No ano de 1938, o então interventor do Estado do RS indicado por Getúlio Vargas, o Sr. Coronel Cordeiro de Farias, foi recebido com festa em Jaguarão, não só por ser autoridade, mas por ter nascido na cidade no dia 16 de agosto de 1901. Filho
de militares, após o nascimento, foi levado com os pais para o centro do país. Estudou no Rio de Janeiro e fez longa carreira militar, passando, desde as colunas do tenentismo, pelo cargo de interventor do Estado do Rio Grande do Sul, além de ter lutado com a FEB, de estar à frente, com outros colegas, no movimento pela deposição de Getúlio Vargas em 1945 e participou ativamente do levante militar de 1964, porém relata que ao longo foi se afastando e sendo afastado, pois não concordava com muitas práticas empreendidas neste último período.
As memórias de Cordeiro de Farias (1981) e de seu percurso estão documentadas através de uma publicação na área de história oral, realizada por Aspásia Camargo e Walder Góes (1981) no ano do seu falecimento em 1981, denominada como “Meio século de combate”. Assim como obra mencionada em capítulo anterior, sobre as memórias de Luiz Vergara, considera-se coerente com o estudo utilizar textos, sejam autorais, como em Vergara e, agora, sistematizado por pesquisadores. Obras que se debruçaram sobre a memória dos acontecimentos a partir dos seus agentes como fonte. Sobre ele, pode-se dizer que foi o terceiro jaguarense governador do Estado do Rio Grande do Sul.
Em suas memórias, lembra, ao conversar com Vargas (no Rio Grande do Sul, quando exercia cargo de 3º comandante da região militar) que era natural de Jaguarão, mas que não conseguia tempo para ir à cidade. Isso ocorreu ao final de 1937, quando estavam na localidade para ato que tratava da construção da ponte internacional entre Uruguaiana e Paso de Los Libres, na Província de Corrientes/Argentina. Diz Cordeiro de Farias (1981, p. 237) “Eu me indiquei para o governo do Rio Grande! Mas sem pretender fazê-lo, agindo de forma inteiramente inconsciente...”. Após, comenta que, diante de um quadro de mudança iminente, Vargas não sabia que ele era gaúcho e, seguindo a conversa, acharam oportuno o seu nome em virtude do bairrismo do Estado.
Cordeiro de Farias assumiu o cargo de interventor do Estado do Rio Grande do Sul em 04 de março de 1938 e seguiu no posto até 04 de setembro de 1943. Sobre o contexto da época, Cordeiro de Farias menciona a necessidade de ampliação dos serviços de saúde e lembra que, em sua gestão, a fronteira era uma prioridade pois “[...] na região fronteiriça, onde a população tinha baixo nível de instrução e a taxa de natalidade era negativa, não havia organização comunitária” (FARIAS, 1981, p. 251). A relação do que está sendo apresentado com esse trabalho se dá devido à utilização da entidade como salão da cidade, portanto, utilizado para recepção de
Cordeiro de Farias em uma visita. A visita foi realizada no seu primeiro ano como Interventor, poucos meses após tomar a posse. Na ocasião, foi oferecida pela “Prefeitura Municipal e Classes Conservadoras”, segundo aparece no periódico, um chá a Ivany Barcelos Cordeiro, esposa do Interventor, (A FOLHA, 05 de julho de 1938) no Jaguarense e um banquete ao senhor Cordeiro de Farias no Harmonia. Dizia, ainda, que depois de Carlos Barbosa, Cordeiro de Farias era o primeiro governador do Estado que visitava Jaguarão.
Em termos metodológicos, ressalta-se que o jornal A folha, dirigido na época por Cantalício Resem, segue nas bancas até a atualidade, 2018. O mesmo trata-se de um jornal noticioso sem filiação partidária, inaugurado em outro período da imprensa, que acompanha a reforma ortográfica de 1931, implantada efetivamente a partir de 1941. Desse modo, as citações dos jornais, de agora em diante, passam por menos correções. Segue relato do chá.
As dezesseis e meia hora, dava entrada a gentilíssima dama, acompanhada de senhoras de nossa elite, no salão de festas do amplo edifício social, passando entre aplausos e palmas e filas de formosas senhorinhas, que ostentavam riquíssimas toilettes, indo tomar assento à uma das mesas caprichosamente ornamentadas, sendo lhe oferecida uma custosa corbeille de flores naturais, executando o harmonioso jaz uma partitura de música clássica.... O senhor Adão Massena Vieira, fez expressar por este a recepção que dava em honra de Ivany... tendo agradecido exma Interventora agradecido o acolhimento que tão fundo lhe tocara o coração.. ao final acompanhado do Dr. Ataliba Paz, ilustre Secretário de Agricultura e de sua comitiva, compareceu ao Clube Jaguarense, o Exmo. Coronel Cordeiro de Farias. Sendo recebido na sala de honra, foi servida uma taça de champagne em agradecimento à sua visita. (A Folha, 05 de julho de 1938).
Como a foto em que aparece Cordeiro de Farias no jornal está apagada e não aparece Ivany, buscou-se outra, similar, do mesmo período, em festa em Porto Alegre, disponível no acervo da Fundação Getúlio Vargas e julga-se oportuno o registro, especialmente por ilustrar os personagens mencionados, que não são tão conhecidos em Jaguarão, e oportuna a ocasião, um meio social. Sobre o contexto da visita, é necessário elencar que a maior demanda descrita foi a criação de uma escola, corroborando com o próprio Cordeiro de Farias, em suas memórias, quando comparava a fronteira na época com outras regiões que estariam melhor estruturadas, especialmente as de recente colonização italiana e alemã. Após, figura 24, Cordeiro de Farias e sua esposa, Ivany em ambiente social em Porto Alegre.
Figura 24 – Cordeiro de Farias e sua esposa Ivany em ambiente social em Porto Alegre
Fonte: Fundação Getúlio Vargas, 2017
Abaixo, encontram-se os agradecimentos pela acolhida, transmitidos via telegrama, ao prefeito Hermes Pintos Affonso, formado em medicina pela faculdade de Porto Alegre. Affonso foi presidente do Harmonia em 1924, integrante das forças revolucionárias com Vargas em 1930, eleito prefeito em 1935 (até 1940), participou da criação do Rotary Clube de Jaguarão em 1941 e, ainda, foi um dos fundadores e idealizadores do CTG Rincão da Fronteira criado em 1954 (VISITE JAGUARÃO, 2018). A seguir o telegrama transcrito no jornal.
Nr. 1066 – Cumpro hoje agradável dever agradecer-vos todas eloquentes homenagens recebidas terra natal minha visita oficial. Em meu nome e do Governo Rio Grande peço gentileza transmitir povo generoso Jaguarão meus maiores agradecimentos sensibilizadora recepção e sua fidalga hospitalidade. Atenciosas saudações. (a) O. Cordeiro de Farias (A Folha, 12 de julho de 1938).
De seu agradecimento, nota-se a menção a “terra natal”; sobre a sua visita à cidade, encontrou-se a sua recepção no Teatro Esperança, conforme publicado por Carlos José Azevedo Machado (2016, p. 74). Na imagem, percebe-se, ao fundo, a cenografia ressaltando a nacionalidade, questão característica na época, também presente em bailes do Jaguarense. Cordeiro de Farias aparece no centro da imagem, de óculos, à frente seguem dois retratos: à esquerda, ao que parece, o de Carlos Barbosa, falecido em 1933 e à direita, não há nenhuma indicação, mas é provável que
fosse o retrato do Presidente Getúlio Vargas. Na sequência, figura 25, recepção a Osvaldo Cordeiro de Teatro Esperança em Jaguarão (1938).
Figura 25 – Recepção a Osvaldo Cordeiro de Farias no Teatro Esperança em Jaguarão (1938)
Fonte: Adaptado de Carlos José Azevedo Machado (2016, p.74)