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B.1 Projection d'une bo^ te orthogonalement a la diagonale principale

6.2 Perspectives non classiques

6.2.4 Perspectives a grand angle

Se a religiosidade popular constitui, como dissemos, um conjunto de práticas (individuais e coletivas) mais ou menos operativas, feitas muitas vezes de acordos temporários destinados a obter determinados resultados (pode dizer-se interesseiros) relacionados com o sagrado, o misticismo popular, principalmente quando carismático e portador de uma missão divina, reveste-se de uma natureza menos mercantilista, visando um objetivo mais amplo e altruísta, tendencialmente universal, embora, naturalmente, expresso em termos locais ou nacionais.

Objetivo quase sempre de desagravo sacrificial face aos sempre excessivos e intoleráveis “pecados do mundo”, para o qual se tentam mobilizar vontades coletivas, mas do qual, naturalmente, se assumem como incentivadores e modelos paradigmáticos57.

Desagravo sacrificial, feito de dor e incompreensão, de pobrezas intermináveis e abjetas doenças, de rejeição social e abstinência dos prazeres mundanos da mais variada natureza.

57 Profetas e santos, arautos de apocalípticos e (mais ou menos prováveis) castigos, porta-vozes de

uma vontade maior e, sempre, tal como as divindades que os movem, supostamente modelos e exemplos a seguir.

75 Sacrifícios que podem incluir a própria vida, que os místicos (dando corpo a uma assumida transitoriedade da existência) aceitam muitas vezes abdicar, face a uma claramente mais extensa e valorizada, “vida eterna”.

As relações de troca que as promessas corporizam (bem como as fórmulas apelativas ou simplesmente oratórias, destinadas a comunicar com a divindade, a solicitar proteção, curar do corpo e do espírito, afastar a má sorte e as “coisas ruins” em geral), são aqui substituídas por uma atitude bem mais altruísta. Pelo menos, enquanto missão mística assumida e, socialmente, aceite como tal.

Mas outra diferença envolve a vertente mística e a lógica vivencial das formas de religiosidade popular, feitas, estas, de um caldeamento algo confuso de práticas e rituais, crenças e valores, maneiras de pensar e de sentir, oriundas de várias expressões religiosas, provenientes de diversas ancestralidades, truncadas ou vestigiais, ligadas de forma variada em heterogéneos e sincréticos complexos de elementos e padrões culturais.

O místico está, afinal, mais próximo de um popular institucionalizado. Pelo menos mais doutrinário ou, se quisermos, catequizado. Embora partilhando as valências populares da religiosidade prosaica a que pertence, a sua aproximação (mesmo que, às vezes, primária) à teologia cristã, erudita e clerical, confere-lhe uma distinta atitude de suposto sábio e conhecedor, frequentemente atribuída ao seu carácter de santidade e à função operativa de braço direito da(s) divindade(s).

Mas, populares ou eruditos, e sejam quais forem as respetivas particularidades de carácter, todos os místicos cristãos (portadores que são de um entendimento senso-comum) entendem Deus enquanto entidade antropomorfa:

“Para o místico, Deus é uma ideia viva e humanizada, uma ideia entidade, uma ideia ser, uma ideia Homem (…) da qual irradiam todas as ideias de bem-estar e de perfeição moral” (Laranjeira, 1986:82).

Por isso, a psicologia religiosa defende que “O Homem entende Deus como consubstanciando as imagens parentais que o enformam e nele se formaram numa aprendizagem empírica de personalidade” (Cardoso e Cunha, 1999:330). Deus e os homens correspondem, deste modo, a representações mentais semelhantes. Deus é visto, configurativamente, como um homem (embora omnipotente e criador); representação mental que impregna o místico e nele se exalta até se converter numa alucinação.

76 Por isso, os devotos, não ouvem, veem ou sentem, (normalmente) o Deus Pai abstrato, mas o Jesus: entidade concreta e encarnada; logo aquela em que a conceptualização humana é mais fácil e imediata.

Se Jesus é um Deus feito homem, o místico anseia ser um homem feito Deus! O primeiro desígnio do místico será, assim, atingir a divindade. É o que farão os místicos medievais. O que já, anteriormente, fazia Plotino58 e, principalmente, o pseudo- Dionísio Areopagita59, cujas obras constituem, talvez, as mais importantes fontes

transmissoras. Para este, o grau mais elevado da ascensão mística era a deificação, ou seja, a transformação do homem em Deus60.

Na verdade, o misticismo religioso personifica uma manifesta e obsessiva (excessiva, se preferirmos) demanda da virtude. O mesmo encontra, aí, “a satisfação da sua tendência fundamental à virtude, isto é, a consecução do seu esforço pertinaz para realizar o objetivo de perfeição moral” (Ballet citado em Laranjeira, 1986:82).

A vida do místico constitui, portanto, um esforço continuado e quase épico para se tornar digno desse ideal. Esforço que lhe alimenta convicções mais ou menos delirantes e lhe faz sentir que tem uma missão divina a cumprir. Missão, esta, que propõe resolver o problema da felicidade humana, catalisando um desígnio maior (que o místico procura universalizar), tendente a fazer concordar o mundo objetivo que o envolve com o mundo subjetivo que encarna.

Em certos casos, as ideias místicas revestem-se, até, de uma espécie de autonomia, que lhes permite existirem e persistirem como conceções autónomas e independentes. Ideias que o místico tem de impor, previamente, a si próprio. Processo por vezes lento e doloroso, em que a sua mente se constitui campo de confronto de ideias e angustiosas contradições. Mas se o consegue (e quando o consegue) alcança aquilo a que se pode chamar “o apaziguamento e a unificação do pensamento e da afetividade” (Laranjeira, 1986:40). Obtém, então, uma evidente satisfação, tanto maior quanto maiores forem os

58 Filósofo grego, neoplatónico do século III, autor de las Enéadas

59 Dionísio Areopagita, De mystica theol., I, 1. Pseudo-Dionísio é o nome pelo qual é conhecido o

autor de um conjunto de textos (Corpus Areopagiticum) que exerceram uma forte influência em toda a mística cristã ocidental na Idade Média. Até o século XVI, os textos tinham valor quase apostólico, já que Dionísio era tido como o primeiro discípulo de Paulo de Tarso.

77 obstáculos e as contradições vencidas. Após isto (e até concomitantemente), tende, então, a procurar apoios no mundo exterior e a partir, resolutamente, numa utópica missão.

Muitos místicos são-no, digamos assim, por temperamento, por predisposição psíquico-social: manifestando, desde cedo, uma tendência a exaltar as coisas do espírito; logo da religião61. Através de um processo de auto-iniciação mais ou menos demorado, acabam por conceber um sistema religioso que, sendo cristão, tem muito de si. Sistema que tentam depois fazer prevalecer e divulgar, segundo uma estratégia militante e, quantas vezes, profética.

Uma vez que o poder que daí decorre, lhes permite mais facilmente alcançar os respetivos desígnios e a notoriedade mística os coloca no lugar central da ação, tendem a desejar o poder e a vencer, quantas vezes, uma inibidora timidez. Para isso vão adquirindo a necessária autoconfiança, cujos mecanismos de superação se, na verdade, podem incluir hábitos de comando e educações específicas, podem decorrer igualmente de conveniências pessoais, oportunismos vários, sentido de responsabilidade e, ainda, uma crença profunda num desígnio divino.

A sua profunda convicção, a sua tenacidade verdadeiramente heroica (se necessário com o sacrifício da própria vida), as prédicas ardentes e exaltadas, aliadas às capacidades prodigiosas que se lhe atribuem, desencadeiam resultados por vezes surpreendentes e, não é raro, arrastarem atrás de si uma multidão de devotados discípulos (fomentadores daquilo que Regis (1956) chama “delírio de grandeza”), que os consagram como líderes e fundadores de seitas e religiões.

A oposição que venham a sofrer, pode exacerbar ainda mais o seu ideal e transmutá-lo num mártir presente ou futuro. E, se o meio social for propício, podem emergir, até, como heróis ou santos nas lides religiosas. Um líder sagrado, afinal, com maiores ou menores condições naturais!

“Homens de profunda fé religiosa, crendo-se a si próprios como ministros designados de um plano não-humano. Os seus impulsos de poder parecem-lhes assim indubitavelmente justos e eles preocupam-se pouco com as recompensas de poder (…) que não estejam em harmonia com a sua identificação com o propósito cósmico” (Russel, 1990:20).

61 De acordo com os níveis, referidos, de elaboração mística, encontram-se nessa altura numa fase

mais ou menos latente. Isolados socialmente, tristes e inquietos, percecionam leves singularidades, visionam clarões ou formas indefinidas, transfigurações de objetos ou imagens sagradas, figuras mudas e passivas em flashes efémeros de luminosidade.

78 Mas, herói ou santo, messias ou profeta, vidente ou mártir, “o místico é sempre o mesmo autómato do seu ideal de virtude (…) autómato de uma realidade superior que

possui em si os destinos de uma humanidade enferma” (Russel, 1990:20). Numa

relação/dependência que, como dissemos, chega a ser simbiótica.

Veremos adiante, no caso específico da Ladeira, as particularidades deste processo. Seu desenvolvimento num contexto social e político mais ou menos desfavorável, suas etapas e temporalidades num percurso que permite, pela sua eclosão tardia (e vulgarização, ao tempo, da comunicação social escrita), o acesso a testemunhos diretos, menos filtrados e controlados.

Numa abordagem fenomenológica que, poderemos dizer, remete para os aspetos psicológicos da crença, da devoção e da procura de referenciais míticos e místicos necessários. Tudo isto, como reforço da crença e da sua sustentabilidade, num meio institucional quase sempre hostil.

79 CAPÍTULO 4 -

AS SEITAS CATÓLICAS DO LIVRE CULTO

Como vimos atrás, os fenómenos taumatúrgicos de relação direta com o divino encontravam-se (até meados do século XX), bem demarcados, segundo modelos paradigmáticos distintos; por um lado, fenómenos de visualização em locais ermos e remotos (acompanhados de outras formas sensitivas sonoras ou olfativas) a homens e mulheres piedosos (alguns deles religiosos62) e, principalmente, a crianças ou jovens, quase sempre analfabetos ou simplórios (maioritariamente raparigas), muitas vezes possuidores de fértil imaginação visionária,

“associados, frequentemente, a referências geo-míticas arcanas como árvores, grutas, nascentes, montanhas ou rochedos, algumas vezes de forma ou dimensão singulares. Exige-se, aqui, um milagre de convencimento, devido ao carácter pouco fiável (até pela idade) dos testemunhos. Milagre quase sempre ligado a fenómenos naturais: brotar milagroso de uma fonte, fluorescência prodigiosa, dança do sol, acordes divinos, tempestades singulares, luzes maravilhosas, etc.,...

Muitas vezes, às mensagens recebidas, estão associados segredos que conferem os necessários contornos de mistério e apresentam os videntes como confidentes da divindade. A Virgem pede uma mudança de comportamento aos crentes (da comunidade, do país e/ou do mundo) algumas vezes aos clérigos e ameaça, explícita ou implicitamente, com perigos (leia-se, castigos) vários. A expiação e o desagravo são fatores motivacionais omnipresentes” (Lopes, 2009:132-133).

Por outro lado, aparições e, principalmente, contactos interiores e sensitivos a estigmatizados e afins,

“quase sempre mulheres (jovens ou maduras), doentes algumas vezes, místicas frequentemente, visionárias quase sempre, que às vezes se curam milagrosamente e adquirem estigmas no corpo: chagas ou marcas de artefactos divinos. São fenómenos frequentemente prolongados no tempo (às vezes acompanhando parte considerável da vida dos videntes) e acompanhados de êxtases e de manifestações prodigiosas de variada natureza: visões diversas, sons, chuvas de flores, músicas celestiais, bilocações,

62 Aparições a religiosos (padres, monges, freiras, etc.,) em locais diversos: muitas vezes no interior

de templos: igrejas ou mosteiros. São situações que surgem como condição de santidade ou como desígnio avalizador do início de uma nova tarefa ou realidade; seja uma construção, um empreendimento ou uma nova confissão ou organização religiosa.

80 transfigurações, desaparecimentos ou aparecimentos de objetos, etc.,,. Nalguns casos manifestam-se comunhões místicas e, inclusive, demências eróticase episódios de uniões [igualmente místicas] com Jesus” (Lopes, 2009:133).

Os novos tempos (em que a sociedade, cada vez mais de mercado e informação, radica), irão também, nesta área da religiosidade popular, provocar fundas alterações. Uma delas será a da constituição, em cada país, de um, gradualmente crescente, mercado de religiões!

Que diversificará a oferta e potenciará a qualidade da procura. Que, permitirá, a coexistência de diversos cultos, cristãos ou não. Que incrementará o número de visões, contactos e mensagens63. Que tornará os acontecimentos místicos conhecidos no país e no mundo. Que transformará as religiões de Estado, em Estados de religiões.

Que, lenta e gradualmente, há-de transformar o catolicismo de “a Religião” que fora até aí, no de “uma religião”. “A Igreja”, em “uma igreja”, necessitando-se agora do epíteto de Católica ou, mais rigorosamente, Católica Romana!

Uma outra será a generalização da instrução e formação cultural entre as populações, incluindo neles, com certeza, os místicos e visionários, que não só têm, agora, acesso a muito mais dados esotéricos, como a dados sociais, culturais e políticos mais numerosos e imediatos. O que, aliado à vulgarização mediática destes fenómenos, não só fará surgir surtos mais ou menos epidémicos, como permite a cada um dos candidatos a místicos ou videntes, o acesso fácil a informações respeitantes aos episódios precedentes e deste modo, induzir, em tais acontecimentos, algumas alterações:

Ostentação e divulgação pública dos acontecimentos. Homogeneização crescente dos mesmos.

Complexificação e perpetuação, cada vez maior.

São tempos em que, em menor ou maior grau, encontramos em todos os episódios conhecidos uma impressionante mostra de prodígios; êxtases, catalepsias, levitações, estigmatizações, chuvas de flores, hóstias e afins, comunhões místicas, autoflagelações, prodígios solares, visualizações diversas, odores sublimes, curas, profecias, clarividências, visitas ao Céu e ao Inferno, colóquios com as entidades divinas, inúmeras mensagens…

63 Ou não vivamos nós numa sociedade mediática, divindades que durante séculos, tinham

81 Tempos em que o modelo bucólico da pura e ingénua criança ou adolescente rural, rústica e analfabeta se vai esbatendo e, a mística sofredora, jovem ou mulher, doente e estigmatizada, adquire perspectivas e formações mais vastas, num mundo agora mais próximo e global. Em que o místico (ou mística) tende a deixar de ser, inevitavelmente, uma personagem amedrontada e submetida coercivamente à vontade das autoridades civis e religiosas. Tem consciência (mesmo que vaga) do seu direito à diferença, num contexto de liberdade cultual em que a crença e o ritual não reivindicam já, de forma tão clara, visões monopolistas.

E caberá, afinal, à Ladeira do Pinheiro, constituir a primeira oportunidade de afirmação nacional de um culto local de génese popular (e populista já se vê) contra a vontade do, até aí determinante, poder eclesiástico. Surgindo quase década e meia antes do 25 de Abril, a seita que daí resultou, cresceu contra todas as oposições e conseguiu chegar ao período democrático, altura em que se alterará a relação solidária entre o poder civil e o religioso.

Embora o reconhecimento por parte da hierarquia eclesiástica constitua sempre o desiderato principal, a liberdade cultual há-de permitir novas e diferentes alternativas, que se virão a concretizar (esgotados que foram todos os esforços destinados a fomentar a ambicionada aprovação) em parcerias com recém-formadas, ou alternativas, igrejas ortodoxas.

Fora do nosso país, outras experiências místicas (especialmente ibéricas) hão-de igualmente surgir e, de forma autónoma, impor-se como seitas diferenciadas e assertivas. Com isto afastando, muitas vezes, as já escassas possibilidades de aprovação por parte da Igreja Católica Apostólica Romana.

Algumas assumidamente cismáticas. Mas, mais frequentemente, assumindo-se como vítimas de uma indesculpável desaprovação eclesiástica, contra a vontade recorrentemente expressa das respetivas divindades, mais ou menos frustradas com o comportamento dos Homens e descrentes da capacidade dos seus ministros para infletir o deplorável estado das coisas.