DEFINITION DES EPREUVES
ANALYSE D'UN PROJET COEFFICIENT : 2
Um dos aspectos polêmicos evidenciados com o salto de relevância de coletivos midiativistas no contexto digital é se eles constituem agrupamentos jornalísticos ou não. O debate se torna acalorado devido às paixões político-ideológicas que emergem através das ações e publicações dos grupos e, por outro lado, aos próprios meios jornalísticos tradicionais que buscam se reafirmarem como entes capazes de produzir informações relevantes, verdadeiras e devidamente apuradas, numa tentativa de deslegitimação do que é produzido pelos coletivos midiativistas, como explicou Suzina (2019b) (informação verbal)65.
Para Braighi e Câmara (2017), na esteira do que se chama de jornalismo colaborativo, os meios jornalísticos tradicionais incentivam a participação da audiência na produção de conteúdos, mas tentam deslegitimar quando essa mesma audiência (transfigurada em audiência ativa) colabora com mídias alternativas pulverizadas no ambiente digital.
A questão se torna ainda mais polêmica quando, trazendo a discussão para o contexto deste trabalho, a Mídia Ninja e os Jornalistas Livres utilizam em suas nomenclaturas o termo jornalismo e jornalistas, numa clara intenção de colocarem o pé neste campo profissional legitimado socialmente (ALSINA, 2009; TRAQUINA, 2004) - ainda que hoje esta legitimação esteja combalida - como o responsável pela tradução e disseminação dos fatos para o consumo das sociedades. Percebe-se que os coletivos querem absorver o ethos (MAINGUENEAU, 2008) jornalístico e ao mesmo tempo questionar as bases tradicionais da cultura profissional deste campo (AGUIAR; RODRIGUES, 2019; FERNANDES, 2018; RAMALHO; LIMA; MAIA, 2018; RAMALHO; MAIA, 2019; RODRIGUES; BARONI, 2018).
O cerne do debate parece estar na parcialidade assumida pelos grupos, aspecto que é mitológico nos meios de comunicação tradicionais. Enquanto os meios jornalísticos
65 Informação obtida na comunicação apresentada pela citada pesquisadora na 12a Ourmedia
Conference: Mediactivism – Scholactivism, realizada em Bruxelas, Bélgica, em novembro de 2019. Neste tópico (midiativismo e jornalismo), todas as vezes que citarmos a pesquisadora Suzina nos referiremos à sua apresentação no citado evento. Para não ter que repetir essa nota de roda pé várias vezes, designaremos a pesquisadora como Suzina (2019b), pois já citamos um artigo dela do mesmo ano.
comerciais insistem em “vender” ao público que seu trabalho é objetivo, imparcial, mesmo com todas as evidências científicas e empíricas que mostram o contrário (ALSINA, 2009; COSTA, 2009; HERNANDES, 2006), a Mídia Ninja, os Jornalista Livres e outros coletivos midiativistas não escondem as bandeiras que defendem.
A objetividade enquanto [...] “um dos recursos jornalísticos para se tentar ‘apagar’ o modo pelo qual a realidade foi filtrada a partir do sistema de valores do jornal [...]” (HERNANDES, 2006, p. 30) é uma construção da imprensa comercial para que o público acredite que nas partes informativas do produto jornalístico, a notícia consegue ser isenta, ao apresentar os vários lados da história, desconsiderando os enquadramentos, questões organizacionais, subjetividades, repertório de quem escreveu e editou o material etc.
Dentro deste contexto perguntamos, afinal, é possível fazer jornalismo com direcionamento político específico ou melhor, sem ouvir todos os lados da história, como se propõem a Mídia Ninja e os Jornalistas Livres? Sobre este ponto, Costa (2009, p. 166) aponta o seguinte:
O jornalismo não terá e não pode ter – pela extrema rapidez com que é produzido [...] -, condições de ouvir todos os lados e todas as testemunhas com a calma, o rigor e a liturgia de uma investigação científica ou de um processo judicial. O jornalismo será sempre limitado de alguma forma, seja pelo tempo de apuração ou pelo tempo de transmissão [...], seja pelo espaço e pela forma [...]. E por mais que realize um serviço público, jornalismo nunca deixará de ser parte de um negócio inserido de forma inequívoca na indústria da cultura, e por isso quem o exerce, o abriga ou o explora estará de olho na audiência, seja de massa, seja segmentada, para não falar nas receitas e na rentabilidade. [...] Essa indústria [...] foi quem capturou o conceito de objetividade da ciência e moldou critérios e clichês de objetividade, imparcialidade e neutralidade jornalística.
O ponto é que as bases em que o jornalismo tradicional funda sua legitimidade estão corroídas. Com a abertura do polo emissor da informação (RAMONET, 2012), produtores de conteúdo relevantes surgem a todo momento na internet e contribuem fortemente para a construção da realidade social das pessoas (para o bem ou para o mal). Há, inclusive, o fenômeno do news avoidance66 (BENTON, 2019; FILLOUX, 2019), que identifica um estatisticamente relevante número de pessoas que evitam ou desconsideram as informações jornalísticas.
Além disso, deve-se observar a tradição teórico – empírica do jornalismo alternativo, principalmente a partir dos anos 1960 em todo o mundo (ATTON, 2002; DOWNING, 2002; PACHI FILHO; MOLIANI; FIGARO, 2018; PERUZZO, 2009a, 2009b, 2018b), que é
considerado de fato uma ramificação do jornalismo e que historicamente é um jornalismo engajado. Como defende Almeida (2015, p. 11):
As mídias livres [alternativas, midiativistas] (sem pressões institucionais, comerciais, mercadológicas) têm demonstrado a legitimidade dos modelos alternativos de produção e informação, e suas ações têm contribuído para a superação do questionamento acerca da sua natureza jornalística. Desta forma, ampliam ainda mais o seu espectro no debate público a partir dos usos das tecnologias digitais e as potencialidades do ciberespaço para fins de ativismo.
Dentro deste contexto, devemos nos perguntar se não é demasiado limitador não abrir as portas do jornalismo para esses novos grupos midiativistas? Eles não seriam parte de um jornalismo engajado à maneira do jornalismo alternativo? É algo a que, obviamente, não responderemos aqui, pois tal mudança conceitual deve passar por um novo olhar da academia e, principalmente, pela aceitação nas redações dessa perspectiva enquanto alargamento do campo profissional, o que não parece estar perto de acontecer.
Neste cenário, diversos autores denominam os coletivos midiativistas (principalmente os que são objeto do nosso estudo) como grupos que também fazem jornalismo. No que tange à Mídia Ninja, Almeida (2015), Andrade (2018), Bentes (2015), Lorenzotti (2014), Prado (2015), Leal e Martins (2018) associam o grupo a um novo tipo de jornalismo, dentro do contexto de mídia alternativa, do midiativismo e do midialivrismo, reforçando a denominação que o grupo faz de si mesmo.
Rodrigues e Baroni (2018)67, ao realizarem um aprofundado estudo etnográfico e de análise de conteúdo, reafirmam a parcialidade e ação política da Mídia Ninja e a contranarrativa empreendida pelo coletivo frente aos discursos da mídia tradicional. Por outro lado, as autoras alargam o campo jornalístico ao apontar a organização e as publicações dos ninjas como exemplos de um tipo de trabalho periodista, mesmo que este trabalho muitas vezes contribua para o afrouxamento dos códigos deontológicos do jornalismo.
As autoras acompanharam o processo de tomada de decisão sobre o que deve ser coberto e publicado, da mesma maneira que fez Foletto (2017), e identificaram várias instâncias de filtros, com hierarquias estabelecidas nas casas coletivas, o que nos remete aos processos de newsmaking, teoria que procura identificar o processo de produção da notícia jornalística considerando o contexto organizacional, social e político (PENA, 2015; TRAQUINA, 2004), considerando principalmente o gatekeeping, abordagem que tenta
67 Aguiar e Rodrigues (2019) utilizaram os mesmos dados, porém sob a luz da teoria da agenda setting
(MCCOMBS, 2009), para perceber os enquadramentos (framings) dados pela Mídia Ninja às postagens feitas no
Facebook, chegando mais ou menos às mesmas categorias de conteúdo e resultados obtidos por Rodrigues e
explicar como os meios de comunicação tradicionais selecionam o que deve passar pelos “portões” e ser publicado (SHOEMAKER; VOS, 2015).
Dentro deste contexto, Rodrigues e Baroni (2018) explicam que há um centro diretivo que toma as decisões, embora numa relação mais horizontal, sobre o que deve ou não ser coberto e publicado por quem está nas casas coletivas ou por quem está na rua. Isto assemelha-se, ainda conforme as autoras, ao sistema encontrado nas redações jornalísticas tradicionais, quando em muitos casos, quem está em posições de execução de tarefas (como repórteres e produtores), tem uma certa consciência de “até onde pode ir” de acordo com as linhas editoriais das empresas, em um contexto de autonomia relativa dos jornalistas (TRAQUINA, 2004). As autoras chegam a colocar que existe uma espécie de “núcleo duro”, com mais responsabilidade de decisão, porém não conseguiram identificar quem compõe esta casta dentro da organização do FdE e da Mídia Ninja. Obviamente, como falamos de ativismo social, supõe-se que quem está atuando em um grupo dito midiativista identifica-se com o seu alinhamento político, o que muitas vezes não acontece em uma empresa jornalística, já que nesta relação está envolvida a necessidade financeira do profissional empregado.
Com relação ao conteúdo analisado, publicado na fanpage do grupo no Facebook e no site oficial, Rodrigues e Baroni (2018) estabeleceram cinco categorias:
a) Mobilização: o tipo de conteúdo mais evidente, impulsionado pela relação direta com membros de movimentos sociais, a exemplo do Movimento Sem Terra (MST), Movimento dos Trabalhadores Sem Teto (MTST) e de ativistas LGBTs, que circulam livremente pela casa, sendo que “a maior parte dessas postagens combina imagem ou arte visual com textos que, mais do que relatar, destinam-se a seduzir potenciais colaboradores e a engajar leitores/seguidores em torno de agendas e/ou lutas” (p. 603).
b) Desconstrução: a segunda mais constante, na qual as postagens evidenciam a luta contranarrativa diante dos discursos da mídia tradicional. As autoras exemplificam, analisando postagens da Mídia Ninja que desconstruíam o discurso do jornal O Globo com relação às manifestações pró e contra o impeachment da presidenta Dilma Rousseff. Na ótica dos ninjas a ação do grupo Globo favorecia os atos que pediam a deposição da então presidenta. É importante ressaltar que essa desconstrução não acontece ao citar diretamente um meio jornalístico tradicional. As autoras incluem nessa categoria a abordagem, por parte dos ninjas, de assuntos que são contextualizados de maneira mais ou menos homogênea na mídia corporativa, a exemplo da criminalização dos chamados Black Blocs (grupo de pessoas que, com panos cobrindo rostos, tinha atitudes mais violentas e praticava atos de vandalismo
em manifestações). Porém, na visão da Mídia Ninja, os Black Blocs empreendem ações simbólicas necessárias para se chamar atenção para determinada causa.
c) Escracho: as publicações que fazem parte desta categoria, ao contrário das charges dos meios jornalísticos tradicionais, adotam um tom mais direto e irônico. Além disso, há também textos escritos que se encaixam nessa categoria, ou seja, não é apenas algo relacionado a materiais com imagens: “Esta categoria [...] evidencia-se em postagens que casam artes visuais irreverentes e provocativas com textos mordazes, em transmissões de vídeos editados ou coberturas em tempo real com viés de desmoralização”. (RODRIGUES; BARONI, 2018, p. 607)
d) Opinião: relacionada às duas anteriores:
Desmonta pilares deontológicos do campo jornalístico ao expressar opinião também em textos factuais, nos quais não evita o estilo cáustico, que beira o agressivo, e incorpora recursos da linguagem da mídia social à narrativa, como as hashtags – que facilitam a viralização dos conteúdos, e.g., “#GlobodoGolpe” e “#GlobodaMorte”. (RODRIGUES; BARONI, 2018, p. 606)
e) Institucional: categoria que inclui postagens nas quais a Mídia Ninja faz sua autopromoção e procura evidenciar e fortificar sua relação com os seguidores:
Desde seu surgimento, a Mídia Ninja procura vender uma identidade [...]. A representação trabalhada nas redes sociais é de dinamismo, reputação e de alta conectividade e constitui o perfil da categoria autopromoção [...]. Os midiativistas recorrem a fotos, banners, teasers e gifs que embutem mensagens autoenaltecedoras e reforçam a marca Ninja. (RODRIGUES; BARONI, 2018, p. 601)
Já no que diz respeito aos Jornalistas Livres, Fernandes (2018), por exemplo, ressalta, ao problematizar a heterogeneidade do que ela chama de jornalismo alternativo no contexto das TICs, a cobertura em tempo real (e o ativismo) que o grupo fez durante a ocupação de escolas públicas por parte de estudantes no estado de São Paulo, em dezembro de 2015, em um protesto contra a proposta de reestruturação do sistema educacional, no então governo de Geraldo Alckmin, do PSDB, o que levaria ao fechamento de muitas unidades de ensino. A autora observa um caso peculiar que aconteceu com uma das integrantes dos Jornalistas Livres ao tentar participar de uma entrevista coletiva:
O envolvimento do grupo com a causa dos estudantes foi tamanho que em uma das entrevistas coletivas do Governo do Estado [...] sobre o assunto, em 4 de dezembro de 2015, a repórter do Jornalistas Livres foi expulsa sob a alegação de que, na verdade, era uma militante. (FERNANDES, 2018, p. 273)
O estudo de Coutinho e Marinho (2017), sobre a greve geral de 2017, apontou o aspecto unilateral das coberturas feitas pelos Jornalistas Livres. Ou seja, não houve espaço para posicionamentos contrários à greve geral. Um aspecto caro ao jornalismo autointitulado profissional (empresarial) é justamente ouvir “todos os lados da história” (FERNANDES, 2018; TRAQUINA, 2004) - mesmo que saibamos que existem diversas estratégias discursivas para direcionar e enquadrar a informação (COSTA, 2009; GRADIM, 2016; HERNANDES, 2006) – o que nos leva às discussões sobre a ética do jornalismo e se o coletivo se preocupa com estas questões.
Diante do exposto, vale citar o estudo de Oliveira (2016) que aborda justamente a questão da perspectiva do alargamento do que se entende por jornalismo profissional ao comparar o caso da Folha de S. Paulo e a organização dos Jornalistas Livres. No que interessa a esta investigação, a pesquisadora aponta o posicionamento de uma integrante dos Jornalistas Livres, Maria Carolina Trevisan, que defende a denominação do grupo como uma rede que faz “jornalismo profissional”, não um jornalismo militante. Trevisan defende que a não existência de amarras comerciais e a transparência ao assumir posições, “ter lado”, ao contrário do que é percebido nas empresas de jornalismo, que mascaram suas visões em matérias informativas, é justamente o que torna os Jornalistas Livres profissionais e não necessariamente sua organização financeira / administrativa, que é diferente da maneira cristalizada ao longo do século XX nas tradicionais redações hierarquizadas (OLIVEIRA, 2016).
Percebemos assim que os coletivos querem se estabelecer enquanto jornalistas ao enfatizar as diferenças em relação aos meios comerciais, principalmente ao assumirem a parcialidade e se organizarem laboralmente de uma forma estranha ao aspecto ainda industrial encontrado nas redações corporativas, mas utilizando marcadores da prática jornalística (SUZINA, 2019b) tais como reportagens, entrevistas, pautas, matérias etc. no processo de produção de conteúdos (FIGARO, 2018). Lembremos que muitos dos integrantes dos coletivos não têm formação em jornalismo e alguns não possuem nem mesmo nível superior de ensino (AGUIAR; RODRIGUES, 2019; FIGARO, 2018; FOLETTO, 2017). Talvez, ao exaltar essas diferenças se encontre a legitimidade informativa (além do ativismo em si) dos grupos no imaginário social.
Como explica Bentes (2015), os conceitos clássicos do jornalismo (muitos deles citados aqui neste tópico) não dão conta das experiências midiativistas, que não podem ser reduzidas ao campo periodista.
É uma experiência que altera ontologicamente o jornalismo pensado como prática de poder, que se esconde sob o manto do informar, "reportar", reproduzir. Estamos vendo um deslocamento da comunicação para a sua função expressiva e de invenção, nessa conversação de muitos com muitos. Não que essas funções clássicas desapareçam. Mas do que nos serve estarmos "informados", se não temos autonomia ou meios para criar conhecimentos derivados, para fazer da informação potência de transformação dos desejos e das crenças? (BENTES, 2015, p. 13, grifo nosso)
A autora mostra como a subjetividade está explícita nas ações e publicações de grupos midiativistas: “[...] as postagens [...] funcionam muito mais como crônicas, parciais e subjetivas, do que textos informativos. Carregam mundos possíveis dentro de cada enunciado. Cada ‘matéria’ traz uma causa, um afeto, um horizonte de mundos em torno da ‘noticia’”. (BENTES, 2015, p. 16)
Essa subjetividade exposta remete ao aspecto da ideologia, um dos seis fatores que diferenciam a prática midiativista da jornalística, segundo Suzina (2019b). O aspecto a) ideológico diz respeito justamente ao fato de os midiativistas explicitarem suas posições, como já se colocou em linhas anteriores, sem disfarçar falsas imparcialidades. Os outros elementos diferenciais são: b) a referência constante a determinados territórios, sendo as periferias os mais significativos (FIGARO, 2018; SUZINA, 2019b), no sentido de marcar seus lugares de fala de maneira representativa; c) o uso das tecnologias, no contexto das redes e da midiatização, de forma inventiva como aspecto fulcral nas suas ações; d) a busca por formatos que signifiquem maneiras de valorizar as realidades e causas expostas nas publicações, mesmo que muitas vezes haja uma referenciação à práxis jornalística corporativa; e) pertencimento ao que se está publicizando e defendendo, no sentido de dar visibilidade a situações vividas pelos próprios midiativistas ou pelo menos de dar mais espaço às pessoas e grupos cujas demandas são apresentadas; f) e um sentimento de resistência, a partir da ideia de que há a possibilidade de as narrativas serem construídas por pessoas que vivem as realidades retratadas, constituindo uma espécie de jornalismo pobre (realmente evidencia as realidades dos menos favorecidos) e engajado (SUZINA, 2019b).
Neste mesmo caminho, Foletto (2017, p. 201) defende que no caso da Mídia Ninja, o “Jornalismo acontece [através das técnicas utilizadas para obter informações e da relação com o aparato técnico para produzir conteúdo], não é ponto de partida” e que “A Mídia Ninja é muitas coisas, entre elas o jornalismo” (p. 204), explicando que cada situação recebe uma abordagem diferente de quem vai “cobrir” as pautas definidas em reuniões dentro das casas coletivas.
Justamente a gênese e a organização dos coletivos apontam (mais na Mídia Ninja do que nos Jornalistas Livres) “que o jornalismo é mais uma referência (da qual são apropriadas técnicas de coleta e divulgação de informações, como entrevistas e reportagens), do que um norte a ser seguido”. (RAMALHO; MAIA, 2019)
E, numa perspectiva conciliadora, Braighi e Câmara (2017) elencam as diferenças e complementariedades entre o (tele) jornalismo e midiativismo no que tange à cobertura sobre direitos humanos. Os autores não hierarquizam os campos, pelo contrário, mostram que ambos são essenciais (sem descartar o criticismo que é essencial para analisar quaisquer dos modos de produção informativa) para a construção da cidadania.
É que os meios jornalísticos tradicionais continuam a ter forte relevância no contexto digital na construção da agenda pública, mas na atualidade outros atores e grupos têm força semelhante neste processo. Consideramos que é importante sim para a democracia a existência de meios de comunicação corporativos livres e vigorosos (mesmo sabendo que as relações com o poder instituído e grupos econômicos tornam essa liberdade bastante relativa). Porém, é preciso observar também os discursos de outros produtores de conteúdos (a exemplo dos coletivos midiativistas), pois estes apresentam uma diversidade de visões no que tange ao enquadramento dos fatos sociais, reforçando que essa pluralidade contribui para a conscientização, educação e emancipação de um povo.
4.5. Resumo do capítulo
Neste capítulo discutimos os diversos conceitos que explicam a utilização de dispositivos midiáticos diversos para a realização de ativismo social e político. Elencamos algumas práticas cujas tradições teóricas são mais fortes, tais como mídia (radical) alternativa (um termo que abarca a maioria das ações de contestação social por meio da mídia), ciberativismo e net-ativismo (conceitos mais ligados à utilização da internet para realizar diversos tipos de ativismo, no caso do net-ativismo em redes digitais), chegando aos conceitos de mídia livre e midiativismo. Esses dois últimos são os que consideramos para definir a Mídia Ninja e os Jornalistas Livres, que são objetos de observação desta pesquisa. Desta maneira compreendemos por midiativismo, a utilização de dispositivos midiáticos diversos e das demais tecnologias da informação e comunicação, por parte de seres humanos (de forma individual ou coletiva), para realizar ativismo, ou seja, tentar mudar ou manter uma realidade estabelecida. Há de ser realizado o registro midiático (valendo-se de uma gama de possibilidades técnicas e estéticas), numa relação contínua com as ruas (retroalimentação online e offline), para divulgar transgressivamente (em emissões ao vivo ou de maneira
assíncrona em sites e mídias sociais na web), por meio de uma comunicação não hegemônica, causas sociais, políticas e culturais diversas, e mobilizar mais apoiadores para estas lutas, configurando uma maneira de participação política. Além disso, pesa nesse conceito o fenômeno da midiatização, que aponta uma influência do conjunto de mídias nas práticas sociais, e formação das redes digitais que potencializam o alcance do que é publicado pelos coletivos, principalmente nas mídias sociais. Por fim, empreendemos um breve debate sobre as relações (convergências e divergências) entre midiativismo e jornalismo, apontando que os grupos midiativistas utilizam de técnicas de coleta e produção de informação do jornalismo para realizar suas atividades, propondo-se, no entanto, a romper com aspectos caros à deontologia do jornalismo empresarial, principalmente a busca por impossíveis objetividade e imparcialidade. Ressaltamos, por fim, que ambas as práticas são importantes para a disponibilização de uma pluralidade de visões sobre os fatos sociais, contribuindo para uma possível emancipação social.