Justificada a escolha da plataforma online na qual estarão assentados os enunciados (postagens) que contribuíram para a constituição dos discursos dos coletivos, passemos agora a detalhar outras opções de pesquisa, começando pela fase primeira da investigação: acompanhamento da produção discursiva e coleta das postagens nas páginas do Facebook administradas pela Mídia Ninja e pelos Jornalistas Livres. O acompanhamento foi feito de 16 de agosto de 2018 (quando a Justiça Eleitoral autorizou o início da propaganda política, inclusive na internet) a dia 29 de outubro (um dia após a realização do segundo turno). Este lapso temporal foi escolhido antes de se iniciar a campanha eleitoral, pois acreditávamos (o que se confirmou com os acontecimentos políticos e suas repercussões no ambiente digital) que este período seria bastante profícuo quanto à produção de conteúdos e polêmicas na internet e que os grupos estudados nesta pesquisa contribuiriam ativamente com a efervescência comunicativa e com as controvérsias produzidas no processo eleitoral (o que também se confirmou).
Para realizar a coleta de postagens, recorremos ao aplicativo gratuito o Netvizz71, já utilizado e referendado por Recuero (2017) e Poloni e Tamaél (2014). Este programa faz uma espécie de mineração e organização de dados diretamente no Facebook. No entanto, ao proceder com a coleta das informações, percebemos que o Netvizz não estava colhendo todas as postagens feitas pelos coletivos, pois havíamos estabelecido períodos de uma semana para realizar a coleta de postagens via esta ferramenta e começamos a notar que após a segunda semana, o número de postagens decrescia, o que não fazia sentido, pois com o acirramento do processo eleitoral supunha-se que aumentariam as atividades desses coletivos nas suas páginas no Facebook. Ao realizarmos uma pequena investigação para tentar entender o que havia acontecido, descobrimos que devido ao escândalos da utilização indevida de dados de usuários durante as eleições dos Estados Unidos em 2016, por meio da empresa Cambridge
71De acordo com Recuero (2017, p. 42) o Netvizz “funciona via Facebook e para o Facebook. Coleta dados de
grupos e de páginas de busca e permite que sejam exportados. Permite busca de conexões entre as páginas [...]. Seu uso é relativamente simples, mas a coleta de dados pode ser bastante demorada”.
Analytica, o Facebook limitou o acesso de aplicativos externos a dados da plataforma, conforme explicou o próprio desenvolvedor do Netvizz, o professor da Universidade de Amsterdã, Bernhard Rieder (2018),em seu blog.
Na mesma publicação, Rieder (2018) afirmou que não iria mais atualizar o aplicativo por conta desta medida da empresa norte-americana e por questões pessoais, ou seja, o aplicativo continuaria funcionando, mas como uma espécie de zumbi que aos poucos iria perdendo suas funcionalidades (coletar postagens passadas é apenas uma delas). Esta situação prejudicou milhares de pesquisadores independentes que recorriam à ferramenta para coletar dados no citado site de redes sociais. Rieder (2018) inclusive informa que mapeou cerca de 300 artigos acadêmicos que se referiam ao Netvizz como plataforma para buscar e armazenar dados do Facebook.
Refletindo sobre as consequências dessas limitações nas coletas de dados impostas pelo Facebook, Freelon (2018, p. 665) afirma que estamos agora na era pós-API (a API é a interface de coleta de dados do site):
O fechamento da API de páginas eliminou todos acessos ao conteúdo do Facebook conforme acordado em seus Termos de Serviço. Permita-me sublinhar a magnitude dessa mudança: não há atualmente uma maneira para extrair de forma independente o conteúdo do Facebook sem violar seus Termos de Serviço. [...] o Facebook invalidou instantaneamente todos os métodos que dependiam da API de Páginas. […] Nós nos encontramos numa situação na qual o investimento pesado em ensinamento e aprendizado de métodos específicos da plataforma podem se tornar obsoletos do dia para a noite: é isso que quero dizer com “a era pós-API”72 (grifos nossos).
Mesmo com todos esses problemas, conseguimos coletar através do Netvizz 944 postagens dos Jornalistas Livres e 898 postagens da Mídia Ninja. Ao realizar a mineração de dados, o aplicativo gera uma planilha em Excel com o tipo da postagem (se é vídeo, foto, texto escrito, vídeo ao vivo, postagem de hiperlink etc.), a descrição do texto da postagem (mesmo se for uma postagem de material visual ou audiovisual geralmente há um texto ou texto-legenda explicando do que se trata), a data e a hora, a quantidade de envolvimento (reações – curtir, amar, raiva, tristeza -, número de comentários e compartilhamentos) e o link que dá acesso à postagem.
72Tradução nossa para: The closure of the Pages API eliminated all terms of service (TOS)-compliant
access to Facebook content. Let me underscore the magnitude of this shift: there is currently no way to independently extract content from Facebook without violating its TOS. […] Facebook instantly invalidated all methods that depended on the Pages API. We find ourselves in a situation where heavy investment in teaching and learning platform-specific methods can be rendered useless overnight: this is what I mean by “the post-API age.”
Ao perceber esse problema e identificar alguns dias que não foram contemplados na recolha automática do Netvizz, realizamos também uma coleta manual, descendo a barra de rolagem da timeline das páginas e pesquisando nas seções de fotos e vídeos que ficam armazenadas nas páginas do Facebook geridas pelos coletivos. Nesta busca manual, conseguimos coletar 208 postagens dos Jornalistas Livres e 156 da Mídia Ninja.
Ainda não satisfeitos com a quantidade de postagens colhidas, pesquisamos entre diversos colegas acadêmicos73 outro software ou aplicativo que faz busca de dados no Facebook e tomamos conhecimento do CrowdTangle74, uma plataforma que pode ser utilizada em vários sites de redes sociais e que tem várias funcionalidades, a maioria não é gratuita e é indicada para empresas de marketing que querem monitorar a atuação de clientes e concorrentes dos clientes no ambiente online.
Mesmo sendo majoritariamente pago, o CrowdTangle pode ser instalado como uma extensão no navegador de internet Google Chrome. Dessa maneira, ao acessar a página de cada coletivo e ativar a funcionalidade a ferramenta gera um arquivo com as 500 postagens mais recentes que obtiveram maior engajamento por parte dos seguidores da página pesquisada. E da mesma forma que faz o Netvizz, consegue-se gerar uma planilha do Excel com informações sobre as postagens. Desta maneira, juntando todas as ferramentas, conseguimos coletar 1554 postagens da Mídia Ninja e 1652 dos Jornalistas Livres, totalizando 3206 postagens.