Para os excertos que analisamos neste tópico, procuramos aqueles que evidenciam um procedimento em que o pesquisador nomeia conceitos, considerando o interlocutor do trabalho como conhecedor de suas referências conceituais, independente de área, nível de conhecimento ou atuação.
Nesses casos, temos produções escritas que se caracterizam, principalmente, por responsabilizar o leitor do texto pela associação e interpretação do discurso que produz, a partir de uma pré-determinada leitura do pesquisador. Isto é, aquele que escreve espera de seu interlocutor uma leitura que concorde com sua posição e seus sentidos, independentemente, de haver no texto uma contextualização com as informações necessárias para que o leitor possa compreender essa posição.
Excerto 01 – Tese 01 – Conceito CAPES 07
Selecionamos como primeiro excerto, um exemplo de escrita presente na apresentação de uma tese de doutorado defendida, em 2010, em um programa que mantém a avaliação conceitual sete, da Capes.
O excerto compreende onze linhas e trata-se do oitavo parágrafo completo e as duas linhas iniciais do nono parágrafo do total de quinze da seção destacada. No trecho selecionado, o pesquisador desenvolve uma descrição de como organiza sua produção acadêmica e suas fundamentações teóricas. Nossa escolha se ateve aos trechos em que há referências aos discursos de outros autores presentes na seção de apresentação. Nos cinco últimos parágrafos da seção da qual esse excerto foi recortado, não há nenhuma demarcação de outro autor, seja de forma direta, seja de forma indireta, mantendo a características de outros recortes selecionados, como veremos mais adiante, a de, por diversas vezes, mencionar conceitos teóricos, sem atribuir um autor fundador ou comentador desses conceitos.
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Nesse sentido, a deportação é vista por nós como uma ferramenta jurídica, política e social da contemporaneidade, desenraizando pessoas e produzindo sofrimento e humilhações. A humilhação, diz Ansart (2006), expõe o homem à impotência, desrespeitando pessoas que estão impossibilitadas de responder a esse ato de violência. A imigração, um gesto simbólico na territorialidade, tem se transformado num fator de criminalização dos estrangeiros. Corpo em colisão com o espaço, vozes que não se silenciam, disjunção entre corpo e voz, abrindo fraturas e fendas na enunciação. Isso é aquilo que o sujeito que sofre a imigração clandestina traz para o Brasil quando volta deportado.
O nosso trabalho, que tem por objetivo interferir nos discursos sedimentados da imigração, tomados em um mundo semanticamente normal, elege como lugar de [...]
No excerto a ser analisado, temos uma parte da análise da entrevista de um deportado, informante do pesquisador autor da tese analisada. Para que a análise seja realizada, o pesquisador retoma termos mencionados pelo entrevistado e que são fundamentais para a compreensão do que vem sendo enunciado por ele. Nesse excerto, temos a menção aos termos deportação (linha 1) e seu equivalente, deportado (linha 9); humilhação (linha 3) – termo empregado em relação com a deportação; e imigração (linhas 5, 8 e 11).
O excerto inicia com o uso do conectivo “neste sentido”, marcação característica da heterogeneidade mostrada, apresentada por Authier-Revuz (2004) como discurso segundo. É uma produção enunciativa que subjetiva o dizer de quem escreve e retoma, mesmo que
implicitamente, o dizer de outro autor, podendo ser considerado como forma bastante presente em discursos citados. No dado que analisamos, sua função é retomar a apresentação de uma definição do termo “deportação”.
A conceituação de "humilhação", conforme o discurso de outro autor citado, é desenvolvido entre as linhas 3 (três) e 9 (nove). Nessa referência ao já dito, são mencionados termos/expressões como: "ato de violência" (linhas 4-5); "imigração", "gesto simbólico", "territorialidade" (linha 5); "criminalização dos estrangeiros", "Corpo em colisão com o espaço" (linha 6); "vozes que não silenciam" (linhas 6 e 7); "disjunção entre corpo e voz" (linha 7); "enunciação", "sujeito", "imigração clandestina" (linha 8); e "deportado" (linha 9). Esses termos produzem sentidos que se relacionam com a proposta da tese: analisar elementos que se constituem num momento de deportação. Percebemos, porém, que não há referência ou associação com uma teoria ou a explicação do pesquisador sobre os termos empregados.
A ausência de um detalhamento dos sentidos que o pesquisador quer desenvolver, a partir dos termos demarcados, parece não considerar que, cada um dos termos pode ser identificado como sendo conceitos operacionais em comunidades científicas específicas e / ou diferentes comunidades leitoras. Essa não explicação ou atribuição de um termo como sendo pertencente a uma área ou autor nos permite considerar que o pesquisador vê como evidente sua posição teórica ou que todos os seus leitores já compreendem as remissões que são realizadas.
Com isso, mesmo que o exemplo seja algo simples, em razão do tamanho do excerto, temos uma característica de escrita que nos faz perceber que, ao retomar sentidos de outros autores, o pesquisador toma para si a ideia de que não há necessidade de detalhar os sentidos que podem ser interpretados. É uma situação que consideramos como característica de uma predeterminação dos sentidos que os leitores desenvolverão, no processo de leitura do texto que se produz.
Na realidade, compreendemos que há produções escritas cujo pesquisador se utiliza de conceitos teóricos entendendo não ser preciso explicar, porque sempre e / ou qualquer outro estudioso que esteja na posição de leitor do seu trabalho desenvolverá os mesmos sentidos de leitura que os seus. Um fenômeno que o nomeamos como predeterminação da leitura de interlocutores.
É uma prática que evidencia uma forma de representação de quem escreve sobre o discurso que retoma, sobre o que produz e, principalmente, sobre o sentido produzido por quem lê suas produções, ou seja, é o desenvolvimento de uma forma de relação do pesquisador com o mundo social.
No trecho, entre as linhas 10 e 11, temos uma apresentação dos objetivos da pesquisa e uma forma de demarcação de referência que evidencia a característica do discurso citado, utilizado pelo pesquisador que desenvolveu o trabalho analisado.
Para explicar o que pretende desenvolver em sua investigação, o pesquisador apresenta o objetivo de “interferir nos discursos sedimentados da imigração”, o que nos leva a compreender a vontade de questionar discursos tradicionais que determinam e classificam a imigração. Também ratifica que toma os discursos que pretende interferir como produções de um “mundo semanticamente normal”, o que entendemos como significações constantes e possivelmente aceitáveis para o senso comum e para comunidade científica relacionada à área do trabalho.
Ainda nas linhas 10 e 11, vemos que, ao apresentar o objetivo do trabalho, é utilizado o enunciado “discursos sedimentados da imigração, tomados em um mundo semanticamente normal”. É uma sentença que nos tende a produzir sentidos de forma genérica e sem especificação. Uma forma de leitura que pode gerar diferentes interpretações e esquivos de leitura, considerando que há diversos leitores que podem associar essa expressão a diversos sentidos, sejam eles científicos, sejam eles gerais do senso comum.
Como as palavras e os conceitos são associados e utilizados de forma livre, verificamos que a responsabilidade de atribuir sentido para a expressão discursiva “discurso sedimentado”, bem como a proposta de interferência e demarcação do lugar de coleta do
dado, sendo “mundo semanticamente normal”, é delegada ao leitor. É uma prática que
caracteriza um enunciado que pode não fazer sentido ou ser atribuído ao senso comum, isto é, dificulta encontrar o sentido, ao qual o texto se refere ou qual é a especificidade desse objetivo na tese, desse pesquisador.
Essa forma de análise é possível por consideramos que a enunciação pode ser recebida por diferentes interlocutores e por mais de uma forma, o que nos permite questionar a produção escrita de um texto científico que não especifica e explica o que está dito em seu texto. Ressalte-se que estamos considerando que a diversidade de interlocutores também é influenciada pelo lugar de recepção, ou seja, conforme vimos no exemplo, ao mencionar discurso sedimentado e semanticamente normal, sem explicações, aquele que escreve evidencia um modo de escrita que parte da ideia de que seu interlocutor, na função de leitor, compreende seu dizer e não vê a necessidade de explicação ou especificação, contrariando a diversidade de formas de recepção da enunciação defendida por Bakhtin (2006).
Por isso, vemos que, enquanto leitor do trabalho e não membro de uma mesma comunidade científica, podemos não produzir os mesmos sentidos que aquele que escreve
desenvolve, por meio de sua produção escrita, evidenciando uma dificuldade de compreensão do texto, equívoco de leitura ou, ainda, uma banalização de conceitos ou teorias que não são exemplificados e explicados.
Associamos essas características de escrita a formas de um discurso citado que, normalmente, são desenvolvidas na universidade. É uma forma de discurso que predetermina a leitura de seus pares e torna a fundamentação teórica da investigação uma leitura comum e de conhecimento universal.
Tomando as diversidades de recepção de Bakhtin (2006) como forma de análise, podemos analisar esse exemplo de produção escrita, a partir do conceito de produção que evidencia a recepção de quem faz uso do discurso outro. Trata-se de uma forma de recepção que toma como base a compreensão dos conceitos que são referenciados pelo pesquisador, desconsiderando o sentido do leitor que não possui uma mesma formação.
Excerto 02 – Tese 03 – Conceito CAPES Dinter
O excerto foi recortado de um trabalho de tese, defendido no ano de 2012, num programa de pós-graduação interinstitucional em linguística. O trecho pertence ao capítulo de análise do trabalho e faz uma breve descrição de conceitos e noções às quais faz referências. Também podemos verificar que o exemplo pode ser considerado um momento de reflexão de quem escreve em relação à aproximação dos discursos de diferentes pesquisadores sobre aspectos da prática de ensino, o processo de alfabetização e a construção de um imaginário sobre a educação escolar no país.
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De acordo com Souza e Payer (2011), uma prática de ensino de língua passa por compreender os modos de identificação da criança-aprendiz com a língua (escrita) como sujeito que já se encontra em um processo de inscrição nas instâncias da língua materna e passa – ou não, conforme os impasses – à instância da língua nacional escrita no processo de alfabetização (p.49), processos que, na atividade em análise, são silenciados. Interdições que não permitem significar a reprovação como efeito de um processo de identificação que se dá por resistência: “o aluno que não repete as práticas discursivas escolares ou que as repete de modo ‘gauche’ pode, de fato, estar resistindo à repetição pura e simples de sentidos que não são inscritos na sua prática discursiva (MARIANI, 1998, p.107). No entanto, na medida em que a escola oferece aulas de reforço a seus alunos, não há espaço, nesta atividade, para a circulação do sentido de escola como o lugar do não aprendizado: – no imaginário constitutivo da educação escolar é impossível não aprender (BARBAI, 2011, p.4). Não aprender é um não-sentido, um sentido interditado – e a institucionalização jurídica da recuperação, paralela ou não, diz dessa impossibilidade de significação. Compreendemos, então, a atividade de reforço como uma maneira de suturar a falta que significa os sujeitos marcados na injunção ao aprender e ao saber, ainda que não se questione de que ordem seja o aprender e o saber.
Nesse excerto, propomo-nos a observar a forma como são desenvolvidas as remissões e utilizações do discurso de outros autores. Vemos, na linha 1, uma marcação direta do conectivo “de acordo”, que demonstra uma concordância com o autor parafraseado posteriormente. Isso funciona como uma reformulação do dizer de outro autor, constituindo um discurso segundo. Uma classificação que Authier-Revuz (2004) atribui às formas linguísticas que se caracterizam como meio de dizer com suas palavras, um dizer já dito (linhas 1 e 5).
Entre as linhas 5 e 7, temos um discurso, aparentemente, próprio, mas que remete a conceitos que não foram explicados em capítulos anteriores ou nesse que tem o objetivo de aplicá-los em forma de análise, uma característica que percebemos se repetir e que evidencia uma predeterminação da leitura. Nesse caso, o pesquisador parece pressupor que os leitores de seu trabalho conhecem teoricamente o tema, isto é, as remissões realizadas estão, inicialmente, livres para interpretação do leitor, como a ideia de “silenciados”, na linha 5, e “processo de identificação”, nas linhas 6 e 7.
Isso tudo, independentemente de podermos atribuir sentidos simples à funcionalidade dos termos ou de, necessariamente, prevermos uma certa leitura acadêmica, para quem interage com esse tipo de produção acadêmica, ainda contribui com a possibilidade de ambiguidades, considerando que terminologias e conceitos gerais do senso comum podem possuir sentidos específicos em virtude de sua relação com uma área ou campo de estudo. Continuando, retomamos parte do excerto.
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[...] de um processo de identificação que se dá por resistência: “o aluno que não repete as práticas discursivas escolares ou que as repete de modo ‘gauche’ pode, de fato, estar resistindo à repetição pura e simples de sentidos que não são inscritos na sua prática discursiva (MARIANI, 1998, p.107). No entanto, na medida em que a escola oferece aulas de reforço a seus alunos, não há espaço, nesta atividade, para a circulação do sentido de escola como o lugar do não aprendizado: – no imaginário constitutivo da educação escolar é impossível não aprender (BARBAI, 2011, p.4). Não aprender é um não-sentido, um sentido interditado – e a institucionalização jurídica da recuperação, paralela ou não, diz dessa impossibilidade de significação. Compreendemos, então, a atividade de reforço como uma maneira de suturar a falta que significa os sujeitos marcados na injunção ao aprender e ao saber, ainda que não se questione de que ordem seja o aprender e o saber.
Entre as linhas 6 e 8 são retomados os conceitos de “identificação” e “práticas discursas”, para, na linha 9, demarcarem um sentido de adversatividade com o uso do conectivo “no entanto”. Trata-se de outra reformulação que se estrutura como uso do discurso segundo, que é atribuído a outro pesquisador, marcado, na linha 9, para remeter a outros conceitos como “imaginário constitutivo” (linha 11). São formas de reformular o dizer de
outro que não demonstra um posicionamento sobre os conceitos que são apresentados, seja por meio de explicação do autor que é referenciado, seja por quem escreve o texto. O discurso outro funciona como complementação do discurso que é desenvolvido pelo pesquisador.
Ao contrário de exemplificar as remissões e associá-las à análise do objeto da investigação, são encadeados outros conceitos sem explicação. Isso pode levar o leitor a construir um sentido, segundo o qual a associação e o encadeamento explicam os conceitos citados anteriormente, conforme vemos na marcação de “sentido interditado”, na linha 13, “impossibilidade de significação”, na linha 14, “sujeitos” e “injunção”, na linha 15.
Verificamos que, na linha 14, o termo “atividade de reforço” é o objeto que se propôs analisar, porém, conforme indicamos no parágrafo anterior, os diferentes conceitos não são articulados com o objeto. Há, na realidade, um distanciamento entre eles, em razão de se privilegiar o encadeamento dos conceitos. É como se o mais importante para a análise fosse demonstrar como os termos conceituais da teoria podem ser encadeados, porém, como esses conceitos auxiliam a problematizar a “atividade de reforço”, fica a critério do leitor do trabalho.
Por isso, vemos que se trata de uma tentativa da construção da argumentação de quem escreve via argumentos de autoridade e sustentação do dizer. O excerto exemplifica uma forma de escrita que, mesmo durante a análise, concentra-se na marcação e na reformulação do dizer de outros autores sem relacionar com o objeto que se propôs a analisar.
Podemos dizer que temos um tipo de escrita próximo ao de capítulos introdutórios que se configuram como a apresentação da fundamentação teórica da investigação, com a diferença de que o encadeamento de conceitos tem menos funcionalidade, quando presente num capítulo de análise. Uma característica que evidencia uma concepção sobre a própria produção que é desenvolvida, considerando que não demarca uma necessidade de explicar a relação do objeto com os conceitos e, posteriormente, desenvolver análises.
Isso aponta para um modo de escrita que, conforme de Chartier (2002), concentra-se na institucionalização e perpetuação de um grupo, sem configuração intelectual diversificada pela produção de diferentes grupos ou práticas que reconheçam uma posição no mundo, uma demarcação da investigação de quem escreve, associada ao objeto de estudo e consolidada por uma colcha de conceitos retalhados.
O excerto nos demonstra um exemplo que, por diversos momentos, se repetem no trabalho. Aquele que escreve mantém, de diferentes formas, a característica de afastar sua produção discursiva do trabalho, transferindo a responsabilidade sobre a produção dos sentidos para o leitor. Uma forma de escrita que reflete, novamente, a representação que toma
as produções acadêmicas a partir da subtração da voz do pesquisador, em detrimento dos discursos que são referenciados.
Há, nesse caso, uma proximidade entre as formas de utilização de outros discursos, a heterogeneidade enunciativa, característica fundante da linguagem, com os sentidos produzidos pela leitura de teses e a representação de quem escreve sobre sua fundamentação teórica. Identificamos a utilização da voz de outros autores, citações ou marcações de conceitos teóricos, por meio do uso do discurso segundo. Só que, diferentemente, não desenvolve uma reformulação do discurso ao qual se fez remissão.
As análises demonstram a necessidade de aprofundamento nos estudos de representação, considerando os aspectos que nos permitem relacioná-la com o processo de leitura e identificação dos sentidos que discordam da prática de escrita que verificamos nas produções analisadas, despertando a inquietude sobre as relações da representação de quem escreve bem como sobre as características e os conceitos de produção científica. Podemos perceber a identificação do pesquisador com a fundamentação teórica de seu trabalho e sua filiação em um campo de estudo e grupo de pesquisa, através dos sentidos produzidos pela leitura de um texto caracterizado pela utilização do discurso de outros autores.
Os sentidos desenvolvidos no excerto, por nós apontados através da análise, distorcem uma perspectiva de ciência como produção inovadora e demonstra uma determinada institucionalização da produção como atividade de reprodução e repetição. Compreendendo produção inovadora como aquela que consegue, a partir do que já foi produzido, aplicar-se, impor-se de forma diferente e não, necessariamente, ressignificando um conceito, mas visualizando como determinados conceitos teóricos já existentes podem auxiliar na resolução de problemas.
Assim, produções como essas, representadas por esse excerto, nos permitem uma reflexão acerca dos conceitos do que é realmente produzido, enquanto ciência, nos programas de pós-graduação. As análises, a nosso ver, contribuíram no sentido de perceber que a representação imaginária que desenvolvemos sobre o mundo modela a relação do pesquisador com sua pesquisa e determina sua prática enquanto pesquisador.