Chapitre VII – Conclusion et Perspectives de recherche
2 Perspectives de recherche
Uma das funções atribuídas ao sistema educativo consiste em seleccionar e hierarquizar os alunos que o frequentam. O instrumento de eleição para o cumprimento desta função consiste na atribuição de classificações, através do processo de avaliação. A classificação surge assim como o resultado de um processo através do qual não se avaliam apenas saberes mas também, saber-fazer e saber-estar. Independentemente de toda a discussão teórica em torno dos processos e das formas de avaliação33, interessa aqui reter que, de um
modo geral, ela se materializa numa classificação e que é essa mesma classificação que, no caso do acesso ao ensino superior, define as condições de concretização dos projectos escolares. Se retomarmos a questão que desenvolvemos no capítulo 1 deste relatório, a adequação entre a formação adquirida e a formação desejada depende, exclusivamente, da classificação com que os alunos se apresentam à entrada para a Universidade.
No entanto, o efeito selectivo e hierarquizador da classificação não se esgota no momento do acesso ao ensino superior. Ele faz-se também sentir aquando da conclusão da licenciatura. Estamos, assim, perante uma outra forma de selectividade cuja influência se estende para fora das fronteiras escolares, definindo, nalguns casos de uma forma decisiva, as possibilidades e as condições de concretização dos projectos profissionais. Atente-se, por exemplo, no caso dos diplomados que pretendem desempenhar funções docentes e para quem a classificação final da licenciatura é decisiva nos processo de hierarquização dos candidatos nos concursos nacionais de colocação dos professores e no acesso ao estágio profissional.
33 Sobre as funções e os sistemas de avaliação Cf. A. Estrela e A. Nóvoa (orgs) (1993). Avaliações em Educação: novas perspectivas. Porto: Porto Editora, J. Cardinet (1986). Évaluation scolaire et mesure. Bruxelas: De Boeck Université; G. Figari (1996). Avaliar: que referencial?. Porto: Porto Editora.
INQUÉRITO AOS DIPLOMADOS DA UNIVERSIDADE DE LISBOA (1994 -1998)
Quadro nº22
Nota média de conclusão da licenciatura por curso (%)
Curso Média Valor mínimo Valor máximo Desvio-padrão
Filosofia 14,1 13 16 1,02 Geografia 13,4 11 17 1,27 História 13,7 12 16 1,06 Línguas e Literaturas 13,2 11 16 1,13 Matemáticas 14,0 12 17 1,23 Escultura/Pintura 14,6 13 16 0,95 Design 14,4 12 16 1,01 Direito 12,2 10 17 1,12 Medicina 15,7 12 18 1,07 Biologia 14,7 11 18 1,21 Bioquímica 15,5 14 18 1,12 Geofísica 14,7 13 17 1,06 Engenharia da Linguagem 13,3 12 15 0,90 Estatística 13,9 12 16 1,20 Física 15,1 13 19 1,61 Química 14,6 13 16 0,88 Geologia 13,6 12 17 1,08 Informática 13,9 12 17 1,19 Química 14,3 13 16 0,73 Farmácia 13,6 11 17 1,03 Ciências da Educação 14,9 13 16 0,84 Psicologia 14,4 13 17 0,77 Medicina Dentária 14,3 13 16 1,03 Total 13,6 10 19 1,47
A média das notas de conclusão da licenciatura entre os diplomados da UL é de 13,6 valores (desvio- padrão = 1,47), oscilando as classificações finais entre dez e dezanove valores (Quadro nº22). Existem contudo diferenças significativas entre os vários cursos. Medicina e Direito são exemplos paradigmáticos do que acabámos de afirmar. Enquanto que a média das classificações dos diplomados em Medicina se situa nos 15,7 valores e as notas variam entre doze e dezoito valores, entre os licenciados em Direito a média é de 12,2 valores, correspondendo a nota mínima a 10 valores e a máxima a 17 valores. Estamos, neste caso, perante duas situações que são a imagem invertida uma da outra: Medicina é o curso onde se registam as classificações mais elevadas, Direito é aquele que apresenta as mais baixas. Entre um e outro curso encontramos um leque diversificado de classificações médias.
Com notas médias de conclusão de licenciatura semelhantes às dos seus colegas médicos encontramos os licenciados em Bioquímica (15,5 valores) e Física (15,1 valores). No extremo oposto, situam-se os diplomados em Engenharia da Linguagem (13,3 valores), Línguas e Literaturas (13,2 valores) e Geografia (13,4 valores), que apresentam como denominador comum uma classificação média de conclusão da licenciatura inferior à média das classificações dos licenciados inquiridos (Quadro nº22).
A distribuição das notas finais de licenciatura por curso permite-nos não só proceder a uma análise mais detalhada das diferenças que se registam entre os cursos da UL mas também verificar que existe uma relação com significado estatístico34 entre a classificação final e o curso (Quadro nº23). Com excepção de
Medicina, Bioquímica e de Geofísica, Escultura e Pintura e Físico-Química, em todos os outros cursos mais de
34 X2 =.0000, p<.005.
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50% dos inquiridos concluiu a licenciatura com uma nota que oscilou entre os 10 e os 13 valores (Suficiente e Suficiente +). Ora, é precisamente neste último grupo de cursos que a hierarquia das classificações se faz sentir
em toda a sua amplitude: apenas um número reduzido de diplomados teve acesso às classificações mais elevadas.
Quadro nº23
Classificação final de licenciatura por curso (%)
Suf.
(10-11) Suf. +
(12-13) (14-15) Bom Muito Bom (16-19)
Filosofia 0,0 70,3 16,2 13,5 Geografia 27,9 57,4 6,6 8,2 História 9,1 65,5 20,0 5,5 Línguas e Literaturas 29,9 57,8 8,6 3,7 Matemáticas 11,5 59,0 19,2 10,3 Escultura e Pintura 0,0 44,8 37,9 17,2 Design 1,3 48,1 35,4 15,2 Direito 69,5 25,8 3,1 1,6 Medicina 1,5 7,4 27,9 63,2 Biologia 4,2 40,6 33,9 21,2 Bioquímica 0,0 20,9 30,2 48,8 Geofísica 0,0 40,0 50,0 10,0 Engenharia da Linguagem 20,0 2,0 8,0 0,0 Estatística 15,4 56,4 17,9 10,3 Física 0,0 54,5 9,1 36,4 Físico-Química 0,0 44,4 44,4 11,1 Geologia 17,0 67,9 11,3 3,8 Informática 9,7 63,9 16,7 9,7 Química 0,0 59,5 39,2 1,3 Farmácia 11,7 70,1 14,3 3,9 Ciências Educação. 0,0 64,0 28,0 8,0 Psicologia 0,0 61,5 29,2 9,4 Medicina Dentária 0,0 61,5 23,1 15,4
A assimetria que se verifica na distribuição das classificações quando tomamos em linha de conta a variável curso merece que sobre ela nos detenhamos um pouco. Como explicar, por exemplo, que nalguns cursos nenhum diplomado tenha concluído a licenciatura com uma nota final de 10 ou 11 valores e que noutros essas classificações estejam amplamente difundidas entre os licenciados? Afastando as interpretações que atribuem aos estudantes a responsabilidade exclusiva pelo respectivo sucesso ou insucesso escolar, a explicação para esta discrepância tenderá a residir no que alguns autores35 designam por efeito de estabelecimento, isto é, na forma como, em cada organização escolar, os professores avaliam os conhecimentos
e hierarquizam os estudantes a partir de critérios tacitamente aceites e contextualmente definidos.
35 Cf, M. Duru-Bellat e A. Henriot-van Zanten, (1992). Sociologie de l’école. Paris: Armand Colin.
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As classificações finais estão igualmente relacionadas com duas outras variáveis: o sexo dos inquiridos e a condição perante o sistema educativo36. No que respeita à primeira, os dados obtidos contrariam a tese
defendida por alguns autores37 que sustenta ser entre as raparigas que se registam as melhores performances
escolares. De facto, nos diplomados da UL, é entre os licenciados do sexo masculino que se registam as percentagens mais elevadas de inquiridos que concluíram o curso com classificações finais de Bom (18,7%) e Muito Bom (13,0%) (Quadro nº24).
Quadro nº24
Classificação da licenciatura por sexo (%)
Suficiente Suficiente + Bom Muito Bom
Masculino 26,7 41,6 18,7 13,0 Feminino 25,0 49,9 16,3 8,8
Total 25,5 47,4 17,0 10,1
A condição perante o sistema educativo é a segunda variável que influencia a nota final da licenciatura. Neste caso são os diplomados que exerciam o ofício de estudante a tempo inteiro aqueles que, em maior número, obtiveram classificações mais elevadas: 18% concluiu a licenciatura com Bom e 11,4% com Muito Bom (Quadro nº25).
Quadro nº25
Classificação final da licenciatura por condição perante o sistema educativo (%)
Suficiente Suficiente + Bom Muito Bom
Estudante 23,8 46,8 18,0 11,4 Trabalhador-Estudante 29,7 48,4 15,1 6,8
As diferenças verificadas nas notas finais dos licenciados que tinham o estatuto de estudante, no último ano do ensino superior, e os que conciliavam o exercício de uma actividade profissional com a frequência de um curso universitário são certamente o resultado da nem sempre fácil conciliação entre o tempo e o espaço despendido com o desempenho de uma profissão e o tempo necessário à realização das tarefas que, enquanto estudantes, são chamados a concretizar.
36 Para um nível de confiança de 95%, o valor do teste Qui-quadrado é de X2 =.00148 quando cruzamos as variáveis «classificação final» e «sexo» e X2 =.00103 quando substituímos o sexo por «condição perante o sistema educativo».
37 Cf. S. Grácio (1997) op. cit., M. Duru-Bellat (1990) op. cit., C.Baudelot e R. Estabelet (1992) op.cit..
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