Como já mencionado, no início da seção anterior, Genézio era muito amigo de Gilson de Napóle, primo legítimo de Amélia. Além disso, foi o vaqueiro homenageado em 2015 na Missa da Lagoa de Martins Mendes, organizada há tempos por Gilson, após herdar a empreitada de seu falecido pai, Napóle. Naquela vez, Genézio foi homenageado como “um dos vaqueiros mais velhos e mais respeitados da região”. Na verdade, tratava- se de uma celebração ao vaqueiro Antônio da Costa Araújo, mais conhecido como Totonho do Marmeleiro. Proveniente do povo da Ema, esse vaqueiro é trisavô de Amélia e de Gilson. Portanto, a Totonho do Marmeleiro se presta anualmente a devida homenagem como ancestral comum, mas também como “vaqueiro honrado que perdeu a vida campeando”43. Segundo contam, há anos, desde 2001, quando aconteceu a primeira
42 Parte do material desta seção diz respeito a um segundo período de campo, em agosto de 2016, três meses
depois de minha primeira estadia em Floresta, desta vez acompanhado de dois outros antropólogos, prof. Jorge Mattar Villela (UFSCar) e prof.ª Ana Cláudia Marques (USP). Nossa ida à cidade, com duração de apenas uma semana, foi motivada pelo interesse de acompanharmos a 9ª Celebração religiosa em homenagem ao vaqueiro Antônio da Costa Araújo.
43 Para uma crítica quanto à questão da honra no sertão de Pernambuco: cf. Marques (2002) e Villela (2004).
No que concerne à antropologia do Mediterrâneo, por exemplo, a qual conjugou “honra e vergonha” como dois grandes aspectos explicativos das ações dos sujeitos em contextos de conflitos e de tensão social: cf. a coletânea organizada por Peristiany (1988 [1965]) e o ensaio bibliográfico de Marques (1999). Todavia, a questão da honra nesta etnografia será melhor debatida no capítulo posterior, quando se tratará de analisar as histórias de vaqueiro.
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missa, e de lá para cá com algumas interrupções, tem sido enaltecida a figura do vaqueiro e a sua comovente história. Curiosamente, foi Genézio de Nato um dos responsáveis pela sua consolidação. Ele possibilitou que a vida desse antigo boiadeiro e ancestral de várias famílias fosse revelada. Em forma de encontro religioso, a memória do vaqueiro e a de seus familiares é celebrada onde ele foi sepultado há muitos anos44 (cuja a data exata não
se sabe bem, a hipótese é de que foi em 1871). Com os cavaleiros encourados, a ocasião reforça a tradição do vaqueiro nordestino como figura histórica. Pois a Missa do Vaqueiro é o momento em que muitos aplaudem o passado que desfila em sua frente.
Imagem 21. 9 º Celebração em homenagem a Totonho do Marmeleiro, agosto de 2016, na Lagoa de
Martins Mendes, Floresta (PE).
Em síntese, a peculiaridade da história de Totonho é que, após a sua morte, o seu cachorro protegeu o corpo do vaqueiro contra os urubus, e o cavalo apareceu nas habitações da época dando indícios aos moradores de que algo havia acontecido ao seu dono. Os moradores recolheram o corpo na Fazenda Lucas, hoje a fazenda de Genézio, mas o sepultaram noutra região, na Lagoa de Martins Mendes, região próxima à fazenda do primeiro. Ademais, dizem que a história existe porque um dia o avô de Genézio lhe contou tudo o que havia acontecido. Além de o vaqueiro ter falecido nas terras de seu
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avô, este sabia exatamente onde o haviam enterrado e qual foi o pau de aroeira em que teria levado a pancada que o matou. Foi nas circunstâncias do campo que um dia seu avô lhe comparou ao boiadeiro:
Uma vez, o meu avô chegou em mim, depois que eu tinha perdido dois dentes numa pancada feia, num pé de aroeira, em que o cavalo foi e eu fiquei. Porque não tinha região aqui que eu não pegava boi. Eu pegava boião em todo canto. Aí, meu avô viu, chegou em mim e disse “Ói, meu neto, só teve um vaqueiro catingueiro aqui estragado igual a você. O nome dele era Totonho do Marmeleiro”. Tá com mais de duzentos ano que esse vaqueiro morreu. Mais de duzentos anos. Pronto, ele me contou essa história e depois de saber ela todinha, onde ele tinha morrido e tudo, Napóle, o pai de Gilson, veio me procurar, muitos anos depois. Na época que meu avô me contou, ele já tinha 50 anos. Então, faz mais de duzentos anos, pelas contas, que Totonho morreu. Um dia, Napóle veio falando que tinha um parente dele que morreu há muito tempo, que era do povo lá da Ema, e que não sabia nem onde ele tinha sido enterrado, mas que tinha morrido campeando. Pronto. Ele queria saber da história todinha. Mas só sabia que ele tinha sido vaqueiro. Pronto, eu disse a ele “Vamo lá que eu sei a história todinha e até qual é o pé de aroeira onde ele morreu. Meu avô me contou tudo’. Agora virou até missa, não sabe? Todo ano tem. Pois é, não tá descoberta a história só pra mim, né? Tá descoberta aí também pra todo mundo.
Sabendo que Genézio ressuscitou a história e fez de Totonho um ilustre vaqueiro, hoje capaz de atualizar os laços de parentesco de vários segmentos familiares, não pude deixar, é claro, quando o conheci pela primeira vez, principalmente no caminho até a sua
morada, perguntar-lhe como tudo aconteceu e por que a história tinha ficado tão famosa em Floresta. Naquela ocasião, solicitei ao vaqueiro que me contasse com suas próprias
palavras o que Amélia e Gilson há tempos vinham descrevendo. Por conta disso, a
história de Totonho do Marmeleiro se tornou prevalecente em nossos diálogos. Dela, pude perceber o quanto o prestígio de Genézio e o do vaqueiro-ancestral estavam imbricados um no outro. Nesse sentido, a pergunta que levantei no começo deste subcapítulo, acerca da formulação de que o “ser é o haver” (Tarde, 2007 [1895]: 113), promete agora a sua resposta, desde que se tenha em mente, de novo, que “o ser” é construído, na visão do autor, não como “entidade”, mas como um conjunto de “propriedades” relativas.
Era nítido o quanto da reputação do finado vaqueiro incidia na reputação do
vaqueiro véio. Logo, se a posição de ser vaqueiro é produzida desde as suas qualidades distributivas, o prestígio de um vaqueiro se desdobrava imediatamente no prestígio do outro, sobretudo porque os atributos pessoais que circulavam entre eles e que iam da
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história de um (Genézio) à história do outro (Totonho) só ocorreram por meio da publicização de um acontecimento passado (flexionado pela memória e agora estabilizado na tradição) e da circulação de palavras que, com um certo ritmo discursivo e com a devida destreza retórica, tornava as propriedades virtuais de alguém imediatamente produtoras das propriedades atuais de outrem.
Quando disse, para Genézio, saber que o tinham homenageado na Missa de 2015, sobretudo quando mencionei que gostaria muito de ouvir a toada45 feita especialmente
para ele naquela ocasião, sua promessa foi a de que, ao chegarmos em sua morada, a primeira coisa que faria seria contar detalhadamente a história de Totonho. Ao som da
toada, o vaqueiro se orgulhava do modo como o seu avô o comparou com aquele que foi um dia o mais catingueiro e estragado cavaleiro da região. Hoje, portanto, as palavras de Genézio são a evocação do prestígio que o finado boiadeiro que lhe proporcionou quando a sua história se tornara pública.
Enquanto a toada tocava no rádio, o vaqueiro não só falava de Totonho. Ele me mostrava os arreios pendurados nas paredes da sala: cabrestos, selas, cordas e chapéus. Na parede oposta, uma imagem. Um banner que lhe foi entregue justamente na referida Missa. Nela, o vaqueiro se encontra montado em seu cavalo, ao lado de dois amigos. Um deles era Gilson de Napóle (ao lado direito da foto, abaixo), e o outro era Gilson de Cirilo. Olhando-se para si mesmo, o vaqueiro saudava dizendo: “Essa foi a oitava Missa de Totonho do Marmeleiro, a Missa da Lagoa de Martins Mendes, da história que eu tô te contando. Gilson é meu amigo, muito amigo. Os dois da foto são meus amigos. Eles me homenagearam e me deram esse diploma. Eu agora tenho um diploma”.
45 Disponibilizo o link para download do arquivo de áudio para que o leitor possa escutar a toada, cujo
título é “Homenagem a Genézio de Nato” – composição de Anastácio Valgueiro Ferraz e interpretação da
dupla florestana João Neto e Fabinho. Segue link:
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Imagem 22. O diploma do vaqueiro, o prestígio do passado.
Na perspectiva do vaqueiro, a sua atitude de tornar “descoberta a história pra todo mundo” foi recompensada. Assim, o diploma que seus amigos lhe deram confirma que
ser vaqueiro, mais uma vez, fundamenta-se a partir de suas propriedades distributivas. Como Totonho do Marmeleiro, Genézio também era conhecido como vaqueiro
catingueiro e estragado de mato. Como demonstrará Cláudio Correia, noutro momento
desta etnografia (cf. 3.1.3), a relação do vaqueiro com seus pares e a sua relação com o território e os animais coexiste com a sabedoria de cavaleiro. Tal como Cláudio Correia, Genézio também se ligou a um tipo de saber. Em uma única e só imagem, ele atestava a uma verdade de si para consigo mesmo. Para isso, foi na relação tátil e visual com os objetos, por exemplo, que as lembranças foram acionadas a partir dos artifícios mnemônicos de um bom vaqueiro em diálogo com alguém que lhe despertava o enredo de suas aventuras, de seu passado.
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