No que se refere aos participantes do estudo, foram contemplados a equipe técnica do serviço (psicólogo e assistente social), coordenador dos serviços socioassistenciais do município, uma família acolhedora, uma família de origem, uma criança acolhida, um representante do Conselho Tutelar, Promotor de Justiça e Juiz de Direito da comarca. A seguir, consta uma breve caracterização dos entrevistados (nomes fictícios):
Monalisa - Assistente Social: Monalisa é a assistente social que compõe a equipe técnica do SAF desde o seu processo de implantação. Está cursando pós-graduação em Serviço Social e Trabalho e, antes de ingressar no SAF, atuou em outros equipamentos socioassistenciais que atendiam ao público infantojuvenil por aproximadamente quatro anos.
Gabriela – Psicóloga: Gabriela é a psicóloga que passou a integrar a equipe técnica do SAF após seu processo de implantação, o qual foi realizado por outra profissional. Gabriela possui pós-graduação em Psicologia Hospitalar, mas já havia atuado no âmbito da Política Nacional de Assistência Social, integrando a equipe do CREAS de outro município.
Fernanda - Coordenadora: Fernanda é a coordenadora dos equipamentos socioassistenciais do município. Possui formação em Serviço Social e começou a atuar no cargo após a implantação do SAF. Fernanda é pós-graduada em Educação e Direitos Humanos, tendo exercido, durante oito anos, a função de Conselheira Tutelar em outro município.
Isabel - Família Acolhedora: Isabel foi uma das primeiras pessoas a procurar informações sobre o serviço e uma das primeiras famílias a acolher uma criança. É comerciante, evangélica, possui 43 anos de idade, cursou o ensino médio e reside com
uma filha adotiva de 13 anos de idade. Sua renda mensal, proveniente de uma pequena loja de roupas, foi estimada em um salário mínimo. Seu primeiro acolhimento ocorreu durante, aproximadamente, 10 (dez) meses, período em que cuidou de uma menina (Lis) de 03 (três) anos de idade. Em seguida, realizou o acolhimento de um garoto de 02 (dois) anos de idade, durante, aproximadamente, 02 (dois) meses.
José – Conselheiro Tutelar: José é membro do Conselho Tutelar, possui o ensino médio completo e atua no Conselho Tutelar há seis anos. Antes disso, desenvolvia projetos sociais voltados ao público infantojuvenil na igreja que frequenta.
Pérola – Criança Acolhida: Pérola possui 10 (dez) anos de idade e estava convivendo com a família acolhedora há aproximadamente 07 (sete) meses. Ela residia com a mãe (Joana), irmãos e padrasto e seu acolhimento ocorreu supostamente em decorrência de negligência dos responsáveis, que resultaria na prática de mendicância. Contudo, após seu acolhimento, tomou-se conhecimento de provável violência sexual praticada pelo padrasto.
Joana – Genitora: Joana é a genitora de Pérola (10 anos), Lis (03 anos) e outra criança (06 anos) que também se encontra em acolhimento familiar. Ela disse possuir 28 anos de idade e seis filhos. Na ocasião da entrevista, relatou suspeitar estar gestante de um novo companheiro. Dois dos seus filhos são adolescentes e foram residir com o genitor após intervenção dos órgãos do SGD por apresentarem suposto envolvimento com ato infracional. A filha mais velha da Sra. Joana reside com um companheiro, tendo saído de casa quando ainda era adolescente. No tocante à situação socioeconômica da família, a Sra. Joana disse ser dona de casa, ter estudado até o 1º ano do ensino fundamental, receber apenas o valor pago pelo Programa Bolsa Família (R$ 163,00) e residir em casa alugada. Na época em que suas três filhas foram acolhidas, residia com um companheiro que não trabalhava. De acordo com a equipe técnica, Joana é alcoolista, manifesta uma
postura aparentemente passiva, mesmo ao ser informada da gravidade da situação das filhas. Conforme Monalisa, a filha mais velha da Sra. Joana costuma relatar o comportamento da mãe, informando que ela não cessou o uso de álcool e que sempre foi negligente no que se refere ao provimento das necessidades básicas dela e de seus irmãos, o que motiva o comportamento dos irmãos de praticarem mendicância e a busca por trabalho desde muito cedo. De acordo com a filha, a passividade da genitora é uma característica muito forte, acreditando que ela não possui condições de cuidar das três filhas mais novas sozinha.
Pedro - Promotor de Justiça: Pedro possui bacharelado em Direito e Especialização em Ciências Criminais. Há aproximadamente cinco anos, vem atuando na área da infância e juventude nas promotorias em que trabalhou. Atualmente, além de atuar nessa seara, é responsável pelas matérias de Patrimônio Público, Direito do Consumidor e processos judiciais no âmbito do Direito de Família.
Paulo – Juiz: Paulo é o juiz da comarca, responsável pela aplicação das medidas de acolhimento nos casos envolvendo infância e juventude. Possui graduação em Direito e em Filosofia, além de Especialização em Aspectos Legais e Sociais da Infância e Juventude (UFRN), Mestrado em Direito Constitucional com foco na área de infância e está cursando Doutorado em Ciências Sociais. Atua na área cível e possui 13 anos de experiência na área da infância e juventude.
A inclusão de diversos profissionais, criança acolhida, família de origem e família acolhedora, visa abarcar a perspectiva dos diferentes atores envolvidos no processo de acolhimento, considerando-se que os mesmos podem apresentar perspectivas consideravelmente distintas acerca deste serviço, posto que possuem níveis e tipos de envolvimento diferentes durante o processo de acolhimento.
Desse modo, considerou-se importante analisar criticamente os discursos produzidos pelos participantes, observando de que modo eles se complementam, contradizem-se e apreendendo o seu movimento interno, o qual é permeado por um conjunto de relações, conexões e concepções.
Cumpre ressaltar que buscamos ouvir uma das crianças acolhidas, pois apesar de se afirmar a criança e o adolescente são sujeitos de direitos, raramente eles são escutados quanto ao modo com que compreendem sua história de vida, suas escolhas e as alternativas que propõem para a resolução de seus problemas. Muitas vezes, considera-se que esse público “não sabe o que dizer” ou deve ser “poupado” de compreender o seu processo no tocante às medidas protetivas, para evitar seu sofrimento (Moreira et al., 2014).
Nesse sentido, procurou-se oportunizar a essa criança acolhida um espaço em que pudesse expor suas ideias acerca deste momento de sua vida, especialmente no que se refere à sua inserção em uma família acolhedora, uma vez que ela é o “indivíduo” a quem se busca ofertar cuidados e proteção por meio da medida de acolhimento familiar, a quem a atenção de todos os profissionais deve estar voltada.