2.4 Applications
2.4.2 PLC
No decorrer desta pesquisa, as entrevistas realizadas foram denominadas como técnicas projetivas. Estas são oriundas da psicanálise como os métodos clínicos Rorschach e os Testes de Apercepção Temática (TAT) (MIGUEL, 2014). Na técnica Rorschach, um paciente interpreta borrões sem estruturação. Enquanto que nos TAT, pacientes contam estórias a partir de cartões (PARADA; BARBIERI, 2011). Nos dois casos, existe uma busca para interpretar o que está sendo dito com a finalidade de encontrar traços da personalidade. A questão da validade destas interpretações foi intensamente discutida ao longo do século XX e com descrédito de tais pesquisas, levando a um declínio em seu uso. Posteriormente, as técnicas projetivas passaram a ser empregadas em pesquisas de marketing (DONOGHUE, 2010) e mais tarde no campo educacional (CATTERALL; IBBOTSON, 2000) e no aconselhamento psicológico (CLARK, 1995).
A técnica de Lembrança Estimulada por Vídeo (LEV) ou Video Stimulated Recall (VSR)9 envolve um estímulo visual que diverge das técnicas projetivas. Bloom, em 1953, foi
9 Na literatura, encontramos de forma mais ampla a nomenclatura SR, Stimulated Recall, uma lembrança estimulada por fotografias, áudios, objetos, registros escritos etc; com as variações SRI, Stimulated Recall
pioneiro ao gravar fitas de áudio de seus estudantes universitários que, após a execução de atividades, relembravam os momentos anteriores, o que foi visto como uma forma de reavivar as memórias (CALDERHEAD, 1981 apud O’BRIEN, 1993). Com o desenvolvimento das tecnologias de registro audiovisual ao longo das décadas de 1970 e 1980, métodos tanto qualitativos como quantitativos se desenvolveram a partir da Lembrança Estimulada (ROWE, 2009).
A Lembrança Estimulada (LE) corresponde a apresentação de algo que faça parte do passado do entrevistado, podendo ser uma fotografia, escritos, desenhos que proporcionem a expressão verbal do momento vivido (FALCÃO; GILBERT, 2005). Portanto, a LE se apoia em um registro de um momento específico da vida do sujeito que é resgatado para servir de uma espécie de disparador. Stough (2001) contrastou com a técnica think aloud, ou pensar em voz alta, em que o entrevistado fala sobre uma atividade com maior detalhe possível. Segundo a autora, a LE seria usada em situações em que a técnica de pensar em voz alta não seria possível ou exerceria uma interferência com a performance da atividade que está sendo lembrada. O professor não conseguiria, em sala de aula, simultaneamente ensinar e gerenciar a classe enquanto expressa os seus pensamentos. É uma captura da cognição on-line nas palavras de Laura Stough.
A função do registro audiovisual é defendido por Yinger (1986), conforme:
“Basicamente, a LE envolve o acesso aos pensamentos do professor quando não é possível uma descrição simultânea. Com o relato do professor enquanto ele está pensando, existe uma incrível distorção dos processos em sala de aula, mesmo com a combinação complexa de automonitoramento, descrição e atuação psicológica. Para evitar estas dificuldades os pesquisadores usam o método de LE como fonte primária de pensamento interativo.” (YINGER, 1986, p. 267, tradução nossa)
Em técnicas como pensar em voz alta, o entrevistado necessita descrever a cena e descrever os pensamentos; na LE, a cena já está presente no registro para que a reflexão sobre os pensamentos possa ser realizada. O registro audiovisual do professor é uma fonte primária dos pensamentos. A LE possui uma origem cognitivista, pela busca dos pensamentos que ocorrem no momento de uma aula. Verifica-se que descrever o que estava sendo feito e o que estava sendo pensado são considerados processos mentais diferentes. O registro em si reduziria a verbalização dos entrevistados para a descrição e aumentaria a verbalização de seus pensamentos.
Interview, uma lembrança estruturada no formato de entrevista; VSR, Video Estimulated Reflexion, uma reflexão
A técnica está presente em campos de pesquisa diversificados de educação como música, matemática, línguas etc. Segundo Cutrim Schmid e Schmid (2011), a Reflexão Estimulada por Vídeo é uma ferramenta de desenvolvimento professional que ajuda os professores a terem clareza sobre suas práticas e a aprendizagem de seus estudantes. Elas citam Borg ao observar que a técnica é mais utilizada para facilitar a discussão sobre as ações e racionalidades e não necessariamente para elicitar os seus pensamentos enquanto eles estavam instruindo em um ponto particular da lição. Por isso, a técnica de LE possui tanto o caráter de coleta de dados como de desenvolvimento profissional.
Na música, Dempsey (2010) empregou a técnica em sessões de jazz como uma etnografia para descrever as motivações, entendimentos e as estratégias das pessoas que se engajam em uma comunidade. Neste trabalho, a performance do músico é avaliada e a LEV é empregada para verbalizar as interações dos participantes de bandas musicais. Seu questionamento refere-se as interações entre músicos durante a execução de diferentes instrumentos.
Em línguas, a LE é instrumento para a identificação da pronúncia dos alunos. Bao, Egi e Han (2011) conduziram uma série de entrevistas em que os alunos rememoravam episódios de aulas referentes aos erros ou formas problemáticas durante o aprendizado da língua inglesa. Neste estudo envolvendo correlação estatística, os alunos perceberam consideravelmente mais os erros com a técnica de LE do que na sua ausência.
Em tutorias online, Smet, et al. (2010) aplicaram a LE juntamente com outras técnicas de coleta de dados como grupos focais e diário de tutoria para compreender o comportamento dos tutores em grupos de discussão. As autoras argumentaram sobre a importância do uso de múltiplas técnicas para estudos comparativos. A LE realizada com tutores iniciantes permitiu a compreensão de pensamentos e dúvidas durante a sua performance e de forma individual e independente do comportamento dos grupos de discussão online.
Na matemática, Pirie (1996) realizou uma comparação da técnica pensar em voz alta com a LE. Aquela estaria relacionada aos aspectos cognitivos tais como: diagnóstico de dificuldades, estimar habilidades ou investigar estratégias, enquanto a LE relaciona-se com uma provocação dos processos mentais. Em seu trabalho, aponta que Calderhead listou alguns problemas da LE como: durante a LE os professores ao se verem mostraram-se em uma atividade altamente estressante, com necessidade de preparo para o que eles iriam lembrar; no que se refere ao conhecimento tácito do professor, ao invés de verbalizar espontaneamente, ele
recorre ao conhecimento que constrói pela experiência. Por isso, o tipo de metodologia empregada estaria relacionado com o tipo de questão a ser investigada.
Nilsson (2008) empregou entrevistas com LE em professores em formação inicial de ciências para investigar a natureza do conhecimento do conteúdo pedagógico (PCK, do inglês
Pedagogical Content Knowledge). Nas ciências sociais, Reitano (2006) realizou análise das
falas dos entrevistados, os quais também eram professores que realizavam um processo reflexivo de suas práticas.
Em museus, Falcão e Gilbert (2005) entrevistaram crianças e adultos após a interação com as unidades expositivas, com a categorização das descrições, dos sentimentos e dos pensamentos. Segundo Falcão, no contexto dos museus, a exibição dos registros audiovisuais proporcionaram uma nova experiência de visita dos sujeitos, influenciando os dados de aprendizagem que poderiam ter ocorrido durante a visita ou no momento da exibição dos vídeos. O uso de fotografias para a narração das ideias dos sujeitos que interagiram com a exposição permitiu uma coleta de dados mais adequada para a investigação do processo de aprendizagem.
Tobin e Ritchie (2012) estudaram as emoções em entrevistas dos professores, quantificando com análise prosódica a variação da entonação da voz, um oxímetro para medir fisiologicamente a pulsação e a oxigenação do sangue, a expressão facial para identificar sentimentos de raiva, medo e felicidade. Neste caso, os autores não mencionaram a terminologia de LEV na pesquisa, e utilizam o termo “vídeo etnográfico”, por meio do qual o sujeito é convidado a rever sua aula.
A técnica de LEV é originada pela abordagem cognitivista e busca os pensamentos dos indivíduos. Em alguns casos possui um caráter etnográfico como ressaltado por Dempsey (2010) em aulas de jazz. Quais seriam os procedimentos de coleta e análise de dados em uma abordagem sociocultural? E o quanto confiável a metodologia de LEV pode ser ao ser aplicada no Ensino de Química?