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Implémentation en SQL

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9.5 Phase d’implémentation

9.5.2 Implémentation en SQL

Dentre os objetos, destacou vários. Por exemplo, um instrumento de couro importante para dominar o gado, a peia – objeto análogo a uma algema, que prende as mãos do boi a fim de fazê-lo caminhar vagarosamente ao mando do homem. “Em termos de vaqueiro da lida, eu sou o mais velho da região”, disse Genézio, ratificando a sua verdade representada pelos troféus, pendurados em suas estantes, de missas e de vaquejadas. Nesse sentido, trago a seguir um diálogo em que o vaqueiro apresenta as especificidades dos objetos, das partes da indumentária e de seus utensílios46.

– Aqui é a careta de botar no boi [máscara de couro que impede a visão do gado, evitando- o que fuja]. Olha aí, as campa [chocalho] de botar no pescoço dos boi brabo! Aqui é a corda de piar o boi, pra ele andar, caminhar! Ói, aqui os couro de andar no mato. Esse terno é feito em Betânia. Gibão, perneira, guarda peito... tudo eu tenho.

– Bonita a indumentária do senhor, hein? – Disse a ele, elogiando a indumentária com a qual demonstrava a funcionalidade e a vaidade que a veste representa para o vaqueiro do campo.

– É, é bonita. Eu tenho de tudo. Eu sou vaqueiro que tem de tudo. Agora, me dê esse gibão aí! Ói, sabe de uma coisa? O principal do vaqueiro é isso aqui!

– É mesmo? O que é? – Indaguei, com dúvida, enquanto me mostrava um pequeno compartimento redondo retirado do bolso do gibão.

– Torrado, isso aqui é torrado! Tendo ele, o cabra leva uma pancada no mato e daí é só cheirar isso aqui que o sangue espaia [espalha]. Passa no nariz, aí o sangue espaia. Isso aqui é feito só do fumo. Tem muito remédio dentro. É só cheirar que passa toda a agonia. É, é bom. Eu já levei pancada no mato de ficar escurecendo a vista e cheirar esse bicho aqui e num instante já tá bonzinho.

– E hoje em dia os vaqueiros usam isso? – perguntei-lhe por que ainda não tinha visto ninguém dar tanta importância ao fumo no processo de campear atrás de um boi. – Eis que me respondeu, vangloriando-se:

– Pois eu vou te contar uma coisa. Uma vez, nóis tava em quatrocentos e oitenta vaqueiro numa festa de vaquejada. Quatrocentos e oitenta vaqueiro numa festa no Navio. Daí, um cabra de Alagoas, que tinha vinte e cinco cavalo numa Mercedes, quando foi bem cedo, amanheceu e saiu procurando os vaqueiro que tinha na festa. Andou nesses quatrocentos e oitenta vaqueiro. Aí, quando chegou onde eu tava, ele disse pra todo mundo ouvir: “Eu sei que ‘o vaqueiro’ é esse aqui!”. Ele veio e perguntou: “O senhor tem um tabaqueiro no bolso do gibão?”. Eu disse: “Eu tenho, toma!”. Aí ele disse pra todo mundo ouvir: “Esse é o único vaqueiro que tem aqui, o resto é tudo enchimento de couro”.

– Mas é tão importante assim o tabaqueiro? – Perguntei-lhe.

– O quê? Vou te dizer uma coisa: o vaqueiro que trabalha no campo e não tem um tabaqueiro no bolso do gibão, ele não é vaqueiro. Vaqueiro que é vaqueiro tem sempre

46 Para o folclorista Câmara Cascudo (1956): “Dizemos a roupa do vaqueiro ‘véstia’. O chapéu, chato e

redondo não guarda para o Nordeste a proteção do ‘cobre-nuca’ que Wied-Neuwied fixou no alto sertão baiano, na fronteira com Minas Gerais e Rugendas desenhou em Goiás. É preso ao queixo pelo ‘barbicaxo’, espécie de jugular. Mantém-se o gibão, curto, antigo ou cobrindo o assento, ‘de certo tempo para cá’; as perneiras, que são as calças; o guarda-peito, colete solto, duma peça só, bordado a retrós, os ‘guantes’, luvas que apenas defendem o dorso das mãos, e os sapatões, de couro cru, durando uma existência” (idem, 59). Tipo de “véstia” que se aplica também aos equinos e, ao que parece, comum no sertão de Pernambuco. Quanto a isso, o mesmo autor diz: “É uma raridade encontrar-se o ‘peitoral’ no cavalo, larga faixa de couro guardando-lhe o peito. É ainda comum nos sertões pernambucanos, para o sul. Para o norte, Paraíba, Rio Grande do Norte, Ceará, quase desapareceu” (id. ibid.)

166 um tabaqueiro no bolso do gibão. Porque eu já sei qual é a luta do mato. Porque na luta do mato o vaqueiro tem que ter as suas coisa. Tem que ter os seus preparo pro cabra usar. Eu quebrei três costela desse lado aqui, correndo atrás dumas rês braba que tinha naquele pé de serra ali. Quase me acabo. Botei sangue pela boca... Mas eu fui muito estragado de mato! Agora, pra pegar bicho no lugar de caatinga, o cabra tem que ser estragado memo. Porque se não for estragado, ele não pega. A coisa é braba. Eu não tinha esse negócio de não pegar, não. Eu saía era pra pegar.

Imagem 23. Arreios pendurados pela sala. Uma estética da fé e do couro.

No quarto que se acessa pela sala (porta ao fundo, lado esquerdo da imagem), estabeleci-me durante os oito dias que passei em sua morada. Nele, estava pendurada toda a sua indumentária, tal como estavam pendurados na sala os seus arreios. Ali, Genézio me contou a história acima, enquanto explicava as funções de cada uma das partes da vestimenta. Tateando-as, ele dizia o quanto elas protegiam o corpo do vaqueiro. Porém, dizia que, por si só toda a veste não faz de um sujeito vaqueiro, vaqueiro mesmo. Mais do que uma imagem ou uma estética (produtora às vezes da irônica asserção de alguém ser chamado de embrulho de couro), “o vaqueiro tem que ter os seus preparos pra luta do mato”. Portanto, a indumentária tem uma função precisa, um objetivo claro e seus utensílios são utilizados em contextos particulares. A luta que Genézio disse conhecer com afinco reifica que ser estragado de mato é a referência universal do homem do campo que corre atrás de gado brabo e, também, a primazia de atuação do vaqueiro da lida. Para ser bem-sucedido, angariar prestígio e, quem sabe, fama e renome, o vaqueiro deve entender que, sem o sofrimento da luta do mato e sem os sacrifícios de ser vaqueiro, o sujeito não se realiza de verdade. O diálogo antecedente confirma que Genézio foi

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reverenciado como o vaqueiro porque atestou com o seu tabaqueiro que realmente conhecia a luta do mato e a austeridade do campo. Antecedendo o artigo definido “o” na palavra vaqueiro, ele produzia a sua verdade de acordo com a opinião e a veridicção alheia.

Para ele, o vaqueiro (no sentido de vaqueiro de verdade ou vaqueiro, vaqueiro

mesmo) não existe na posição de homem despreparado, sem as peças essenciais de luta, sem o conhecimento e as provisões quanto aos riscos da caatinga. Imprevistos que, à sorte do tempo, podem se revelar nos movimentos curvos e fustigantes das corridas, ao “som dos gaio e dos pau torando”, por onde passa a rês bravia. Por acaso, se o vaqueiro receber uma pancada, “vaqueiro que é vaqueiro” contorna o inesperado desde os seus preparos e a sua sabedoria. O tabaqueiro no bolso do gibão é, nessas situações, um pequeno indício da verdade de ser vaqueiro, um objeto representativo do preparo e da sabedoria do homem. Com ele, o vaqueiro se recoloca em movimento após uma grande queda. Com a suas substâncias, “o sangue espaia” e algumas léguas ainda poderão ser percorridas. Além do mais, com o mesmo objeto, futuramente em uma vaquejada, Genézio atestou a sua originalidade e a sua autenticidade diante da multidão. Portanto, uma pequena peça pôde refletir em coletivo aquele que é o mais verdadeiro. Todavia, ser estragado de mato também instiga a incerteza. A seguir, relatarei um episódio em que o seu corpo fora visto de outro ponto de vista. Na cidade de Serra Talhada, em uma barbearia, a sua fisionomia foi ironicamente colocada à prova, porque ser estragado de mato contrariava, no limite, a sua qualidade de bom vaqueiro.

No estabelecimento, enquanto era atendido pelo barbeiro, Genézio cumprimentava um amigo, um ex-vizinho. Este o reverenciava como cabra macho porque fora o rei dos vaqueiros da região do Lucas. Era um senhor de 92 anos que aparentava ser até mais novo que o próprio vaqueiro, de 83. O senhor se virou para mim, enquanto conversava também com Genézio, e disse: “Ele é corcunda assim de tanto trabalhar no mato, sabia?”. De imediato, o corpo do vaqueiro se transformou em objeto de discussão. Se seu corpo destaca o sofrimento e a luta do mato como parte integrante de suas qualidades, portanto, mato e ser vaqueiro, ou melhor, mato e corpo, produzem – em um primeiro momento – certa eficiência, pois legitima uma posição. Ao reverenciar Genézio como o rei dos vaqueiros, o de maior destaque e o mais vaqueiro de todos, seu amigo Zé me disse: “Esse é o vaqueiro legítimo, viu garoto?!”.

Tudo isso, até então, corroborava com o que muitas vezes o vaqueiro véio disse a respeito dos machucados, das costelas quebradas, do sangue que cuspiu pela boca, dos

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dentes que perdeu campeando, das pancadas que levou correndo atrás de bois valentes. Durante a conversa, Genézio insistia para que seu amigo contasse uma história de

vaqueiro. Nesse momento, um curioso diálogo aconteceu, em que estavam em jogo os

limites de ser estragado de mato.

– Vai, Zé, conta uma história de vaqueiro aí pro menino levar pra São Paulo!? – disse Genézio.

– Eu não, quem foi o rei dos vaqueiros foi tu, homi, conta você! – Vai, Zé, canta uma toada aí pra ele!?

– Eu só acredito em história de vaqueiro quando o vaqueiro que entra no mato não volta corcunda. – Disse o barbeiro a Genézio, rindo.

– Tá vendo Genézio? – Rebateu Zé, seu velho amigo, também rindo da piada. – E se o vaqueiro for bom sendo corcunda? – Genézio se defendeu.

– Daí o vaqueiro que é corcunda vai pro mato, volta estropiado e termina batendo com a cabeça nos paus, matando o cavalo. – Continuou o barbeiro, rindo ainda mais.

– Mata não! Mata não! – Discordou o vaqueiro. – Eu já matei um cavalo. – Afirmou o barbeiro.

– Mas como foi essa história do cavalo? – Perguntou Zé ao barbeiro.

– É assim, o cavalo tinha uma história de desembestar, e ele foi passar dentro de uma lagoa e depois em tudo quanto era buraco. Eu desabei e depois o cavalo desembestou, foi pular uma cerca, bateu com a cabeça e morreu.

– Você matou um cavalo, certo?! Mas eu matei um boi! Fui dar umas carreira nas caatinga braba ali da serra, e ele torou com a cabeça numa catingueira. Morreu na horinha. Agora, eu fui vaqueiro memo. Sabe por quê? Sabe por quê? Porque eu trabalhei em 22 cavalo na minha vida e nunca um cavalo morreu na minha mão. Jamais! – O diálogo, por fim, terminou com o vaqueiro vencendo a discussão e se posicionando como vaqueiro competente. Pois, embora estragado, era catingueiro e nunca afetou a vida de seus cavalos. Por isso, era vaqueiro, vaqueiro memo.

Podemos ver que ser vaqueiro remete a uma economia do corpo e aos sacrifícios de uma vida de doido. Por ser não só uma aventura, mas uma profissão, a responsabilidade do vaqueiro sobre o cavalo diz respeito diretamente ao prestígio de zelar seu animal e com ele vencer as lutas diárias. Mais uma vez, o agenciamento com os animais dá os contornos precisos do prestígio e da reputação. Por exemplo, ter montado em vinte e dois cavalos em toda a sua vida e nunca ter matado nenhum deles era a prova de que, mesmo corcunda, nada o impedia de ser um vaqueiro competente. Assim, responsável pela vida de seu animal, o vaqueiro também se torna responsável pela sua própria e, assim sendo, atesta a sua qualidade, a sua destreza. Mesmo diante das ironias com relação ao seu corpo, Genézio foi capaz de triunfar naquele diálogo. Como mesmo disse, da luta do mato sabia tudo. Além de prontificado e sábio, tinha a capacidade retórica de se posicionar diante de terceiros.

Portanto, como bem demonstram Luiz Cordeiro, Cláudio Correia e Genézio de Nato, verifica-se que os vaqueiros também se posicionam como homem do campo nos desafios e nas avaliações, nos comentários e nos julgamentos alheios. O que significa

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dizer que as verdades, produzidas sob muitos pontos de vista, podem umas se sobreporem às outras no discurso e na retórica. Isso invoca a relação do vaqueiro de si para consigo mesmo e de si para com o outro. Nesse sentido, inspirando-me na relação do sujeito com a verdade, formulada por Foucault (2004 [1983], 2009 [1984]), pode-se pensar que os vaqueiros também articulam certas “técnicas de si” e “modos de subjetivação” que, segundo os gregos analisados pelo filósofo, no contexto da tradição estoica, fazem da ética o meio para triunfarem sobre si mesmos e os demais. Se, para o autor, qualquer “moral” comporta “códigos de comportamento” e “formas de subjetivação”, o sujeito em sua verdade se posiciona então “nas formas de relação consigo próprio, nos procedimentos por meio dos quais as elabora, nos exercícios pelos quais se propõe a si mesmo como objeto a conhecer, e nas práticas que permitem transformar seu próprio modo ser” (Foucault, 2004 [1983]: 214).

No caso dos vaqueiros do sertão de Pernambuco, não foram poucos os imperativos e as verdades:

– O vaqueiro é esse aqui! – Esse é o vaqueiro legítimo!

– A lida do vaqueiro é essa como eu tô fazendo! – Eu fui vaqueiro mesmo!

– Vaqueiro é o que cuida do rebanho como eu cuido!

– Vaqueiro que é vaqueiro tem que ter os seus preparos, como eu! – Esse é ‘o vaqueiro’!

Diversas asserções que dão à posição de ser vaqueiro qualidades morais, virtudes e habilidades práticas. De um lado, a honra produzindo, por exemplo, vaqueiros que nunca

quebraram um trato. Portanto, a palavra dada e cumprida como a produtora de vaqueiros

honrados. A coragem, por sua vez, produz o vaqueiro corajoso, bem como o seu oposto, o vaqueiro covarde. De outro, os conhecimentos e a experiência do manejo e da lida produzem o vaqueiro catingueiro, o estragado de mato, o vaqueiro do campo e da lida. Atributos morais e técnicos que, interligados entre si, reforçam a reputação, o prestígio e a virtude do vaqueiro de verdade. As certezas de como pensar a si mesmo em diálogos com o outro e de como se reportar a terceiros por meio de definições particulares sobre quem são e o que foram são igualmente importantes para a extensão relacional do vaqueiro com a verdade e para a formulação de sua percepção imediata de si na relação com o outro.

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Tentei demonstrar que essas concepções foram pontuadas em casos etnográficos distintos. Contextos em que as verdades de si foram produzidas nos desafios de como ser

vaqueiro. Mais uma vez, vale reforçar, não pela contingência das relações sociais de uma comunidade rural, mas pelas reflexões de como os vaqueiros realmente são, de fato e de direito, e de como as coisas devem funcionar de verdade entre homens e animais que se produzem e se refazem o tempo todo, uns em relação aos outros, seja no laboro, seja nas

histórias.

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