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a. Pour les bâtiments neufs

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A partir do modelo de justiça acima descrito, precisaríamos de um tipo de organização social e cultural que cooperasse com a gradual expansão dos círculos de lealdade, uma sociedade que não tornasse nenhuma instituição mais sólida do que a própria continuidade dos questionamentos sobre novos e melhores meios de se alcançar maior felicidade para o maior número de pessoas incluídas naqueles círculos em expansão. Para tal fim, Rorty trouxe a proposta de um tipo de organização social e cultural que se percebe como em eterno processo de aperfeiçoamento e mantém como bases de sua possibilidade a cultura democrática.

O termo "Utopia Liberal" diz respeito às duas principais características dessa sociedade. O primeiro termo pretende apontar para um projeto inacabado, pois o termo "Utopia" (em seu entendimento como um não lugar) indica que essa sociedade permanecerá

sempre como um projeto inacabado.21 O segundo termo, ―liberal‖, diz respeito à cultura política que nos dá a oportunidade de debater suas instituições, seus fundamentos e mesmo sua utilidade, ao mesmo tempo em que temos liberdade para desenvolver nossos projetos privados. Rorty prefere concordar com Judith Shklar em sua definição de indivíduo liberal como ―Aquele para o qual a pior coisa que podemos fazer é a crueldade‖. (RORTY, 1994b, p.104)22. Nesse sentido, vemos que a prioridade dessa proposta é evitar a crueldade ou, em termos rortyanos, o sofrimento desnecessário. Porém, antes de aceitar essa proposta, somos obrigados a responder a uma questão importante. Não seria ingenuidade ou teimosia de nossa parte continuar a apostar no modelo liberal democrático ocidental depois de apontadas, primeiro pelos herdeiros do pensamento de Marx e hoje mais do que nunca pelos comunitaristas, tantas falhas em sua aplicabilidade?

O modelo democrático é realmente um dos que até hoje mais registraram críticas internas sobre seu funcionamento, inclusive, levantou-se sempre questionamentos acerca da sua capacidade para lidar com algumas diferenças culturais e sua eficácia para resolver problemas como o da fome ou das guerras. Rorty entende que o valor da democracia está justamente nessa abertura para a recepção de críticas e nas consequentes reformas. Em suma, a abertura para redescrições. No sentido que Rorty oferece, a democracia não garante a solução para todos os problemas da humanidade, apenas mantém a porta aberta para que o diálogo sobre tais problemas permaneça em curso e acessível a cada vez mais pessoas. Nesse sentido, uma cultura liberal, de valorização das liberdades e dos direitos individuais, sem o peso de um fundacionalismo, permitiria sempre novas experimentações sociais. Seria arriscado, mas ainda vale dizer que a proposta de Rorty aponta para um cotidiano citadino que parece bastante com aquele vivenciado nas universidades. Cidadãos com interesse focado

21 Etimologia: UTOPIA (lat. Utopia; in. Utopia; fr. Utopie, ai. Utopie; it. Utopia). Thomas More deu esse nome a

uma espécie de romance filosófico (De optimo rei publicae statu deque nova insula Utopia, 1516), no qual relatava as condições de vida numa ilha desconhecida denominada U.: nela teriam sido abolidas a propriedade privada e a intolerância religiosa. Depois disso, esse termo passou a designar não só qualquer tentativa análoga, tanto anterior quanto posterior (como a República de Platão ou a Cidade do Sol de Campanella), mas também qualquer ideal político, social ou religioso de realização difícil ou impossível. (ABBAGNANO, 2007, p. 987)

22 A proposta de Shklar pode ser observada em: SHKLAR, 1984, p. 43-44. Podemos entender que Rorty abraça

tal concepção para evitar ao máximo sentidos restritivos do termo liberalismo, como observamos anteriormente Rorty é um herdeiro de Mill e Schumpeter e seu liberalismo faz referência a uma tradição política do ocidente que paira em torno dos vários conceitos de liberdade individual. Rorty atualiza sua perspectiva acerca da cultura liberal ao abordar o tema da justiça, onde tece elogios as propostas de John Rawls, empreende esforços de complementar tais propostas com a perspectiva de Michael Walzer acerca da moralidade. Ao passo que já obseravamos sua perspectiva acerca da justiça no subtítulo anterior, a sua adesão as propostas de Rawls será abordada no último capítulo.

no desenvolvimento privado de seus objetivos e que, por terem consciência do caráter privado desses objetivos, conseguiriam traduzir seus argumentos em vocabulários distintos daqueles em que são formados, procurando sempre convencer outros mais por meio da persuasão do que pela força. Acrescente-se uma administração central de cunho técnico e um regime democrático de eleições periódicas para tal administração. Nesse tipo de sociedade, os cidadãos teriam abertura para a participação no debate público, desde que fizessem a distinção entre o interesse público e o interesse privado. Embora pareça uma exigência grande, hoje mesmo já podemos perceber no cotidiano como, baseando-se em princípios simples como a conveniência, as pessoas já a praticam ao se adaptar a normas para as quais não contribuíram e com as quais não concordam. O cidadão que consegue realizar essa distinção, de modo a possuir projetos privados que dificilmente poderiam ser compreendidos no ambiente público, mas que são muito bem aceitos no seu círculo privado, é chamado de ironista liberal, adotando a dúvida radical com respeito a seu vocabulário final e, mesmo assim, defendendo a cultura liberal. Uma vez que compreende que o modelo liberal de sociedade é o único em que poderia viver do modo como escolheu viver até agora, ironicamente, esse indivíduo mantém o reconhecimento da contingência do seu vocabulário final, masinclui nesse vocabulário final o modelo liberal de sociedade. Se tal proposta soa ao leitor/a como uma apreensão demasiadamente esperançosa e minimalista da cultura política liberal, então atingimos nosso objetivo.

O caminho até aqui percorrido deve servir como suporte para o próximo momento do texto, onde aprofundaremos o estudo sobre a perspectiva de Rorty quanto à relação entre Filosofia e política. Porém, antes disso, façamos uma breve recapitulação, expondo de modo sintético os passos dados.

Esse capítulo tratou de alguns pontos que são mais relevantes para a continuação do texto. A escolha dos temas, como já foi dito, se deu sob o critério de relevância para se entender o pensamento político de Rorty; nesse aspecto, ironia e Pragmatismo são, em conjunto, os mais relevantes, uma vez que neles estão contidos os caminhos que o próprio Rorty percorreu para sustentar várias de suas afirmações políticas. Inicialmente, abordamos a idéia da ironia, que Rorty trabalha como tendo iniciado com a prática de Hegel de lançar um vocabulário contra outro, num movimento interminável. Conseguimos também trabalhar o tema da verdade, onde pudemos identificar que, para o autor, o valor de verdade é algo concedido pela comunidade, sendo que não há nenhuma outra fonte reconhecida de legitimação de enunciados. Aqui, encontramos a questão do relativismo, onde Rorty afirma

que embora não haja nenhuma autoridade epistemológica para nos garantir que os nazistas estejam errados, nós, democratas liberais, temos uma herança cultural da qual nos orgulhamos, a qual somos leais e para a qual conseguimos justificações sólidas perante nossa própria comunidade, de forma que não aceitamos participar de qualquer outra, principalmente uma que traia os principais ideais da democracia e da cultura liberal. Dessa forma, nossa resposta a movimentos como o nazismo e o sionismo é que eles estão errados perante nossos (dos democratas liberais de orientação progressista) critérios de boa convivência. Encontramos também o Pragmatismo como o modelo de pensar as coisas baseado na experimentação e transformação da prática, pois se certo conteúdo teórico não produz nenhuma diferença na prática, também não deveria produzir na teoria. Mais do que isso, o Pragmatismo, para Rorty, significa uma disposição de espírito voltada para a esperança e para o progresso (esperança de um futuro melhor e progresso sobre os critérios que atualmente compartilhamos). Lidamos, por meio de uma breve introdução, com o modo como Rorty aborda com o tema da justiça, enquanto um sentimento de lealdade ampliada e sua proposta de uma sociedade de cunho liberal baseada na constante busca por um ideal de tolerância e liberdade, sem cristalizar essa esperança ao redor de estruturas sólidas, mas mantendo-a como uma utopia, um não lugar, um horizonte de busca. Tendo atravessado esses pontos, podemos agora passar para um segundo momento onde, dado o relato já realizado, poderemos abordar não apenas o conteúdo das propostas de Rorty, mas também alguns de seus diálogos sobre Filosofia e política.

2 FILOSOFIA E POLÍTICA: AS POSIÇÕES DE RORTY E

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