b. Personnes avec une défi cience visuelle
D. Personnes avec une défi cience mentale
É importante contextualizar a história das narrativas nas últimas décadas. Por que esse estudo da terapia narrativa é crucial dentro da psicoterapia? Segundo Omer & Alon:
Os clientes chegam até nós, trazendo auto-relatos muito poderosos, mas cheios de auto-retratos embaçados, enredos inexoráveis, temáticas reducionistas e significados que geralmente os desmoralizam. Como podemos competir com essas histórias que não só têm sido bem
ensaiadas, ao longo da vida, mas também se fundamentam em uma evidência seletiva tendenciosa, enfatizando especialmente os seus aspectos negativos? Seriam essas histórias tão persuasivas que o cliente não mais consegue vê-las como simples histórias, mas como partes da própria vida? Por isso precisamos construir, juntamente com o cliente, histórias que sejam menos injustas. Precisamos de um novo auto-retrato no lugar do antigo retrato, um novo enredo no lugar do velho enredo, um novo tema no lugar do velho tema, um novo sentido no lugar do antigo sentido, mas não basta simplesmente escrever uma nova história para substituir a antiga. Para ter sucesso, a nova história deve situar-se o mais perto possível da experiência do cliente para que ele possa se ver nessa nova história; por outro lado, deve ser suficientemente diferente da antiga história para fazer emergir novos significados e novas opções (OMER & ALON, 1997: s.p.).
Um dos primeiros marcos da perspectiva narrativa aplicada à psicoterapia foi o livro Narrative Truth and Historical Truth/ A Verdade
Narrativa e a Verdade Histórica, de Spence, 1982 (apud OMER & ALON
1997). Esse autor refutou a crença freudiana de uma verdade psicanalítica fundamentada em dados neutros e objetivos, em favor das verdades narrativas. Segundo ele, o máximo que se pode desejar é um relato coerente da vida do cliente (OMER & ALON 1997) para substituir o antigo enredo em que ele se auto-destruía.
A idéia dessa verdade narrativa espalhou-se pelas escolas de psicoterapia e o livro de Spence acabou atraindo seguidores. Dentre eles, Schafer que, em The Analytic Attitude/ A Atitude Analítica, 1983 (apud OMER & ALON 1997) foi ainda mais longe, ao acreditar que não seria nem mesmo possível obter-se uma narrativa coerente. Para ele, tudo o que se pode conseguir são relatos interligados, em constante mudança, que refletem o momento e a relação terapêutica.
Também dentro da tradição psicanalítica, Strupp & Binder (STRUPP & BINDER 1984 apud OMER & ALON 1997) propuseram uma terapia breve, baseada na estrutura narrativa dos relatos de seus clientes. Segundo eles, os pacientes perdiam o controle das próprias vidas porque seus auto- relatos eram cheios de lacunas. A terapia deveria ajudá-los a aprimorar essa habilidade de contar os auto-relatos, levando as pessoas a perceberem quais os elos da estrutura narrativa estariam faltando em suas histórias. Assim, a terapia passaria a ser “um curso de gramática de como fazer histórias” (story grammar) (Idem).
Fora do âmbito da Psicanálise, foi a vez da Terapia de Família também abraçar as narrativas. O livro de Watzlawick, The Invented Reality/ A
Realidade Inventada (1984) é uma compilação de artigos escritos por autores
que viam o real como algo que deve ser construído e não descoberto. Essa nova abordagem, conhecida como ‘Construtivismo’, teve uma influência decisiva sobre o estudo das narrativas, sendo que o construtivismo psicoterapêutico tem se ramificado de várias formas, fundamentando-se nos seguintes pressupostos:
a) O conceito de verdade como relativo, múltiplo, histórico e contextual;
b) A atividade mental humana como uma atividade basicamente pró-ativa [ou seja, capaz de ver além das construções limitadas, fixas, procurando voltar-se para a ação];
c) A atividade humana como uma atividade hermenêutica [ou seja, que sempre quer interpretar e dar um sentido aos relatos];
d) A natureza do conhecimento, como fruto da experiência e da ação do indivíduo sobre o mundo e sobre si mesmo; e) O papel da linguagem, como construtora da realidade social e como parte integrante dos sistemas vivos (GRAZIANO & APPOLINÁRIO, 1998:241).
Um dos desdobramentos prático das abordagens narrativas tem sido a exploração dos auto-relatos em psicoterapia, desbancando a objetividade da verdade histórica e privilegiando a atitude humilde do não saber, assumida pelo terapeuta (ANDERSON & GOOLISHIAN, 1988; HOFFMAN 1985, 1988, 1992 apud OMER & ALON1997). Na verdade, o ‘não saber’ significa que o terapeuta, ao atender o cliente, não deve deixar-se levar por uma atitude preconcebida ou preconceituosa, chegando a rotular tal cliente desta ou daquela patologia, ao invés de buscar ajudá-lo; ao contrário, é importante permitir que o relato trazido pelo sujeito seja ouvido e redimensionado através de um processo de co-construção. Juntamente com o terapeuta, o cliente reconstruirá novas histórias mais otimistas e cheias de esperança.
Privilegiando a atitude do “não saber”, o norueguês Tom Andersen se propôs a trabalhar com uma equipe reflexiva (reflexive team), estabelecendo um diálogo aberto em que terapeutas e clientes participam de uma conversa ampla sobre o processo, chegando até mesmo a trocarem de lugar. Dentro
dessa linha do “não saber”, percebe-se que, juntos, clientes e terapeutas exploram a ressignificação dos relatos pessoais e
se engajam numa conversa que se torna uma busca pelo ainda-não-visto, pelo ainda-não-pensado, e por compre- ensões alternativas do que seja visto como problemático. Na medida em que clientes e terapeutas trocam de lugares (...), ampliam-se as possibilidades de mudança [e também de pontos de vista de uma mesma situação] (ANDERSEN 1991, s.p.).
Um tipo de terapia breve, que também lida com narrativas, é a abordagem de De Shazer, O’Hanlon & Weiner-Davis. Privilegiando um processo orientado para a solução, esses autores ajudam os clientes a reconstruir os relatos de suas vidas, sem o problema. Esse modo de trabalhar levaria o sujeito a desistir das narrativas saturadas, na medida em que privilegia caminhos alternativos sem incluir o problema (SCHAZER, 1985, O’HANLON & WEINER-DAVIS 1989 apud OMER & ALON, 1997).
O enfoque narrativo chegou a chamar a atenção também dos psicoterapeutas cognitivistas, como Russell (RUSSELL 1991; RUSSELL & VAN DEN BROEK 1992 apud OMER, & ALON 1997), que compararam a superação das antigas narrativas pelas novas com o que costuma ocorrer quando uma teoria científica é suplantada por outra. A nova teoria não apenas deve superar a primeira, mas reconhecer e ressaltar a importância da anterior, rendendo-lhe homenagens pelos serviços prestados até então. Os cognitivistas encaram a linguagem como um fenômeno psicológico central dentro do processo de significação e se detêm em analisar o modo como as palavras vão se relacionando entre si para estabelecer uma matriz narrativa. Assim, a narrativa
constitui a matriz fundamental da construção do conhecimento ao impor significação à (...) experiência diária. É a narrativa que nos liga de um modo interpretativo (...) à existência. No fundo, pensamos da mesma forma como existimos, através das narrativas (...). Neste sentido, a narrativa não é algo que escolhemos fazer, mas algo que somos, e, como o ser não é dissociável do conhecer, a narrativa é também aquilo que conhecemos (GONÇALVES 1998, p.21).
Contudo, os relatos não devem permanecer centralizados apenas no indivíduo e, considerando a natureza dialógica do conhecimento, o professor de ciências sociais Shotter defende que devem ser vistos como uma produção
discursiva. Assim, eles são indissociáveis do seu contexto cultural, estando o tempo e o espaço em que as experiências interpessoais acontecem inseridos em uma determinada situação que não pode ser desconsiderada (SHOTTER, 1995).
Uma autora que também lida com as narrativas contextualizadas no âmbito social é Marilene Grandesso. Em seu livro Sobre a reconstrução do
significado, ela trabalha com a questão dos auto-relatos na pós-modernidade
e afirma que as “narrativas que construímos permitem tornar a vida possível”, dando sentido à nossa existência (GRANDESSO 2000, p.9). Essa autora entende por “narrativa a organização por meio do discurso, de termos, símbolos ou metáforas, de um fluxo de experiência vivida, em uma seqüência temporal e significativa” (GRANDESSO 2000, p.199). Segundo ela, as narrativas não são estáticas, mas, ao contrário, estão sempre abertas a re- significações e releituras transformadoras. Contextualizadas no seu âmbito social, Grandesso pontua que elas têm uma dimensão histórica e, por isso precisam ser “negociadas” dentro das comunidades em que circulam (Ibidem, 2000).
Marilene Grandesso defende uma abordagem pós-moderna que questiona a visão tradicional de um self estável e único; ao contrário, ela o compreende como um processo aberto, construído dentro dos espaços relacionais. Esse self identificado como narrador faz parte do processo humano de produção de sentidos através da ação e da linguagem, dentro de um contexto cultural. A autora repensa a terapia como prática de conversação dialógica, acreditando que o terapeuta deve ter uma atitude desconstrutivista, que favoreça a abertura e a edição de novas narrativas.
Um outro pesquisador que vive no Brasil e se tem dedicado ao estudo das narrativas terapêuticas é Jorge Molina Loza. Voltado para as ciências antropológicas e sociais tem com o público-alvo de seus livros pessoas que gostam de refletir sobre suas vidas e a própria existência humana. “Ele nos apresenta um homem histórico para o qual o passado que vive no presente, através de inúmeras manifestações, pode servir de ponto de partida para a construção de um futuro diferente” (Molina 2000, p. XVII). Esse autor transita pelos campos do saber social, da literatura e da psicologia, utilizando a narrativa como um instrumento terapêutico fundamental.
Para Molina, as narrativas constituem um processo inerente ao sujeito, devendo ser contextualizadas no âmbito social e no individual. Mas o que importa, para ele, é o homem histórico, cujo passado, que vive no presente, pode servir de ponto de partida para a construção de um futuro diferente, mais otimista. O autor insere essa perspectiva temporal dentro de uma
dimensão ontológica e acredita que as narrativas constituem o sujeito, mas não o reduzem, pois elas estão fundamentadas em complexos processos de subjetivação. Trata-se de uma poderosa ferramenta terapêutica para a construção do indivíduo, quando acionada “dentro de um campo de comunicação que tem um sentido para ele” (Molina 2000, XVIII).
Além disso, fazemos menção a um trabalho que tem sido considerado sobremaneira influente na contemporaneidade, realizado por White & Epston. Ambos têm desenvolvido uma ampla literatura sobre narrativas, sendo que David Epston vive em Auckland, Nova Zelândia, enquanto Michael White mora em Adelaide, Austrália do Sul.
Coube ao antropólogo Epston utilizar cartas enviadas aos clientes para implementar suas histórias alternativas que iam sendo co-construídas com as famílias trabalhadas. Quanto a Michael White, ele tem se preocupado sobremaneira em propor a externalização do problema como um meio de ajudar as famílias a se afastarem das “descrições saturadas do problema de suas vidas e relações” (White & Epston 1993, p. 21), além de enfatizarem o uso das metáforas nessas externalizações.
No livro Narrative means to therapeutic ends/Meios narrativos para
fins terapêuticos (1990), os autores explicam em que consiste o enfoque
privilegiado em sua prática terapêutica, acreditando que o problema do cliente deve ser externalizado e encarado como uma força que o está subjugando. O cliente deve ser sempre encorajado a se ver ou imaginar como ficará caso consiga ver-se livre do problema. Essa terapia se concentra na busca de acontecimentos extraordinários identificados a partir da externalização do problema e que servirão de base para a reedição de novas história que libertam o cliente da dominação do problema. Após esse breve histórico das narrativas e, uma vez definida a psicoterapia como uma área do conhecimento que lida, predominantemente com auto-relatos, convém questionar como as correntes filosóficas que trabalham com as linguagens têm contribuído para a construção das narrativas terapêuticas.