III. Processus de Développement Dirigé par les Modèles des Systèmes
III.4. Processus MDA de développement des SOS adaptables
III.4.2. Phase 2: Identification des services par acteur
Proposição analítica 02: O âmbito interacional dos media oferece condições para uma
interpretação política da ação espetacular noticiada.
95 Ver Anexo
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6.4.1 As condições para um segundo ato de leitura a partir do evento de mídia de ocupação do Galina 3
Se, por um lado, a ação espetacular de ocupação do barco Galina 3 se mostrou bem sucedida em gerar visibilidade pública, por outro, ao se explorar também os limites e os riscos que essa estratégia incorre, formulou-se a necessidade de verificar empiricamente se esse tipo de ação teria conseguido acionar nos media um quadro interpretativo capaz de revelar o problema político, as reivindicações concernentes a esse problema ou um conjunto de avaliações e informações que possam servir de insumos à sua compreensão. Tais exigências se colocam como imprescindíveis em vista de que elas é que garantiriam as pré-condições para que a audiência possa eventualmente se engajar num ―segundo ato de reflexão‖. Ato esse que foi traduzido, em nossos termos, como o trabalho posterior que a audiência da comunicação de massa pode fazer ao editar os materiais que compõem o sistema informativo ampliado.
Tendo em vista tais questões, pode-se dizer que todas as 11 matérias que compuseram a cobertura do evento de mídia relativo à ocupação do barco Galina 3 por parte do
Greenpeace forneceram, em graus distintos, tais exigências. Em todas elas, o problema
político foi reportado, assim como alguma de suas reivindicações em relação ao problema (mesmo que de modo implícito ou indireto). E mais importante: as rotas interpretativas traçadas formam um quadro interpretativo que oferta um leque interpretativo coerente a uma interpretação política do problema: apontando-se, no caso, responsáveis, causas, conseqüências e possíveis soluções.
Nesse sentido, seis tematizações foram exploradas para interpretar o problema da exploração ilegal da floresta amazônica: (1) impactos ambientais; (2) impactos sociais; (3) responsabilidade governamental; (4) responsabilidade empresarial; (5) legislação e (6) solução.
Esse conjunto de enquadramentos foi agenciado de maneira a identificar relações explicativas acerca do problema. Essas relações são estabelecidas a partir da apresentação de suas conseqüências (impactos ambientais e sociais), seus responsáveis (governos e empresas) e soluções possíveis (mudanças na legislação e reforço da fiscalização operada pelos aparelhos administrativos dos governos interpelados).
O enquadramento que apresenta maior densidade, no âmbito interacional dos media, refere-se à responsabilidade governamental (ver figura 02). Aí são apresentadas as alegações do Greenpeace de atribuição de responsabilidade à União Européia de ser co-responsável pelo problema. A matéria do Globo Online, nesse sentido, reporta a fala de um ativista da
119 organização afirmando que a ―'União Européia consome entre 40% e 50% da madeira produzida no Brasil. É co-responsável pela destruição da Amazônia'‖.
Essa responsabilidade acaba sendo traduzida, não apenas em termos de competência sobre as causas do problema, mas também sobre suas soluções. Nesse sentido, a reportagem de 17 de março do JN apresenta uma reivindicação do Greenpeace em relação à UE de que o ―grupo ambientalista quer forçar a Europa a adotar uma legislação dura de certificação de madeira.‖
Mas além da UE, tanto o Brasil como a França são apresentados como instâncias de governo que possuem responsabilidade em relação à causa ou à solução do problema. Nesse sentido, um proferimento típico de prestação de contas (de accountability) é apresentado pelo
Estadão quando um representante do Greenpeace tem a declaração reportada de que a
―França segue fazendo discursos contra a madeira ilegal sem passar para a ação‖. Pode-se inferir que se trata de uma cobrança de efetivação de um compromisso político, já que o contexto da matéria revela que não há discordância entre o governo francês e o Greenpeace quanto aos princípios e metas normativas de proteger a floresta amazônica ou mesmo divergência quanto à responsabilidade da França sobre o fenômeno. O quê o ativista questiona, portanto, é a não efetivação prática no aparelho administrativo francês de tais valores e crenças. Um trecho que confirma essa análise é encontrada, nessa mesma matéria, quando se reporta o pedido do ministro francês da ecologia de ―que os serviços alfandegários
120 intensifiquem a vigilância e o controle sistemático dos certificados de autorização das cargas de madeira que chegam à França‖.
Ao governo brasileiro também é atribuída responsabilidade pelo problema. Um dos aspectos abordados, nesse sentido, seria a não adesão do Brasil ao sistema de controle voluntário promovido pela UE aos países que lhe fornecem matéria prima de origem florestal. A questão é revelada pela reportagem do dia 18 de março do JN quando se informa que o ―ministro francês telefonou a Marina Silva pedindo que o Brasil se engaje no programa de rastreamento voluntário da madeira européia‖.
Já a matéria de 17 de março do próprio JN apresenta soundbytes de Marcelo Marquesini que apresenta mais um aspecto relacionado à responsabilidade do governo brasileiro. Nela, apresenta-se a afirmação de que, além da demanda por madeira por parte da UE, ―a falta de governança no Brasil faz com que essa produção atinja alto grau de ilegalidade e destruição‖.
A falta de governança a que se refere Marquesini é abordada e detalhada na matéria da FSP quando se reporta declarações de um representante do Ibama (José Humberto Alves). Na matéria, ele sustenta, em parte, a alegação do Greenpeace de problemas na fiscalização da produção madeireira ao reconhecer que o sistema de controle eletrônico de produtos florestais de alguns Estados ―ainda não está totalmente integrado com o do Ibama‖.
Outros três aspectos que formariam a responsabilidade do governo brasileiro são apresentados pela reportagem do Globo Online quando se reporta sinteticamente as análises do Greenpeace de que ―problemas do lado brasileiro, como falhas na fiscalização, impunidade[1], corrupção [2] e falta de investimentos [3] são os principais gargalos do combate à exploração ilegal para exportação.‖
O segundo enquadramento que trabalha em favor de apontar responsáveis em relação ao problema foi aquele referente à responsabilidade empresarial. Nesse caso, focaliza-se aqui a discriminação daquelas empresas que exploraram e forneceram madeira da floresta amazônica ao barco Galina 3. Uma discriminação que está explícita nas matérias do DN (18 de março), do G1 (17 de março) e da FSP (18 de março). Nesta, reporta-se que, segundo o Greenpeace, ―o navio Galina 3 está trazendo madeira de pelo menos cinco empresas da região de Santarém, no Pará, que 'estão sendo processadas por crimes ambientais'‖. Algumas dessas empresas são nomeadas nas matérias do DN e na do G1, as quais informam que ―o Galina III´ carregou no porto de Santarém (PA) para as companhias Pena Agro-Florestal Madeireira Ltda, Rancho da Cabocla Ltda e Estância Alecrim, todas multadas.‖.
121 No que diz respeito aos enquadramentos que trabalham as conseqüências decorrentes do problema da exploração ilegal da floresta amazônica, dois deles foram identificados: impactos ambientais (1) e sociais (2). Uma declaração que os condensa é encontrada na reportagem do Globo Online de 17 de março. Essa matéria reporta a declaração de Marcelo Marquesini de que a ―exploração ilegal de madeira abre as portas para que a Floresta Amazônica seja destruída, acelerando as mudanças climáticas e pondo em risco a biodiversidade e o modo de vida de milhares de comunidades tradicionais.‖
Como enquadramento referente à solução do problema, temos, como agenciamento de sentido fundamental, a reivindicação de legalidade em relação à prática de exploração e comercialização da madeira proveniente da floresta amazônica. Nesse sentido, os enquadramentos da responsabilidade governamental e da legislação são intercambiados para mostrar os modos específicos pelos quais essa legalidade pode ser alcançada (ver figura 2). Alguns desses modos inclusive já foram explicitados nos parágrafos anteriores quando tratamos das ocasiões em que as instâncias governamentais foram referenciadas para colocar em foco não apenas a responsabilidade sobre o problema, mas também sobre sua solução.
Uma articulação que, no entanto, não foi explicitada, mas que demonstra claramente um momento discursivo que promove uma interconexão entre os três enquadramentos em questão se dá na matéria do JN do dia 17 de março. Nela, informa-se que a União Européia ―é a maior compradora da madeira brasileira, seguida dos Estados Unidos e da China. O grupo ambientalista quer forçar a Europa a adotar uma legislação dura de certificação de madeira, como já faz com produtos como a carne.‖
Diante, então, desse quadro interpretativo que foi encontrado nas 11 matérias analisadas e que foi representado graficamente na figura 02, pode-se concluir que o âmbito interacional dos media, ao tratar da ocupação do barco Galina 3 pelo Greenpeace, oferece insumos coerentes a uma interpretação política acerca do fato noticiado. Um conjunto de insumos que, nesse sentido, extrapola a mera descrição da ação de ocupação do barco e, assim, oferta um conjunto de eixos explicativos capaz de justificar a natureza política dessa ação e de direcionar quais são as principais questões envolvidas no contexto que a provoca.