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Nascida em Natal (RN) no dia 1º de agosto de 1981, Amanda Gurgel de Freitas ficou

órfã ainda pequena e foi criada por uma tia. Solteira e sem filhos, é formada em Letras com

habilitação em Língua Portuguesa pela Universidade Federal do Rio Grande do Norte no ano

de 2005 e tem especialização em Educação de Jovens e Adultos (EJA). Durante o período como

aluna de graduação participou efetivamente do movimento estudantil, e integrou o Centro

Acadêmico de Letras e o Diretório Central de Estudantes da UFRN.

No ano de 2005, ingressou no serviço público por meio de um concurso promovido pela

Prefeitura Municipal de Natal. A professora lecionou nas escolas municipais João XXIII,

Professor Amadeu Araújo e Professor Zuza. Em julho de 2007, Amanda Gurgel ingressou

também por meio de concurso público na rede estadual de ensino, sendo lotada na Escola

Estadual Myriam Coeli, na Zona Norte de Natal. Sensibilizada com as lutas sociais e de classe,

40 A reportagem apresentada pelo Jornal das 10 na Globo News com duração de quatro minutos e vinte e cinco minutos foi assinada pela repórter Érica Zuza, e produzida pela afiliada da emissora no Rio Grande do Norte.

a professora se filiou ao Sindicato dos Trabalhadores em Educação Pública do RN (Sinte-RN).

Em entrevista ao repórter Rafael Duarte, do Novo Jornal no dia 22 de maio de 2011, Amanda

declarou a forma como se relacionava com a entidade sindical.

Ao ingressar na categoria dos trabalhadores em educação, toda a imagem de movimento sindical que eu construíra ao longo da minha vida foi sumariamente desconstruída quando constatei a forma como a direção do PT/PCdoB dirigia a nossa entidade e utilizava a categoria como moeda de troca para benefícios próprios. Na segunda assembleia que participei, já era oposição convicta. (DUARTE, 2011, p. 9).

Um aspecto interessante na identificação dessa personagem é a declaração da professora

Amanda Gurgel no plenário da Assembleia Legislativa ao dizer “estão me colocando dentro de

uma sala de aula com um giz e um quadro pra salvar o Brasil, é isso?”, externando com gestual

uma crítica ao poder público, que cobra a presença dos professores em sala de aula. Nos

registros do jornal Tribuna do Norte, sete dias antes da realização da audiência uma reportagem

trazia o seguinte título: “Governo diz que negociação só com professores em sala”

41

Figura 27 – Amanda na AL do RN

No entanto, na reportagem de Rafael Duarte publicada no Novo Jornal em 22 de maio

de 2011, o jornalista destaca que há pouco mais de um ano, Amanda Gurgel trabalhava na

biblioteca da Escola Estadual Myriam Coelli, e na Escola Municipal Amadeu Araújo, a

professora estava lotada no laboratório de informática. “Há pouco mais de um ano, a professora

não dá aulas. Uma depressão, que ela ainda não se sente à vontade em comentar publicamente

a tirou de perto dos alunos”. (DUARTE, 2011, p. 9).

41 Reportagem disponível no <http://www.tribunadonorte.com.br/noticia/governo-diz-que-negociacao- so-com-professores-em-sala/180187>. Acesso em: 16 mar. 2013.

Quando do movimento de greve e da sua participação na audiência pública na

Assembleia Legislativa do RN, no dia 10 de maio de 2011, a professora relata:

Aquela audiência, ela entrou como uma das atividades do calendário da greve de 2011. Os professores da rede estadual estavam em greve naquela ocasião, acho que fazia mais ou menos 30 dias de greve, por aí, e a gente tinha tido uma assembleia na mesma semana que ficou encaminhado da gente participar. Aí eu fui participar da audiência como uma atividade do calendário da greve”. (sic)42

Outro aspecto relevante é a comprovação por parte da professora Amanda Gurgel de

que aquela ocasião se configurava como a primeira participação dela em uma audiência pública

promovida pelo Poder Legislativo. Na imagem abaixo, o registro do lugar escolhido pela

professora para assistir o debate em companhia de uma colega de profissão.

Figura 28 – Amanda Gurgel acompanha audiência no plenário

Eu não sabia como funcionava. Eu nunca tinha participado de uma audiência pública. Aí quando eu cheguei lá, eu vi que tinha algumas pessoas se inscrevendo pra falar e eu perguntei como era que fazia. O rapaz prontamente me ofereceu a lista das inscrições e eu me inscrevi, mas eu não tinha essa determinação de falar, até porque eu nunca gostei muito de aparecer publicamente, assim. Mas, eu costumava falar nas assembleias da categoria, mas também tinha outros professores mais experientes do que eu, e inclusive quando eles chegaram, que eu fui uma das primeiras a chegar, aí quando outras pessoas foram chegando, eu disse “só tem uma vaga que eu me inscrevi, não tem mais, mas se você quiser, você pode ficar no meu lugar, você fala no meu

42 Trecho da entrevista concedida pela professora Amanda Gurgel, gravada e transcrita com autorização da professora comprovada em assinatura no Termo de Consentimento Livre e Esclarecido. Importante ressaltar que a professora Amanda Gurgel afirma na entrevista que o movimento de greve já ocorria há 30 dias. No entanto, conforme documento oficial do Sinte-RN e já mencionado nesta pesquisa, a deflagração do movimento paredista começou no dia 02 de maio, ou seja, oito dias antes da data da audiência pública realizada na Assembleia Legislativa do RN.

lugar.” E todo mundo “não, não. Fale você!.” Mas, eu não tinha esse objetivo de falar”.

A pesquisa pode se valer no significado do “acaso” para justificar a primeira vida do

acontecimento envolvendo Amanda Gurgel, a partir desta citação que integra a entrevista

concedida pela professora e a elevação do “eu” a personagem que se constrói a partir de um

acontecimento. E foi exatamente esse processo que ocorreu com a professora Amanda Gurgel.

Ao se permitir interagir de forma direta com o ambiente e com os atores envolvidos

naquele ato público, a professora passou a ser sujeito pertencente ao acontecimento. Ou seja,

personagem daquele acontecimento, Amanda Gurgel, não pôde dissociar a imagem dela de

todas as conexões envolvendo o acontecimento. “O acontecimento envolve, assim, um agir e

um suportar: ele é construído por ações realizadas pelos sujeitos e desencadeia outras ações em

seus desdobramentos”. (LANA; SIMÕES, 2012, p. 217). A professora da rede pública, com

militância sindical e anônima no universo externo do exercício profissional, passou a partir do

acontecimento que protagonizou, a revestir e refletir sua imagem ao universo de uma pessoa

pública.

Essas personagens se destacam publicamente no momento de grande visibilidade de um acontecimento e se tornam protagonistas da condução da experiência com o evento. Esses indivíduos, anônimos até o momento em que o acontecimento irrompe na cena pública, encontram-se no centro das atenções de todos em função da situação de exposição em que se envolvem”. (LANA; SIMÕES, 2012, p. 223).

Com uma vivência longe dos holofotes proporcionados pelos meios de comunicação de

massa, a professora Amanda Gurgel estranhou o protagonismo e a representatividade que ela

passou a ter naquele momento como personagem.

Eu reagi muito confusa, era muito difícil refletir sobre aquilo. Não dava tempo, na verdade. Era uma entrevista atrás da outra [...] Eu tava determinada a cumprir esse papel, não de representante dos professores, porque eu não fui eleita pra isso em nenhum lugar; mas, de qualquer maneira, como uma pessoa que tem propriedade pra falar sobre o assunto porque vivenciou [...] (informação verbal)

Não é atribuição da pesquisa se aprofundar no universo da professora Amanda Gurgel,

além dos circuitos que envolveram a narrativa dela na audiência pública que foi cenário do

“primeiro” acontecimento e que irão compor em um próximo capítulo, o corpus da pesquisa.

No entanto, tenciona-se abrir espaço para outros aprofundamentos, ao mensurar a permanência

da figura pública da professora Amanda Gurgel nos circuitos comunicacionais. “A astúcia desse

tipo de personagem refere-se ao prolongamento da extensão de seu estatuto de reconhecimento

público para além da duração do acontecimento” (LANA; SIMÔES, 2012, p. 224).

A permanência da professora nos circuitos comunicacionais se deu pela relação agora

partidária e de filiação que a docente mantém com o Partido Socialista dos Trabalhadores

Unificado (PSTU), e o interesse da legenda em utilizar a imagem da professora no processo

eleitoral, lançando-a como candidata a cargo eletivo nas eleições de 2012. As manchetes

“Fenômeno na internet, professora Amanda Gurgel vai avaliar campanha de vereadora”,

“Professora que virou fenômeno na Internet será candidata a vereadora em Natal”, e “Partidos

de oposição tendem a lançar candidatos próprios”

43

, publicadas em datas distintas pelo jornal

Tribuna do Norte corroboram com astúcia da personagem que compreendeu a oportunidade de

solidificar a imagem própria nos circuitos comunicacionais

Quando permanecem no espaço da visibilidade despertando o interesse de todos, esses personagens são iluminados pelo acontecimento ao encarnar sentidos que dialogam com o contexto da experiência que permitiu que emergissem publicamente. O acontecimento originário se encerra, mas suas reverberações permanecem empiricamente nesse tipo de personagem. (LANA; SIMÕES, 2012, p. 224).

Para suscitar, no entanto, outra pesquisa, a permanência da professora Amanda Gurgel

nos circuitos da comunicação se deu com a candidatura nas eleições de 2012 ao cargo de

vereadora no município de Natal (RN) pelo Partido Socialista dos Trabalhadores Unificado

(PSTU).

Eleita em 1º de outubro de 2012, com 32.819 votos, Amanda Gurgel tomou posse no

dia 1º de janeiro de 2013 para um mandato de quatro anos (2013-2016) na Câmara Municipal

de Natal. No palácio Padre Miguelinho, sede do poder legislativo municipal, a professora

Amanda Gurgel, integra a bancada de oposição a administração do prefeito Carlos Eduardo

Nunes Alves (PDT), e compõe as comissões técnicas de “Educação, Cultura e Desporto” e de

“Direitos Humanos, Trabalho e Minorias”.

Mais que uma questão de conteúdo, para se manter na experiência pública, a pessoa pública precisa de uma destreza para desempenhar seu papel de acordo com formatos específicos de performance, que dizem respeito às características da visibilidade midiática. Assim como a instituição de sentidos

43 As reportagens estão disponíveis em <http://www.tribunadonorte.com.br/noticia/fenomeno-na-internet- professora-amanda-gurgel-vai-avaliar-campanha-de-vereadora/226861>;

<http://www.tribunadonorte.com.br/noticia/professora-que-virou-fenomeno-na-internet-sera-candidata-a- vereadora-em-natal/202952>; <http://www.tribunadonorte.com.br/noticia/partidos-de-oposicao-tendem-a-lancar- candidatos-proprios/202994>. Acesso em: 15 mar. 2013.

do acontecimento é situada, a competência exigida para a elaboração de um papel em público varia em cada caso. Pode-se demandar, por exemplo, a boa articulação da fala, o uso de ferramentas na internet, a beleza, a simpatia ou outros atributos que colaboram para o bom desempenho dessas personagens na cena pública. (LANA; SIMÕES, 2012, p. 225).

O cargo de parlamentar garante pelo menos durante os quatro anos do exercício de

mandato, a possibilidade da professora Amanda Gurgel continuar reverberando o conteúdo do

acontecimento que projetou a imagem dela como figura pública, principalmente pelo fato de se

posicionar como agente público em constante defesa da educação e da classe trabalhadora. Mas

essa discussão em torno desse momento, não incorpora a priori a proposta da pesquisa.

Para compreender toda estruturação e os emaranhados de circuitos de comunicação

envolvidos no acontecimento protagonizado pela professora Amanda Gurgel, o próximo

capítulo desta pesquisa vai discorrer sobre os conceitos de circuitos comunicacionais e suas

imbricações propostos por José Luiz Braga.

4 CIRCUITOS COMUNICACIONAIS E O ESPALHAMENTO DA NOTÍCIA

4.1 Autonomia individual na disseminação da notícia: a ação do soldado militar Vanderlei

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