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4.2 Modèle pour la régression dynamique de lois sensorimotrices

4.3.2 Performances et limitations

ausência de produções teatrais, de engajamento na luta contra a censura, contra o regime militar e, até mesmo, na realização de eventos no Teatro Ruth Escobar.

Naquele ano, o Brasil se encontrava desestabilizado economicamente, a crise do petróleo e a recessão mundial afetaram diretamente o país, provocando altos índices de rejeição ao governo do general Ernesto Geisel (1974-1979). Para combater a insatisfação popular, o governo criou o Programa Nacional do Álcool (Proálcool), com o objetivo de incentivar a produção e substituir a gasolina, proporcionando à população, redução do custo de vida. No âmbito cultural, a estreia da peça Gota d'Água, de Chico Buarque de Holanda e Paulo Pontes, no Rio de Janeiro e, no cinema, O Amuleto de Ogum, de Nélson Pereira dos Santos, tornaram- se importantes produções culturais. Quanto aos acontecimentos internacionais, a independência da Angola de Portugal foi o destaque do ano.

Para Ruth Escobar, o ano de 1975 representou um momento de reflexão de sua vida e de sua carreira. Ela declarou que:

[...] entrei numa crise violenta e fui parar no hospital. De repente, perdi o estimulo da minha paixão, entrei num estado de tédio porque via as pessoas a minha volta sem conseguir reagir a nada. Eu mesma me sentia impotente. E se há uma coisa que eu não suporto é a impotência. O que me tirou da cama foi a morte de Vladimir [em 25 de outubro de 1975]. A raiva, que é uma forma de paixão e de amor, foi que me levantou476.

O assassinato pelo regime do jornalista Vladimir Herzog tirou Ruth Escobar daquele estado de impotência, dando lugar à antiga combatente do regime; Ruth declarou durante o enterro de Herzog:477 “Até quando nós vamos continuar enterrando os nossos mortos em silêncio?”478. Essa frase ficou marcada em muitas pessoas presentes no sepultamento e, a partir desse acontecimento, a produtora decidiu retomar o enfrentamento à ditadura militar, à censura, canalizando suas energias para organizar o Festival Internacional de Teatro de 1976, decidindo- se, também, pela militância em prol da anistia e do feminismo.

Apesar de sua ausência, seu teatro continuou ocupado com uma programação intensa de apresentações teatrais e musicais durante todo o ano de 1975. E foi nesse ano que a advogada Terezinha Zerbini iniciou a sua luta pela Anistia, com a organização do Movimento Feminino pela Anistia (MFPA), tendo como lema: Anistia Ampla, Geral e Irrestrita, por todos aqueles que haviam sofrido sanções do governo. Mais tarde, Ruth Escobar se engajou nessa frente de luta, tornando-se uma legítima representante da causa.

Aos poucos, Ruth Escobar retomou suas atividades junto à classe artística. No início de 1976, sua primeira ação foi, novamente, contra o silêncio que a censura impunha às companhias de teatro. Ela liderou uma pequena comitiva com Raul Cortez, Elis Regina, César Camargo Mariano e Jairo de Andrade contra o veto da peça Mockinpott, de Peter Weiss, produzida pelo

476 ESCOBAR, Entrevista concedida a Oswaldo Mendes, Folha de São Paulo, 02 ago. 1981. p. 45.

477 Sob a suspeita de ter ligação com o Partido Comunista Brasileiro (PCB), Wladimir Herzog (1937-1975) foi

convocado por agentes do exército para prestar esclarecimentos no Destacamento de Operações de Informações/ Centro de Operações de Defesa Interna (DOI/CODI). No dia seguinte, seu corpo foi encontrado enforcado com um cinto. Na época existiu a versão de suicido, mas as testemunhas Jorge Benigno Jathay Duque Estrada e Leandro Konder afirmam que Herzog foi torturado até a morte. Hoje o Estado já reconheceu que Wladimir Herzog foi assassinado no DOI/CODI.

478 ESCOBAR, Ruth. Brasileiros e Brasileiras: biografias para a TV: Em nome do pai, da coragem e da coragem: Ruth Escobar. Depoimento.

Grupo de Teatro de Arena de Porto Alegre. A indignação da classe artística estava centrada no fato de que o espetáculo tinha sido liberado pela censura até 1980. Além disso, o grupo havia realizado temporadas de circulação nas cidades de Salvador, Belo Horizonte, Curitiba, Porto Alegre, Rio de Janeiro e, inclusive, em Brasília; quando iam se apresentar em São Paulo, o espetáculo foi proibido. A censura alegava ter recebido cartas que manifestavam posição contrária à liberação da censura. Outros motivos também impulsionaram a reivindicação da suspensão da proibição do espetáculo Mockinpoint: o recebimento do prêmio de melhor espetáculo pela Associação Carioca dos Críticos Teatrais e a subvenção do Ministério da Educação (órgão do governo federal), que possibilitava a produção de circular pelo país. No dia seguinte, em 10 de fevereiro de 1976, a Folha de São Paulo informou que após o pedido da comitiva de revisão do processo, o diretor da censura Rogério Nunes e o diretor geral do Departamento de Polícia Federal (DPF), o coronel Moacyr Coelho, comunicaram a liberação da peça.

Além de realizar o II Festival Internacional de Teatro em 1976479, a produtora também criou o 1º Ciclo de Debates - Panorama da Cultura Brasileira480 de 04 de outubro a 13 de dezembro de 1976. Cada debate possuía um tema central relacionado ao contexto brasileiro, isto é, esses encontros proporcionavam aos artistas, intelectuais, profissionais e à sociedade paulistana, a discussão da situação das diferentes áreas de atuação.

Programado para iniciar suas atividades em 27 de setembro, Ruth Escobar foi informada horas antes, por um telefonema, que o ciclo de debates fora proibido pela censura, como noticiou a Folha de São Paulo em 29 de setembro: “na manhã de domingo Ruth Escobar recebeu um telefonema do coronel Felix, da Polícia Federal de São Paulo, ‘dizendo que o coronel Coelho, diretor da Polícia Federal, em Brasília, havia recebido instruções do ministro da Justiça, Armando Falcão, para suspender o debate”. Como forma de resposta, a empresária comunicou à imprensa e enviou um documento assinado também por Ruy Mesquita, Fernando Lemos, Perseu Abramo, Audálio Dantas, Paulo Duarte e Fernando Henrique Cardoso, solicitando a anulação da proibição do evento. No dia seguinte, noticiava-se a liberação e a readequação de datas do Ciclo de Debates. Na abertura do evento, Ruth Escobar aproveitou a ocasião para pronunciar: “Está tudo proibido, menos cruzar os braços”481.

Dentre os debates que mais provocaram discussões, esteve o que contou com a participação dos escritores Antônio Callado e Nélida Piñon e dos críticos Leo Gilson Ribeiro e Antonio Houassis, para refletir sobre o tema Literatura Brasileira Hoje: Possibilidades e Obstáculos. A imprensa também noticiou que o “debate, só terminou quase ao amanhecer”. Outro debate acalorado contou com a presença de Ruy Mesquita, diretor do Jornal da Tarde, que participou do tema Imprensa Hoje. Com a participação de cerca de duas mil pessoas, os participantes indagaram-no, principalmente, sobre a censura e a imprensa. Esses dois encontros dão a dimensão da quantidade de pessoas que prestigiaram a programação, assim como

479 Segundo nota publicada pelo jornalista Zózimo Barrozo do Amaral, em julho de 1976, Ruth Escobar aguardava

liberação da censura para montar o musical Lírio Negro escrito pelo dramaturgo Antônio Pedro e composição musical de John Neshing. AMARAL, Jornal do Brasil, 26 jul. 1976, p.3. No entanto, no decorrer da pesquisa, não foi encontrado mais informações acerca dessa produção.

480 O Ciclo de Debates teve a seguinte programação: Literatura Brasileira Hoje: Possibilidades e Obstáculos (04

out.), Imprensa Hoje (11 out.), Indústria Cultural (18 out.), Esporte e Cultura (25 out.), Consumidor e Propaganda (08 nov.), Humor e Quadrinhos Brasileiros (16 nov.), Teatro: seus Problemas e Perspectivas (22 nov.), Política Cultural (29 nov.), TV: Cultura e Controle (30 nov.); Cinema: Produção Nacional num Mercado Ocupado (06 dez.), Artes Plásticas: uma Situação de Dependência (13 dez.). DEBATES, Folha de São Paulo, 24 set. 1976, p. 27.

possibilitou a constatação de que havia necessidade de debater assuntos que sufocavam a sociedade brasileira.

Ao promover uma sistemática de discussões sobre a cultura brasileira, Ruth Escobar colaborou com o enriquecimento das reflexões sobre os problemas nos diversos segmentos culturais. Aliás, o Teatro Ruth Escobar se tornava um dos poucos lugares em São Paulo em que havia debates com assuntos condizentes ao contexto brasileiro.

Também em sintonia com o que acontecia no teatro mundial, a empresária trouxe à capital paulista o encenador chileno Enrique Buenaventura para ministrar um curso sobre criação coletiva. Buenaventura fundou o Teatro Experimental de Cali, em 1955, e o Taller de Teatro em 1975. Conhecido por produzir um teatro popular, de criação coletiva, focado na crítica social e embasado em Bertolt Brecht, o diretor detinha uma linha de pensamento alinhada às propostas que Ruth Escobar fez ao longo dos anos como produtora. É possível dizer, ainda, que a vinda de Buenaventura foi a forma de a empresária fomentar, ainda mais, a produção de espetáculos que tivessem como princípio colocar em cena os problemas sociais, pelos quais o país passava naquele momento e estreitar os laços com a América Latina também.

Para mostrar força e tentar diminuir os seus impulsos contestatórios, com frequência, Ruth Escobar se deparava com a presença de policiais em seu Teatro ou recebia “convites” para marcar presença às delegacias. Em 07 de dezembro de 1977, Ruth Escobar foi interrogada durante três horas e meia pelo delegado João Batista Xavier no DPF, em virtude de um inquérito aberto a pedido do governador Paulo Egídio Martins, de São Paulo, ao Ministro da Justiça Amando Falcão. Ele alegava o envolvimento de Ruth com o movimento estudantil, ocorrido em 15 de junho de 1977 na Rua 25 de março, quando ela foi detida juntamente com mais nove artistas. Sobre esse fato ela respondeu que: “ir a manifestação dos estudantes não fora uma decisão pessoal dela, mas uma atitude da categoria, decidida em assembleia”482. Na ocasião também foi interrogada sobre o fato de alguns estudantes estarem realizando panfletagem em frente ao seu Teatro. Ela respondeu: “eu não poderia saber o que se passa na rua e, além disso, [alugo] dois de [meus] teatros ao governo do Estado, que cede as salas a algumas companhias teatrais”483. Ainda, segundo a nota publicada, Ruth Escobar foi induzida a dizer, após a leitura de diversos documentos, quais deles haviam sido lidos em seu teatro. Ao final do depoimento, a empresária declarou à imprensa que foi tratada “com cortesia e polidez” pelos policiais da DPF.

Ruth Escobar, cada vez mais, ganhava projeção no Brasil. De 08 a 13 de agosto de 1978,484 ela participou do II Encontro Estadual de Teatro, promovido pela Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul e como não poderia deixar de ser, a sua presença foi alvo de vigilância do DOPS. Segundo o relatório desse órgão: “a epigrafada teceu severas críticas ao sistema capitalista, ao Governo Brasileiro, à Polícia Federal e ao Ministro da Justiça, a liberação de verbas, â regulamentação da profissão de ator. A censura, o Decreto Presidencial485

482 RUTH, Folha de São Paulo, 07 dez. 1977, p. 8. 483 RUTH, Folha de São Paulo, 07 dez. 1977, p. 8.

484 Ainda no ano de 1978, conforme informe n. 0262 produzido pelo CISA (RJ) em 04 out. 1978 DOI/II EX no

processo 50-D-26-5860: “Segundo informe recebido do Consulado Geral do Brasil no Porto, a imprensa portuense dos dias 07 e 08/set/78, teria divulgado a libertação, seguida de expulsão, de Antônio de Sá Leal, Secretário-Geral do Partido Revolucionário dos Trabalhadores, de ideologia trotskista. O noticiário transcreve declarações do detido, no sentido de não haver sofrido qualquer coação por porta da Polícia Brasileira, que lhe teria prestado “um tratamento correto, respeitoso e amável”. Engloba também gratas referências à Embaixadas de Portugal no Brasil, ao Consulado Geral em São Paulo e à atriz Ruth Escobar, pelo trabalho que tiveram em favor de sua libertação.

485 Ruth refere-se ao Art 1º - São de interesse da segurança nacional, dentre as atividades essenciais em que a greve

é proibida pela Constituição, as relativas a serviços de água e esgoto, energia elétrica, petróleo, gás e outros combustíveis, bancos, transportes, comunicações, carga e descarga, hospitais, ambulatórios, maternidades,

recentemente baixado, versando proibição de greve nos serviços públicos, foram os tópicos abordados e duramente critacados (sic) nas duas oportunidades”486. Ruth Escobar aproveitou a oportunidade para criticar assuntos relativos ao Governo Federal, que vinha adotando medidas de austeridade social, as quais refletiam em todos os segmentos da sociedade civil. Nesse período, o estado do Rio Grande do Sul era governado por Sinval Guazzeli, do partido ARENA, que apoiava a ditadura militar no Brasil. Contudo, a Assembleia Legislativa do RS tinha, em sua maioria, deputados estaduais do MDB, partido de oposição. Foi nessa conjuntura política do estado gaúcho que Ruth Escobar, novamente, disse palavras contra o sistema político vigente no país. Em entrevista ao jornal Correio do Povo, Ruth Escobar falou a respeito da censura:

O que ocorre não é um menor impedimento do teatro, nós é que estamos caminhando, avançando, chegando aos momentos de confronto: “Gota d´Água”, “O Último Carro”, a liberação destas peças foi um avanço à frente. O Seminário de Dramaturgia que fizemos, durante três meses, 13 peças proibidas, apenas das notas que recebemos da Censura, foi um passo a frente, simplesmente porque a legislação não previa esta reação e podemos então vive-la, cria-la. Não sei se fui a primeira pessoa a fazer tudo isso, mas a forma ostensiva pela qual fizemos, com ampla cobertura da imprensa, foi algo fundamental. E quanto mais avançarmos, uma coisa tem que ficar claro: vai haver rachas e temos que estar conscientes e preparados para enfrenta-las487.

Caso Ruth não tenha sido a primeira mulher a estar à frente do combate à censura, certamente sua colaboração foi fundamental nessa luta. Seus embates ao longo de sua trajetória incentivaram artistas de outras áreas artísticas, angariando mais adeptos para, juntos, lutarem em prol de uma arte liberta das amarras da censura. Na ocasião, além da censura, Ruth comentou a respeito de outro tema que envolvia a classe teatral. Ela abordou sobre a regulamentação488 do trabalho de ator:

Esta lei está na mesa deles desde o Governo Castelo Branco, e é o mesmo projeto que nós recusamos, anos atrás. Agora houve uma dormida dos sindicatos. O que acho ruim é que tudo foi feito sem consultas amplas aos profissionais e na base dos conchavos. Por que não encaminhar a lei através dos legítimos representantes do Povo, que são os senadores e deputados? Por que o Ministro do Trabalho?

[...]

Ela [a lei] será extremamente perigosa e propiciará uma censura maior sobre o ator. Foi muita ingenuidade acharem que o Governo ajudaria àquela classe que justamente, no decorrer de todo o processo político nacional, tem sido de maior oposição ao que está ai. Inclusive há um artigo, o 24, que diz que a criação do ator é livre, desde que obedeça ao texto. O que é isso? Nós somos mais livres sem a regulamentação489.

Ainda que as palavras proferidas por Ruth Escobar não tenham se tornado realidade, o fato é que ela, naquele momento, estava defendendo os atores de futuros cerceamentos que poderiam ser ainda mais radicais. Ela tinha muito claro que a relação entre as diversões públicas, nesse caso o teatro e a ditadura militar era motivo de atritos acirrados.

Essa Lei, dizia Ruth Escobar, era uma forma de impor limites nas diversões públicas no país. Ela chamou atenção para o artigo vinte e quatro: “É livre a criação interpretativa do Artista

farmácias e drogarias, bem assim as de indústrias definidas por decreto do Presidente da República. Ver BRASIL, 1978a.

486 Processo BR.AN.RIO.TT.0.MCP.PRO.1470. AN. Neste mesmo processo encontra-se na íntegra o

pronunciamento de Ruth Escobar.

487ESCOBAR, Entrevista concedida a Antonio Hohlfeldt. Correio do Povo, 09. set. 1978. 488 BRASIL,1978.

e do Técnico em Espetáculos de Diversões, respeitado o texto da obra”490. Visto que as obras dramatúrgicas sofriam processo de censura, a lei promulgada reforçava o ato censório das obras dramatúrgicas. Na visão de Ruth Escobar, esse artigo colocava o trabalho interpretativo do ator refém do texto, isto é, os atores não poderiam ser inseridos cacos? ou improvisações no texto após a análise do mesmo pelos técnicos da censura, ficando os atores sujeitos a punições e sanções que poderiam vir em decorrência do não cumprimento da obra teatral censurada. A respeito desse artigo, a produtora faz uma afirmação contundente: “vai chegar a um ponto em que vão caçar o ator e impedi-lo de trabalhar, mais nada491”.

Seu posicionamento a respeito dos órgãos governamentais que geriam a censura no Brasil era tema recorrente de Ruth Escobar, seja em suas entrevistas, espetáculos e até mesmo em pronunciamentos que fazia, abertos ao público. No II Encontro Estadual de Teatro em Porto Alegre, Ruth Escobar, novamente, mostrou seu descontentamento com a produção teatral brasileira e afirmou aos presentes que era necessário um teatro de resistência contra aqueles que detinham o poder de manipulação. Segundo o relatório do DOPS, Ruth teria pronunciado no evento:

[...] que pode nascer um novo teatro “não para entreter”, mas para inquietar, que satirize os exploradores, que mostre ou insinue uma solução, que expresse o que o povo sente e, ainda que, “o grande” poder hoje em dia são os meios de comunicações, jornais, rádio, televisão, com os quais você hoje faz “revoluções sem armas”. Afirma que “a tarefa do teatro hoje é de resistência” e “que devemos estar preparados para a mudança que fatalmente chegará”. Que todos os atos de rebeldia devem ser feitos de forma ostensiva com ampla cobertura da imprensa.

[...]

A nominada, que fez uma rápida palestra, denunciou uma série de problemas que cotidianamente enfrenta o teatro ou, mais especificamente, enfrentam os artistas em geral, citando, como principais deles, a censura que com sua "ação castradora" engavetou mais de 500 (quinhentas) peças teatrais, além da falta de auxílios governamentais para levar o teatro ao povo a preços populares, a falta de casas de espetáculos e pouco incentivo para o surgimento de outras e o cerceamento da liberdade de expressão492.

O autor do relatório procurou transcrever a fala na íntegra, mas não analisou e nem julgou o que dizia Ruth Escobar. Ele transcreveu seu pronunciamento para os seus superiores. A eles era cabido julgar e elaborar ações contra essa “subversiva”. O discurso de Ruth deveria soar estranho ao policial, pois ela combatia o governo, taxando-o de opressivo e ditatorial. Mas, ao mesmo tempo, ela reivindicava apoio ao teatro desse mesmo governo que a censurava. A respeito desse assunto, ela disse que:

Minha posição sempre foi clara nesta questão. Eu nunca tive pudor de pedir verbas ao governo, porque o governo é apenas administrador de dinheiro público que é nosso. É claro que eles do governo não pensam assim. Sempre tratei de concorrer as suplementações de verbas, porque é direito que tenho como companhia organizada. Mas já me disseram que a Polícia Federal andou distribuindo circular interna proibindo liberação de verbas para mim no âmbito municipal, estadual e federal493.

Ruth Escobar, por lidar em diferentes esferas do poder, estar envolvida em movimentos reivindicatórios como o da Anistia, bem como atuar como artista de teatro seja como produtora,

490 ESCOBAR, Entrevista concedida a Antonio Hohlfeldt. Correio do Povo, 09. set. 1978. 491 ESCOBAR, Entrevista concedida a Antonio Hohlfeldt. Correio do Povo, 09. set. 1978. 492 Processo BR.AN.RIO.TT.0.MCP.PRO.1470. AN.

atriz ou empresária, conseguia ter uma visão mais clara das ações que envolviam a classe artística e o governo. Na declaração acima, ela deixa claro que solicitar verbas ao governo não significava estar de acordo com sua ideologia ou ações repressivas. Argumentava, então, com muita lucidez que era dinheiro público e que não podia ser repassado apenas aos “amigos” do sistema. Mas, também conseguiu perceber que o governo podava os anseios da classe e da população em geral, em decorrência da gestação do dinheiro público, isto é, os recursos financeiros eram uma das formas que o governo tinha para controlar a produção teatral.

Composto por reportagens jornalísticas e relatórios de agentes do DOPS, o processo494 foi encaminhado ao Ministério da Justiça. Após serem analisadas as informações, o assessor do gabinete José Carlos Silva de Meira Matos concluiu que “não há nela [em Ruth Escobar] [algo] que possa motivar uma manifestação do Ministério uma vez que as reclamações sobre a Censura Federal foram as de sempre, não havendo nenhuma ofensa a qualquer autoridade mas apenas críticas teóricas. Somos assim pelo arquivamento”495.

A conclusão do assessor José Carlos Silva de Meira Matos é interessante. Ele observou que os vigilantes não levantaram nada de novo sobre a pessoa e as ações de Ruth Escobar. As falas dela no evento no Rio Grande do Sul eram reproduções de antigos discursos, realizados por ela em diferentes locais do país. Mas, o relevante é percebermos a rede de controle estabelecida pelo regime. Eles conseguiam estar presentes em diferentes momentos e locais,