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Utilizamos essa categoria como procedimento de análise de escrita caracterizada pela personificação de um campo teórico ou área de estudo. Trata-se de momentos, em que os pesquisadores citam os autores, como forma de demarcar filiação a uma teoria e uma área de estudos. Nessa prática, os conceitos teóricos não se vinculam a um autor, mas são atribuídos a uma área.

Dentre os casos de esvaziamento do discurso, ocasionado pelo enfraquecimento semântico do dizer de quem escreve em detrimento do discurso que é citado, verificamos um caso que se caracteriza por reforçar o sentido da forma discursiva e despersonalizar a autoria8 de quem produz o texto acadêmico, transferindo esta posição de autor para uma teoria ou campo de investigação.

8 A utilização que fazemos dos termos autoria e autor têm duas formas de significação. A primeira diz respeito

ao sentido de nomeação do pesquisador que escreveu o trabalho analisado. Autor e autoria estão ligados, nesse caso, a quem escreveu a produção escrita que analisamos. Outra forma de uso desses dois termos refere-se aos sentidos que o pesquisador construiu e desenvolveu um dado conceito. Esse modo de entender aproxima-se da noção de autoria como a fundação de uma discursividade, conforme apresenta Foucault (1996).

Excerto 09 – Tese 01 – Conceito Capes 07

Para esta análise, selecionamos o excerto 09, da tese 01. O trecho descreve os conceitos e noções das teorias que aquele que escreve utiliza como fundamentação de sua pesquisa. Reutilizamos esse exemplo de escrita em razão de podermos perceber nele também a característica de personificação da teoria, um procedimento que grande parte dos pesquisadores desenvolve ao atribuir autoria de termos e conceitos teóricos para o campo de investigação conhecido como Análise de Discurso.

Vejamos o exemplo que selecionamos na introdução do trabalho de tese.

16 – 17 – 18 – 19 – 20 – 21 – 22 – 23 –

Na primeira parte de nosso estudo, designado de Identificações, desenvolvemos um percurso teórico passando pela Psicanálise, sobretudo em Lacan, (para observar e entender o processo de identificação pelo inconsciente - a identificação significante); seguimos pela Análise de Discurso trabalhando com a identificação na interpelação ideológica, o que produz a pluralidade de identificações, ou seja, a identificação, a contra- identificação e a desidentificação, vistas por nós nos desdobramentos da forma-sujeito do discurso, na contradição do interdiscurso (a memória do dizer) no intradiscurso (o fio do dizer).

Na sentença construída entre as linhas 19 e 23, ao referenciar conceitos específicos da Análise do Discurso, o pesquisador recorre às noções de “identificação”, “contra- identificação”, “desidentificação”, “forma-sujeito”, “interdiscurso” e “intradiscurso”. Ao não demarcar a que autores cada termo citado se refere, quem escreve deixa o leitor livre para a construção de sentidos em relação aos conceitos, seja sobre sua explicação, seja sobre sua aplicação, seja, ainda, sobre a atribuição de autoria.

Podemos dizer que esta forma de escrita é uma consequência do que nomeamos como predeterminação de leitura do interlocutor. A diferença é que temos nesse caso uma continuidade do processo de escrita que, após o pesquisador antecipar os sentidos possíveis de serem construídos por seu leitor, atribui a uma área de estudo o status de autor, nomeando a teoria como autora de conceitos e noções teóricas.

Vemos que no excerto, por não marcar o autor dos conceitos citados, o pesquisador os atribui a uma área de estudo. Isto é, o pesquisador substitui a referência aos autores fontes do discurso, pela terminologia geral de Análise do Discurso, associando o conceito a toda uma área e generalizando a autoria do conceito para todos os pesquisadores de uma teoria. Fato que ocorre por meio da indicação dos termos demarcados como conceitos de todos os analistas do discurso, é como todos os pesquisadores da área os reconhecem, os compreendem e os utilizassem.

A utilização do discurso de outro autor na formulação de um novo discurso também prevê a demarcação da autoria originária do dizer ou, conforme Authier-Revuz (2004), o primeiro discurso, o dizer fundador. Isso, comumente, ocorre na remissão à discursos de outros autores, nos quais são marcados os autores dos conceitos que o pesquisador utiliza como fundamentação e sustentação teórica para o seu dizer, contudo isso não é o que ocorre no trecho analisado. Ao nosso ver, essa atribuição dos conceitos a toda uma área de estudo enfraquece o sentido do dizer construído no texto que analisamos.

Podemos utilizar, como forma de analisar esse discurso, o próprio conceito de identificação de Pêcheux (1988), referenciado no trabalho, isto é, há visivelmente, conforme apontamos, a remissão ao discurso de um outro autor no período entre as linhas 19 e 23. Um processo de identificação, cujo pesquisador cria um laço de identidade não mais com os autores fontes dos conceitos, mas com a área de estudo que, pela afinidade e identidade, assume o lugar de autor. Isso evidencia a identificação de quem escreve com os conceitos de Pêcheux, mas, o processo é comprometido pelo imaginário de que todo leitor tem conhecimento sobre quem seja o autor dos discursos que são referenciados.

A partir desse enfraquecimento, vemos uma proximidade desse modo de escrita com a noção bakhtiniana de discurso esvaziado. Esse exemplo mostra a construção de um modo de escrita estruturado e caracterizado pelo enfraquecimento do dizer do pesquisador. É uma forma de utilização do discurso citado que, ao generalizar a autoria do discurso que retoma, faz com que a significação prioritária, ou mais evidente entre os discursos citados, seja a presença dos conceitos teóricos da área de estudo e não o significado de como o discurso do outro sustenta o dizer daquele que escreve.

Vemos que o discurso produzido esvazia, semanticamente, a voz de quem escreve e dá prioridade para a voz citada que, por sua vez, não tem demarcação do autor. Eis uma forma de escrita caracterizada por um discurso, generalizado como de toda uma área de estudo, ou seja, vazio.

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