Fonte: Acervo da Cooperativa Pindorama (2009)
O rio Coruripe, chamado Cururugi pelos Caetés, dá seu nome ao município.23 A região ficou conhecida na história do Brasil por ter sido palco do naufrágio da nau Nossa Senhora da Ajuda, que conduzia o bispo Dom Pero Fernandes Sardinha a Portugal. A história também registra no local o naufrágio do navegador espanhol Dom Rodrigo de Albaña, que foi homenageado com o batismo de um grande rochedo, em 1560. Após o extermínio dos Caetés pelos portugueses, como represália ao
23
CURURU-IPE quer dizer Rio dos Seixos.
FELIZ DESERTO
trucidamento do primeiro bispo do Brasil, começou ali um ativo comércio de madeira, principalmente pau-brasil. De uma capela, nasceu o povoado de Coruripe, cuja prosperidade, na segunda metade do século XIX, o fez superar a vila de Poxim, à qual estava subordinado.24
A vila passou a sede do município, com a denominação de Coruripe. Com a mudança da sede, a freguesia sob invocação de Nossa Senhora da Conceição também foi transferida. Foi desmembrado do seu município apenas o povoado de Poxim, porém, em 1891, foi novamente anexado a Coruripe e partilhado, também, entre os municípios de São Miguel dos Campos e Junqueiro. Assim, Coruripe foi elevado à categoria de Cidade em 1892, constituindo-se a partir de dois distritos: Coruripe e Coxim (FIBGE, 2007).
O município de Coruripe possui uma população de 52.160 habitantes, dos quais 46.073 estão localizados na sede e 6.087 na zona rural (FIBGE, 2010). Coruripe apresenta seu desenvolvimento ligado à agroindústria açucareira, reproduzindo as semelhanças econômicas, sociais e políticas que predominam no Estado de Alagoas, conforme já apresentado anteriormente.
As raízes históricas do município de Coruripe estão ligadas à lavoura da cana-de- açúcar, e sua produção foi orientada pelas exigências dos mercados externos. As fazendas e os engenhos de açúcar foram marcos do povoamento do município como de toda a região canavieira do Nordeste. Desta forma, Coruripe vai encontrar igualmente no açúcar o elemento propulsor de sua riqueza, de seu crescimento, de seu progresso e, também, das suas contradições.
Coruripe é característico pela agricultura extensiva de cana-de-açúcar, considerado o maior produtor de cana do Estado, com um grande polo industrial de açúcar e álcool, abrigando várias usinas como: Coruripe, Guaxuma, Sinimbu, Caeté, Penedo, Laginha e a usina da Cooperativa Pindorama, o que acentuou o predomínio da grande propriedade de terra na região, refletindo na conversão em canaviais de áreas, que antes abasteciam os mercados de gêneros alimentícios. O que demonstra que a hegemonia da cana é responsável pelo sufocamento da agricultura familiar de subsistência, conforme já ressaltado em vários estudos.
Em Coruripe, a forma de ocupação do solo indica como se comporta o setor sucroalcooleiro. Os dados revelam como a produção de cana é uma atividade
24
Essas informações foram coletadas no site da Prefeitura Municipal de Coruripe. Disponível em: http://www.coruripe.al.gov.br. Acesso em: 20 de setembro de 2009.
monocultora e como as principais culturas depois da cana preenchem espaços ínfimos, se comparados à área por ela ocupada. As últimas informações disponíveis sobre a área ocupada com lavouras temporárias e permanentes revelam a posição de destaque da cana-de-açúcar para o município, conforme pode ser observado no Gráfico 1.
Gráfico 1 – Coruripe: área plantada com lavouras temporárias (hectares)
Fonte: FIBGE (2007)
A variação da área ocupada pela cana é bastante esclarecedora da dinâmica do avanço do canavial e dos novos parâmetros produtivos. O Gráfico 1 revela o aumento substancial da área ocupada por cana no município e o pequeno espaço das culturas de subsistência.
A produção de 2.700.000 toneladas de cana gera um valor de aproximadamente R$ 120 mil reais (FIBGE, 2007). Não obstante a predominância da cana, o município desenvolve outras atividades econômicas de lavouras permanentes (banana, coco, laranja, maracujá, manga), destacando-se como o maior produtor estadual de coco, com a produção em torno de 10 mil toneladas (FIBGE, 2007).
Os dados das tabelas 1 e 2 revelam que a agricultura familiar de subsistência, além de ser insignificante, considerando a área do município, aparece perdendo espaço para a grande plantação de cana.
Tabela 1 – Coruripe: área plantada e colhida, rendimento médio, quantidade produzida e valor da produção por produtos
Fonte: Secretaria de Estado do Planejamento e Orçamento/Agropecuária Municipal – AL (2008)
Na pecuária, Coruripe destaca-se com a criação de bovinos e aves, atividades que são desenvolvidas pela Cooperativa Pindorama. A pesca marinha e estuarina, também, faz parte do rol da produção agropecuária do município, conforme pode ser observado na Tabela 2.
Tabela 2 – Coruripe: efetivo dos rebanhos por espécie e produto de origem animal
O processo de modernização no campo, através da mecanização, do avanço tecnológico e da adoção de formas de controle sobre o trabalho, dinamizou a produção e reduziu a área plantada, fenômeno que já foi estudado anteriormente. Na agroindústria de sucos de frutas tropicais, a Cooperativa Pindorama é a que apresenta maior produção para o município.
Coruripe também possui usinas sucroalcooleiro-termelétricas, que contribuem para a potencialização da produção industrial, colocando-o entre os dez maiores municípios do setor. Atua na produção de gás natural que está sendo contemplado na atividade de produção e distribuição de eletricidade e gás, água, esgoto e limpeza urbana, além de se destacar na produção de petróleo e sal-gema. Outras atividades de relevância para a ocupação de mão de obra são o comércio, artesanato e turismo, como pode ser observado na Tabela 3.
Tabela 3 – Número de unidades locais por setor de atividades, segundo Micro-Região e municípios (2007)
O município de Coruripe é o sexto maior em nível de produção de riquezas, com um PIB de R$ 451,069 milhões de reais, participando com 2,86% do PIB Estadual. O recenseamento agropecuário mostra um quadro da economia local ocupado, em sua maioria, pela indústria sucroalcooleira, representando a maior participação no PIB municipal (FIBGE, 2007). A estrutura setorial de seu PIB compreende 42,80% da Indústria, 34,20% de Serviços e 22,99% da Agropecuária.
Coruripe se destaca, também, em arrecadação do Imposto sobre Circulação de Mercadorias e Prestação de Serviços (ICMS) para o Estado alagoano, ficando em segundo lugar da microrregião geográfica, com arrecadação em torno de R$11.505.000,93 de reais.25
Atualmente, Coruripe faz parte dos 21 municípios que compõem o Projeto do Roteiro Integrado Civilização do Açúcar (Rica). O Rica é uma parceira com o Ministério do Turismo, Instituto Marca Brasil, Sebrae/AL, Secretaria do Turismo do Estado, Operadoras de Turismo, consultores e atores locais. Tal projeto se insere no Programa de Regionalização do Turismo, permitindo que seja veiculado um conjunto de atrativos histórico-culturais, relacionados ao ciclo da cana-de-açúcar e à influência dos negros.26 O secretário de Turismo e Pesca de Coruripe revela que o município vem sendo modelo no processo produtivo do ciclo da cana-de-açúcar:
É mais uma opção para divulgação de nosso turismo, gerando também oportunidade de emprego e mais uma opção de lazer. A partir do começo de abril de 2010, o receptivo da empresa Aeroturismo receberá em média 30 turistas por dia. Firmar parceria é garantia de desenvolvimento.
As informações secundárias e a pesquisa empírica realizada revelam que o município de Coruripe se diferencia dos demais pela influência da Cooperativa Pindorama, que lhe confere uma paisagem particular, em relação à estrutura produtiva e econômica alagoana. Diante do modelo da plantation de cana-de-açúcar da região, identificamos os traços comuns às várias configurações do meio rural alagoano e as particularidades de Pindorama, no intuito de entender as diferenças e, também, as contradições existentes nesse universo rural. Os itens a seguir focalizam essas questões.
25
A esse respeito, ver o Relatório da Secretaria de Estado do Planejamento e Orçamento/Agropecuária Municipal – AL (2008).
26
Em Alagoas, este projeto compreende os municípios de Maceió, Rio Largo, Maragogi, União dos Palmares, Pilar, Marechal Deodoro e Coruripe, nas propriedades da Usina Coruripe e da Cooperativa Pindorama.
1.2 Elementos históricos de Pindorama
A formação de Pindorama está relacionada à existência de faixa de terra, ao Sul de Alagoas, entre os rios São Francisco, Coruripe e Piauí, a qual era do Barão de Penedo, passando mais tarde ao domínio da família Coutinho. Nas margens do rio Piauí, havia um engenho de açúcar com uma Casa-Grande pertencente a essa família, que foi desativado mais tarde e passou a ser chamado de Fazenda Santa Terezinha.
Conforme registros institucionais, em 1952, a Companhia de Melhoramentos Marituba comprou uma grande faixa desta terra e instalou plantações de café, farinha de araruta e melhorias da plantação de coqueiros. Esta iniciativa não logrou êxito, ficando restrita à fase inicial de desmatamento de áreas e aproveitamento das madeiras.
No ano seguinte, em 1953, a Companhia Progresso Rural (CPR), empresa particular encarregada de fundar e desenvolver colônias agrícolas em diversas partes do Brasil, pelo Inic,27 comprou essa terra. A compra foi realizada com financiamento da Superintendência de Moeda e Crédito (Sumoc).28 A CPR realizou alguns estudos preliminares na área, iniciando, em 1954, a implantação do projeto de colonização em Pindorama.
De acordo com Fonte (2006), desde meados de 1930 o Estado organizava programas de colonização, sob a responsabilidade de órgãos oficiais e de empresas privadas, criando as colônias agrícolas nacionais, que distribuíam lotes de terra com o objetivo de fixar habitantes de regiões empobrecidas aptas para o trabalho agrícola. Essa ocupação visava atender ao mercado interno, a partir da ampliação e diversificação da produção agropecuária.
As estratégias adotadas pelo Governo brasileiro para o desenvolvimento rural seguiam o modelo de Modernização Conservadora, cuja base se dava na tecnificação da produção e na manutenção da grande propriedade, incentivando o processo de industrialização e de desenvolvimento capitalista no campo, através dos seguintes elementos: irrigação, mecanização, uso abusivo de recursos químicos, formas danosas de atuação no meio ambiente e integração da produção aos setores mais dinâmicos do mercado.
27
Instituto Nacional de Imigração e Colonização.
28
A Colônia Pindorama foi resultado dessa política pública federal de colonização de terras devolutas associada à existência de terras abandonadas, pouco produtivas pela baixa fertilidade natural dos solos nos tabuleiros costeiros e de pouco interesse econômico para a monocultura da cana-de-açúcar.
Segundo Lemos (2006, p.37), no momento de colonização em Pindorama, os colonos já sentiam o peso da perseguição da oligarquia alagoana: “do coronelismo vigente, com submissão do homem simples da terra ao político e ao coronel.” O próprio projeto de colonização, elaborado pela CPR, na opinião do autor, foi pensado para não entrar em conflito com a produção da cana-de-açúcar.
Vale ressaltar, que este momento coincide com a época de expansão e modernização da área canavieira em Alagoas, efetivada através da ocupação das terras dos tabuleiros costeiros do Sul do Estado para o cultivo da cana-de-açúcar, conforme discutido anteriormente. Assim, apesar de toda uma política de incentivo ao setor sucroalcooleiro alagoano, Pindorama surge na contramão desta tendência, a partir de seu projeto de divisão de terras e diversificação produtiva.
O projeto de colonização previa, inicialmente, a distribuição dos 33 mil hectares de terra em glebas agrícolas, denominadas aldeias. Em entrevista com o assessor da diretoria da Cooperativa, ele afirmou que um dos pontos iniciais da colonização de Pindorama foi a Aldeia Planalto, considerando que lá já existia a casa-grande da família Coutinho, antiga proprietária das terras de Pindorama. Outras aldeias foram: Bonsucesso, Botafogo, Santa Terezinha, Flamengo, Vila Machado e Centro Urbano.
Mesmo dentro de um contexto desfavorável, essas aldeias se destacavam devido às características particulares dos recursos naturais. De acordo com os nossos informantes, a presença de habitações, a proximidade de fontes de abastecimento de água, a qualidade do solo e a superfície plana contribuíram para iniciar o projeto de colonização nessas áreas.
Após o desenvolvimento das primeiras aldeias, ocorreu a distribuição de novos lotes, formando as aldeias Palmeira Alta, Santa Cândida, Boa Vista, Piauí, Mutirão e Santa Margarida, esta última incluindo os povoados Imbira e Espigão. Na fase posterior, foram criadas as aldeias Mangabeira, Conceição, Konrad, René Bertholet, Vila Operária e Prosperidade. Finalmente, Pindorama hoje é formada por 19 aldeias. O Mapa 3 apresenta a localização delas.