estigma da marca corporal invisível ou se existem outras causas, como a de estratégia de sobrevivência, no que diz respeito ao trabalho remunerado. Também é importante descobrir se, após aposentadoria, existe alguma atividade remunerada em outro tipo de mercado, tais como: no mercado informal de trabalho, em cooperativas, dentre outros tipos. No que diz respeito ao trabalho doméstico, verificar-se-á a existência de modificações na inserção de mulheres e de homens após a estomia.

Assim, tendo em vista o grau de liberdade e o nível de aprofundamento das informações que a entrevista permite, Richardson (1999) ressalta que é possível identificar dois pólos: o das entrevistas que permitem o máximo de liberdade e de aprofundamento, entrevistas não diretivas; o das entrevistas que permitem o mínimo de liberdade e de aprofundamento, entrevistas dirigidas e como meio termo, tem-se as entrevistas guiadas.

Na entrevista não diretiva o entrevistador apenas orienta e estimula a pessoa entrevistada que desenvolve suas opiniões e informações da maneira como lhe convém. Na entrevista dirigida o (a) entrevistador (a) é responsável pela condução da entrevista a fim de evitar que a pessoa entrevistada desvie do assunto; para que não haja desvio, são utilizadas perguntas pré-formuladas ordenadas previamente. Por sua vez, na entrevista guiada o (a) entrevistador (a) explora os temas, utilizando um guia sem que as perguntas sejam pré- formuladas e feitas em uma ordem estabelecida previamente. A entrevista guiada foi escolhida por permitir captar as semelhanças e as diferenças nas estratégias e nos comportamentos de mulheres e de homens estomizados no mundo do trabalho.

3.3.1. Entrevista Guiada

A entrevista guiada é uma técnica utilizada quando se busca elucidar fenômenos que produzem mudanças na vida das pessoas expostas a eles. Nesse sentido, o (a) pesquisador (a), ao conhecê-los previamente, formula os pontos que ressaltará durante a entrevista. É importante ressaltar que, como o (a) entrevistador (a) é apenas um guia da entrevista, isso permite que a pessoa entrevistada tenha uma maior liberdade de expressão e de aprofundamento em suas colocações.

Segundo Richardson (1999) na elaboração do guia de entrevista, o (a) pesquisador (a) pode formular as perguntas em fichas separadas e organizá-las de acordo com o tema que será discutido, entretanto, ressalta que as perguntas devem ser simples e diretas a fim de facilitar a comunicação com a pessoa entrevistada. Com isso, o (a) entrevistador (a) pode ter uma idéia geral do tema, mas é a pessoa entrevistada que aprofunda os temas ao discorrer livremente utilizando suas palavras.

Em relação à formulação do guia, normalmente são utilizados lembretes vinculados a cada pergunta como forma de alertar o (a) entrevistador (a) sobre os pontos importantes que devem ser tratados e podem se perder devido à espontaneidade da entrevista. Entretanto, nem todas as perguntas que compõem o guia de entrevistas devem ter lembretes, uma vez que a entrevista guiada pode transformar-se em uma entrevista dirigida e estruturada, conforme alerta Richardson (1999). Os lembretes da entrevista guiada também são importantes para orientar a entrevista das pessoas que falam pouco ou têm dificuldades de comunicação e para ajudar o (a) entrevistador (a) a lembrar-se dos temas a serem tratados, conforme pode ser observado no roteiro para a entrevista em profundidade que consta no Anexo C.

A formulação das perguntas de uma entrevista guiada deve ser simples, direta e sem que as respostas das pessoas entrevistadas sejam dirigidas – “O que o (a) Senhor (a) acha...?” e devem-se evitar perguntas que induzam as respostas do entrevistado ou da entrevistada como, por exemplo: “O (A) Senhor (a) não acha que...?”.

De acordo com Richardson (1999) o início da entrevista é o momento para realizar orientações que podem contribuir para um diálogo construtivo e que orientam as pessoas entrevistadas sobre os seus direitos, a saber, sobre os objetivos e a natureza da pesquisa para que o (a) entrevistado (a) participe do processo de construção do trabalho do (a) pesquisador (a); para deixar claro que será garantido o anonimato do (a) entrevistado (a) e o sigilo das informações repassadas ao (a) entrevistador (a); para reforçar que a pessoa entrevistada tenha liberdade de interromper a entrevista quando quiser, para fazer críticas ou sugerir; para alertar a pessoa entrevistada, comunicando que ela tem liberdade para considerar como sem sentido

algumas perguntas ou que são difíceis de responder; para falar algo sobre sua experiência pessoal e para solicitar autorização para gravar a conversa, ressaltando o motivo da gravação.

Feitas as considerações introdutórias da entrevista sobre seus aspectos éticos, tem-se o seu início por meio da coleta de informações em uma folha para ajudar a identificar as pessoas entrevistadas, tais como: nome; sexo; idade; escolaridade; endereço; local de nascimento; número da entrevista; data; local; dentre outras sugestões que ficarão a critério da necessidade da pesquisa. Richardson (1999) alerta que para facilitar a identificação para as análises posteriores é necessário que a folha de identificação das pessoas entrevistadas seja colocada no começo da transcrição da fita da entrevista. Entretanto, essa identificação não foi necessária, porque anteriormente foi utilizado um questionário fechado com os dados gerais das potenciais pessoas estomizadas entrevistadas.

Por fim, na última etapa, tem-se a transcrição da entrevista a fim de facilitar as análises. As transcrições das entrevistas com as pessoas estomizadas foram feitas imediatamente após a finalização das entrevistas, para que não houvesse acúmulo de informações, facilitando, assim as análises. A transcrição imediata permite, caso a gravação não tenha ficado boa, a repetição de uma nova entrevista.