A morte de César mudou a direção dos ventos que antes favoreciam Cleópatra e Medeia. Se a rainha do Egito era cara ao ditador e aos seus projetos políticos de conquistas e de fortalecimento do próprio poder, a chegada à cena política de Otaviano, adotado por César em testamento,
363 ARCELLASCHI, Andrè. Op. Cit. 217.
364 Plu. Caes. 60: Los que andaban empeñados en negociarle la regia dignidad habían esparcido al intento la voz de
que, según los Libros Sibilinos, la región de los Partos se sujetaría a los Romanos si éstos les hacían la guerra mandados por um rey, mientras que de otro modo no había que intentarlo.
365 CIC. Att. 13.37.2: nihil novi sane nisi Hirtium cum Quinto acerrime pro me litigasse; omnibus eum locis furere
maximeque in conviviis cum multa de me tum redire ad patrem; nihil autem ab eo ά π ω dici quam alienissimos nos esse a Caesare; fidem nobis habendam non esse, me vero etiam cavendum (φ β ό nisi viderem scire regem me animi nihil habere), Ciceronem vero meum vexari; sed id quidem arbitratu suo.
transformou as relações delas com Roma366. Entretanto, com o assassinato do amante e, sobretudo, a partir da ligação com Marco Antônio e de sua disposição de enfrentamento armado contra Otaviano pela herança política de César em favor de Cesário, reverteu-se a forma relativamente benigna com que até então vinha sendo tratada. Cleópatra tornou-se o exemplo da ameaça bárbara que espreitava constantemente Roma, sintetizada na misteriosa e sedutora estrangeira que, por metonímia, simbolizaria as terras do Oriente e do norte da África a serem conquistadas pelo Império. Essa foi, inclusive, a acepção dada à sua significação em Roma no período do segundo triunvirato, como se percebe em Otaviano quando disse que Marco Antônio havia sido encantado por Cleópatra, com sortilégios presumíveis de feitiçaria, em evidenciação do caráter estrangeiro da rainha egípcia por meio da utilização dos filtros amorosos367. Cleópatra assumiu a condição simbólica da barbárie, transformada em uma feiticeira caracterizada pelos excessos, pelo luxo368 e pelo poder de sedução erótica que ameaçariam de ruína o Estado romano, arrastado pela sempre odiada ameaça da realeza. Na propaganda política orquestrada por Otaviano, essa imagem foi reforçada pela adesão de Marco Antônio à causa de Cleópatra, quando ele mesmo assumiu a condição de deus – na ocasião em que, vestida de Ísis, a soberana do Egito recebeu-o como se fosse a manifestação presentificada de Osíris e, aos filhos que tiveram, deu a dignidade divina do Sol e da Lua369. Foram-lhe atribuídas as características fundamentais de inimiga do novo regime, que se afirmou definitivamente após a vitória de Otaviano em Ácio, em 31 a.C., quando ela e Marco Antônio foram derrotados. Graças a isso, o herdeiro de César pôde centralizar hegemonicamente em si os poderes antes compartilhados pelos triúnviros, além de anexar as ricas e férteis terras do Nilo às conquistas do principado.
366 Para compreender as relações entre Cleópatra e Roma, cf.: CID LOPEZ, Rosa Maria. Cleopatra: Mitos Literarios
y Historiográficos en torno a una Reina. Salamanca: Ediciones Universidad de Salamanca, 2000.
367 D.C. 50.26: for, indeed, I have heard and believed that he has been bewitched by that accursed woman — and therefore pays no heed to our generosity or kindness, but being a slave to that woman, he undertakes the war and its self-chosen dangers on her behalf against us and against his country.
368 Exemplo do luxo de Cleópatra pode ser encontrado, por exemplo, em Plínio, o Velho, que relata a anedota segundo a qual a rainha do Egito fizera dissolver duas pérolas, de dez milhões de sestércios cada, em vinagre, para condimentar sua refeição, causando assombro aos romanos. Cf: PLIN. Nat. 9.58: ex praecepto ministri unum tantum vas ante eam posuere aceti, cuius asperitas visque in tabem margaritas resolvit.
369 D. C. 50.5: He posed with her for portrait paintings and statues, he representing Osiris or Dionysus and she Selene or Isis. This more than all else made him seem to have been bewitched by her through some enchantment.
Os registros literários que passaram a caracterizar Cleópatra como a grande inimiga de Roma no período foram bem recorrentes. Horácio celebrou sua morte no epinício370 que se inicia com o convite para a bebida e para a dança, porque a rainha que preparava a louca ruína do Capitólio e as exéquias do poder romano finalmente fora vencida. Entretanto, o uso do gerundivo no início do primeiro verso – Nunc est bibendum ... Agora é nosso dever que bebamos – transformou a conclamação do poeta em uma espécie de dever dos cidadãos romanos, reunidos no vocativo sodales. Isso porque, na propaganda ideológica do vencedor, Cleópatra representava a reunião da ameaça estrangeira que até mesmo fizera, por meio de sua sedução, de Marco Antônio um traidor da Urbe. Porém, Marco Antônio não foi descrito propriamente como inimigo de Roma, ainda que empunhasse armas contra os exércitos de Otaviano. Afinal, a lembrança da guerra civil entre César e Pompeu ainda se encontrava presente sob a forma de medo comum; e para a estabilidade do novo regime era preferível a Otaviano a imagem da pacificação interna, porquanto considerasse a luta contra as legiões de Marco Antônio uma disputa civil que seria prejudicial à imagem do novo princeps.
Outro exemplo da forma com que Cleópatra foi tratada na literatura augustana acha-se no oitavo livro da Eneida, no canto patriótico anunciante do novo regime. Ali, Virgílio estabeleceu de forma clara o perigo da influência daquela mulher estrangeira sobre o homem romano, em um momento político de afirmação da nacionalidade. No escudo com que Vênus presenteou o filho Eneias, no qual Vulcano representara, entre outros eventos futuros da história romana, a batalha de Ácio, figurou, de um lado, o ovante Otaviano sobre os navios que se preparavam para combater Antônio que, do lado oposto da cinzeladura do armamento, arrastava consigo, com a ajuda da força bárbara – ope barbarica –, o Egito e a Bactriana, seguido por sua esposa egípcia371. Destaca-se a
370 HOR. Carm. 1.37: Nunc est bibendum, nunc pede libero/ pulsanda tellus.
371 Verg. A. 8. 678-688: hinc Augustus agens Italos in proelia Caesar/ cum patribus populoque, penatibus et magnis
dis, / stans celsa in puppi, geminas cui tempora flammas / laeta uomunt patriumque aperitur uertice sidus./ parte alia uentis et dis Agrippa secundis/ arduus agmen agens, cui, belli insigne superbum, / tempora nauali fulgent rostrata corona./ hinc ope barbarica uariisque Antonius armis, / uictor ab Aurorae populis et litore rubro, / Aegyptum uirisque Orientis et ultima secum/ Bactra uehit, sequiturque (nefas) Aegyptia coniunx.
interjeição do poeta no interior do verso - ... sequiturque (nefas) Aegyptia coniunx372. Como a anunciar Cleópatra, foi o próprio Virgílio quem, de voz própria, exclamou nefas!, como se a clamar contra a ilicitude e a impiedade do ato antipatriótico de Marco Antônio. Cleópatra foi mostrada a impelir os deuses do Egito – os monstruosos deuses do Nilo e o ladrador Anubis – a combaterem as divindades romanas – Netuno, Vênus e Minerva373. Ela invocou os ventos, em reforço à sua
imagem de poder mágico374. Finalmente, foi descrita a convocar as tropas fiéis com o sistro pátrio, tendo atrás de si duas serpentes – em uma indicação que a faz aproximar-se, inevitavelmente, da imagem de Medeia e de seu carro solar375.
Uma aproximação mais evidente entre as descrições literárias de Cleópatra e Medeia, porém, pode ser encontrada no quarto livro da Eneida, para o qual também contribuiu o modelo da jovem abandonada pelo amante encontrado na Ariadna de Catulo, no Carmen 64. Isso mais se patenteia nas funestas emoções de Dido, a apaixonada rainha de Cartago, que ardeu de amor e consumiu-se nas muitas fogueiras de sua paixão. Virgílio, que se propusera à criação de um canto nacional que celebrasse as glórias do novo regime, fê-lo por meio da articulação da herança literária grega, aí incluindo a produção poética desde Homero até Apolônio de Rodes, e a tradição literária romana, que já então se achava de algum modo estabelecida. No esforço emulatório da produção poética antiga, ele pôde adaptar-se às exigências do tempo, quando já a produção do teatro ático, da elegia erótica alexandrina, da elegia amorosa romana então em voga, da tragédia latina e, sobretudo, das épicas republicanas de Névio, Ênio e Varrão de Átax haviam modificado o gosto e as expectativas dos novos leitores. Por isso, a inclusão do tema da paixão na narrativa heroica revelou- se uma decisão apropriada do poeta, ao menos na sequência do modelo de Apolônio de Rodes e do gosto romano recentemente despertado pelos neotéricos e difundido principalmente nas elegias. Desse modo, a descrição do funesto enamoramento de Dido por Eneias encaixou-se no tratamento virgiliano, seja quanto às suas matrizes elegíacas, seja quanto ao teatro, seja mesmo quanto à
372 Verg. A. 8.688.
373 Verg. A. 8. 698-700: omnigenumque deum monstra et latrator Anúbis/ contra Neptunum et Venerem contraque
Mineruam/ tela tenent.
374 Verg. A. 8.707-708: ipsa uidebatur uentis regina uocatis/ uela dare et laxos iam iamque immittere funis. 375 Verg. A. 8.697: necdum etiam geminos a tergo respicit anguis.
mitologia fundacional romana, que ao menos desde Névio pusera Dido no caminho de Eneias para anunciar as Guerras Púnicas. Ademais, a possibilidade de leitura metafórica do episódio de Dido por meio do viés histórico da aliança entre Cleópatra e Marco Antônio376 parece evidenciar-se na preocupação que Virgílio demonstrou em descrever o contraste entre as uniões legítimas e as ilegítimas – consideradas assim aquelas movidas pela paixão, como se destaca nos episódios de Dido, sempre angustiada por descumprir as promessas de fidelidade que fizera ao finado marido Siqueu377. Recorde-se, ademais, a promulgação da lex iulia de maritandis ordinibus e da lex iulia de
adulteriis coercendis, entre 18 e 17 a.C., com o fito moralizante de coerção dos adultérios, de
incentivo à natalidade e de proibição dos casamentos entre membros de classes sociais distintas, quando o matrimônio se tornou um dever para com o Estado, transformando o adultério um crime público, não mais sob a jurisdição do paterfamilias, mas sob a esfera pública378. Desse modo, a reprimenda feita a Eneias por Mercúrio, que o admoestou a deixar as roupas tírias e a espada de pedrarias que lhe dera a rainha de Cartago para de pronto ir ao mar e cumprir sua divina missão de ir fundar a nova Troia379, parece repetir o reproche feito a Marco Antônio por Roma, que o viu abandonar seus deveres cívicos para entregar-se ao gozo desmedido e à paixão deletéria da rainha estrangeira, cada vez mais caracterizada literariamente como uma mulher devassa e aliciadora. Dido tornou-se também o suporte para o anúncio augustano do perigo existente para aqueles que deixavam a força da paixão suplantar os deveres da pietas e a virtude cívica – atributos últimos da
romanitas encarnada inteiramente em Eneias. Tal entendimento pode ser inferido pontualmente na
fala de despedida do herói, quando este se desculpou com a rainha cartaginesa pela partida, ao afirmar que seu amor estava onde estava a pátria – hic amor, haec patria est380; do mesmo modo,
376 BEYE, Charles R. Ancient Epic Poetry – Homer, Apollonius, Virgil. London: Cornell University Press, 1993. p.
233.
377 HENRI, R.M. Op. Cit. p. 104.
378 TEIXEIRA, Cláudia A. Casamento, Adultério e Sexualidade no Direito Romano: caso particular da Lex Iulia de
maritandi ordinibus e da Lex Iulia de adulteriis coercendis. In: RAMOS, José A.; FIALHO, Maria do Céu;
RODRIGUES, Nuno S. (Coords.). A Sexualidade no Mundo Antigo. Coimbra: Centro de Estudos Clássicos e Humanísticos da Universidade de Coimbra, 2009. p. 361-366.
379 Verg. A. 4.259-264: ut primum alatis tetigit magalia plantis,/Aenean fundantem arces ac tecta nouantem/ conspicit.
atque illi stellatus iaspide fulua/ ensis erat Tyrioque ardebat murice laena/ demissa ex umeris, diues quae munera Dido/ fecerat, et tenui telas discreuerat auro.
esse entendimento acha-se subjacente ao pedido de desculpas que Eneias dirigiu a Dido no Orco, quando afirmou que saíra de Cartago com pesar, obrigado pelos deuses381. O herói da Eneida era o modelo arrematado do perfectus vir, de tal sorte que suas escolhas fizeram-se mais emblemáticas em comparação aos comportamentos que lhe fossem contrários. Por isso, a correta submissão do herói ao destino que o Fado e os deuses lhe atribuíam, segundo o qual seu primeiro interesse era o bem da pátria, faz evidenciar o comportamento reprovável de Marco Antônio, arrastado pela paixão por Cleópatra e pela sedução da realeza. Dessa maneira, foi a rainha do Egito quem assumiu a função simbólica de representar a barbárie, em substituição à figura de Medeia afastada da condição até então comum de encarnar a estrangeira e a forma com que Roma lidava literariamente com sua alteridade. Além disso, Cleópatra, cujo tratamento recebido dos autores anteriores sempre se pretendeu favorável em função da opção de seus poetas na defesa da inclusão dos estrangeiros em Roma, viu-se perseguida, quando o esforço político pretendia reforçar o caráter da romanidade, no instante de reformulação do próprio Estado e das instituições romanas.
Porém, o modelo da bárbara simbolizado por Medeia não foi inteiramente abandonado naquele início do principado, apesar do silêncio que se abateu sobre seu nome. Isso porque, embora não haja registro de obras que tivessem tratado preferencialmente do tema de Medeia durante a primeira geração de poetas augustanos382, um dos modelos utilizados para a caracterização psicológica de Dido foi exatamente o da versão alexandrina da princesa colca, existente na obra de Apolônio de Rodes. Como a jovem Medeia helenística, Dido abandonou seus deveres com relação à
pietas – se não em relação ao pai, ao menos em relação ao marido defunto, para o qual prometera a castidade. Além disso, sua ligação com a mágica – um atributo tão relacionado às bárbaras – foi o que transformou sua morte em uma espécie de sacrifício ritual, cuja finalidade seria a de robustecer a maldição que haveria de culminar com os sofrimentos que Roma suportaria sob os ataques de
381 Verg. A. 6.456-466: per sidera iuro, / per superos et si qua fides tellure sub ima est,/ inuitus, regina, tuo de litore
cessi.
382 Para a divisão das fases da literatura augustana em fase do triunvirato, de 44 a 29 a.C., fase do estabelecimento do regime, de 29 a 2 a.C., e fase da geração perdida, de 2 a.C. a 14 d.C., cf: FARRELL, Joseph. The Augustan Period – 40 BC – 14 AD. In: HARISSON, Stephen (ed.), Companion to Latin Literature. Oxford: Blackwell Publishing, 2005. p. 45.
Aníbal383. Por sua vez, a invocação que faz aos deuses noturnos para iniciar o feitiço parece ter ecoado na sequência que seria utilizada anos mais tarde por Sêneca, uma vez que ela conclamou os poderes do Sol, de Juno, de Hécate e das Fúrias – deuses sempre presentes nos rituais da colca384.
O silêncio sobre Medeia, contudo, pode ser explicado pela sua importância literária havida durante os anos de César, uma vez que Cleópatra e Medeia haviam se aproximado na simbologia durante o período da Ditadura, como já visto, tanto pela decisão de César de levar para o mesmo recinto a estátua de ouro da rainha do Egito e a pintura de Timômaco, quanto na épica de Varrão de Átax. Assim, para reverter a importância havida por Cleópatra no cenário político de Roma, a obliteração da filha de Eetes no período augustano torna-se explicável, até mesmo como uma forma de damnatio memoriae à qual se submetia, em última instância, Cleópatra.
No entanto, sob Dido, as feições de Medeia sobreviveram transformadas, como se dera com a rainha fenícia no primeiro livro da Eneida, de sua natureza auxiliadora havida nos tempos de Alexandria para se tornar o maior empecilho à fundação do futuro império romano – ou seja, o interesse individual que se contrapusesse ao bem da Urbe. Dido tornou-se uma espécie de Medeia às avessas – tomando-se, para tanto, a Medeia alexandrina por paradigma. Em vez de favorecer o retorno dos nautas à terra natal, Dido ergueu-se, em oposição, como o maior entrave à viagem dos enéades, impondo demoras às urgentes tarefas de cidadania. Descrita sua paixão, a rainha de Cartago fez-se oposta à mulher romana, ardendo-se subversivamente em um furor bárbaro em tudo oposto ao que se esperava da virtude feminina. Eis que, embora silenciada pela propaganda de Otaviano, Medeia sobreviveu, ainda que travestida de púnica e de egípcia – inimiga, portanto, da Roma daqueles anos que se seguiram à batalha de Ácio e transformada em exemplo da forma com que a barbárie deveria ser tratada e combatida naqueles anos primeiros do Império.
As semelhanças e aproximações entre Dido e Medeia aí não cessam. O modelo narrativo do episódio cartaginês da Eneida parece dialogar com o canto argonáutico de Apolônio de Rodes – não
383 Verg. A. 4. 622-625: tum uos, o Tyrii, stirpem et genus omne futurum/ exercete odiis, cinerique haec mittite nostro/ munera. Nullus amor populis nec foedera sunto.
384 SEN. Med. 1-15: Di coniugales tuque genialis tori, / Lucina, custos quaeque domituram freta/ Tiphyn nouam frenare docuisti ratem, / et tu, profundi saeue dominator maris (...).
só com o terceiro livro, mas com toda a narrativa, onde a simbologia das relações estrangeiras encontra-se espraiada. Aliás, a aproximação entre as heroínas estrangeiras foi reconhecida ainda pelos autores antigos. Sérvio Honorato, no século IV d.C., descreveu o quarto livro da Eneida como uma tradução dos Argonautica385, do mesmo modo que o fez Macróbio, na Saturnalia386. Os traços principais da intriga remontam ao episódio da estada dos argonautas na ilha de Lemnos, quando Jasão e seus companheiros foram recebidos pelas mulheres que haviam matado todos os homens para vingarem o ciúme despertado por Afrodite. Ali, os marinheiros uniram-se às viúvas, gerando nelas a descendência dos ilhéus. E, como se daria com Eneias no ambiente literário latino, Jasão, que despertara o amor de Hipsípila, abandonou-a para ir cumprir sua tarefa maior, enquanto ela permanecia na praia lamentando a partida do novo amado e ele conclamava que um dia o filho por eles gerado o procurasse na Grécia. Esse foi o modelo utilizado também por Catulo, em sua Ariadna abandonada por Teseu, que inevitavelmente acha-se presente em forma de ecos consistentes no canto virgiliano. No entanto, a aproximação entre Dido e Medeia torna-se mais clara na caracterização psicológica dos sofrimentos trazidos pela paixão. De início, a intervenção das deusas na trama épica já anunciava a semelhança entre os funestos modelos das princesas estrangeiras – afinal, em ambos os casos, Juno/Hera pediu a intercessão de Vênus/Afrodite para auxiliar o herói – e, nos dois casos, Cupido/Eros foi enviado para flechar a desventurada estrangeira. A partir de então, quando as setas se cravam nos corações desacostumados à paixão, uma longa série de sofrimentos, de angústias e de indecisões é comum às duas. O terceiro livro dos Argonautica helenísticos é pródigo na descrição das aflições e dos dilemas da jovem Medeia. Ela, que se apaixonara no primeiro instante em que vira o grego, passou a sofrer387. Medeia dorme para diminuir seus sofrimentos, mas tem pesadelos que a despertam assustada. Ela vaga pela cidade e chora pela incerteza de suas atitudes, rasga as faces por aflição e procura a morte. O desassossego a
385 SERV. A. 4.1: Apollonius Argonautica scripsit ubi inducit amantem Medeam; inde totus hic liber translatus est, de
tertio Apollonii.
386 Macr. 5.17.4: De Argonauticorum quarto ... librum Aeneidos suae quartum totum paene formaverit ad Didonem vel
Aeneam amatoriam incontinentiam Medeae circa Jasonem transferendo.
387 A.R. 3.450-451: And Medea likewise followed, and much she brooded in her soul all the cares that the Loves
conduz à dor e à ardência, já que a consciência de sua culpa a atormenta. Diz consigo que as