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Entender os reais motivos do abandono da formação no PARFOR, na AMAZÓNIA, constitui o objetivo desta pesquisa, visto tratar-se de um problema de ordem social, política e económica, que afeta não apenas o Estado do Pará ou a AMAZÓNIA, mas todo o Brasil, podendo, também, ocorrer em outros países. Para clarificar este ponto da pesquisa, recorreu- se a autores que retratam eficazmente o tema em questão, entre eles Rumberger (2011) e Benavente et al. (1994). Todos estes autores preocupam-se em estudar a questão do abandono em termos educacionais, o que não diminui a dificuldade em encontrar estudos específicos e obras acerca desta problemática no que toca à formação a nível de Ensino Superior, já que muito do que existe se refere aos primeiros níveis: ensino fundamental e médio, por exemplo. No PARFOR, há várias diferenças relativamente aos cursos regulares. Da mesma forma, os motivos de abandono deste tipo de formação académica podem apresentar contornos distintos em relação a outros cursos.

Em primeiro lugar, é conveniente avaliar o processo de admissão ao curso: não há provas de seleção; o processo de escolha realiza-se por meio das secretarias municipais de educação da área a que esses professores sem formação adequada pertencem, de entre os professores inscritos, via internet, pela Plataforma Freire. A entrada é fácil, pois a vaga para quem já é professor e não possui formação é garantida pelo governo. Sabe-se, no entanto, que um professor que precisa de vaga está sujeito a perdê-la, sempre que a secretaria de educação promove uma escolha indevida.

É importante salientar que, no PARFOR, a prioridade é para quem ainda não fez a primeira licenciatura; porém, nem sempre é assim, e aqui reside uma das grandes falhas do programa: um processo de seleção que nem sempre é bem conduzido, o que pode ser um dos fatores que tem contribuído para o abandono da formação no âmbito do PARFOR.

Fatores cognitivos, como o estar há muito tempo afastado da vida académica, podem ser responsáveis pelo abandono desses cursos de formação, uma vez que há professores que estavam há vinte ou mais anos sem estudar. Com efeito, no PARFOR, esta situação aconteceu em alguns cursos.

Contudo, uma das principais causas do abandono foi o trabalho. Embora os cursos aconteçam em períodos de férias ou fins-de-semana, muitos gestores não dão permissão aos alunos/professores (geralmente em cidades do interior, de difícil acesso à zona urbana) para estudar. Aqui, a questão do trabalho, junta-se à questão geográfica, na medida em que há lugares onde o serviço de transporte só é oferecido duas vezes por semana e em horário

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específico. Isso faz com que ao aluno que não tem condições financeiras para se deslocar com a devida antecedência, de modo a garantir a presença no dia e à hora agendada, por não poder custear as suas despesas (hospedagem, alimentação), não reste outra saída senão abandonar a formação.

Noutros casos, o cansaço causado pelo facto de não haver descanso após as aulas lecionadas no período letivo das escolas onde trabalham, é, também, um fator relevante

Uma outra questão digna de menção é a falta de vagas em alguns cursos que se regista no Brasil. Há uma disputa acirrada por um lugar nos bancos da universidade e aqui pode estar uma das causas do insucesso: uma escolha motivada pelas vagas e não pela natureza do curso, em si. Refira-se, a título de exemplo, que, no último processo de seleção para entrada nos cursos superiores no Brasil, em 2015, houve 8,7 milhões de inscrições para apenas 205.514 vagas nas instituições públicas de Nível Superior e 213.113 vagas nas instituições particulares, havendo 135.616 bolsas de estudo integrais e 77.497 parciais, de acordo com o Ministério da Educação (2015). Para não ficarem “de fora”, muitos alunos optam por um curso onde a concorrência seja menor. Referindo-se a este facto, Albuquerque (2008) fala na deceção dos alunos em relação aos docentes e à própria instituição, o que, na sua opinião, justifica o abandono por parte dos alunos.

Outras pesquisas demonstram que o rendimento familiar também interfere na decisão de abandonar um curso, mesmo quando estes cursos são regulares.

Os motivos que levaram estes alunos a abandonar a escola de ensino regular, na maioria dos casos isto ocorreu devido à falta de renda familiar e, consequentemente, à necessidade de trabalhar fora. Mesmo após tantos anos afastados da escola, estes indivíduos perceberam a necessidade dos estudos, da aquisição de conhecimentos em suas vidas visando melhoras na qualidade de vida. (Ajala, 2012:32-34).

No PARFOR, além do rendimento familiar, havendo alunos que trabalham antes e depois das férias, regista-se, também, o cansaço gerado pela necessidade de estudar durante as férias sem qualquer pausa, além da duração das aulas que pode ir até 10 horas por dia.

A distância para se chegar aos locais onde decorre a formação também representa um dos motivos fortes para o abandono na AMAZÓNIA. Há lugares onde é preciso percorrer a pé vários quilómetros, durante horas, até encontrar um meio de transporte até à escola.

O tema do abandono é também transversal à questão financeira, não em todos os casos, mas, em especial, no Estado do Pará – local desta pesquisa – onde representa, sem dúvida, uma agravante. Apesar dos projetos sociais desenvolvidos, no decorrer dos anos,

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pelas autoridades governamentais, tanto o Estado do Pará como o Brasil continuam a ter um mau desempenho nos indicadores educacionais, quando o comparados com outros países.

O IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, em 2014, constatou que o país registrou uma queda de 11,5% na taxa de abandono do ensino, entre 2001 e 2011, nos jovens com 18 e 24 anos. Mas essa média ainda é três vezes maior superior à verificada em 29 países europeus. Comparativamente com os países do MERCOSUL – Mercado Comum do Sul, de que o Brasil faz parte, o IBGE/2010 já constatara que o Brasil possui a maior taxa de abandono escolar no Ensino Médio, registando índices superiores aos do Ensino Fundamental de outros países da América do Sul (IBGE, 2014).

É verdade que, no Brasil, antes da década de 50, o acesso à educação já era difícil para a maioria da população, continuando a sê-lo, na atualidade, para algumas pessoas. Este é, possivelmente, um dos fatores que mais tem suscitado debate por parte de vários autores. O debate é necessário, porque é preciso considerar a visão dos professores, alunos, comunidade em geral, bem como a gestão das escolas, uma vez que o meio social, os acontecimentos de cunho político e económico, as questões filosóficas e o ambiente cultural interferem na formação do futuro profissional.

Falar em abandono implica avaliar todos os fatores já referidos, além de levar em consideração o que está a acontecer no século XXI, um avanço tecnológico que, se não for adequadamente aproveitado por professores e alunos, pode, naturalmente, interferir na aprendizagem.

Hoje, em todos os níveis de ensino, há alunos que já não prestam atenção ao professor, destronado pela internet e pelas redes sociais. Esta é uma das situações em que as novas tecnologias da informação podem, no limite, levar ao insucesso. Mas também podem fazer- nos pensar que, se a aula não é apelativa para os alunos, algo de errado acontece e exige que todo o contexto seja reavaliado.

A escola, pelo menos no Brasil, ainda continua, segundo muitos críticos do atual modelo de educação, organizada, de acordo com um modelo único e monolítico que supostamente proporciona igualdade de oportunidades educacionais a todos os alunos, independentemente de sua condição social e económica. Considera-se, nesse modelo, que a escola deve procurar transmitir a maior quantidade possível de conteúdos e que o ponto de partida e o ponto de chegada de todos os alunos, devem, necessariamente ser os mesmos (Gentilini e Scarlatto, 2015, p. 26/27).

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Como se percebe, todo o sistema educacional precisa de ser reformulado, de modo a adaptar- se às mudanças, tendo em conta as necessidades do público estudantil. Para que haja sucesso profissional ou académico do aluno, a escola e os trabalhadores nela inseridos também têm de ser eficazes. Nesse contexto, a prática dos professores poderá contribuir significativamente para identificar as causas do insucesso e, consequentemente, do abandono da formação.

As pesquisas sobre retenção e evasão escolar indicam que, executando os problemas na família ou no trabalho, um percentual significativo de alunos perguntados por que abandonaram a escola, responderam que ela não foi capaz de despertar o seu interesse tanto com o que se ensina quanto como se ensina (Gentilini e Scarlatto, 2015:27).

Portanto, não se trata só dos conteúdos selecionados e transmitidos pela escola, não é só o conhecimento, ou o currículo, enquanto forma organizada de conteúdo; é também a forma como se faz chegar esse conteúdo aos alunos. O que fazer, então? O caminho para a resolução dos problemas passará, certamente, pela formação básica do professor. A sua formação inicial, consolidada em bases sólidas, contribuiria, sem dúvida, para que depoimentos de alunos, como os que são apresentados nesta dissertação, não existissem ou fossem, pelo menos, pouco representativos.

O professor tem a missão de contribuir para que o aluno seja capaz de estabelecer relações com o mundo real, de ir além da ciência dentro da sala de aula. No contexto das sociedades modernas, é preciso criar cidadãos éticos, conhecedores dos seus direitos e deveres, conscientes de que vivem num mundo em constante transformação.

A próxima secção apresenta uma reflexão sobre as consequências do abandono da formação no Ensino Superior.

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